No divã de Aristóteles

“É impossível que um corpo exista sem contrariedade sensível”, disse Aristóteles em “sobre a Geração e a Corrupção”. Entretanto, na presença de um prazer, o seu oposto é sentido minimamente, a ponto de se tornar invisível, enquanto que diante de um desconforto, o seu oposto, seja a paz ou o prazer, avizinha-se afirmando insuportavelmente sua ausência. Nesse momento o filósofo grego diz que “investigaremos mais facilmente os casos particulares quando tivermos, em primeiro lugar, tomado uma perspectiva universal”.

Logo, o universal é mais facilmente percebido a partir do desconforto, visto que aí tanto a tristeza e o seu oposto lutam em arena aberta. Já nos estados de satisfação, somente aquilo que os causam desfilam sublimes aos nossos sentidos. Pode-se deduzir, por conseguinte, que a felicidade é, de certa forma, a ignorância do seu contrário, enquanto a infelicidade é a presença insuportável dos opostos. “Pela reta, conhecemo-la a si mesma e à curva, pois a régua é juiz para ambas, já a curva não é juiz nem para si mesma, nem para a reta”, diz o grego; Portanto, a tristeza é o caminho retilíneo a partir do qual se aprecia tanto a monotonia dolorosa do percurso quanto o movimento promissor da paisagem; e a curva, a felicidade, que não é medida para nada além de si mesma.

Em “Sobre a Alma”, Aristóteles afirma que “o movimento é a atividade do que não alcançou o seu fim”. Então, passar a um estado negativo é provar o lado irrealizável do estágio positivo que o antecedeu. Entretanto, “é necessário que se dê o antecedente para que o consequente ocorra”, diz o filósofo. Porém, a infelicidade é demasiada angusta porque esconde seu propósito ao apontar cruelmente para o que ela não é, ou seja, para um antes ou para um depois dela. O ‘antes’ nos é dado, porém perdido; já o ‘depois’, apesar de desejado, é improvável. Nesse vazio o mestre grego pergunta: “se, por exemplo, para existir uma casa é necessário haver fundações, será também necessário que, uma vez feitas as fundações, a casa venha a existir?” É a impossibilidade de dar essa resposta que preenche a tristeza.

“Convém, com efeito, distinguir em que se transforma aquilo que muda”, adverte o filósofo, pois, segundo ele, a “geração é corrupção do não-ser e a corrupção é geração do não-ser”. Logo, a tristeza é apenas a percepção da felicidade deixando de ser, ao passo que a vida da tristeza é propriamente destruir a felicidade insustentável. Por mais indesejado que seja esse movimento, ele é necessário, pois “o que existe, por necessidade é. O que é necessário não pode não ser”, explica Aristóteles, tal como “a água e o ar, por exemplo, geram-se circularmente, pois se houver nuvens, deverá chover, e se chover, deverá haver nuvens, ao passo que os homens não regressam sobre si próprios”, eles evoluem justamente através dos ciclos de geração e corrupção dos seus estados, sejam os felizes sejam os tristes.

Difícil mesmo é deixar de predicar a felicidade como boa, e mais ainda a tristeza como má, porquanto o bem e o mal, “o verdadeiro e o falso, são uma combinação de pensados”, aponta Aristóteles; e pensar, isto é, ter uma opinião sobre as mudanças de estado, para o grego, “implica ter sido persuadido, e a persuasão implica a palavra”, ou seja, uma imagem humanamente distanciada do real. No entanto, “as sensações são sempre verdadeiras, enquanto as imagens são maioritariamente falsas”, completa o pensador; pois, para ele, “as imagens são como sensações, só que sem matéria”. Portanto, é a razão que, trabalhando sobre a massa de sensações que se lhe apresenta, artesanalmente apropria ou não tudo que é sentido de acordo com fins próprios, em geral, em função da felicidade que lhe serve.

A razão age livremente porque “o sentido é aquilo que é capaz de receber as formas sensíveis sem a matéria”, afirma Aristóteles, e o lado racional do animal que somos converte todos as sensações em distâncias relativas à felicidade. Por isso a tristeza parece não se justificar nem se apropriar à vida, e sem espaço para ser devidamente fruída apenas figura como o intervalo improdutivo e insuportável entre os momentos felizes impostos pela razão. O filósofo grego afirma que “não é o desejo o determinante deste movimento; é que os homens que não sofrem de imoderação [os racionais], embora sintam desejos e apetites, não fazem aquilo de que possuem desejo, eles obedecem, antes, ao entendimento”, ou seja, à razão, e para esta só o prazer tem lugar ao sol.

Dessa forma, o desconforto e a tristeza aparecem sempre alienados dos nossos desejos, isto é, apresentam-se alienígenas, a serem exterminados, e não enquanto movimentos próprios e indispensáveis ao equilíbrio humano. Entretanto, a tristeza é tão necessária quanto a felicidade, pois na grande tela figura-e-fundo, ambas se revelam justamente no contraste entre uma e outra. “Quanto ao desejo, todo ele existe, também, em vista de alguma coisa”, aponta Aristóteles; portanto, alguma coisa qualquer, inclusive a tristeza, só pode ser fruto do desejo, e isso é precisamente o que a razão insiste em esconder.  O filósofo conclui que “existem, então, três coisas: uma, o que move; a segunda, aquilo com que move; e ainda uma terceira, o que é movido”. Concluímos aqui que o que move é o desejo; aquilo com que move são as sensações; e o que é movido é a razão. Logo, por ser a única movida, é a razão que deseja voltar ao repouso, à felicidade, ou seja, ao ponto de ignorância do seu contrário, isto é, ao esquecimento da tristeza.

 

 

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Politicar é preciso, viver não é preciso.

Parafraseando Pessoa e o general romano Pompeu, que segundo Plutarco foi o autor da famosa sentença, deve-se atentar para o sentido essencial da palavra “preciso” nesse contexto. O ‘preciso’, que na mesma frase qualifica o ‘navegar’ em detrimento do ‘viver’, refere-se muito mais à precisão, à assertividade da ação, que à necessidade de ambas, pois mais importante que navegar, é navegar precisamente, ou do contrário é melhor nem zarpar. Já o viver, este sim, a despeito de nossas tentativas, insiste em ser errante, e de forma alguma é preciso, sem com isso deixar de ser necessário.

Precisão e necessidade podem coincidir circunstancialmente, contudo, não estão necessariamente condicionadas. Portanto, ao dizer que ‘politicar é preciso’, a ideia é a de que a exatidão dessa ação é mais fundamental, que simplesmente fazê-la de qualquer forma simplesmente por ser-nos solicitada. As mazelas sociais e econômicas do nosso país, de certa forma, atestam a inversão improdutiva do sentido da palavra ‘preciso’ que tão bem fez à navegação histórica, mas que erra nos nossos mares políticos atuais. Justamente por que viver não é preciso, não obstante extremamente necessário, é que precisamos de alguma precisão assertiva nas nossas atuações políticas.

Diante da crise de representatividade deflagrada desde o junho de 2013, e dos desestimulantes candidatos desse momento pré-eleitoral de 2014, é muito preocupante a massiva intenção de votos em branco nas próximas eleições. O que é necessário fazer? É o que é correto? O que é, pergunta-nos Platão, o bem? Até que ponto não votar em candidato algum é assertivo? Claro, seria bem mais confortável um dilema no qual a indecisão se desse pela oferta de muitas boas opções, ou se estivéssemos utopicamente apaixonados por uma delas. Entretanto, no momento, isso é tão impossível quanto platônico.

Hoje, contudo, fazer política assertivamente na escolha dos próximos governantes é escolher o menos pior dentre eles, infelizmente. Mas essa é a escolha da hora! Votar em branco é fugir do palco político, em cena aberta, e na hora exata do ‘bife’ cidadão. A situação de quem opta por não usar positivamente o seu voto parece ser a de quem está com os pés atolados na caótica realidade, porém, com as expectativas flanando no éter ideal. As ideias são necessárias, não resta dúvida, entretanto, a realidade é cruelmente precisa, ela não nos erra, envolvendo-nos inalienavelmente e cobrando o preço de nossas ações; e anular uma ação ainda assim é agir, só que ao modo de não fazê-lo.

Se viver fosse realmente preciso, ou seja, livre de erros, poderíamos dispensar a assertividade política. No entanto, a vida é justamente o oposto, isto é, o lugar dos erros, onde tudo é preciso no sentido de ser necessário, e aonde sofremos a nossa falta de precisão. Somente politicando corretamente podemos reduzir a margem de erro da imprecisa vida. Todavia, resta a dúvida sobre em que se acerta, através de um voto em branco, através dessa escolha que não escolhe uma das opções determinadas. Por ventura uma revolução positiva não se dá melhor metendo as mãos na massa ingrata, e sujando-as corajosamente, do que cruzando os braços?

Em certo sentido, dispensar o voto é agir como a criança mimada que recusa o substancial feijão pelo tempero picante da cebola. Abocanhar uma cebola é difícil, sem dúvida, e inclusive indigesto; entretanto, quando harmonizada com prato principal, funciona sublimemente. Da mesma forma, os candidatos às eleições atuais podem, individualmente, não agradar ao nosso paladar, porém, recusando terminantemente as cebolas que eles são, que gosto insosso terá essa feijoada? Perverter o voto, e votar em ninguém, é, portanto, deixar de politicar na hora em que isso é mais necessário, no momento da dificuldade extrema, logo, quando precisamos ser precisos; quando precisão e necessidade circunstancialmente coincidem. Votar é preciso! Acertar, ainda que no menos perfeito, extremamente necessário.

O nó górdio do ser

A questão mais cara à filosofia, e também a mais antiga, ou seja, o que é o ser, é de uma complexidade górdia, isto é, só pode ser resolvida através de um erro. O domínio da Ásia Menor esteve, durante quinhentos anos, profeticamente condicionado a quem conseguisse desatar o mais famoso dos nós, de mesmo nome do seu inventor, Górdio. Em 334 a.C., Alexandre, o Grande, no insucesso em desfazê-lo corretamente, cortou-o com sua espada, tornando-se, assim, o senhor daquela região. Todavia, permaneceu a dúvida: o nó de Górdio poderia ter sido desfeito digna e corajosamente ou cortá-lo, covarde e apressadamente, como fez Alexandre, foi sua resolução ao modo de não resolvê-lo?

Digamos que a ancestral investigação filosófica acerca do ser pode ser comparada à empreitada que o nó mitológico coloca a quem tenta desvendá-lo, porquanto o ser só se apresenta, em sua totalidade, através de um engano temporário, quando momentaneamente colocamos uma confortável mentira em seu lugar. A grande intuição de Aristóteles foi entender o ser enquanto uma pluralidade de sentidos, e nas suas palavras, “o ser se diz em muitos sentidos”. Porém, o grande passo do filósofo não foi capaz de legar a chave mestra do ser à posteridade, visto que as mentes filosóficas seguiram nessa investigação.

Talvez Aristóteles tenha subestimado o ser por supô-lo em muitos sentidos e não em todos eles. Muitos sentidos podem ser encontrados, entretanto, não todos. Pode-se segurar muitos grãos de areia nas mãos, mas não todos eles! A psicanálise afirma que o real é aquilo que sempre nos escapa, e com o pouco que conseguimos pegar dele constituímos nossas realidades. Da mesma forma o ser, todo ele, sempre nos escapa, e nos damos por satisfeitos com o punhado dele que resta em nossas mãos. Entretanto, importante é saber que o ser é maior, na medida do inapreensível.

Quando me pergunto o que é este computador aonde escrevo, por exemplo, ou seja, qual é o seu ser, dizendo que ele é uma ferramenta que permite ao homem fazer muitas coisas, poderia, à maneira de Alexandre, dar por resolvida a questão. No entanto, qualquer segundo pensamento acerca do ser (deste computador) revela outros sentidos, outros modos dele ser; e tantos serão os sentidos do seu ser quantos forem os pensamentos sobre ele; ou seja, a questão permanece tão aberta quanto irresoluta. Optando por não cortar o nó em que o ser se prende, e atacando todos os seus sentidos, conseguiríamos desatá-lo?

Imaginemos que o ser desse computador contempla todas as suas funcionalidades; todos os produtos da sua interação comigo; a histórica modificação da Natureza para que eletricidade fosse inventada e gerada para que ele funcionasse; um sem número de pessoas envolvidas na sua criação e produção, bem como os deslocamentos dessas pessoas, a produção e consumo de alimentos, roupas, lazer, saúde, etc., de que precisaram para, finalmente, um sistema extremamente complexo contribuir parcialmente com o ser deste computador. Em outros sentidos temos a matéria de que ele é feito, do ordinário plástico ao fundamental silício, ambos extraídos da natureza, mas que primeiramente tiveram de ser naturalmente confeccionados nela, e por ela, ao longo de bilhões de anos.

O ser deste computador não dispensa estas últimas letras que agora digito nem o primordial Big Bang, sem o qual nada teria ser; bem como tudo o que está compreendido entre estes dois instantes singulares. O ser de qualquer mínima coisa é, portanto, gigante, do tamanho do universo, e contém uma infinidade de sentidos impossíveis de serem retomados. E esta é, provavelmente, sua dificuldade górdia, pois somente através de um resumo absolutamente genocida é que podemos dar por acabada a questão do ser, ou seja, somente errando na resposta é que conseguimos, de fato, afirmá-la. Do contrário, a questão projeta-se geometricamente ao infinito.

Se o ser de cada coisa se diz através de todos os seus sentidos, tanto nos naturais, desenrolados nos dezessete bilhões de anos do universo, quanto nos artificiais, desenvolvidos nos últimos setenta mil de ação humana, bem como nos incessantes sentidos de que esse ser se predica em cada uma de suas contemporaneidades, podemos deduzir, portanto, que os sentidos que um ser compartilha com os demais são enormemente mais numerosos – e mais condicionantes – que aqueles que os diferenciam. Logo, há muito mais coisas em comum entre este computador, as ideias que me ocorrem, ou qualquer coisa que possa ser dita, que diferenças. Entretanto, é através de suas diferenças que os seres se apresentam a nós, pois como Alexandre, descemos a espada na dificuldade górdia até restar um pedaço que caiba em nossas mãos, e é sobre este que reinamos.

Aproximar-se do ser para investigá-lo é saber menos dele na exata proporção em que mais e mais dos seus sentidos escapam do nosso campo de visão. Por conseguinte, é afastando-se dele que podemos apreendê-lo no grande quadro que contempla todos os seus sentidos. Para isso, precisaríamos tomar uma distância absurda a fim abarcarmos de uma só vez o universo inteiro, pois só nessa visão total o ser poderia se revelar plenamente. Entretanto, a partir desse ponto de vista, veríamos apenas um único ser, o do universo, que é, de fato, o sentido único; todos os demais consequentemente desapareceriam. Logo, é somente cortando ignobilmente esse nó górdio do ser absoluto que criamos seres parciais, menores, à medida do homem, do tamanho da capacidade de Alexandre, o Grande, de desfazer nós impossíveis.

 

Alegoria da Veja

Se tivesse esperado um pouco mais de dois mil anos, Platão poderia ter substituído a caverna da sua célebre alegoria por outra tão eficaz e inquestionável, a saber, a Revista Veja. Na passagem de  su’A República, o filósofo tinha por objetivo mostrar às pessoas a ignorância a que estão submetidas em relação à verdade que reina na superfície da realidade. Seja nas entranhas escuras da terra, seja nos confins das páginas da Veja, as sombras são a proximidade e os indícios máximos que teremos da luz.

Na profundeza platônica as pessoas desde sempre estiveram acorrentadas e imobilizadas, sequer podendo desviar seus olhos da parede no fundo da caverna onde sombras de marionetes eram constantemente projetadas para mentirem que eram a realidade. Entretanto, como os prisioneiros só viram silhuetas enegrecidas desde que nasceram, eles as tomavam por verdades absolutas e últimas, porquanto desconheciam que há uma realidade outra, primeira e palpável, na superfície externa iluminada pelo sol.

No exercício em direção à verdade, Platão libertou um dos acorrentados, e nesse momento este percebeu que aquilo que sempre havia visto eram apenas sombras de objetos outros, isto é, de recortes em formato de árvores, animais, pessoas, etc., através dos quais as silhuetas eram projetadas na parede para entretê-lo. Primeiramente, pensou ser os anteparos recortados a realidade primeira, e por um tempo acreditou ter descoberto a verdade. Por conseguinte, compadeceu-se com seus companheiros ainda voltados às sombras, pois eles ainda acreditavam que eram as sombras a realidade em si, e não os anteparos que as geravam.

Desejou libertá-los, mas foi hipnotizado pela da luz do sol que timidamente penetrava pela distante boca da caverna. Seguiu na direção dela e, chegando à superfície, foi cegado pela intensa luz solar. Ele não conseguia ver nada por não ser acostumado à claridade máxima. Desejou retornar à escuridão pregressa na qual as coisas podiam ser vistas. No entanto, ao poucos seus olhos foram se habituando à luz do sol até começarem a perceber as formas verdadeiras, as coisas reais, a profusão de sensibilidade que a realidade tridimensional e livre de manipulação pode oferecer.

Não eram as sombras de sempre, tampouco os anteparos que as geravam a verdade, mas sim este mundo de seres em si mesmos que todos ignoravam. Retornou ao fundo da caverna para contar aos seus companheiros que aquilo que viam era uma mentira desfocada do mundo real, projetada diante deles com o intuito de mantê-los prisioneiros. Só que, de volta à escuridão, seus olhos plenos de luz desacostumaram-se das sombras de outrora, ou seja, ele estava inapto a percebê-las. Ao falar o que ele havia encontrado fora dali, os demais não acreditaram, inclusive riram dele, tamanho o absurdo que lhes pareceu a notícia.

Estás louco! Disseram eles. Essa luz de que você fala é um delírio que te cegou! Você não consegue nem mais ver as coisas que vemos e diz que elas não são verdadeiras! Por fim, e no fundo da caverna, reacostumou-se à escuridão. Porém, foi incapaz de esquecer que aquelas sombras eram somente mentiras acerca das coisas que, em realidade, só existiam verdadeiramente fora dali. Qualquer semelhança entre a alegoria de Platão e o filme “The Matrix” não é pura coincidência, não; visto que os irmãos Watchowski, criadores e diretores do filme, buscaram na clássica parábola grega o caminho para a sua contemporânea – e também já clássica – obra cinematográfica.

Consoante À Caverna, o que seria o alienante semanário da Elite Branca, isto é, a revista Veja, senão outra grande tela escondida da verdade onde o sistema em vias de permanência projeta ilusões esfumadas a manter seus leitores entocados nas cavernas-casulos de onde não devem sair, sem questionarem sequer a existência de uma verdade maior? Por conseguinte, o silêncio mortal sobre o aeroescândalo aeciano; o ruído contra as manifestações populares; o barulho dissonante acerca dos “Black Blocks”; a voz plena dada aos reacionários direitosos contra uma possível permanência do PT na presidência; tudo isso – Veja! – é o que senão sombras pervertidas publicadas com a intenção de afastar as pessoas da verdade iluminada da nossa superfície social?

Felizmente, muitos já se aventuraram vitoriosamente para longe do maniqueísmo figura-fundo patrocinado pela revista Veja e afins. No entanto, uma grande maioria ainda jaz acorrentada a esse tipo de realidade manipulada às sombras da verdade. Logo, em se tratando de democracia, ou seja, o governo de acordo com a maioria, corre-se o grande risco de a realidade permanecer determinada de acordo com a visão turva dos muitos que inadvertidamente permanecem nas profundezas das opiniões, que segundo Platão, são nada mais que “sombras da verdade”. Já a minoria que se lança à intensidade solar e às nuvens lacrimogêneas da superfície caótica do real é tomada por delirante e utópica.

Entretanto, uma vez seduzidos pela multildimensionalidade iluminada da vida, as parcas duas dimensões contingentes às sombras não podem mais iludir enquanto realidade última. Uma sombra é propriedade de uma coisa e não existe sozinha. Uma opinião, por conseguinte, é apenas a sombra de alguém; de uma instituição; de uma revista: não existe sozinha na realidade e, de forma alguma, faz as vezes dela. Todavia, assim como a Matrix luta deslealmente contra seus insurgentes, o nosso mundo das sombras, Veja bem!, permanece tapando o sol com a peneira e transformando-o na tocha única, e de posse exclusiva sua, que, na escuridão subterrânea, projeta as eternas e inconsistentes silhuetas que mantém a maioria prisioneira.

Levando a alegoria de Platão ao pé da letra, o caminho das trevas à luz reclama a escuridão como fundo primeiro. Inclusive numa primeira iluminação, como quando o aprisionado descobriu que não eram as sombras projetadas a verdade em si, mas sim os recortes que as geravam, e que, posteriormente, estes mostraram-se tão mentirosos quanto as sombras, devemos intuir constantemente que o caminho para a verdade recomeça eternamente. Por mais iluminados que nos percebamos, estamos sempre dentro de uma caverna ou outra, ainda nas páginas amarelas da Veja, ou seja, aquém da verdade. Pois a verdade é menos uma coisa determinada a gerar sombras do que o próprio percurso de buscá-la para além de onde já estamos.

 

Riso, o remédio do real

Rir é um tipo de orgasmo, só que intelectual, tão impetuoso quanto o sexual, que nos assalta por ser absolutamente desejado. Inclusive o riso impróprio, aquele que nos escapa em situações aonde ele não tem lugar, é uma expressão genuína e ainda mais regozijante que o riso apropriado, tal como o gozo do sexo proibido. Bergson afirma que o riso serve para “despertar os amores-próprios distraídos para a plena consciência de si mesmos”. Portanto, rir é ser atravessado pelo real, ainda que contra a nossa vontade, e para fora dela.

Basta pensar por alguns instantes sobre o riso para perceber que, diferente do seu sentido corriqueiro, ele não se vincula somente à alegria. Aliás, quanto mais mergulharmos no fenômeno que ele é, menos condicionado à alegria o riso se apresenta. De acordo com Bergson, o riso vem para corrigir nossa distração e para nos tirar de nosso sonho. Logo, o que há de menos alegre que um movimento dessa natureza? Para o filósofo, “o riso é incompatível com a emoção”; ele não é ético, mas estético; consequentemente, algo só tem a capacidade de “fazer-nos rir se tudo for arranjado para que não nos comova”.

Rir é encerrar um envolvimento e iniciar outro, consigo mesmo. “As personagens da vida real não nos fariam rir se não fôssemos capazes de assistir a suas atitudes como a um espetáculo que vemos do alto de nosso camarote”, coloca Bergson. Portanto, o riso exige que sejamos primeiramente espectadores, ou seja, uma consciência outra, separada. E ser espectador é uma envergadura própria do homem, pois só ele pode converter a maior tragédia em comédia – “não há comicidade fora do homem”, disse o filósofo.

Amelia Valcárcel acredita que “o riso tem por companhia a insensibilidade, e por inimiga a emoção”, porque, em consonância com Bergson, “o que nos faz rir seria o absurdo realizado de forma concreta, um absurdo visível”. Podemos inferir, então, que é um excesso circunstancial, ou seja, a intromissão insuportável do duro real nas confortáveis realidades estabelecidas entre as pessoas que as faz rir; anestesiando-as, assim, da ruptura imprevista e indesejada quando nenhuma seriedade é capaz de fazê-lo. “O riso tem justamente a função de corrigir a rigidez: transformando-a em flexibilidade, readaptar cada um a todos”, afirma Bergson.

Diante do real temos duas opções, sofrê-lo ou desacreditá-lo. E reais são os nossos próprios defeitos! Por conseguinte, rir é a melhor maneira de nos alienarmos deles. Entretanto, como a alienação nos disponibiliza a sermos novamente surpreendidos por aquilo para o que damos as costas, alguma coisa do “indesejável” deve ser totemizado para indicar, ao menos, o tamanho do perigo com o fim de diminuí-lo. Portanto, adverte-nos Bergson, “talvez não seja por ser pequeno que um defeito nos faz rir, mas, como por nos fazer rir o achamos [o tornamos] pequeno”, pois “há no riso sobretudo um movimento de relaxamento”.

São os defeitos que nos fazem rir, e o palhaço é o grande mestre dessa arte. O que é se sentir palhaço senão dar-se conta das próprias falhas tornadas públicas? Já a obsessão humana pela adequação segue no sentido oposto ao do “clown”, pois no lugar de conduzir a seriedade insustentável à rena do ridículo, ela esconde o risível em nós sob o manto transparente da vaidade. E, sintomaticamente, “o remédio específico para a vaidade é o riso”, diz Bergson, para quem “o defeito essencialmente risível é a vaidade”. Logo, a risada burila as arestas insuportáveis da vida até a suavidade esférica da naturalidade ser restabelecida.

Rir é relativizar, é conseguir transpor a contradição de um absurdo sem levar em conta sua gravidade, mas sim sua graça e leveza. No entanto, quando o absurdo não oferece saída positiva, e somente desperta medo, tristeza ou piedade, pronto, dele não se consegue mais rir. “Nem a loucura em geral nem a ideia fixa nos farão rir, pois são doenças”, aponta Bergson. E, se ainda assim rimos, esse “riso, portanto, nada teria de benevolente. Ao contrário, pagaria o mal com o mal”, conclui o filósofo: esse seria o riso nervoso, sádico, que finge achar, ou acha graça daquilo que não tem graça nenhuma.

Sexualmente, gozamos quando o prazer atinge seu ápice, e o gozo é a maneira excelente de nos esquecermos do fim do prazer no seu momento derradeiro. Da mesma forma, rimos quando a realidade não mais se comporta de acordo com o esperado, quando ela rui devido à força do real. Portanto, rir é um remédio para a fragilidade patética das nossas crenças e expectativas; é a fuga dos nossos defeitos, bem como dos defeitos dos outros, nos precisos instantes em que eles aparecem. A um só tempo o riso é a percepção do real alienado através das rachaduras na nossa realidade e o que nos mantém dentro dessa realidade plena de rachaduras reais.

 

 

Sete bilhões de meteoros

Extinções em massa, até hoje, sempre tiveram causas naturais. A última delas, cujo memorável desaparecimento foi o dos dinossauros, há 65 milhões de anos, foi causada pela queda de um meteoro. Nesta semana foi “postada” na “timeline” mundial a nova extinção em massa a que a terra “estará sendo sujeitada”. Esta, artificial porque causada pela ação do homem, é chamada de “extinção do antropoceno”, ou seja, o desaparecimento das principais espécies que possibilitaram a existência da nossa.

As evidências dos cataclismos anteriores puderam ser posteriormente “visualizadas” nos vestígios fossilizados “salvos” na Natureza. Entretanto, esse que se inicia agora já vem sendo cientifica&tecnologicamente registrado na própria evolução industrial humana. Inclusive as espécies a serem extintas poderão, doravante, ser visualizadas no “YouTube”, visto que o mais fundamental ao homem não é realmente preservado, mas sim foto-vídeo-grafado. O futuro será realmente virtual?

A contemporânea função da natureza, contudo, é a de existir para a apreciação estética e para o lazer consumista do homem. O voo que nos leva às belezas do Pantanal, por exemplo, extingue mais carbono da Natureza do que a área coberta pelo nosso passeio turístico-ecológico – e pela nossa câmera digital – é capaz de renovar. Nossas contribuições cataclísmicas tornam-se belos álbuns fotográficos e documentários artísticos cultuados. De acordo com o coletivo “Critical Art Ensemble”, a humanidade adora “bloquear o orgânico com pilhas de excessos manufaturados”.

No futuro, se porventura existirmos nele, teremos mais “hiperlinks” virtuais com a Natureza que Natureza propriamente dita; porquanto somos especializados não em evitar a sua decadência absoluta, mas sim em transformá-la em espetáculo estético-hedonista. Afinal, a “National Geographic” já é o santuário virtual do natural! Extintas as gerações que sabem realmente o que é correr pela grama atrás de vaga-lumes, as próximas estarão, por conseguinte, satisfatoriamente guarnecidas com virtualidades convincentes acerca dessa Natureza ancestral.

O computador em que escrevo; o em que você lê; o ar-condicionado essencial à vida urbana; os industrializados que nos cercam; as toneladas de embalagens que os trouxeram até nós; bem como o sistema consumista cujos criadores-criaturas somos nós mesmos; tudo isso é, ainda que a contragosto, a extinção em massa que assistimos e daqui para frente “visualizaremos” nos novos “Gadgets” que adquiriremos, e que somente farão acelerar essa mesma extinção em massa. Tecnologicamente avançamos futuro adentro ao preço inalienável dele mesmo.

Ao ser humano “tudo o que é necessário é a capacidade de conviver com a incerteza, e a disposição de agir a despeito do potencial para consequências negativas”, adverte-nos o coletivo CAE. Viver não é mais uma aventura na Natureza, mas sim outra, uma irracional, contra ela mesma. Qual é a disposição e a capacidade do homem contemporâneo para colocar-se antes ou abaixo da Natureza, sabendo que isso significa precisamente deixar para trás toda a vida agrotóxica&industrial que o mimou? Bilhões de respostas dissimuladas e envergonhadas escapam da bolha de monóxido de carbono atual: quase nenhuma.

Seria essa a natureza do homem, a de se importar preferencialmente consigo mesmo, inclusive acima da Natureza sua mãe? Entrementes, a destruição sistemática da Natureza externa ao homem deve, sintomaticamente, ser o reflexo de um movimento de destruição, primeiro, só que de natureza interna, e não menos destrutivo. Exilados na selva urbana, nos vingamos da selva natural como que expulsos dela, e a sua exaustão é o preço da nossa nesse traslado que, não obstante, é muito menos solicitação dela que nossa.

Outrora, um único meteoro eliminou milhares de dinossauros. Agora, somos sete bilhões de meteoros humanos a extinguir o que restou. Afinal, é muito mais fácil matar a Natureza que a nossa própria; ainda mais quando é tecnologicamente viável virtualizarmos aquilo que na realidade é perdido. Contudo, “aquilo que serve para tornar a vida mais fácil em geral é supérfluo”, afirmam os anarquistas do “Critical Art Ensemble”. Portanto, se o nosso insustentável estilo de vida existe por que nós não existimos sem facilidades insustentáveis, talvez a última extinção de que venhamos a ter notícia, ou seja, a nossa, jaza universalmente a própria superfluidade humana.

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Ética e estética na arte contemporânea

Por que a arte contemporânea se estrutura cada vez mais em outra, na de bem dizer-se, ou seja, na da retórica? Soasse menos paradoxal, diria auto-retórica. A arte dos nossos dias insiste em permanecer aquém das ideias que lhes servem de suporte; e aqui me recuso a aceitar a intransponibilidade atribuída entre real e ideal, porquanto essa distância é tão somente mais uma criação humana, assim como o próprio ideal. No sentido de relativizar a pressuposta intangibilidade do ideal, basta pensar na “Pietà” de Michelângelo, que em ideia – Maria com Cristo ao colo – é infinitamente menos efetiva que o real, isto é, a sublime escultura do mestre renascentista.

Entretanto, o que leva a arte, hoje, ao descompasso privilegiado da ideia em relação à coisa real? A pergunta feita à lésbica gorda, “você é gorda por que é lésbica ou é lésbica por que é gorda”, feita no seriado inglês “Absolutely Fabulous”, pode ser parafraseada à arte contemporânea: é demasiado ideal por que incapaz do real ou incapaz do real por que ideal em demasia? Para a filósofa espanhola Amélia Valcárcel, “A arte, na época contemporânea, não é senão lazer, ócio arbitrário, incrustrado na sociedade do trabalho”. Portanto, a partir da afirmação da espanhola, sobrevém a possibilidade da arte estar realizando-se preferencialmente no plano ideal devido à real sistematização a que os artistas, bem como os seus consumidores, são social e economicamente impelidos.

“Nosso mundo produz objetos sem cessar, mas tudo acontece como se não acontecesse”; todavia, “as coisas são nada até que as padeçamos”, afirma Valcárcel. Por conseguinte, o inverno da fisicalidade real das obras de arte contemporâneas, diante da primavera retórica de suas idealidades, aponta em duas direções, a saber, na da dessubstancialização sistemática dos objetos de arte produzidos em escala quase industrial, e no que subsiste incólume a partir dessa dessubstancialização mesma, isto é, a promessa-engodo das ideias anorexas de matéria. Contudo, “Enquanto não transformamos as ideias em ideias estéticas elas não terão interesse para o povo”, afirma Hegel; visto que, conforme Schiller, “Uma das tarefas mais importantes da cultura é submeter o homem à forma”.

A obra-prima da arte atual, ou seja, a primazia das ideias em detrimento das suas formas tornadas físicas, abre aqui outra questão promissora: seria a ideia, em si mesma, a retórica por excelência? Possivelmente sim, pois se somente o real pode desdizer o ideal, a ideia, afastada de sua realidade física, depõe mais confortavelmente em seu próprio favor; da mesma maneira que a retórica se sustenta muito menos nos fatos reais a que se refere do que nos seus estratagemas de auto-sustentação. É encurtada aqui a distância indagada entre a arte contemporânea e aquela a qual ela tende, ou seja, a retórica. Entretanto, para Valcárcel, “a arte deve retirar as máscaras da realidade, desvelar o caráter mecânico que superpomos à vida”, ou seja, tender ao real que, conforme Lacan, é o que nos escapa, e não contra a fisicidade da vida.

Para a filósofa espanhola, “Cada indivíduo não conhece o seu caráter antes de realizar um ato. Seu ato é que diz quem é e o que é”; portanto uma obra, enquanto indivíduo do mundo da arte, só dirá “quem é e o que é”, bem como a que veio, quando finalmente desgarrada do mundo ideal em cujo seio foi amamentada. No colo de mamãe nunca se é homem de verdade, apenas a ideia do homem que teria sido caso ele tivesse deixado o primitivo&confortável ninho. Schelling insiste que “o último ato de totalização é estético”; e de acordo com o significado grego, “aisthêtiké” é aquilo que pode ser compreendido por algum dos nossos cinco sentidos – não pelo intelecto. “O ser humano não é ‘intelligere’, é ‘homo faber”, diz Valcárcel; e segundo ela “o ‘élan’ vital, o encontro vivo com a matéria, não está determinado”, devendo, portanto, ser atualizado – feito ato -; a obra deve existir tão ou mais belamente que a ideia que lhe deu origem; a vitória da Pietà!

Qual é o compromisso ético da arte contemporânea com a sua própria estética? De que forma seu “ethos”, ou seja, o caráter dessa arte se relaciona com o modo dela se apresentar aos nossos sentidos? De acordo com Valcárcel, “ética e estética são duas possibilidades que se apresentam diante do sujeito; ambas são pontos de partida”. Logo, poderia ser a esterilidade estética das obras contemporâneas o fruto-sintoma de um privilégio dado à senda ética? Mas se fossem eticamente privilegiadas essas obras careceriam tanto de sentido diante dos nossos cinco? Provavelmente não, visto que “a ética é superior à estética”, afirma Valcárcel, “pois fará algo muito maior – produzirá sentido”.  Portanto, a falta de sentido da arte contemporânea denota um dilema ético mal resolvido e resultando em sentidos que não atingem satisfatoriamente a nenhum dos nossos – parcos– cinco; ou seja, não se realizando esteticamente; e “uma estética sem gozo é bastante inverossímil”, diz a espanhola.

“No ato bem feito acontece a união entre ética e estética”, resume Valcárcel; sendo assim, a obra de arte bem feita tampouco pode deixar de harmonizar estas duas instâncias, pois, de acordo com a filósofa, “a ética e a estética coincidem no nosso conceito de sublime”, como as “pietàs” clássicas não se cansam de exibir. Portanto, é um descompasso entre as esferas ética e estética na caminhada da arte contemporânea que retoricamente eleva o ideal ao preço da alienação em relação ao real, ou seja, do desencontro físico e efetivo dos sentidos com as obras de arte que se lhe apresentam. Para Espinoza, “o comportamento do todo é a ética, e a estética, qualquer relação com ele”; consequentemente, o relacionamento estéril com uma obra de arte é o fracasso tanto da sua imediata comunicação estética quanto da sua subjacente e estruturante postura ética.

Entretanto, o rápido caminhar da cada vez mais auto-obsolescente arte contemporânea entrega o desequilíbrio desconfortável entre ideia e obra – entre ética e estética – em que ela se encontra. Apesar de anacronizado, o moderno conceito de “vanguarda” segue, felizmente, inquietando a arte sempre que ela desacorda consigo mesma. Por conseguinte, “a cada nova ‘estética’ há sempre alguém que lhe queira dar contornos éticos: isso é comum a todas as vanguardas”, conclui Valcárcel. Daí a arte-retórica contemporânea! A necessidade do próximo só faz afirmar a insuficiência do presente. A “Pietà”, não obstante, resiste universalmente, sublime&insubstituível, maior que qualquer retórica acerca dela, satisfatória tanto aos sentidos dos medievais tardios quando aos de qualquer pós-contemporâneo “connoisseur” de arte.

 

O homo não sapiens de nada, inocente!

Deveríamos abrir mão da predicação própria que nos define como humanos, isto é, a de sermos racionais. Ou ao menos admitirmos que enquanto irracionais estaríamos mais conectados e envolvidos com as reais necessidades do animal que nunca deixamos de ser. Foi divulgada a notícia de que, hoje, no nosso mundo, há mais pessoas com acesso a celulares do que a banheiros. E a partir dessa realidade podemos intuir que a nossa razão muito se esforça para, no final das contas, produzir mais daquilo de que não precisamos realmente.

Somos uma espécie que insiste em não atender ao que é fundamental a si própria, mas que, no entanto, acredita irracionalmente que está, desde sempre, trilhando o caminho da evolução. Não seria o caso de finalmente assumirmos o fato de que trilhamos sim uma senda só nossa que, entretanto, a passos largos nos leva na direção da decadência? Basta olhar para a natureza sendo absolutamente degradada e para as megafavelas que cada vez mais revestem o planeta, não obstante, Natureza e favelas, pontuadas por antenas de celular e roteadores wi-fi.

Os bichos não inventaram “gadgets” para se comunicarem, porém, não criaram a falta de banheiros para si. Os demais animais, de certa forma, sempre souberam que já são, eles mesmos, aparelhos ecológicos&naturais apropriados à comunicação com o mundo ao seu redor; bem como que o mundo todo é o local das suas necessidades fisiológicas. Já o ser-humano atrela historicamente a sua intercomunicação natural a tecnologias artificiais sintomaticamente obsolescentes e a sua fisiologia a uma espécie de design sanitarista.

Investimos tecnologicamente na alteração do mundo acreditando que com isso o adaptamos melhor às nossas necessidades. Todavia esquecemos que “Há um inimigo maior ao homem do que a mudança, e esse inimigo é ele mesmo”, afirmou Platão. Que evolução é essa que leva duas mil pessoas a compartilharem um vaso sanitário nas favelas de Jacarta, por exemplo, entretanto, com cada uma delas proprietária de um telefone celular só seu? Que animal irracional é esse que prioriza o menos importante à sua própria existência? Sem pestanejar, um animal digno de extinção!

A falta de banheiros e o excesso de aparelhos de telefone garante perpetuação, por conseguinte, a uma fatia bem pequena da espécie humana. Quanto mais pessoas pobres morrerem devido às suas insalubres condições sanitárias, desde que gastando o dinheiro que mal têm nas sofisticadas mercadorias digitais, tanto melhor à minoria que lucra com estes produtos e que, com a miséria daqueles, garante as suas “Jacuzzis” particulares e as suas muitas toalhas brancas. De um lado, dois ou três banheiros por pessoa, e de outro, milhões delas sem nenhum. Entretanto, todas interconectadas fofocando sobre o abismo que as separa.

Se tudo o que foi feito pelo homem nos milênios de história registrada o trouxe à paradoxal realidade onde todos podem se falar a qualquer momento e de qualquer lugar, porém, com a maioria não podendo defecar ou tomar banho quando precisa, estivemos andando barbaramente para trás, sem dúvida. Subjaz a triste possibilidade de que os nossos outros problemas fundamentais, a saber, os sociais, e ecológicos, recebam o mesmo absurdo e inócuo tratamento: “touch screen” para quem tem fome e “Google Earth” para todos assistirem o planeta rapidamente se transformando em um esgoto a céu aberto. O homo não sapiens de nada, inocente!

 

 

O Estado de Platão X os nossos estados

Platão, na sua obra “A República”, fez o exercício de planejar um Estado ideal, todavia em resposta à decadência em que se encontrava a democracia ateniense desde a morte de seu mestre, Sócrates. Umas das grandes contribuição do diálogo platônico no que tange a ideia de Estado foi a de condicionar a qualidade do Estado à dos seus cidadãos: “as qualidades do Estado significam as qualidades dos indivíduos que o compõem”, assegura o pai da filosofia. A dialética de Platão n’A República visava eliminar a distância entre o Estado e os muitos estados dos seus cidadãos, senão porque o Estado é e deve ser a composição dos estados individuais de cada cidadão.

O Estado ideal platônico era assaz comunista, pois, nele, as desigualdades sociais se resolviam no conceito de propriedade comum, e, pasmem, inclusive em relação à cônjuges e filhos. A propriedade individual, segundo Platão, era o germe do mal que contaminava paulatinamente os cidadãos, melhor dizendo, suas virtudes fundamentais, sem as quais era impossível a um Estado garantir o bem estar geral. O filósofo afirmava inclusive que tão logo um homem começasse a ficar mais rico que outros deveria  exercitar suas virtudes, através das quais perceberia que sua riqueza não o faria um homem melhor. Ademais, as virtudes do Estado e as suas próprias seriam as primeiras a serem sepultadas sob sua riqueza nascente.

Entretanto, Sócrates –a voz de Platão no diálogo- encontrou resistência dos seus interlocutores, pois estes temiam que outros Estados, estruturados na riqueza e na propriedade, tivessem larga vantagem sobre o Estado platônico quando na circunstância de guerra. Sócrates, por conseguinte, faz umas das grandes colocações do diálogo ao perguntar aos incrédulos concidadãos se eles poderiam, de fato, afirmar que um Estado onde a propriedade individual e as diferenças sociais existem e são claras a todos poderia ser chamado de Estado. Para o pensador, nestas condições não há “um” Estado, mas sim muitos estados dentro de um: o estado dos ricos, o dos pobres; o dos aristocratas; o dos escravos, o dos homens, o das mulheres, e assim por diante, todos escondidos e já em guerra entre si. Tal guerra, não obstante, permaneceria dissimulada justamente sob o nome Estado.

Platão trouxe à luz o fato de que só existe um Estado quando todos compartilham do mesmo estado, das mesmas circunstâncias, da mesma qualidade de vida, etc. Porquanto havendo desigualdade, haverá tantos estados quantas forem as desigualdades sociais. Para o filósofo, o Estado verdadeiro e único era o que ele construía no seu diálogo, pois somente neste todos os cidadãos estariam sob um mesmo estado de satisfação. Já os Estados que eles conheciam, e inclusive o decadente grego, eram nada além de coleções contraditórias de estados individuais desarmônicos que ruiriam sob o peso dos seus próprios desequilíbrios internos. Alguma semelhança com ideia de Marx acerca da ruína do capitalismo diante de suas próprias contradições? Portanto, o Estado ideal platônico, priorizando o bem estar geral e a propriedade comum, nunca seria solapado por outro, visto que outro Estado, em verdade, nunca havia existido.

A virtude do Estado platônico está na proposta de um Estado dentro de cujas fronteiras não digladiam-se dissimetrias sociais, que outra coisa não fazem senão beneficiar poucos em detrimento de muitos. Podemos, hoje, imaginar um Estado ideal nos moldes d’A República? Para responder a essa questão, antes devemos nos perguntar quão longe colocamos aquilo que podemos chamar de um Estado ideal dos nossos presentes “Estados” reais. E é essa distância, aliás, que torna real a desigualdade entre os estados individuais dos cidadãos: os estados de riqueza, satisfação e liberdade plenas de uns poucos contra os estados de pobreza, carência e servidão inalienáveis da maioria.

“Tal homem, tal Estado”, reforça Platão. Logo, um rico poderoso é, a um só tempo, um homem e um estado; ao passo que um pobre desassistido é outro e outro. Entretanto, nos alienamos do abismo entre esses diferentes estados sob a ficção de uma unidade insustentável, ou seja, a dos nossos Estados modernos, como se neles fosse única a situação de todos os súditos do Leviatã.

Hoje em dia, infelizmente, aquilo pelo de que a maioria dos cidadãos busca é tão somente um estado melhor a si próprios, e não para todos os seus concidadãos. Nessa senda individualista, não se constrói nem “um” Estado, nem se é cidadão, mas sim estados e seres individualistas-egoístas, opostos uns aos outros. Portanto, se o Estado em que vivemos é cindido entre uma minoria rica e privilegiada e uma maioria pobre e desinvestida, é porque essa é a cisão que subsiste em cada um dos seus cidadãos. Novamente: a qualidade de um Estado é a qualidade dos seus cidadãos!

A resistência dos amigos de diálogo de Sócrates em aceitar o Estado ideal platônico, pelo jeito, é a mesma que a nossa no sentido de abandonarmos os muitos e antagônicos estados reais que conflitam dentro do que chamamos de Estado no sentido de construírmos uma cidadania plenamente virtuosa e, consequentemente, um Estado propriamente dito, ou, como sustenta Platão: ideal. A dificuldade está em que -se fosse possível Platão parafrasear Wittgenstein- ‘os limites do Estado são os limites dos seus cidadãos’.

Não podemos negar que, na realidade, nossos Estados modernos são colchas de retalhos discrepantes e insustentáveis, formados por muitos estados individuais malsoantes que, entretanto, se escondem atrás da ideia hobbesiana de um Estado soberano. Entretanto, quanto mais de perto olhamos o Leviatã, mais percebemos anomalias que só se explicam pela ideia de muitos estados desiguais. Logo, enquanto houver estados dentro de um Estado, haverá indivíduos uns acima dos outros, uns usufruindo de mais do que precisam enquanto muitos são privados do básico; e sobre todos, simbolizando a desigualdade excelentemente, o próprio Leviatã, o soberano absoluto e inarredável. Ainda que o perfeito e comunista Estado platônico seja impossível para muitos, sejam gregos antigos, sejam contemporâneos nossos, um Estado bom para todos ainda é utopia para a maioria. E essa utopia segue promissora enquanto conseguirmos perguntar a nós mesmos: quão cativos estamos do real para não nos aventurarmos na realização do ideal?

 Berlinda Subjetiva

Uma delicada harmonia entre as esferas subjetiva e objetiva estrutura e confere saúde à realidade das pessoas. É só no embate equilibrado entre as disposições internas, que em um sentido fazem o sujeito, e as externas, que em outro sentido ensinam sobre todo o resto, ou seja, aquilo que não é ele, que se estabelece a necessária ecologia do Eu. Entretanto, o mundo contemporâneo cada vez mais insiste na esfera subjetiva de determinados indivíduos a ponto de desequilibrar perigosamente a justa composição das realidades dos demais.

A um conhecido cantor e compositor brasileiro uma jornalista perguntou: “Como você está sendo para você lançar mais um álbum?” “Está sendo ótimo, é um momento muito especial”, respondeu ele. “E como você está se sentindo com isso?”, segue a entrevistadora. “Sinto-me muito bem, é uma alegria ver meu trabalho amado pelas pessoas”, disse o cantor. “Você está feliz?”, prossegue a jornalista. “Sim, estou muito feliz!”, coloca o artista. “Feliz como?”, insiste a mulher. “Muito feliz”, devolve ele. “Mas, feliz quanto?”, força ela. Pausa longa.

Na dificuldade de seguir nessa direção o cantor estagnou e começou a repetir-se, parafraseando suas respostas anteriores; porquanto ele parecia estar mais disposto e apto a falar da sua música, ou sobre música, do que da especificidade fina dos seus próprios sentimentos para uma mulher que mal conhecia. Porém, a jornalista não mostrou interesse algum em nada além dos eventos internos dele. Em suma, a entrevista foi sobre como o artista sente e não sobre o seu trabalho, ou sequer sobre música.

Através deste exemplo sobrevém a esterilidade do investimento desarmônico no mundo subjetivo em detrimento do objetivo, visto que um não se sustenta sem o outro: são complementares fundamentais. Entretanto, que necessidade subliminar levou a jornalista a desconsiderar metodicamente o motivo objetivo que levou o artista à berlinda pública e a questioná-lo obsessivamente sobre como e quanto ele sente? Essa resposta também diz respeito a uma necessidade que é nossa, porquanto somos nós os consumidores visados destes produtos midiáticos.

 A exposição intensiva daquilo que “alguém outro” sente – de como, e de quanto sente -, ao mesmo tempo em que relembra-nos do essencial espaço subjetivo inerente a cada ser humano, também esconde de modo eficaz o fato de que esse mesmo espaço em cada um de nós cada vez menos importa ao mundo. Somos tão somente objetos combustíveis para o Sistema. Entretanto, como em Matrix, devemos ganhar a ilusão daquilo que não temos, ou seja, da importância exterior das nossas subjetividades. E a mídia, por conseguinte, é o braço sistemático que distribui a ração transgênica com altos teores de subjetividade aos sujeitos objetos.

Que subjetividade mais rica e promissora há que a do artista? E que objetividade garimpadora mais eficaz que a do jornalista? Entretanto, a permanência de ambos no terreno das sensações daquele foi estéril por não levar nada de mundo aos que os assistiam. Falassem eles de música, de arte, ou das relações entre estas e as pessoas, o telespectador poderia construir, ele mesmo, um equilíbrio só seu entre o que ele mesmo sente e mundo objetivo ao seu redor. Porém, apenas com a subjetividade de outrem, o público não tem objetos suficientes para estruturar e sustentar os sujeitos que deveriam ser. Preenchemos, portanto, o espaço das nossas subjetividades relegadas com outras sagazmente manipuladas para tal.

 O coringa sintomático dessa estratégia de sucesso do Sistema contemporâneo é a sofisticada instituição da “celebridade”, isto é, a subjetividade plena esvaziada de qualquer objetividade. A celebridade é sem ser nada além disso mesmo; o ser talhado para ser entrevistado e através do qual se transmite subjetividades apropriadas às massas. Já estes últimos são o espelho invertido daquelas, ou seja, as objetividades indispensáveis dispensadas de suas próprias subjetividades. Nas mãos do sistema devemos ser, subjetiva e objetivamente, objetos plenos e condicionados.

Porém, a angústia daquele artista diante da sessão pública de psicanálise em que se transformou a entrevista de lançamento do seu último álbum mostra, de certa forma, o limite de desequilíbrio possível ente as esferas subjetiva e objetiva que constitui a realidade de cada indivíduo. Nem o mais fino perscrutador midiático ou psicanalítico pode transpor essa fronteira sem que o sujeito comece a se repetir a fim de preservar a elipse inviolável que o separa do mundo. E nem o mais criativo artista consegue converter em imagens divulgáveis tudo o que acontece dentro de si. A chave do sujeito está perdida desde sempre!

É impossível transmitir completamente um sujeito aos outros, e nisso reside a complexidade e a complementaridade de cada um deles. O Sistema, não obstante, segue tentando fazer o desumano upload de subjetividades sintéticas apropriadas aos seus próprios fins aos dessubjetivados objetos pelos quais nos tomam. Analogicamente, esse desequilíbrio em favor do Sistema é desenhado contra nós na taxa de 10% de upload para a de 90% de download das nossas conexões com a internet: receber da “rede” dez vezes mais do que transmitir a ela; enquanto que um equilíbrio saudável estaria em torno de 50/50.

Errar pelo mundo

A cotidianidade rotineira da vida “in loco” promete muitas, contudo, ao preço de tantas outras muito mais importantes. Acordar sempre em um mesmo lugar e repetir a frequência em tantos outros, todos os dias, converte a errância assertiva de outrora na assertividade errante de agora. Enquanto os nômades errantes conhecem menos a um só lugar e, por conseguinte, mais a muitos outros, nós, os sedentários, fazemos o contrário.

 Ao repetirmos diariamente o cenário, o roteiro e os atores coadjuvantes na encenação de nossas vidas, tornamos habitual o que deveria ser espetacular, ou seja, a novidade em potencial escondida em cada instante. Mergulhados na monotonia da permanência geográfica, “a alternativa em que se encontram as paixões é esta: satisfazer-se artificialmente, obliquamente”, afirma Deleuze. E haja eletrodomésticos para nos fixarem em um só lugar!

 O nosso desinvestimento na errância e, por conseguinte, na riqueza que ela traz a cada passo novo que damos, é sintomaticamente convertido no investimento contemporâneo no turismo. Passear homeopaticamente pelo mundo é a forma que, hoje, nos resta para resgatarmos um modo de ser primitivo e inconscientemente constitutivo do ser humano.  Entretanto, a liberdade de vagar por aí sem roteiro pré-definido deve ser devidamente roteirizada e agendada no roteiro agendadíssimo das nossas rotinas.

 Porém, uma vez na estrada, já podemos sentir algo novo correndo nas veias, uma espécie de vida que não cabe nos comentários nem nas fotos de viagem que porventura postamos nas redes sociais. Viajando por aí experimentamos a ancestral desabituação em relação ao já conhecido; e dentre as coisas que são extremamente conhecidas a maior delas é nós mesmos.

 Logo, a maior instituição do sedentarismo não são as cidades nas quais vivemos, mas sim um tipo especial de sujeito: aquele sujeito à repetição monótona das atividades regulares, a ficção realista que é o cidadão. Como afirmou Hume, “o hábito, com efeito, pode criar para si um equivalente de experiência, invocar repetições fictícias que o tornam independente do real”. Essa independência do real contingente ao habitual é o equivalente à experiência artificial que nos aliena das experiências genuínas, isto é, daquelas com as quais não estamos habituados.

 O real é aquilo que nos escapa, colocou Lacan; e, paradoxalmente, escapamos desse escapamento do real nas trincheiras fixas e fictícias das nossas rotinas individuais. Desenraizados somos como os andarilhos que despretensiosamente começam um novo mundo a cada novo deslocamento. E se o real é mesmo aquilo que sempre nos escapa, o que nos resta a partir dele é sempre um nada, ou seja, somente um tímido e insano começo. “Tudo o que começa em nós na timidez de um começo é uma loucura da vida”, disse Gaston Bachelard; e porquanto a loucura da vida é real, real é escapar da sanidade ficcional que os mesmos lugares nos prometem.

 Para Deleuze o sujeito não é uma qualidade específica, mas uma coleção delas. Consoante à afirmação do filósofo, podemos pensar o sujeito real não enquanto uma localidade determinada, mas sim a coleção das localidades em que esteve. Embora todos os lugares devessem fazer parte da vida, vida é a coleção daquilo que nos acontece e que passa a fazer parte de nós mesmos em cada um dos lugares pelos quais passamos. Errar por todos eles, portanto, é a loucura real de viver plenamente.

 Acordar em outra cidade, fazer um desjejum inédito, caminhar por ruas desconhecidas, jantar não se sabe onde, etc., é escapar para o mundo; é centrifugar-se para longe do ponto em torno do qual obsessivamente orbitamos. As pessoas amam viajar porque amam a si mesmas enquanto viajam, porque reconhecem a realidade da vida quando se afastam daquela que repetem sistemática e ficticiamente no curto circuito entre fábrica-loja-casa, e novamente a fábrica.

 “Você não tem, apesar de todas as aberrações da sua vida, o privilégio de uma existência particular”, avisa-nos Bachelard; nem o privilégio de uma localidade particular, conclui-se aqui. Por conseguinte, é uma aberração à vida ela ser mantida refém da repetição dos mesmos movimentos, visto que quem repete o mesmo movimento, de certa forma, não se move mais; está, em um sentido, morto e sepultado em uma rotina. Escapar desse cemitério é fazer turismo, pois só então nos sentimos novamente “do mundo”, coisa que sempre fomos até sermos fronteirizados pelas promessas da vida sedentária.

Zoom humano

O homem é bicho curioso por natureza, e sua curiosidade excede o dado a ponto deste ser nunca ser suficiente. Parte daí a nossa inventividade característica através da qual dividimos aquilo que já é sabido em tantas partes quantas forem necessárias para não a reconhecermos mais. É sempre neste nível sistematicamente renovado de ignorância que reencontramos nossa essência desbravadora, porquanto a capacidade humana de conhecer é alimentada tão somente por aquilo que lhe é desconhecido – pelo que mais seria?

Outra forma eficiente e prazerosa que inventamos para se evitar o beco sem retorno que é a verdade foi a ficção. É na mentira institucionalizada das estórias que contamos a nós mesmos, e com as quais nos entretemos ao longo do tempo, que sofisticadamente ampliamos “ad infinitum” o inquietante espaço de incerteza que sempre nos moveu adiante. Em sabendo de tudo, o homem deixa de ser o bicho que é e se assemelha à onisciência que ele mesmo colocou sábia e inalcançavelmente acima das nuvens, isto é, à Deus.

Os antigos gregos, conquanto confortavelmente instalados na primorosa civilização que inventaram, acostumaram-se à eficiência de suas próprias ficções e as tomaram como verdades absolutas. Por conseguinte, o bicho curioso dentro deles inquietou-se e os jogou novamente verdade adentro até que tomassem uma distancia motivadora em relação a ela. Entediados com o conhecimento da Natureza que tinham, mergulharam em suas profundezas e dividiram-na até o limite máximo do desconhecido e só se deram por satisfeitos na abstração material máxima do átomo, isto é, o não mais divisível. Encontraram um limite intransponível para o seu saber acerca da Natureza.

Posteriormente, os helenos enfadados com a posse e com o manuseio dos objetos do mundo físico ao seu redor, emergiram nas relações desconhecidas destes com o cosmos. Nasce, então, a metafísica que, segundo Aristóteles, trata de questões “que vêm depois da física”. Sem deixarem as suas polis, os gregos descobriram, “in loco”, muito mais que um novo continente a ser desbravado, mas sim um universo inteiro de não-saber aberto às suas vorazes mentes humana-filosóficas: o que o átomo tem a ver com o corpo que ele forma?, e o que não tem?, porque?, como?, desde quando?, até quando?, “ad aeternum”.

Ao se perguntarem metodicamente o que “é” a relação de cada coisa com as outras, e a dela com o todo – e vice-versa -, na medida em que iam encontrando tais respostas, eles perceberam que nas suas próprias perguntas havia algo sempre presente diante da qual eles se encontravam novamente ignorantes. No simples “o que é?” havia a questão do que porventura seria esse “é”. Surge, portanto, a questão mais cara à filosofia, a saber, a do “ser” que, manteve entretidas todas as mentes filosóficas desde então. Isso sem falar na ficção atômica grega que nunca mais deixou de nos mover na direção daquilo ainda não sabemos.

Uma boa analogia pode ser feita entre a curiosidade humana e os atuais “displays touch screen” através dos quais sabemos do mundo. Afinal, assim como o escorregadio afastar dos dedos polegar e indicador sobre a tela digital amplia a imagem dada na direção dos seus detalhes escondidos – e até então desconhecidos -, o homem não se priva de aplicar o seu “zoom” curioso sobre todos os objetos do seu conhecimento no sentido do desconhecido. Porém, diferentes dos nossos “smartphones” que, em determinado momento, limitam a ampliação do é mostrado, a interatividade da intele(tela)ctualidade humana é infinita, porquanto enquanto houver homem deverá necessariamente haver o desconhecido.

Nos momentos em que o homem ignora a essencialidade da sua própria ignorância ele se aproxima não do Deus sobre-humano onisciente colocado ficcionalmente no éter celeste, mas sim das fronteiras da desumanidade. Vide as absurdas certezas nazistas acerca do melhor destino para a humanidade. O bicho homem, para ser fiel à sua própria natureza, precisa, portanto, retornar constantemente àquela ignorância animal que nunca deixou de ser o seu mais virtuoso motor.

Sobre cada verdade insistente que estaciona em nossos caminhos é melhor aplicar-lhe um “zoom” até que ela deixe de ser – até que o dado não nos seja mais dado. Só assim reencontramos a liberdade do universo infinito em cujos desconhecidos limites nos sentimos em casa. O nosso fundamental não-saber animal inventou nada além de curiosidade e ficção, e as verdades, por conseguinte, são apenas ficções diferenciadas que funcionam temporariamente como refúgios auto-obsolescentes às margens da senda humana no cosmos desconhecido.

Indígenas Suicidas

O homem foi o inventor do suicídio, visto que até hoje a ciência não encontrou nenhuma outra forma de vida na Natureza disposta à encurtar voluntariamente a sua própria – e já curta – existência. O economista e jornalista Eduardo Manso trouxe a surpreendente informação de que no Brasil são os índios os líderes no “ranking” de suicídios. O que estaria, por conseguinte, levando estas pessoas, justamente as que ainda se encontram mais próximas e ligadas à Natureza se comparadas aos demais brasileiros urbanizados, a essa infeliz liderança?

Talvez seja a exclusiva e constante consciência humana em relação à própria morte a força motriz dessa invenção. Diferente dos demais animais – os irracionais -, o homem – o racional – sabe que morrerá; e essa certeza subjacente o guia tanto para longe da morte quanto para o seu cerne. Podemos dizer, portanto, que é a razão a faculdade propriamente humana que insere a presença fantasmática da morte em todos os instantes da vida. O lado positivo dessa presença não obstante são as invenções subsequentes a ela, tais como a medicina, a tecnologia, a psicologia, a filosofia e, provavelmente, todas as outras.

Entretanto, a vantagem de sabermos que em determinado momento vamos morrer é anulada por uma questão talvez ainda mais angustiante que nos sobrevém a partir dessa consciência: quando morreremos? Afinal, saber que vamos morrer em algum momento é saber que podemos morrer a qualquer momento. Aí está a companhia indesejada que a morte faz às vidas humanas. Várias espécies animais se “retiram” quando estão para morrer, pois parecem ter a consciência desse exato “quando” que nós ignoramos. Nós sabemos “que” vamos morrer, porém, não “quando”; ao passo que os demais animais parecem não saber “que” vão morrer, mas sim “quando”.

Donos da certeza da morte, mas não da de quando ela virá, vinte milhões de pessoas tentam precisar esse derradeiro instante todos os anos, com um milhão delas alcançando esse infeliz êxito de acordo com José Bertolote, autor de “Suicide and psychiatric diagnosis”. A pesquisa ainda aponta para o fato de que não são apenas os que tentam suicídio os que pensam em abreviarem suas vidas, mas que esta é uma pulsão presente em praticamente todas as pessoas. Por conseguinte, apesar de ser o suicídio o resultado de alguma doença mental, não considerá-lo em determinados momentos da vida revela, por outro lado, desequilíbrios não menos sérios. Pensar compulsivamente na morte sem, no entanto, deixar de vive é uma contraditória forma de saúde fundamental aos homens.

Segundo Bertolote, as duas das formas mais usuais de suicídio em todo o mundo são por envenenamento e por enforcamento, coincidentemente as mesmas que as dos índios brasileiros suicidas. Acabar com a própria vida é ato de quem não encontra mais vias de realização para os próprios desejos, seja por estes estarem bloqueados em virtude de fatores objetivos externos seja pela profusão subjetiva deles, o que os torna impraticáveis na contingência da realidade. De qualquer forma, é por acreditar não mais poder realizar o que deseja que uma pessoa deseja não realizar mais nada. Logo, os nossos índios devem estar padecendo dessa espécie sufocante de privação.

No sentido de entender a auto-aniquilação indígena, podemos considerar a urbe sócioeconômica brasileira como a primeira força a bloquear inexoravelmente os desejos e as necessidades desses cidadãos. Afinal, a ventura histórica do Brasil vem sendo a desventura sistemática dos seus verdadeiros nativos. Se entre os hiper civilizados que dispõem de uma cultura sintética&tecnológica para lidarem com seus problemas a taxa de suicídio é alta, não é difícil imaginar a angusta dificuldade daqueles que se encontram na contramão dessa mesma cultura. Tudo aquilo que não é indígena é, de certa forma, responsável pelo suicídio indígena.

Na antiguidade romana, bem como na nipônica, guerreiros derrotados em batalhas eram obrigados a cometerem suicídio, o que mostra um germe cultural ancestral associando suicídio à derrota, de ocidente a oriente. Os guerreiros nativos brasileiros, diante da incessante vitória “olho-grande” ocidental sobre os seus rasgados olhos orientais, não enxergam, por conseguinte, outro destino que não o de repetirem o antigo rito trágico, e “desaparecem-se” na “desaparecência” da viabilidade dos seus desejos. Queimar a mata para extrair minério ou plantar soja é o desejo branco em marcha constante que convida desumanamente os amarelos à força.

Se tivessem cedido ao trabalho escravo português desde o início desse país, como os negros africanos foram obrigados a fazer, bem como o lumpemproletariado europeu desembarcado aqui o fez por necessidade, talvez os índios desfrutassem hoje de um lugar na cadeia exploratória do sistema capitalista. Entretanto, esses nativos latino-americanos resistiram por quinhentos e poucos anos à desumanidade ocidental, e se suicidarem parece ser a última forma – kamikaze – que encontram na continuidade da batalha que Brasil adentro nunca deixou de ser travada contra eles. No entanto, se a invenção do suicídio, em um sentido, é o que faz o humano, o suicídio dos índios os coloca a o nosso lado na batalha dos desejos humanos em busca de não serem eternamente frustrados.

 

Rejuvelhecer

Berlim, terça-feira, quinze de julho: os vitoriosos jogadores alemães comemoram em palco aberto como adolescentes, cantando musiquinhas infantis e inclusive racistas. A multidão os ovaciona. Rio de Janeiro, mesma data: quatro senhores por volta dos seus cinquenta anos, caminhando juntos pela Nossa Senhora de Copacabana, todos sem camisa, musculosos como garotos de dezessete, cada um deles carregando um skate. Os garotões da terceira idade arrasam em sua promenade carioca. São Paulo, mesmo dia: cento e vinte colaboradores – adultos – da maior empresa de buscas na internet confraternizam em uma piscina de bolinhas coloridas. Grande alegria.

Poderíamos desconsiderar os exemplos acima e ainda assim realizarmos que o investimento na adolescência é um dos maiores objetos de consumo da nossa época. Pouco importa não ser mais adolescente, ou não sê-lo há muito tempo, o que interessa é insistir na adolescência como se ela fosse a única época digna da vida. É quase vergonhoso estar de fora dela. Academias de musculação, bem como clínicas de cirurgia plástica e de aplicação de Botox, são as novas fontes da juventude onde se busca ou permanência ou o retorno à época dourada que antecede a vida adulta. A felicidade, hoje, pede aparência e atitude juvenis.

Que prazer encontram os não mais adolescentes na imitação da adolescência? Qualquer resposta deve atentar para a periferia da maturidade. Platão já dizia que o jovem não reconhece o superior, somente o imita, porquanto não tem conhecimento da realidade, mas só de suas aparências. Logo, seguindo na lógica do filósofo, imitar a um adolescente é nada mais que imitar a uma imitação, ou seja, aparentar uma aparência. Onde estaria o prazer disso? Possivelmente na tentativa de esquecimento de algo que é constituinte absoluto do ser humano, isto é, a consciência da própria morte.

Por conseguinte, a que desejo fundamental o contemporâneo desejo de juventude eterna atende? Segundo Platão, o jovem é guiado por desejos que vêm de fora dele, mas que atendem a desejos que ele tem dentro de si, só que ainda reconhecidos. Aquele que deseja ser jovem novamente – ou eternamente -, portanto, deseja alienar-se dos seus próprios desejos e ser guiado por outros que não os seus; embora acredite sintomaticamente que o seu desejo é simplesmente o de ser jovem. Contudo, qual o gozo que a ignorância dos próprios desejos pode trazer? Que desejos que não os nossos prometeriam mais realização?

O adolescente tem na possibilidade de irrealização dos seus sonhos e esperanças o seu maior fantasma, e salvaguardá-los da derrota é uma estratégia promissora. Portanto, investir em desejos outros que não os seus lhes garante não fracassar naqueles que são os mais importantes, a saber, os seus. Platão colocou que a esperança do jovem não demora a bagunçá-lo, então ele prefere alienar-se dela a persegui-la. Um adulto, ao agir como um adolescente, embora acreditando que é a um corpo viçoso a alguns hábitos impertinentes o que ele realmente deseja, na verdade, está buscando proteção àquilo de mais caro a ele mesmo, ou seja, os seus próprios desejos – que, como todos os outros, pode ser que não se realizem.

Porém, a vida adulta, e mais ainda a velhice, são as fases da vida onde se enfrenta corajosamente a angústia da frustração que, em verdade, nunca deixou de nos acompanhar. “Há um inimigo maior ao homem do que a mudança, e esse inimigo é ele mesmo”, disse Platão; por conseguinte, fugir da arena da maturidade na transitoriedade inconstante da ágora é possível – ainda mais com a tecnocosmética atual -. Mas em que sentido isso aniquila o principal fantasma que é o de não realizarmos nossos próprios desejos? Ainda assim, mesmo que não os realizemos, novos prazeres sempre sucedem aos velhos, e é justamente isso que o jovem ainda não sabe, visto que ele só teve os primeiros.

Platão afirmou sabiamente que “Chegará um tempo no qual a frase ‘eu não tenho o direito de fazer o que eu quiser comigo mesmo?’ parecerá uma relíquia bárbara do individualismo”. Talvez tenha chegado esse tempo, pois o investimento na juventude eterna, além de ser uma quimera que em nada agrega valor ao produto, é a absoluta impertinência do sujeito em relação à Natureza. Somente um hedonismo ignorante e decadente pode acreditar na permanência artificial do que é verdadeiramente transitório. Nesse sentido, a propriedade da juventude pode ajudar o bárbaro em batalha, pois “O jovem é incapaz de entender o que é alegórico e o que é literal”, disse o pensador grego.

“O conceito de felicidade, para a juventude, é apropriar o todo a ela mesma” escreveu Platão. Podemos intuir a partir daí que a felicidade para um adulto, ou para um velho, deve ser a madura e assertiva apropriação de si mesmos ao todo, à Natureza, à plena existência compreendida no universo para além das suas fases iniciais. O vigor adolescente é sedutor, não resta dúvida, pois tem ímpetos de destruir regras e princípios, como a musiquinha racista entoada despojadamente pelos campeões da copa do mundo; embora esse vigor ainda não tenha nada melhor para colocar no lugar daquilo que destrói.

É preciso desacreditar de que a boa vida só acontece sob peles viçosas, em torno de músculos e rituais juvenis. Desejar o eterno retorno à adolescência, ou seja, à época em que mais se experimenta inadequação, é somente o sintoma da eterna inadequação que nos espreita atrás de cada nova idade, de cada nova fase da vida, de cada mudança do corpo. Deixar de ser adolescente é vencer tal sentimento e ao mesmo tempo tirar proveito dele. Do contrário, acaba-se como aqueles velhos skatistas sarados de Copacabana, “rejuvelhecendo” constantemente até morrer sem saber o que é a velhice, enfastiados com a repetição imatura de uma juventude perdida.

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Igreja “hackeada”

O Papa assumiu! O sumo pontífice disse ao mundo que 2% dos clérigos são pedófilos. É uma tremenda evolução o fato do chefe Católico não mais esconder ou se negar a falar de mundanidades em sua empresa. Entretanto, esse dado – apesar de imoral e criminoso – não deveria nos surpreender, visto que, no mundo, 2% das pessoas são pedófilas. Francisco, enfim, começa a informar ao mundo que a sua congregação não é tão diferente desse mesmo mundo caído ao qual ela prega.

Seguindo essa mesma lógica, os 13% de homossexuais dentre as pessoas do planeta também devem fazer pose entre os que seguem o Santo Papa. Porém, desses 13% gay ele ainda não falou. No processo de abertura dos hábitos da sua igreja ao público o argentino já assumiu de ilegalidades do Banco do Vaticano aos seus pedófilos. Porém, dizer que há, e quantos são os padres e bispos – e talvez até papas! – gays, parece ser algo bem mais sério e proibido para esta Igreja do que as assunções anteriores.

Apertando o parafuso da consonância entre Igreja e mundo mundano, haverá em ambos a mesma proporção de assassinos, traficantes, especuladores imobiliários, infiéis, mentirosos, etc.; e se assim for – amém! – em que um diferiria do outro? A grande diferença é que a Igreja conseguiu manter as aparências bem melhor até aqui. E de aparências ela entende, basta passar em revista os seus templos-palácios “maravilhosos”, ornados de arte&ouro, e as suas majestosas vestes “pré-dragqueenianas”.

Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, sai a notícia de que em escolas do interior de são Paulo a leitura dA Bíblia será obrigatória. E isso em um Estado que se diz laico. Somente “meu cu é laico!”, gritavam os manifestantes contra os gastos com a Jornada da Juventude de 2013 aqui no Rio. Eis que cai do céu “internético” a resposta para qual seria a diferença entre a igreja e os homens, feita acima. A diferença é que somente na Igreja podem os ladrões e/ou pedófilos e/ou gays serem obrigatórios tanto às criancinhas como aos demais.

Hoje em dia já vemos uma fumaça mais branca sair da chaminé do Vaticano aventando a possibilidade dos padres se casarem, de haver padres mulheres, e quem sabe um dia, do casamento gay entre eles. Isso sim seria a Igreja assumir plenamente a sua humanidade. Bem mais próxima das pessoas ela estaria, por certo. No entanto, proximidade em excesso pode revelar a todos que é precisamente a própria igreja que precisa dos seus fiéis para existir, e não eles dela.

Ao contrário do que A Bíblia – obrigatoriamente – empurra goela abaixo, foi o homem, ele mesmo, que criou Deus à sua imagem e semelhança, ao modo de uma funcional miragem dessemelhante. Por conseguinte, da mesma forma, a própria Igreja não é obra de Deus nem dela mesma, mas sim dos homens. Entretanto, ao mesmo tempo senhores e escravos de suas onipotências e onisciências, estes mesmos homens colocaram Deus acima das nuvens e a Igreja envolta em ouro e mistério; assim, a grande obra não seria facilmente solapada por eles próprios.

É o homem o dono do código fonte das suas Igrejas, não obstante, perdido há muito na imensidão da nuvem. Porém, como um dia esse “software” divino foi desenvolvido pelo próprio homem, e de acordo com suas necessidades humanas, basta um administrador um tantinho franciscano para que a própria Igreja seja “hackeada” de dentro para fora. E não é isso que Francisco vem fazendo ao mundanizar a divindade intocável de sua própria Igreja, ainda que ela, há muito, seja tão anacrônica quanto um “ICQ” ou um “Orkut”?

 

A TIRANIA DA DITADURA

Dezessete pessoas foram preventiva&temporariamente presas, e centenas agredidas pela polícia do Rio de Janeiro para que a final da copa do mundo se desse conforme os padrões FIFA. Passamos na sabatina de Blatter, porém, ao modo de repetirmos os velhos conteúdos da analfabeta (dis)funcionalidade brasileira. Toda indignação e repúdio a mais essa ação descabida do Estado é fundamental, porquanto resposta sustentável à tentativa de aniquilação dos direitos individuais e da liberdade de manifestação dos cidadãos.

Platão há muito nos disse que podemos curar certas desordens simplesmente dando expressão a elas, e os psicanalistas seguem corroborando com essa afirmação. No entanto, o sufocamento dessa liberdade pelas nuvens lacrimogêneas evidencia a preferência do Estado pelo vírus que ele próprio é em relação à cura de que necessitamos. A liberdade que pensamos ter, na verdade, não é liberdade, mas sim um produto artificial e inócuo oferecido pelo Estado. Nossa liberdade é apenas nominalmente livre.

Entretanto, em que medida tratar a violação de direitos ocorrida no Rio enquanto algo eventual – como as postagens e manchetes nos fazem pensar – contribui para a resolução do problema? Não seria mais produtivo e realista, apesar de extremamente angusto, assumirmos que nada de novo aconteceu, que a prisão inconsequente de uns e a opressão do resto é a mesma que há muito nos cerca? Afinal, é o tempo, todo ele, e não um de seus episódios, o feitor da realidade.

Encarar esse último golpe do Estado como somente mais dos seus atos, e não enquanto “O” ato que o Estado em si é, é, por conseguinte, distrair-se da raiz do problema e se ocupar com suas efêmeras flores podres. Anular as pessoas que o ameaçam, afinal, é a vida do Estado. Estamos historicamente cercados! Entretanto, intramuros, ainda há – e deve haver – algum espaço onde podemos ser nossos próprios mestres; pois, como nos perguntou Platão, “O que é suficiente quando a maioria permanece carente?”

Comumente colocamos o barbarismo antecedendo à civilização, mas, paradoxalmente, ele é a sua degradação, não seu início. Logo, as barbaridades a que todos assistimos online, e que alguns sofreram em loco nos arredores do Maracanã, são muito mais o desenvolvimento ou a conclusão de uma realidade que o início de outra. Platão e Aristóteles, há mais de dois mil anos, disseram que as muitas formas de civilização foram descobertas e esquecidas inúmeras vezes ao longo do tempo. Portanto, a prisão preventiva dos nossos dezessete, antes de ser surpreendente e eventual, deve ser encarada como a rememoração do movimento incessante do Estado.

Gritamos e chamamos pela democracia frente à opressão; contudo, para Platão, a democracia é o estado de individualismo e dissolução, onde o excesso de liberdade passa paradoxalmente pelo excesso de escravidão. E se é difícil enxergarmo-nos nesse quadro é por que os paradoxos de uma época são opacos a ela mesma, afirmou o filósofo, para quem a tirania é o fim natural da democracia. E não podemos aqui fazer um paralelo entre tirania e ditadura? A tirania nada mais é que a negação do governo e da lei. Por conseguinte, a violação da lei sofrida pelos dezessete, e o ataque desgovernado sobre os que se manifestaram em favor daqueles, é algo que atende pelos piores nomes de que um estado pode se predicar.

Os tipos de Estado que os homens até aqui foram capazes de oferecerem a si próprios são: a anarquia, ou seja, a ausência de governo; a monarquia, o governo de um só; a oligarquia, o governo de poucos; a aristocracia, o governo de muitos; a democracia, o governo da maioria; e por fim se coloca a tirania, interrompendo traumaticamente o círculo virtuoso que retornaria à anarquia, isto é, à experiência sustentável – temporária&preventiva – da ausência de governo e de poder.

Entretanto, os modos de Estado acima descritos não são de modo algum formas alienígenas que subjugam externamente os homens. Antes disso, são naturezas humanas fundamentais que se coadunam historicamente e, posteriormente, viram a realidade de que os homens, ainda que inconscientemente, verdadeiramente necessitam. As formas que nos governam correspondem às disposições dinâmicas das nossas necessidades individuais-coletivas ao longo do tempo. “Tal homem, tal Estado”, mantém Platão.

Embora seja difícil de responder à questão quando colocada psicanaliticamente – e por que não dizer platonicamente -, qual seria o desejo que nos trouxe ao limite espantoso no qual somos avassalados justamente por aqueles que elegemos sob a promessa de nos salvaguardar? Enquanto agentes do destino que sofremos, e donos daquilo que Estado algum pode controlar, ou seja, os nossos desejos, por que chegamos aqui, com dezessete terminantemente impedidos de se manifestarem em forma de um aviso tirânico a todos os demais?

Arrisco em dizer que é precisamente nessa tensão insuportável entre indivíduo e Estado – tensão que estamos sendo impedidos de manifestar – que reside a possibilidade de ampliação da democracia que doravante não mais nos atende. Nossa luta é a luta viva da democracia contra a decadência viva dessa mesma democracia, isto é, contra a tirania. Somente em um momento como este é que podemos restabelecer a virtude do ciclo que distribui o poder ainda mais às pessoas, o além-democracia. No entanto, o inimigo deste movimento é e sempre foi a tirania que insiste em manter o poder no circuito do vício.

Precisamos encontrar liberdade para ao menos podermos dizer ao Estado dos nossos direitos e desejos. E essa liberdade, não obstante, tem de ser buscada contra o mesmo Estado que se militariza contra nós. Por conseguinte, para encontrarmos tal liberdade, primeiramente precisamos desejá-la para além da pulsão momentânea latente às eventualidades presentes nas manchetes destes dias, mas sim como o objeto fundamental que estende o governo da maioria em direção do governo de todos, ou seja, da ausência de governo. Só assim retornaremos ao processo natural que nos levará a desejar algum governo novamente.

De acordo com Platão, só há unidade virtuosa em um Estado no momento em que um cidadão é tocado e todos os outros são imediatamente sensitivos a esse mesmo toque. Nesse sentido a presença massiva das nossas pulsões indignadas nas “timelines” que a todos reúne é positiva. Mas até que ponto nós sentimos de fato a sensibilidade do outro, e em que medida permanecemos “voyeurs” alienados? O filósofo grego disse que “uma política ideal só virá a ser quando um filho de um rei tornar-se um filósofo”, ou seja, um amante da sabedoria, não das suas próprias opiniões. E opiniões são apenas sombras da verdade; entretanto, são estas que guiam o tirano que, para Platão, é a sombra de uma sombra apenas.

Já os cidadãos são os corpos verdadeiros a partir dos quais as sombras das suas próprias opiniões revelam a superfície funcional do Estado. Nós somos a topografia acidentada da paisagem, e precisamos de liberdade para nos elevar à altura dos nossos próprios desejos e necessidades. A forçosa terraplanagem de um Estado em incontestável decadência sobre nós é a sua tentativa derradeira de levar-nos ao chão junto com ele. Sem a resistência dos nossos corpos ele cairá bem mais rápido. No entanto, fazendo peso sobre ele, cairá por terra mais rápido ainda.

 

Jeitinho Alphavela

O canarinho brasileiro virou um urubu anacrônico diante da tecnológica águia alemã. Até o último minuto do malogrado 1X7 que sofremos, acreditamos que o arraigado “jeitinho” nacional resolveria nosso problema. Não rolou. O poder dessa mandinga tática há muito instituída intrafronteiras é tão frágil quanto ineficaz. Vide a velocidade com que entendemos e aceitamos o fato de que não foi nenhum anjo da guarda germânico que garantiu êxito àquele time em campo, mas algo bem diverso disso.

Se recapitularmos honestamente a sensação geral que a nossa seleção deixou depois das partidas contra o Chile e Colômbia lembraremos dos comentários que ouvimos e fizemos, tais como: “se o Brasil pegar uma Alemanha ou uma Holanda, já era”. E não foi? No entanto, no pré-7X1 derradeiro a fé de que poderíamos vencer retornou pujante. Isso se deu, confessemos, pela irracionalidade de que tanto o “jeitinho” quanto o Deus, que tomamos por brasileiros, novamente realizariam mais uma das nossas necessidades.

No entanto, na evidência vergonhosa de que perdemos o “jeitinho”, bem como a salvaguarda daquele Deus nacionalizado, ficou claro, mais uma vez, que a nossa ancestral e pouco séria técnica de salvação é uma quimera inócua. Diante do trabalho sério, consistente e pragmático com o qual o futebol alemão venceu o Brasil e a Copa, caímos do velho jumento manco do “jeitinho brasileiro”. Imediatamente passamos a crer que é o modo laico e assertivo daqueles que talentosamente nos desclassificaram o caminho que, a partir de agora, nosso futebol deve trilhar.

O nosso “jeitinho” morreu? Claramente não: transmutou-se. Nós, os torcedores frustrados, reciclamo-lo agora contra a CBF e passamos a gritar em uníssono: mudem aí! Façam alguma coisa! Permanecemos tão alienados do envolvimento coletivo necessário à revolução do esporte nacional quanto somos em relação ao canteiro de obras político e social em que, há muito, se encontra nosso país. Oxalá desejássemos e nos envolvêssemos com a eficiência dos germânicos para além dos gramados.

Contudo, descobrir que existe alhures uma fórmula para o sucesso, e vociferar monocordicamente para que alguém outro a aplique sobre as nossas questões fundamentais, de forma alguma significa alcançar esse sucesso. É preciso o envolvimento extenuante com o cálculo e com seu desenvolvimento para que haja uma verdadeira apropriação da solução final. E esta, não obstante, assim como na matemática, não é independente do sujeito que a encontra. A solução é precisamente o próprio sujeito, porquanto este é o resultado genuíno do exercício de resolver os seus próprios problemas.

Ganhar a taça 2018, hoje, parece exigir a substituição do nosso “jeitinho” pelo sistemático modo alemão no futebol. Agora, ganharmos o Brasil de 2014 em diante, na coletiva disputa que travamos contra ninguém além de nós mesmos, tampouco dispensa a mudança desse maldito “jeitinho” que nos permeia, de estádios a aeroportos, de hospitais a escolas, de Alphavilles a “Alphavelas”. A Alemanha tem bons exemplos a oferecer, e não só no campo de futebol. No entanto, exemplos são para serem seguidos, e na busca de soluções outras que não as exemplificadas. E se o nosso “jeitinho” é tão teimoso, ele bem poderia teimar em seguir bons exemplos e deixar de se repetir improdutivamente.

Como temos Estado?

Depois da “season” padrão FIFA, na qual terminamos sem a taça, caímos noutra, só que em direção às urnas. Esta, no entanto, é uma temporada padrão BRASIL, e que depende diretamente de algo tão abstrato quanto concreto, isto é, do brasileiro. Diante da apatia em relação aos nossos partidos e candidatos, bem como da massiva intenção de votos em brancos e nulos nas próximas eleições, é de se perguntar se o brasileiro enquanto eleitor tem o padrão necessário para recuperar o troféu que nunca deixou de ser seu, a saber, o seu Estado.

Na obra “A República”, escrita no século IV a.C., Platão relaciona inextricavelmente cidadãos e nação afirmando que “As virtudes do Estado e as dos indivíduos são as mesmas”. Para os mais pessimistas a paráfrase adequada é: os defeitos do Estado e os dos seus indivíduos também se igualam. Isso para visualizarmos que a ficcional distância que estabelecemos entre cada um de nós e o país no qual vivemos serve, oportunamente, para fugirmos de uma responsabilidade que é somente nossa, ou seja, a de sermos o Brasil que só é através de nós; porquanto, segundo o filósofo grego, “As qualidades do Estado significam as qualidades dos indivíduos que a compõem”.

Todavia, a segregação maniqueísta do Brasil entre vítimas e corruptores, o que em termos de “vem-pra-rua-vem” significa cidadãos não representados e governantes não representantes, esconde o verdadeiro e angusto fato de que #somostodos, todos nós, não representados e não representantes a um só tempo. Nós e os nossos políticos somos feitos da mesma matéria e viemos do mesmíssimo lugar: eles são nós e nós somos eles. “Não há Estado que não o nosso próprio”, disse Platão; e de acordo com a definição kantiana, “o Estado é a ‘coisa pública”; por conseguinte, no Estado brasileiro, essas ‘coisas públicas’ somos todos nós!

São as disposições e capacidades individuais de cada brasileiro, ou seja, o estado pessoal de cada um, que, junto ao de todos os outros, resultam no nosso Estado. Oxalá fossemos vítimas de algo que não de nós mesmos! Contudo, “O homem é tão ruim quanto seus estados”, afirmou Platão; portanto, um Estado é tão ruim quanto os estados dos seus homens. Para o Black Block em estado de vandalismo, vândalo é o Estado; já para a célebre Elite Branca em estado de indignação, o Estado é indigno

O Estado brasileiro é, sintomaticamente, a predicação do estado em que se encontra cada cidadão no exato momento dessa predicação. Logo, para o Brasil ser um Estado melhor, melhor deve ser o estado que cada brasileiro propõem a si mesmo. Um Estado ideal, por conseguinte, exige cidadãos ideais. A que distância nós estamos disso? ”Pode a realidade atingir o ideal?”, pergunta-nos Platão; “A natureza não permite às palavras serem totalmente realizadas; mas possibilitam mudanças na presente constituição dos Estados”, indica-nos Sócrates.

No Estado ideal, segundo Platão, “Cada parte da alma individual, isto é, razão e paixão, serão harmonizadas sob influência de música e ginástica”. Se ele soubesse que o Brasil é o país do samba e do futebol diria que já temos tudo para ganharmos o jogo. No entanto, depois do inexpressivo “vaudeville” da abertura da Copa brasileira e dos vexames que sofremos em campo, resta-nos buscar a harmonia platônica e o Estado ideal nos nossos estados políticos individuais. Impossível? “O ideal deve sempre ser paradoxal quando comparado com as condições comuns da vida humana”, consola-nos Platão.

Eram os gregos g0ys?

Que os antigos gregos eram fortemente homossexuais é bem sabido. No entanto, mais difícil é compreender a virtuosidade dessa orientação entre eles. Até que ponto o envolvimento sexual e afetivo entre os homens era estruturantes àquela sociedade? Para avançar assertivamente nessa questão é fundamental deixar de lado todas as ideias que as épocas posteriores àquela antiguidade atribuíram ao homossexualismo, inclusive as atuais que objetificam hedonisticamente as relações afetivas sexuais, tanto as homo quanto as heterossexuais.

Para os helenos, o amor se dizia em muitos sentidos. O maior deles, o amor às coisas boas, elevadas e divinas da vida, eles chamavam “Ágape”. O amor fraternal, aquele dedicado aos amigos e à família, era dito “Philia”. Já o amor erótico e carnal, o da apreciação da beleza, que excede aquele em relação à amizade e à família, esse era “Eros”, ou seja, o amor erótico. Era este o tipo de amor que os homens gregos sentiam livremente uns pelos outros, pois, como escreveu Platão n“O Banquete”, obra que fala sobre amor, “se diz ser mais belo amar claramente que às ocultas”.

A virtude do amor entre dois homens estava, contudo, em sua assimetria: de um lado o amado, o mais jovem, e de outro o amante, o mais velho. Aquele se deixava amar enquanto este o amava. De um jovem não se exigia que amasse, pois em sua recência não poderia saber ele do que se tratava tão nobre e complexo sentimento. Portanto, desejar ser amado por um jovem era submeter-se aos seus sentimentos confusos e inconstantes. O amado era simplesmente para ser amado por nada além de sua beleza e viço. “Estais vendo como Sócrates amorosamente se comporta com os belos jovens, está sempre ao redor deles, fica aturdido”, disse o enciumado Alcibiades.

Do outro lado da relação estava o velho amante, conhecedor dos diferentes tipos de amor e capaz de se envolver sem confundi-los. Foi justamente essa qualidade que o jovem Alcibiades viu em Sócrates: “um homem tal como jamais julgava poderia encontrar em sabedoria e fortaleza”. Obviamente, não era beleza e vigor físico que o jovem amado procurava no velho amante. Tampouco “sabedoria e fortaleza” o velho encontraria no jovem. Citando o funk carioca: “ado-ado-cada-um-no-seu-quadrado”.

É nesse sentido que a relação entre o amante e o amado era plenamente virtuosa, pois nenhum exigia o que o outro não tinha nem poderia oferecer. Ao contrário, era precisamente o que já tinham em si mesmos o motor virtuoso dessa relação. Bem diferente do amor entre cônjuges e entre amigos que, devido à simetria pressuposta nesse tipo de relação e à perenidade que dela se espera, há sempre algo faltando ou sobrando. Diferente de Eros, que se basta com o que vê, Philia envolve mais coisas e solicita em demasia as pessoas.

Platão colocou que o “amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente”, ou seja, belo e digno é o amor livre que não transforma quaisquer características do amado em faltas frente ao império dos desejos do amante, e vice-versa. Portanto, o amor erótico entre os homens gregos lembrava do amor àquilo que já é, aqui e agora; bem como da efemeridade dos objetos de desejo. Porquanto o jovem amado, cedo ou tarde possuirá a sabedoria e a fortaleza que procurou no velho amante, e deixará de amá-lo. “Ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo [do jovem amado], que era o que ele [o velho amante] amava, este alça o seu voo”, disse Pausânias no banquete platônico.

Inclusive ao pensamento grego de forma geral o amor descompromissado entre sábios velhos e jovens pupilos foi fundamental, visto que os famosos diálogos filosóficos nos quais eles entravam, e cujos frutos nos chegam até hoje, necessitavam tanto da superioridade intelectual de uns quanto da inferioridade de outros. Os sábios, portanto, precisavam da falta de sabedoria dos seus pupilos para, além disseminarem a importante sabedoria, re-conhecerem o terreno virgem que outrora, neles próprios, resistiu a essa mesma sabedoria.

Para os sábios gregos, saberem o que é o não-saber, e perceberem como um saber acontece em um intelecto de quem ainda não sabe, era sabedoria de suma importância. Nesse sentido, os pupilos deveriam ser francos e desavergonhados em relação às suas ignorâncias, caso contrário, o terreno virgem estaria contaminado pelas suas vaidades pessoais. Por conseguinte, os jovens amados precisavam estar totalmente satisfeitos com que já possuíam, ou seja, beleza e viço, nada mais que isso; e essa tarefa cabia aos velhos amantes que, através do erotismo, louvavam essas mesmas qualidades em seus amados.

Foram as relações sócio-eróticas entre os homens gregos gerou aquela sociedade extremamente machista ou foi o contrário? Talvez, consoante à pluralidade de sentidos da palavra amor para eles, essas construções tenham se dado em muitos sentidos. Se por um lado os meninos “se voltam ao que é másculo, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência”, como disse Pausânias, por outro lado, então, “poder-se-ia pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não só o fato de ser amante como também o serem os amados amigos dos amantes”, conclui o convidado do banquete de Platão.

 

 

Arte Retórica Contemporânea

Antes de visitar a Bienal do MERCOSUL de Porto Alegre no final do ano passado, assisti na TV Educativa local uma matéria com os artistas da exposição falando sobre as suas obras. Apesar da minha incredulidade prévia em relação à arte contemporânea no que diz respeito à sua eficácia em atingir sublimemente todos os de fora desses “happy hours” curatoriais, os discursos dos artistas na TV a respeito dos seus próprios trabalhos me seduziram profunda e imediatamente. Quanta genialidade em suas ideias! Parti rumo a essa arte.

Entretanto, as mesmas “obras”, que nas palavras dos seus autores pareciam “primas”, falando por si mesmas em suas materialidades solitárias diziam muito menos – ou quase nada – do que quando na boca dos seus criadores. Foi inevitável perceber a decadência a que essa arte se expõe ao passar do mundo das ideias para o mundo material. Eu havia ficado muito mais satisfeito ouvindo sobre aquelas obras do que frente-a-frente com elas. Lembrei-me de Aristóteles, sobre os sofistas: “o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé”.

Realmente, os discursos daqueles criadores eram sim dignos de fé; no entanto, não as suas obras reais. Diante das “instalações”, e em busca do sublime que desejo na arte, convenci-me de que as verdadeiras obras primas eram as palavras dos artistas, muito mais que os amontoados de matéria – pouco expressivos – depositado nos pavilhões da Bienal. Mais ainda, a arte excelente daquelas pessoas, antes de ser a “visual”, era a da retórica; e esta, conforme afirmou Aristóteles na obra de mesmo nome, é “a capacidade de descobrir o que é adequado dizer a cada caso com o fim de persuadir”.

O filósofo grego dizia que em retórica “são três os aspectos a observar: volume, harmonia e ritmo. Aqueles que empregam estes três aspectos arrebatam todos os prêmios”. Bingo! O que outrora fazia parte física “das” obras de arte, hoje migrou para o discurso “acerca” delas, e em benefício exclusivo desses artistas. Entretanto, a arte na forma de discurso retórico padece da mesma limitação apontada por Aristóteles, visto que a retórica “não apresenta relações da parte para o todo, nem do todo para a parte, nem do todo com o todo, mas apenas da parte para a parte”; e nesse caso: do artista para o próprio artista.

“Porque todos são amantes de si mesmos, todos têm necessariamente por agradáveis as coisas que lhes pertencem, por exemplo, as suas obras e as suas palavras”, escreveu Aristóteles. No entanto, é somente através das palavras, ou seja, retoricamente, que o artista pode escapar da contingência da sua ideia realizada em obra, e ultrapassá-la em direção ao “agradável” absoluto; pois, como disseram os sofistas através das palavras do pensador heleno, “amamos os que elogiam as boas qualidades que possuímos, especialmente aquelas que temos receio de não possuir”.

Uma das táticas de sucesso da retórica é investir no rococó discursivo, como exemplificou Aristóteles: “não empregar ‘círculo’, mas ‘superfície equidistante do centro”; ou, contemporaneamente, “experiência de percurso aberto” para esconder do público o fato de que não há liame algum unindo as obras que ele vê. O que agrada aos ouvintes de um mestre retórico “é ouvir falar em termos gerais daquilo que eles tinham pensado entender antes em termos particulares”, colocou o autor grego. Entretanto, mesmo o discurso atingindo facilmente o universal, a obra de arte, diante do espectador, é absolutamente particular e dada; e é aí que o discurso cai por terra.

De volta à Bienal do MERCOSUL, as obras que lá estavam expostas infelizmente depunham contra a maravilha que eram enquanto nas palavras dos seus autores. Caso ficassem apenas no sublime discurso retórico dos seus criadores elas teriam muito mais poder, pois “as emoções são as causas que fazem alterar os seres humanos e introduzem mudanças nos seus juízos”, disse Aristóteles; não a espera por emoções que o silêncio presencial daquelas obras de arte impunham, cada uma delas, ao longo da insípida promenade contemporânea.

O fato de os artistas visuais ainda terem de produzir instalações que representem suas ideias e, principalmente, eles próprios – afinal a celebridade é a obra prima do nosso tempo – parece ser um ranço ancestral provindo de épocas cujos artistas produziam obras de arte frutos de algo hoje esmaecido, a saber, a virtuosidade. Michelangelo não ganharia o mundo apenas falando da sua Pietà; porquanto “se uma coisa é feita sem arte e sem preparação, mais possível ainda o será com arte e com preparação”, colocou Aristóteles, para quem “as coisas que são conforme a verdade são preferíveis às que são conforme à opinião”.

Já a arte contemporânea, obra da superfluidez imaterial do mundo hiper informacional, seria melhor que se desvencilhasse de vez dessa rançosa materialidade redutora que insiste em acompanhá-la. “Todos os seres humanos sofrem ante o espetáculo de suas próprias fraquezas”, aponta-nos Aristóteles; por conseguinte, a fraqueza do artista contemporâneo parece estar nessa impossibilidade de materializar, à altura, suas sublimes ideias. A maior força deles, atualmente, parece estar na capacidade de fugir, através do discurso, da distância entre criatividade e virtuosidade presente – estruturante? – na arte contemporânea.

 

Quarta-feira de Beges

Nessa quarta-feira nada verde&amarela o Brasil tem um assunto que é só seu: deixamos de ser – ao vivo, em cores e em HD, para o mundo todo e, principalmente, para nós mesmos – o país do futebol. Agora, somos apenas um como tantos outros onde simplesmente se pratica esse esporte. Acordamos no Brasil que restou: aquele pobre, caótico e atrasado que se quer rico, em ordem e em progresso. Oxalá essa vigília dolorida e indesejada – em quatro anos afastada de uma possível recuperação do histórico título perdido – possibilite ao Brasil ser tantos outros quantos precisam os seus brasileiros.

 Merecemos um país melhor em muitas outras coisas que não somente no seu próprio ópio; sem com isso desdenhar da importância da nossa cachaça, é claro. Mas Hume já dizia que é “feliz aquele com cujo caráter as circunstâncias estão em acordo; porém, mais excelente é aquele que pode levar seu caráter a entrar em acordo com não importa qual circunstância”. Por conseguinte, é com essa dura realidade padrão Brasil, que estaria reluzentemente alienada sob os quilos de ouro da taça que não vai ser nossa, que devemos levar nossos caráteres a entrarem em acordo. Afinal, o que nos resta?

 Todo um Brasil precisa ser inventado fora das arenas padrão FIFA e sobre o nosso verde&amarelo desbotado. Ainda bem que “o homem é uma espécie inventiva”, como afirmou Deleuze. Entretanto, esse “todo” é apenas a coleção de suas partes, e estas, cada um dos brasileiros com suas reais necessidades. E já que “a necessidade é natural, mas a satisfação da necessidade só pode ser artificial, industrial e cultural”, como nos advertiu Hume, cabe-nos agora fazer do Brasil uma máquina azeitada que funcione em benefício das suas centenas de milhões de engrenagens.

 Manteremos com o futebol a velha paixão de sempre? É bem provável que sim, mas devemos tirar dessa derrota semifinal uma lição mais importante: a de sermos apaixonados inclusive por aquilo que nos envergonha. Tal relação seria bom que trouxéssemos a outro campo, o da política, que tanta decepção nos causa, e que por isso mesmo dele nos alienamos vergonhosamente. Todavia, aponta Deluze, “não basta que a paixão se imagine; é preciso que a imaginação se apaixone ao mesmo tempo”. Logo, mais do que só desejarmos um país melhor, devemos nos apaixonar por tal imagem, como certamente faremos por uma seleção melhor; só assim não desinvestiremos da imagem desejada.

 Não somos habituados a amar o que não paga esse nosso sentimento com a mesma moeda; vide a raiva e a incredulidade sobrevindas após o apito final no Mineirão, bem como as muitas intenções de votos em branco nas próximas eleições. Porém, como escreveu Bergson, “os hábitos não são da natureza, mas o que é da natureza é o hábito de contrair hábitos”. Portanto, não há nada de sobrenatural em nos habituarmos ao envolvimento politico mesmo quando os nossos políticos não se envolvem verdadeiramente conosco; da mesma forma como há um século somos habituados a permanecer fiéis ao futebol mesmo nas – muitas – vezes em que perdemos.

 Da midiática disputa entre as seleções na Copa à construção política e social do nosso país, “quantos conflitos menores não é necessário resolver quando se passa do devaneio erradio ao vocabulário racional?”, pergunta-nos Gaston Bachelard. Exigir assertividade tática de onze solitários brasileiros em campo certamente é mais fácil do que exigi-la de nós mesmos, os duzentos milhões no campo de batalha subsistente sob o calendário da FIFA. O que fazer nesse vazio deixado pela nossa seleção que, não obstante, é pleno de um país inteiro? Respondemos com Deleuze: “crer e inventar, eis o que faz o sujeito como sujeito”.

 O nosso carnaval fora de época chega à sua angusta “Quarta-feira de Cinzas” vespertina, ainda que estejamos todos “bege pantone-7×1. Isso por que, de acordo com Hume, “nosso sentido do dever segue sempre o curso habitual e natural de nossas paixões”. Entretanto, se invertermos a afirmação do filósofo, e nos colocarmos apaixonadamente no sentido do nosso dever, seremos menos derrotados na partida que é nossa e à qual estamos inalienavelmente sujeitos. Afinal, concluindo com Deleuze “o sujeito é essa instância que, sob o efeito de um princípio de utilidade, persegue um alvo, uma intenção, organiza meios em vista de um fim”. E que fim melhor ao Brasil que um Brasil melhor?

Deuses eletrodomésticos

Em um dos seus muitos sentidos, a palavra “deus” significa “tudo”, e sob uma visão materialista, esse “tudo” é a soma absoluta do que há no universo, ou seja, corpos, planetas, estrelas, galáxias, bem como os espaços vazios, distâncias, forças, movimentos e, principalmente, as relações que regem tudo isso. É nesta última que deus melhor se oferece a nós no sentido de ser personalizado humanamente, tais são as nossas relações com as divindades. “Estou sozinho, portanto penso no ser que teria curado as minhas solidões”, disse Gaston Bachelard ao perguntar-se: “porque haveria meu devaneio de conhecer minha história?”

Por conseguinte, para corporificar substancialmente essa construção improvável, precisamos repetir, histórica e insistentemente, que “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança” para, sintomaticamente, ocultarmo-nos que fomos nós mesmos que o criamos à nossa própria imagem e semelhança. Talvez um tanto melhor, afinal, para Bachelard, toda “imagem nos fornece uma ilustração da nossa admiração”, nesse caso, admiração por nós mesmos. Entretanto, toda obra carrega demasiadamente o seu criador, e os nossos deuses não escaparam de ser preenchidos de necessidades, paixões e julgamentos humanos.

Rousseau afirmou que teria sido melhor a humanidade manter-se em um “meio-termo entre a indolência do estado primitivo e a petulante atividade de nosso amor próprio”; pois só assim não precisaríamos ter inventado nossos deuses, a exemplo dos demais animais. Mas já que “toda criação decorre de um nirvana psíquico”, como apontou Henry Benrath, “imaginamos mundos em que nossa vida teria todo o seu brilho, todo o seu calor, toda a sua expansão”, completa Bachelard. Desejando civilizadamente abandonar aquele primitivismo apontado por Rousseau e, não menos que isso, dissimular o nosso excesso de amor próprio, criamos deuses que nos antecedem em eternidade e nos excedem em qualidades.

A grande qualidade humana, a saber, a criatividade, inventou algo de mais primitivo e omnipotente que ela mesma, e chamou-a de “tudo”, de Deus. E “não é a obra”, questiona Bachelard, “um perdão para aquele que viveu mal?” E viver mal, por acaso, não é a conclusão a que se chega quando percebermos que não mais conseguimos resolver uma questão fundamental? Humanidade é nome que demos a essa contingência, e o negativo dessa angusta consciência é o desenho das nossas divindades, todas incontingentes, eternas e supremas: fiéis imagens do tamanho que desejamos a nós próprios.

A partir de então, os deuses são os que podem oferecer ao homem tudo aquilo que ele mesmo não pode se dar, mas ainda assim deseja a si próprio; e, principalmente, negar ao homem aquilo que ele deseja ao mesmo tempo em que sabe que tal desejo é melhor não se realizar. Precisamos de algo ou alguém além e acima de nós mesmos para nos dizer sim e não quando nós não podemos fazê-lo. Importunamos vergonhosamente as divindades com nossa humanidade vergonhosa visto que as tomamos como eletrodomésticos da nossa felicidade, não obstante tendo de amá-las e respeitá-las para sermos ouvidos e atendidos.

Talvez por conta do viés filosófico, no budismo toma-se apenas temporariamente a divindade-mor utilitariamente. Buda sustém-se como imagem dos ensinamentos supremos e desejados, conquanto apontando para a efemeridade de qualquer ensinamento e para a insustentabilidade dos próprios desejos. Entretanto, a maior sabedoria do budismo, e que o torna plenamente sustentável, está no seu último ensinamento às portas do nirvana, e este diz que, a partir dali, tudo o que foi aprendido e amado, inclusive o próprio Buda, deve ser deixado para trás. A felicidade suprema, portanto, dispensa os Deuses.

Mais adequada ainda era a relação para com as divindades ensinada pelo filósofo grego Epicuro no seu jardim de amigos. Para ele, os deuses existiam sim, eram perfeitos, plenamente felizes e imortais, e só tinham estas supremas qualidades porque não davam bola alguma aos homens. O filósofo dizia que chamar os deuses em nosso benefício era desrespeitá-los e diminuí-los, pois se porventura atentassem às nossas imperfeições, infelicidades e mortalidade, a esfera divina se contaminaria pela humana e se tornaria menos perfeita, menos feliz e menos imortal, servindo-nos, consequentemente menos ainda.

Portanto, para Epicuro, a melhor forma de lidarmos com nossos deuses é deixando-os em paz desde sempre, afastando sabiamente deles a nossa carente humanidade a fim de preservar-lhes suas bem-aventuranças eternas. Os diminuiremos, certamente, pedindo-lhes que se atenham à nossa mundanidade imperfeita. Além do que, eles estão completamente entretidos com as suas perfeições e com eles próprios, por isso, perfeitos. Segundo o filósofo, devemos viver como se fôssemos nossos próprios deuses, entretidos com o que temos de perfeito e de feliz, não dando bola para as nossas carências, pois são justamente estas as que nos tornam demasiado humanos.

Deus é uma obra, por certo, mas como escreveu Lévi-Strauss, “o homem só cria algo verdadeiramente grande no princípio”, a partir daí só há a decadência, a não ser que a deixemos em paz, intocada e alienada de nós mesmos. Carregando-a conosco, carregamo-la de nós mesmos. Se “deus” é de fato “tudo”, ele é a soma de todas as partes, e estas, somos nós. Só haverá um deus, portanto, se cada uma das partes agir como se fosse um ela mesma, e assumindo necessariamente que o supremo é somente a fantasia do ínfimo, pois, conclui Bachelard, “o devaneio é esse estado simples em que a obra tira de si mesma suas convicções, sem ser atormentada por censuras.”

 

Cobaias de Zuckerberg

Nessa semana foi divulgada uma experiência que o Facebook fez com 700 mil de seus usuários sem o conhecimento nem o consentimento deles. Metade deles recebeu somente postagens positivas nos seus “feeds”, enquanto a outra metade, negativas. Cada um dos dois grupos, depois do teste, seguiu postando e se envolvendo com material de mesma qualidade da experimentada nele. O site fez 350 mil pessoas mais felizes e, em mesmo número, mais tristes, sem que nenhum deles soubesse dessa manipulação que, segundo a empresa, trata-se de pesquisa para testar novos produtos. Até aqui, os produtos testados estão sendo os próprios usuários.

Somos os produtos-mercadorias do Facebook, e devemos estar tristes ou alegres conforme a necessidade dele, não mais de acordo com as nossas. “Quando uma nova forma de vida social surge, derrubam-se os velhos deuses”, disseram Adorno&Horkheimer; e, nas mãos de Zuckerberg, aquele deus que designava nossos sentimentos, ou seja, nós mesmos, é mercadologicamente derrubado. Por conseguinte, no Facebook, econômica e culturalmente “os homens tornam-se uma espécie de material, como é a natureza inteira para a sociedade”, como já haviam apontado os filósofos alemães, para quem “as particularidades do eu são mercadorias socialmente condicionadas, que se fazem passar por algo de natural”.

Ao equalizar sorrateiramente os sentimentos e as tendências dos seus usuários, o Facebook assegura-se de um mercado consumidor ainda mais alienado das próprias necessidades. Da publicidade Zuckerberg pescou o essencial: criar uma situação na qual desejamos exatamente aquilo que ele precisa que desejemos; e consoante à afirmação de Adorno, “o aparelho econômico já provê espontaneamente as mercadorias dos valores que decidem sobre o comportamento humano”. Logo, nos nossos “news feed” facebookianos, esse vil estratagema capitalista é perfeitamente dissimulado sob as “selfies” e as opiniões dos nossos amigos.

O que Facebook quer é a mesma coisa que a igreja cristã e os psicanalistas já queriam dos seus seguidores, isto é, o conhecimento e o controle sobre aquilo que há de mais íntimo neles, ou seja, seus sentimentos. No antigo confessionário, secreta e seguramente os indivíduos ofereciam seus pensamentos e sentimentos à análise do padre. A psicanálise sintomaticamente ampliou e capitalizou o confessionário, Hoje, contudo, confessamo-nos virtualmente nas “timelines” que não guardam segredo algum – pelo contrário, é para que sejam públicos que publicamos nossos pensamentos e sentimentos. Isso “porque os indivíduos não são mais indivíduos, mas sim meras encruzilhadas das tendências do universal”, contribuem Adorno&Horkheimer. Assim, Mark domina o mundo.

O Facebook analisou secretamente as ações dos seus usuários, manipulou-as, e quando finalmente a estratégia é descoberta, ele reabsorve a reação das pessoas em relação à sua ação indevida para, então, retornar ao laboratório com mais propriedade. Afinal, conforme escreveu Adorno, “a falta de consideração pelo sujeito torna as coisas fáceis para a administração”. Na natureza zuckerberguiana nada se perde, nada se cria, tudo se capitaliza! E porque não dizer: se canibaliza? Sim, trata-se de um canibalismo rede-social que se alimenta de sua própria matéria, ou seja, nossos desejos, pensamentos e sentimentos. Essa autofagia potencializa-se no fato de, segundo Adorno, “o sujeito recriar o mundo fora dele a partir dos vestígios que o mundo deixa em seus sentidos”.

“Todo gozo é um abandono de si mesmo a uma outra coisa”, disseram Adorno&Horkheimer. Por consequência, a tática facebookiana subversivamente apraz a seus seguidores no sentido de que “a decisão que o indivíduo deve tomar em cada situação não precisa mais resultar de uma dolorosa dialética interna; as decisões são tomadas pela hierarquia, pelo esquema da cultura de massa”, colocaram os dois pensadores. Isso se dá, segundo eles, porque “a regressão das massas, de que hoje se fala, nada mais é senão a incapacidade de poder ouvir o imediato com os próprios ouvidos”, e de nos entregarmos cegamente às mediações objetificadoras em toda e qualquer interação a que nos propomos.

Os dois filósofos da Escola de Frankfurt há muito nos alertaram de que “o próprio acaso [já] é planejado; ele serve como álibi dos planejadores e dá a aparência de que o tecido em que se transformou a vida deixa espaço para as relações espontâneas e diretas entre os homens”. No entanto, acreditamos piamente que o acaso a Deus pertence e que as relações “espontâneas entre os homens” pertencem aos homens e às suas espontaneidades. A fortuna de Zuckerberg ri da ingenuidade de seus mais de um bilhão de usuários mundo afora. O ser humano, contudo, “só se reencontrará consigo mesmo”, dizem Adorno&Horkheimer, “quando renunciar ao último acordo com esses inimigos e tiver a ousadia de superar o falso absoluto que é a dominação cega”. 

No vernissage com Nietzsche

O que é a Arte? Pergunta difícil de responder. No entanto, um questionamento mais simples é possível: o que é “essa” arte? Esta dúvida me assaltou ao ver a obra de Tracey Emin, “My bed” – uma cama desfeita, com lençóis embolados e sujos, roupas íntimas, guimbas de cigarro, garrafas vazias, comprimidos e camisinhas usadas – brilhar ao ser vendida por mais de 10 milhões de Reais. “É preciso ser filósofo, ser profundo até, para sair desse excesso de luz”, disse Nietzsche, porque “não há superfícies bonitas sem profundezas assombrosas”.

 Na nossa época “selfie”, não é de se espantar que o sentido que mais legitimou valor à milionária cama bagunçada tenha sido o de ser um autorretrato da artista. Sem dúvida, nem beleza nem virtuosidade colocaram “My bed” na berlinda artística&econômica mundial, visto que essa é uma arte ao modo de não ser propriamente Arte; coisa que qualquer um de nós já faz ao não limpar e arrumar nossas camas. Todo adolescente já é esse artista – crianças “arteiras”. A grande diferença está em que, hoje, artista é aquele que ganha 10 milhões por isso. Logo, Arte é fazer dinheiro!

 A sobrevaloração “dessa” arte, obra prima daqueles que orbitam em torno dela, dá-se, talvez, porque as pessoas em geral não fazem mais nada em suas vidas além de ganhar e gastar dinheiro. Por conseguinte, o retorno à arte não encontra outra via que não a do dinheiro mesmo, passando ao largo em relação ao estágio do sublime. A arte contemporânea, infelizmente, não mais se debruça sobre virtuosidade e beleza, mas sim sobre o valor abstrato do capital e sobre o valor relativo das relações pessoais. Vide a insipidez humana e a pujança econômica desses vernissages: as fogueiras das vaidades de Tom Wolfe!

 Impossível não enxergar no anacronismo crítico de Ferreira Goulart em relação à arte contemporânea algo de avant-garde; ainda mais nas palavras de Schopenhauer: “o indivíduo sempre faz bem em ficar atrás de sua própria época quando vê que ela está retrocedendo”. A arte clássica era muito maior do que as pessoas, de uma beleza e virtuosidade sobre-humanas. Na modernidade, científica e tecnologicamente a arte desceu ao nível do homem. Já a arte contemporânea, na esteira da decadência, insiste em ser menor do que as próprias pessoas; entretanto, sintomaticamente valendo muito, muito mais do que elas.

 Nietzsche, no babilônico vernissage contemporâneo, percebe novamente que “o excitado tem medo do sublime, o cansado se aborrece com o belo. De resto, o sublime, quando é separado do belo, torna-se idêntico ao feio”, tão feio quanto a cama fedorenta de $10 milhões. Afinal, por que “My bed” vale tanto? Quem comprou a peça certamente enxerga numa cama desarrumada algo de além-mundo, de sublime. Provavelmente, esse indivíduo nunca arrumou sua própria cama, sempre refeita quando a ela retorna. Precisa, portanto, gastar uma fortuna para, enfim, ter uma cama eternamente escangalhada. Oxalá suas serviçais não a refaçam inadvertidamente…

 O que é “essa” arte? Temos, nós, que não a fazemos nem a compramos, de responder a essa pergunta, porquanto “um instrumento não pode criticar sua própria utilidade”, afirma Nietzsche. Segundo o filósofo, “para ver as coisas por completo, o homem precisa ter dois olhos, um do amor e outro do ódio”; logo, os que se seduzem completamente por “essa” arte não podem saber o que ela é. Apenas através de uma complementar relação de ódio, de distância proposital, pode-se saber o que é “essa” arte; e para isso, Nietzsche nos avisa que “não se deve partir de estados estéticos e outros semelhantes; estes são resultados tardios, assim como os artistas”.

 No vernissage atual Nietzsche diz o mesmo que nos do século XIX: “os artistas não são homens de grande paixão: falta-lhes a vergonha perante si próprios e a vergonha perante a grande paixão”. Essa falta encontra espaço na frase de Goethe: “o gênio está em relação com seu tempo por meio de uma fraqueza”. Por conseguinte, qual a fraqueza dos nossos gênios artísticos atuais? A grande paixão a si próprios refletida nos cifrões que recebem? A que distância estão eles da angusta pergunta: o que é a Arte? Contudo, “é necessário que se compreenda a arte; é preciso conseguir ver além dela; se ficarmos dentro dela, não a entenderemos”, conclui Nietzsche ao abandonar a exposição.

# h a s h t a g s

O símbolo “#”, cujo nome técnico é octothorpe, seguido de uma palavra qualquer forma a hashtag que, inicialmente, servia como indexador de hiperlinks. Porém, nas mãos da nossa sociedade “hiper internetizada”, a hashtag tornou-se um portal que reúne pessoas em torno de interesses comuns. De função objetiva e informática, as # tags converteram-se em virais agregadores subjetivos às palavras que, no mundo digital, são sistematicamente dessubstancializadas. Contudo, a substituição generalizada das construções linguísticas tradicionais por tais simplificações oportunas ameaçam a Língua tanto quanto os SMSs e os Chats, produzindo uma nova espécie de analfabetos funcionais, só que digitais.

Em 2007, o Nerd do Google Chris Messina usou pela primeira vez a hashtag no twitter; mas foi nas manifestações pró-democráticas iranianas de 2009 – # iranelection – que a inovação ganhou definitivamente o mundo. A força gravitacional dessa encenação linguística protagonizada pelo hashtag atende, citando Nietzsche, ao “sentimento da imensa distância e do imenso vazio perante nós: e a engenhosidade de todas as pessoas consiste em sobrepor-se a este terrível sentimento de deserto”. A # tag evidencia “algo para o qual você precisa voltar sua atenção agora, neste momento, e que você pode se envolver”, coloca Ruth Page, pesquisadora de mídias sociais e linguagem. Sobre o # iranelection de 2009, o que pode ser dito, com certeza absoluta, é que o mundo das hashtags foi realmente ampliado. E o do humano?

A hashtag, quando brilha nos nossos displays digitais, incita subconscientemente a duas coisas: olhe para isso e compartilhe, agora!; porquanto transforma poucos caracteres em um slogan de potência memética incalculável. A força dessa expressão transcende as plataformas virtuais, impondo-se como uma nova cultura discursiva, inclusive encontrando espaço nos encontros presenciais, com as pessoas sobrepondo os dedos e criando hashtags materiais, através das quais se comunicam breve e rede-socialmente referenciadas. Nietzsche nos diz que “o homem demora muito para descobrir como o mundo é complicado. A princípio, ele o imagina muito simples, ou seja, tão superficial quanto ele próprio”, e através das # tags podemos seguir surfando nessa superficialidade.

Apesar de as hashtags, atualmente, serem revestidas de ironia e preenchidas de metacomentários, todos subjetivamente claros a quem as escreve, quem as lê “não acredita objetivamente nelas, pois o que verdadeiramente foi pensado está contido na ‘#”, alerta o linguista computacional Jacob Eisenstein. Aí, esse tipo de comunicação encontra uma espessura de existência menor do que aquela apontada acima por Nietzsche, visto que, para o filósofo, “as coisas são apenas os limites do homem”; portanto, um símbolo a mais, nesse caso a hashtag, limita o homem mais que o liberta. E aqui, não é demais lembrar que em português o “#” é chamado de “cerquilha”, e essa palavra carrega consigo uma ideia muito precisa.

O octothorpe, a saber, o “#”, tem sua própria história, servindo aos homens, aqui e ali, ocasionalmente, mas servindo-se deles absolutamente, pois sua existência é como a de um vírus, cuja meta principal é reproduzir-se e, como todo vírus, aniquilar seu hospedeiro – não lhe oferecer melhorias offline. . Todavia, sua existência é como a de um vírus, cuja meta principal é reproduzir-se e, como todo vírus, aniquilar seu hospedeiro; e não lhe oferecer melhorias offline. Linguisticamente, já estamos ameaçados! Um aforismo de Nietzsche diz que “para as plantas, o mundo inteiro é feito de plantas, para nós, de homens”; logo, para as hashtags, o mundo inteiro é feito delas próprias. Em espanhol, o “#” é chamado de “almohadilla”, ou seja, almofadinha, que bem pode simbolizar o conforto que as # tags proporcionam a quem quer dizer muito mais do que escrever. Entretanto, essa arte já é dos poetas, plena há muito, sem “hashs” nem “tags”.