54.501.118 + 1 golpes sob a “Ponte para o futuro”

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Foto: Roberto Stuckert Filho – Fotos Públicas

O novo golpe da velha oligarquia brasileira contra a presidenta democraticamente eleita, que, hoje, 12 de maio de 2016, afasta-a oficialmente do seu cargo por seis  meses, não faz de Dilma Rousseff a maior vítima desse momento farsesco. A atual senhora, que quando jovem foi torturada pela ditadura militar por lutar pela democracia, outro destino não terá senão a absolvição histórica. As maiores vítimas, na verdade, estão antes e depois dela: em uma ponta, os 54.501.118 de cidadãos que votaram em Dilma e no seu projeto de país, e, na outra, a própria democracia. Eu, cidadão brasileiro que votei em Dilma, não tenho como deixar de pensar e sentir que o golpe é contra mim.

Se em 2104 o meu voto nas políticas de distribuição de renda e de inclusão social foi vitorioso, e deveria ser respeitado até 2108, o impedimento desse projeto de país  por golpistas que pretendem fazer justamente o contrário é um atentado pessoal, no entanto nas vestes de uma manobra democrática. O pior de tudo é que, hoje, há no mínimo 54.501.118 vítimas como eu. E os algozes dessa violência são, de um lado, golpistas abstratos, tais como: o capital ele mesmo, a velha oligarquia brasileira, o PMDB, o PSDB; e, por outro, golpistas concretos, quais sejam: Michel Temer, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, mais 367 deputados federais e 55 senadores que votaram pelo afastamento de Dilma.

Os oligarcas golpistas, essencialmente reacionários, ilegitimamente deram um golpa porque não mais suportaram a evolução pela qual passou o Brasil nos últimos 13 anos, desde que Lula e o PT chegaram ao poder. Acostumada com privilégios históricos, a elite tupiniquim finalmente conseguiu viciar a democracia a ponto de ela, paradoxalmente, ser capaz de dar cabo de incontestáveis virtuoses sociais, como por exemplo, a valorização do salário mínimo e a universalização do acesso ao ensino superior. O golpe encerra precisamente esse projeto de país: no lugar do melhor para a maioria, o melhor para quem sempre teve mais do que a maioria. Em suma, a retomada e a radicalização da desigualdade social que vinha sendo amenizada pelos governos petistas.

Intrigante é o nome do projeto que a elite reacionária e golpista quer para o Brasil: “Ponte para o futuro”. Só mesmo que não consegue transpor o passado em direção ao futuro com horizontalidade precisa de uma “ponte” entre estes dois. A metáfora da ponte é a assunção de que para os reacionários há um abismo a separá-los do futuro. E para não precisarem trilhar o desafiador presente em toda sua complexidade e diversidade, pulam-no mediante a construção de uma “ponte” que dá acesso privilegiado do passado ao futuro. O problema é que o presente é o chão não só dos quase 55 milhões de eleitores de Dilma, mas de 200 milhões de brasileiros que ficarão debaixo dessa ponte golpista vendo a elite desfilar vitoriosa a manutenção do seu velho modus operandi.

Desde a primavera brasileira de junho de 2013 muito de fala na tal crise de representatividade, que, entretanto, até aqui ainda figurava assaz abstrata. Agora, porém, ela se mostra mais concreta do que nunca, amargamente concreta aliás: centenas de representantes políticos democraticamente eleitos, com nomes, rostos e partidos bem definidos, que descaradamente representam não a manutenção dos interesses populares que os elegeram, mas apenas os seus interesses pessoais e partidários. O golpe representa espetacularmente a péssima qualidade da representatividade dos nossos políticos; um suspeito de tráfico internacional de droga, outro acusado de ser dono de contas ilícitas no exterior, e a maioria deles investigados por receberem propinas milionárias. Destruindo a democracia, os “representantes” golpistas constroem a “ponte” que os aliena da Lei que, não obstante, deveria valer para todos, indiscriminadamente.

“Corruptos querem depor uma presidenta honesta” é frase que corre desde a boca de Dilma às manchetes dos mais renomados jornais internacionais. Oxalá o teor dessa declaração não cesse de repercutir não só nesses seis meses de afastamento ilegítimo que a presidenta enfrenta, mas, principalmente, história adentro, sendo Dilma deposta definitivamente ou não. Que a injustiça que Dilma sofre hoje, que ela tem dignidade suficiente para declarar abertamente em alto e bom tom, de fato faça história. O futuro, que nunca precisou de ponte alguma para se conectar com presente, certamente agradecerá essa memória.

E o que é importante não esquecer é que Dilma está sendo tirada do poder para que a elite reacionária possa levar o passado adiante mediante a sua natimorta  “Ponte do futuro”. Todavia, afastada, Dilma em outro lugar não está que no cru chão do presente, desapoderada, certamente, porém, absolutamente horizontalizada com no mínimo os 54 milhões de cidadãos que a elegeram e que tiveram seus votos jogados no lixo pela farsa jurídico-política de algumas centenas de oligarcas golpistas. A “ponte” deles, mesmo que leve algo ao futuro, não tem como levar todos a esse destino. Ponte alguma permite que todos sigam lado a lado em direção ao outro lado; a estreiteza de qualquer ponte apenas coloca uns na frente dos restantes e outra coisa não faz senão permitir que somente uma minoria chegue primeiro onde todos temos direito de chegar simultaneamente: num futuro mais igualitário.

Novamente, só precisa de uma “Ponte para o futuro” quem não consegue caminhar pelo chão do presente. E só não consegue trilhar o presente quem não tem capacidade conviver com a horizontalidade da realidade, mas só com a verticalidade social que sobreleva uns poucos em relação à maioria. Sem dizer que quem erige uma ponte pode cobrar o pedágio que bem intender para quem quiser cruzá-la. Desse modo, estreitando o acesso ao futuro à largura de sua “ponte elitista”, os golpistas reservam o futuro para si, para que ele seja sempiternamente o velho passado que pretere a maioria das pessoas em benefício de uma minoria. E quando essa “Ponte para o futuro” estiver terminada, e o futuro for tal qual o velho passado oligárquico, aí sim o povo poderá chegar nele, entretanto, para estar subjugado às elites, como sempre. Eis a razão do golpe e dessa ilegítima “Ponte para o futuro”.

 

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