Deus, a ideia ecológica

Deus existe? Para o crente, sim. Para o ateu, não. Já para o agnóstico, impossível dizer que sim nem que não. Porém, uma coisa nenhum dos três pode negar: a existência da ideia de Deus, a partir da qual, aliás, uns podem crer nEle, outros, negá-Lo, e outros ainda serem céticos a Seu respeito. Portanto, antes de sabermos se Ele existe ou não, devemos prestar atenção na ideia que temos dEle para sabermos se esta ideia convém ou não a um Deus existente. Caso contrário, crer, descrer ou ter dúvida a Seu respeito é só uma postura vã diante da nossa própria ignorância acerca do teor de uma ideia nossa. E uma vez ignorantes em respeito à maior ideia que podemos ter, qual seja, a de Deus, tudo o que é igualmente imenso, por exemplo, a natureza, também é ignorado. E como temos sido ignorantes em relação a ela!

Preterir a existência de Deus em função de Sua ideia, entretanto, não é tarefa fácil. René Descartes, filósofo que inaugurou o pensamento moderno, não escapou de colocar a carroça na frente dos bois e privilegiar a existência de Deus em detrimento da ideia dEle. Depois de metodicamente excluir qualquer certeza de sua mente, para ficar com apenas uma, a respeito da qual não tinha como haver dúvida, qual seja, a de que ele, Descartes, pensava, logo existia, o filósofo quis saber se as suas demais ideias, das quais não tinha a mesma certeza, eram verdadeiras ou falsas. Sua solução: se verdadeiras, Deus não lhe enganava, era veraz; se falsas, em troca, Deus seria enganador.

A existência de um Deus enganador, entretanto, é contrária à perfeição de um Deus. Como poderia Deus prescindir da verdade? Porém, o Deus cartesiano, em determinado momento, esteve sob suspeita de ser enganador, mentiroso. O despautério da dúvida cartesiana acerca da veracidade ou da falsidade de Deus se deu porque o filósofo partiu da existência certa de Deus antes de verificar se a ideia que tinha dEle, que lhe convencia de que Deus existia, estava ou não errada, se cabia só a Deus ou se, antes, era a ideia de um ser imperfeito que, por algum motivo, precisa enganar para ser. A onipotência dEle dispensa a mentira, e a Sua onisciência, o priva disso.

Foi Baruch Spinoza, um filósofo judeu, que esclareceu a confusão de Descartes: se Deus, por um instante sequer, pode parecer enganador, a ideia de Deus da qual se parte é que está errada. Ora, se a ideia de Deus é a mais perfeita ideia que podemos ter, aponta Spinoza, dizer que Deus não é enganador depois de haver suposto que Ele poderia nos enganar só comprova que não se tem a ideia verdadeira dEle, mas uma ideia cujo ideado bem poderia ser um homem, este sim capaz de mentir e de toda a sorte de imperfeição.

O feito de Spinoza, portanto, foi ter deslocado a questão acerca da existência de Deus para a da ideia de Deus. Nas palavras de Marilena Chaui, “de nossa ignorância quanto à existência de Deus para a ignorância quanto à ideia verdadeira de Deus”. Para Spinoza, ainda que Deus pudesse não existir, Sua ideia nas nossas mentes, que existe, é que deve ser perfeita. Do contrário, como foi dito, o crente, o ateu e o agnóstico estarão apenas tomando postura em relação às suas respectivas ignorâncias, assim como Descartes, que, guiado por sua ideia inadequada de Deus, cogitou a possibilidade de Ele ser enganador.

Embora Spinoza tenha sido acusado de ateísmo, excomungado pela Igreja Católica e expulso de sua comunidade judaica, o filósofo acreditava tanto na existência real de Deus que, para ele, Deus era a própria natureza: Deus sive natura (Deus, ou seja, a natureza). Então, não é que Spinoza achasse que existia apenas a ideia de Deus, mas que ela deve ser a primeira coisa que devemos observar antes de acreditarmos ou não na existência de um Deus conforme essa ideia. Não obstante, o que prova que Spinoza tenha partido da ideia verdadeira de Deus para, por meio dela, chegar à existência verdadeira de Deus enquanto a natureza?

Pensemos nas coisas que existem na natureza: as pedras, as plantas, os animais, os planetas, as galáxias até. O que as causou? A natureza. Quem mais? E esta, que tudo causa, quem a causou? Para não ficarmos pressupondo naturezas criadoras de naturezas, o que seria absurdo, além de um trabalho infinito, Spinoza resolveu essa questão provando que a natureza não foi criada por nenhum outro ser senão por si mesma. Para o filósofo, a natureza é causa de si mesma e de todas as demais coisas. É dessa ideia de natureza causadora de si mesma que Spinoza partiu para nunca duvidar de que ela, ou Deus, pudessem ser enganadores.

Com Spinoza podemos perceber que, acreditando-se ou não em Deus, uma ideia inadequada de Deus produz em nós uma ideia outrossim inadequada da natureza. Então, tanto o crente, quanto o ateu e o agnóstico, de posse de vil ideia, outra coisa não são além de vilões da natureza, podendo até cogitar, como Descartes, que ela engana, que pode nos fazer algum mal, ou que é preciso nos proteger dela, quando, na verdade, é apenas uma ideia errada de Deus na nossa mente, à qual nos atemos, que inicia a confusão toda.

E em tempos de destruição da natureza pelo homem, temos de nos perguntar se a sistemática antiecologia humana não é fruto direto da má compreensão da ideia de Deus que temos em mente. Pensemos, portanto, não se Deus existe ou não existe, mas, antes, na ideia dEle, que existe em nossas mentes, independentemente de sermos crentes, ateus ou agnósticos, até que tenhamos uma ideia de Deus que não comporte nenhuma imperfeição ou dúvida. Desse modo, partindo dessa ideia, é à existência da natureza conforme ela causou a si própria que chegaremos. E diante de tal perfeição, quem sabe, não a destruamos mais.

Anúncios

A caverna X

“The X-Files”, o antológico Arquivo X de Chris Carter, está de volta, 23 anos depois, com Dana Scully e Fox Mulder novamente envolvidos com casos de fenômenos paranormais sistematicamente ocultados pelo governo americano. Está de volta também o mais famoso slogan da série: “The Truth Is Out There” (A verdade está lá fora). Aqui, a analogia com a alegoria da caverna, de Platão, na qual a verdadeira realidade “está lá fora” da caverna, é inevitável. O que Platão teria a dizer sobre a volta do Arquivo X? Provavelmente, que o seriado, em 2016, está mais platônico do que nunca. Por quê?

Ora, em 1993, os investigadores lidavam com fenômenos paranormais que não podiam ser revelados. Agora, em 2016, eles tratam de fenômenos demasiadamente normais e sistemáticos do próprio governo americano que, ocultando-se sob a provável existência de seres extraterrestres, busca ocultar senão o seu plano, assaz humano e nada secreto aliás, de dominar da humanidade. Hoje, os desconhecidos extraterrestres são só os bois-de-piranha do sórdido poder terrestre. Todavia, por que isso é mais platônico?

Na alegoria do pai da filosofia, os homens viviam no interior da caverna, entretidos por um ininterrupto espetáculo de sombras projetado no fundo da caverna por titereiros – políticos? -, cujo objetivo era fazer com que as sombras fossem tomadas pela realidade em si. Desse modo, ninguém desconfiava que havia uma realidade verdadeira “out there”, e assim os manipuladores – políticos? – sustentavam o mundo mentiroso no qual os homens permaneciam ignorantes acerca do real. Então, um dos iludidos – Platão? – percebe a farsa na qual está imerso, levanta-se, deixa o teatro de sombras para trás e, saindo da caverna, encontra a dura luz da realidade verdadeira, para, só então, retornando à caverna, contar aos demais que lá dentro há só mentiras.

Na alegoria de Carter, enquanto na sua primeira versão eram os extraterrestres a verdade oculta que estava “lá fora”, que nem o governo americano nem os investigadores-x conseguiam entender e esclarecer plenamente, toda a humanidade era cativa da caverna. Se “todos nós somos essas pessoas da caverna, então, como poderíamos, mergulhados no espetáculo da caverna, subir em nossos próprios ombros, por assim dizer, e entrar na realidade verdadeira?”, pergunta Slavoj Žižek, na sua “A visão em paralaxe”,

No primeiro Arquivo X, portanto, a humanidade inteira estava alienada da verdade alienígena externa. O governo americano, embora ciente da existência dos E.T.s, permanecia ignorante em relação aos propósitos deles e manipulados por eles. Ou seja, ainda preso na caverna. Até Fox Mulder, o investigador obsessivo que bem poderia fazer o papel do filósofo que desconfia da ilusão intracavernosa e que dela escapa, mesmo repetindo incessantemente outro slogan famoso, “I Want to Believe” (eu quero acreditar) – na existência de alienígenas -, inclusive ele permanecia cativo da caverna, uma vez que era sistematicamente desencaminhado de sua intuição pelo governo americano.

Agora, com os E.T.s sendo só mais uma das sombras mentirosas projetadas pelo titereiro governo americano, senão para que as pessoas não desconfiem da sórdida realidade política que este mesmo governo empreende “out there”, temos que o seriado assume de vez a ideia da caverna platônica: são sempre titereiros terráqueos, e não alienígenas, que criam o espetáculo mentiroso que aliena o restante da humanidade da verdadeira realidade.

O “Trust No One” (Não confie em ninguém), outro slogan que sempre estruturou a trama do seriado, na sua versão atual faz com que a caverna na qual os cidadãos americanos se encontram seja mais parecida ainda com a caverna platônica. “Não confie em ninguém” não quer dizer que não devamos confiar uns nos outros, afinal, como apontou Žižek, estamos todos acorrentados e iludidos pelos titereiro-mor. Enquanto iludidos, somos, uns para os outros, a obscura, porém resistente verdade da mentira da caverna.

“Trust no one”, agora, refere-se apenas ao titereiro-mor, qual seja, o governo americano, que, mais do antes, precisa que permaneçamos na caverna, bastante iludidos, obesos, sedentários e consumidores. Mais do que ocultar uma verdade extraterrestre que, se aclarada, abalaria a humanidade, o governo americano precisa ocultar uma verdade absolutamente terrestre: a verdade dos seus planos. Esta sim, se iluminada, causaria uma perigoso abalo, não à humanidade, que estaria como que liberta da caverna, mas nos planos do próprio governo americano e na sua estratégica caverna.

Mulder nunca confiou no seu governo. Porém, sua desconfiança nunca o levou para fora da caverna, onde a luz da verdade brilha gratuita. Também pudera, desde 1993, esteve procurando por verdades extraterrestres, que, somente hoje, em 2016, mostram-se plenamente terráqueas. Não saiu da caverna porque, esse tempo todo, esteve entretido com uma sombra! Agora, pelo menos sabe que a escuridão da qual nunca se viu livre não se dá porque ele desconhece os aliens, mas porque estes foram a sombra com que o titereiro-mor manteve viva a escuridão mentirosa.

Saber disso, entretanto, é o início da trilha que levará Mulder definitivamente para fora da caverna, ou, antes, já é o próprio exterior iluminado? Se, na alegoria platônica, quando o filósofo sai da caverna a luz é insuportável, e se, na alegoria X, Mulder sente mais vontade de luz ao ver o lampejo da verdade, temos que a sordidez aclarada dos desígnios do governo americano não é o “out there” ainda. Até porque tal sordidez atravessa a realidade X, e um seriado que retornasse depois de 23 anos para se resolver no seu primeiro episódio, estaria completamente fora da realidade que quer aclarar.

A burrice do luto

(à minha irmã, Graziela)
.
Dizem que o homem é o único animal que sabe de sua mortalidade. Se é assim, sabemos da morte, em primeiro lugar, porque vemos outros morrerem, e, em segundo, por vermos tudo o que vive morrer. Tal é a vida da nossa perspectiva. Entretanto, quando é que temos certeza de que, um dia, nós mesmos morreremos? E quando sabemos disso, o que doravante sentimos? Quando alguém próximo a nós morre, e ficamos de luto, a nossa morte também nos toca. O que teria o luto, então, a dizer de nossa própria morte?
 
Quando somos bebês, a morte é só desaparecimento. Parentes, amigos ou animais de estimação, ao morrerem, apenas desparecem das nossas “vidinhas”. Quando crianças, e temos consciência de que a morte existe, ela é somente a morte dos outros. É somente mais tarde na vida, depois de sermos bastante golpeados por ela, que sabemos que também a morte nos golpeará; que é só uma questão de tempo.
 
Entretanto, ter certeza de que vamos morrer é diferente de saber o que é a morte. Para o filósofo grego Epicuro, não temos como saber o que ela é, pois, diz ele, “a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando ela chega, não existimos mais”. Segundo o pensador, a morte sequer existe, seja para os vivos, seja para os mortos, pois, para os vivos, é a vida que existe, não a morte, e para os mortos, são eles que não existem mais, e a morte, por consequência, não pode existir para eles.
 
Porém, ainda que o filósofo nos convença graciosamente de que não temos como saber o que é a morte, e que ela sequer existe, temos uma certeza inalienável dela. Temos a ideia da morte. Essa ideia, aliás, como foi dito, é o que nos diferencia dos demais animais. Que ideia então temos da morte uma vez que nunca saberemos o que ela é na realidade?
 
Nosso mais íntimo envolvimento com a morte, em vida, é o luto. Portanto, nesse período/processo que se segue à morte de alguém, geralmente próximo e querido, está o nosso telescópio/microscópio para investigarmos a morte. O que o luto nos diz? Ora, primeiramente, que a morte de uns afeta, entristece a nossa vida. Porém, sob essa tristeza, diz também que, embora aqueles que morreram não mais existam, nós, a despeito da morte deles, seguimos existindo, plenamente vivos.
 
De modo que o luto, ao passo que reflete a morte, também afirma a vida: a vida de quem está de luto. No entanto, por que o luto parece querer dizer apenas de tristeza? Onde colocamos, durante o luto, a alegria por permanecermos vivos, por não termos sido nós as vítimas da morte? Seria impossível, ou ainda desumano assumirmos, de cara, que o fato de não termos sido ainda escolhidos pela “ceifadora” é a melhor coisa da vida? Desrespeitaríamos os nossos mortos com a felicidade de permanecermos vivos?
 
Se, conforme Epicuro, os mortos não podem saber nem o que é a morte, nem mais nada, tampouco do que se passa com os vivos eles podem saber. Entristecendo-nos ou não, nossos sentimentos em nada agradam ou desagradam aos idos. Então, a tristeza do luto é uma estranha homenagem apenas aos que vivem. De que forma? Ora, é porque sabemos que vamos morrer, e que, depois de estarmos mortos, os vivos seguirão vivendo, e, ademais, felizes por estarem vivos, que nos entristecemos.
 
Com o luto, portanto, sofremos a nossa própria morte, todavia por antecipação, através da morte dos outros, pois os que permanecem vivos, embora temporariamente chorosos e vestindo preto, são sempre mais felizes pelas suas próprias vidas do que tristes pela morte dos outros. Tanto que um dia o luto acaba, envolvemo-nos novamente com vida, como se a morte nunca tivesse se aproximado de nós. A tristeza insistente no luto, na verdade, é a consciência de que a nossa morte, quando chegar, será só nossa, de mais ninguém.
 
O que, então, em vida, devemos saber da morte para que não soframos dissimuladamente a nossa morte através da dos outros? Para Epicuro, sábio é aquele que não teme a morte porque crê que não é um mal não mais existir. É burrice, portanto, crer que morrer é ruim. Não existir não é nada! Saber-se mortal e seguir feliz mesmo diante da morte dos outros, é, nas sábias palavras de Epicuro, saber que “nada há de temível na vida, pois nada há de temível na morte”.

Pandorgas cariocas

concurso de  fotografia.jpeg

A minha janela, doze andares acima do asfalto, encara anã o imponente Morro do Cantagalo, pedra incrustada no coração da zona sul carioca, tão alta e íngreme que sequer a vegetação consegue se fixar. Pedra estéril? Muito pelo contrário! No seu topo, acumulada feito neve perene, a favela Pavão-Pavãozinho, cobertura artificial que antagoniza com a não menos artificial Copacabana asfaltada.

A dialética favela-asfalto resiste à síntese na cidade maravilhosa que pretere os seus pobres bastardos urbanos. Cientes da falácia-placebo homeopaticamente repetida no asfalto, qual seja, “a praia é o lugar mais democrático do mundo”, os “favelados” só encontram essa coisa chamada cidadania dentro dos limites das suas comunidades

Por isso a molecada do Pavão-Pavãozinho gosta brincar lá em cima da enorme pedra mesmo. Em dia de vento, empinam pipa e colorem o céu com brinquedos de uma infância não totalmente digitalizada. Não adianta, para mim, será sempre lindo ver uma criança brincar com um brinquedo analógico, coisa cada vez mais rara nos playgrounds do asfalto.

As pipas cariocas, no entanto, não são só brinquedo de criança inocente, mas também instrumento de gente grande, usadas para comunicar, qual sinal de fumaça, ou algum acontecimento à própria comunidade, ou, ao asfalto, que “chegou droga na favela”, mais ou menos como os chineses que, em 1200 a.C., já as usavam como sinalização militar: cada movimento e cor era uma mensagem estratégica específica.

No sul do Brasil, “pipa” é chamada de “pandorga”. Oriunda do espanhol, pandorga significa cantoria, serenata ruidosa, mas também bebedeira, boemia. Por isso o brinquedo aéreo foi chamado de pandorga, afinal, seu voo sacudido lembra o andar incerto de um bêbado. As errantes pipas, além de fazem a alegria da molecada -carioca-, relembram-nos do significado -espanhol- de “pandorga” e também mantêm viva a função -chinesa- primeira do objeto.

Uma dessas pandorgas cariocas erráticas “da favela” entrou pela minha janela “no asfalto”. Tomei-a nas mãos e fiquei, por alguns instantes, observando, nostalgicamente, a simplicidade acessível do brinquedo feito apenas com duas varetas de bambu, um losango de papel-seda vermelho, cola, uma “rabeta” e uma linha.

Quantas tardes inteiras a minha infância não ganhou com esse artesanato-brinquedo que em meia-hora eu mesmo conseguia confeccionar! Hoje em dia, infelizmente, a minha “pandorga” vespertina oficial é o iPad, brinquedo sofisticado que, no entanto, eu não sei nem nunca poderei produzir.

De repente, a pandorga é puxada. Seguro-a mais firmemente. Outro puxão. Aproximo-me da janela e observo a linha até onde ela parecia desaparecer no ar. Mais um puxão. Minha curiosidade se aguça e meus olhos avançam um tanto mais no sentido da quase invisível linha. De puxão em puxão, encontro, do outro lado da linha esticada sobre os altos prédios de Copacabana, uma criança, sobre a laje de uma casa, lá de cima da pedra do Cantagalo. Embora os mais ou menos quatrocentos metros que nos distanciavam não permitissem que eu visse a “cara” da criança, é como se ela me encarasse.

Antes de eu descobrir o “pandorgueiro”, ele já havia me descoberto. Fiquei absorto na singela conexão entre favela e asfalto que a pipa havia proporcionado. No entanto, o garoto não parava de pedir de volta o seu brinquedo por meio de puxões cadenciados lá da outra ponta da linha que ainda tinha em mãos. Eu ainda mantinha a pandorga nas minhas não porque a queria para mim. Sabia que era dele e que a ele deveria retornar. Era a magia da conexão que eu não queria perder.

Ele começou a puxar o fio cada vez mais forte. Então, com medo de que a linha se rompesse, e que o moleque ficasse sem o seu brinquedo, entrei no ritmo dos seus puxões solicitantes e, na hora que me pareceu a “H”, soltei a pipa para que ela alçasse voo novamente. Deu certo! Mal a pandorga voltou ao céu, achei ter visto o moleque sorrir. Porém, como na verdade eu não conseguia ver nada além de sua silhueta magrela, tive certeza de que esse sorriso moleque meu.

De mãos vazias, mas com o sorriso cheio, debrucei-me na janela, feito busto-de-mulata, “brincando” de ver o garoto brincar, como se a brincadeira fosse minha e dele. Frágil síntese entre o asfalto-tese e a favela-antítese. Acidente feliz que trouxe, pela janela, a lembrança das tardes simples da minha infância à uma tarde complexa da minha vida adulta. Linha do tempo? Sim! A errática pandorga me distanciou décadas do meu “assertivo” iPad.

Conexão inócua, dirá o comunista que não viu reduzir a diferença entre o asfalto e a favela na efêmera brincadeira dos dois. Porém, assim como a linha que os conectou materialmente não foi arrebentada, mas, antes, serviu para que o o brinquedo voltasse ao brincante, deixo aqui o companheiro comunista a sós com o seu lema: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

Que a praia não é o lugar mais democrático, como insiste o asfalto, a cisão favela-asfalto ainda deixa bem claro. No entanto, aquela pandorga que entrou pela minha janela pelo menos criou uma ágora etérea e efêmera onde dois cidadãos, social e urbanisticamente cindidos puderam se encarar e, mediados pela retórica ritmada do cerol, decidirem que a brincadeira na polis podia e devia seguir. O moleque, brincando com a sua pandorga de verdade, e eu, com a minha, o meu iPad, no qual brinco de contar da brincadeira que tive com ele.

O design do dasein

Dasein é uma palavra alemã que significa ser-aí ou ser-aí-no-mundo. Expressão sobejamente “latifundiada” por Heidegger para significar “homem enquanto ser que pode questionar os outros seres”, no contexto geral da filosofia, no entanto, é sinônimo para existência. Mais especificamente, aquilo cuja existência pode ser conhecida por nós. Baseado nesta última significação, a água, por exemplo, é indubitavelmente existente, é-aí-no-mundo pois é conhecida por nós por ser líquida, incolor, insípida e inodora, tal é o seu ser-aí.

Já da controversa quintessência, isto é, aquele quinto elemento do qual, segundo Aristóteles, seria composto o universo, ou, para os místicos, a essência que comporia os espíritos, dela podemos dizer o quê? Como conhecê-la, ou sequer ter certeza de sua existência, se ela não tem um dasein, ou seja, um ser-aí-no-mundo mediante o qual possamos conhecê-la?

O que tem a água, e o que falta à quintessência, para que sejam conhecidas por nós? Dasein! Existência! Um ser-aí-no-mundo! Responderiam, sem erro, os dois parágrafos acima. Materialidade, ora bolas! Diria um materialista. Porém, a existência é um conceito metafísico, isto é, está para além da física. Então, seres imateriais, como o amor, a justiça, a esperança, também são-no-mundo, pois fazem-se conhecer apesar de suas tácitas idealidades.

Agora, o que faz com que o amor seja-aí-no-mundo, e a quintessência não, visto que ambos são ideias? Em outras palavras, qual a forma de um Ser para que ele possa cumprir a função de ser-aí-no-mundo, de ser conhecido por nós? Ora, quando falamos de forma e função, e da relação de uma com a outra, não estamos mais no terreno da metafísica apenas, mas também no do design. Então, metafisicamente falando, qual é o design do dasein?

Design, todavia, é uma palavra inglesa, oriunda do Latim “designare” (de=fora; signare=sinalizar) que, ordinariamente, quer dizer: desenho; plano; projeto. Uma análise mais conceitual, porém, dirá que “designar”, ou seja, “sinalizar-fora”, significa “expressar”. Então, a pergunta: “qual é o design do dasein?”, também é esta: qual é a expressão do dasein? Ou ainda: o que expressa o ser-aí?

O conceito clássico-bauhausiano de design diz que “a forma deve seguir a função”. O design de uma cadeira, por exemplo, deve fazer com que ela realize apenas as funções de assentar e recostar uma pessoa. Para tal, um acento, um encosto e quatro pés bastam. Qualquer coisa além disso, como ter braços, ser estofada ou giratória está para além da função de uma cadeira, para além do seu design; não pertence, portanto, à essência da cadeira.

Aqui, metafísica e design se encontram na busca das essências; tratam do que é fundamental a uma existência qualquer. Embora o design seja vulgarmente relacionado ao que tem materialidade, o seu ideal primeiro são as essências das coisas. O design, portanto, possui  uma dimensão assaz metafísica: pensa para além do que é físico, material. Por isso o design, que é a racionalidade entre forma e função, pode participar filosoficamente da explicação da forma mínima da função “existência”, isto é, do dasein.

Qual é, então, a forma mínima à função “existência”? O que a existência não pode dispensar para continuar existindo? O que o ser-aí precisa ter para seguir sendo-aí? A metafísica pura titubeia nesse momento, pois, para ela, a existência já é “a” forma mínima de todo ser-aí. O design, por sua vez, pode dizer mais, pois, para ele, o que realmente importa é o ser-aí-NO-MUNDO das coisas, ou seja: o ser-aí-das-coisas-para-nós-humanos-na-nossa-mundanidade.

Então, para o design, o dasein, ou seja, o ser-aí-no-mundo, deve constar de, no mínimo, três existências: a nossa, a do mundo, e também a existência de uma relação entre aquelas duas existências. Aqui, para a graça da filosofia, os conceitos genérico e heideggeriano de dasein se reencontram! A função “existência”, o dasein, portanto, para ser um objeto de puro design, deve se realizar minimamente com as formas humana, mundana, e com a forma do homem se relacionar com o mundo que ele mesmo é/cria/conhece.

Revisão: Sarah Barreto

Design e ecologia

Para a Bauhaus, escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda da Alemanha da década de 1920, o conceito de design diz que “a forma deve seguir a função”. Ou seja, que as coisas, sejam elas utensílios domésticos ou obras arquitetônicas, devem ser produzidas em vista de suas funcionalidades apenas, e não de suas aparências. Desse ponto de vista, tanto mais design um artefato tem quanto mais a sua função se realiza com o mínimo de forma. Não estaria nessa economia formal-funcional bauhausiana quase centenária a virtude ecológica de que o atual mundo humano parece ter se esquecido?
.
Vulgarmente, pensamos que o design está mais nos excessos estéticos do que na racionalidade formal-funcional envolvida em alguma coisa. O design do Arco do Triunfo de Paris, por exemplo, ao contrário do que imediatamente se pensa, não está nos seus requintados adornos que tanto deliciam os olhares humanos. Tire toda a “decoração” do monumento parisiense e ele continuará um arco, plenamente funcional, talvez menos digno de simbolizar os triunfos de Napoleão Bonaparte, porém, nessa nudez estética reside justamente o triunfo do design – quiçá o da natureza.
.
A decoração causa-nos sensações. O adorno é sensual por natureza. Todavia, para a racionalidade envolvida no conceito de design, qualquer ornamento apenas obscurece a verdade formal-funcional daquilo onde é colocado. “Enfeitar” a posteriori a forma puramente funcional de um artefato qualquer outra coisa faz que esconder o design intrínseco deste artefato, ademais, com detalhes que não fazem ele realizar melhor a sua função. Em vista de quê? Beleza? Ora, o design é de uma beleza ímpar. Porém, para fruí-la, é preciso atentar para a racionalidade que colocamos nas coisas que produzimos.
.
A “beleza racional” das Colunas do Palácio da Alvorada, projetadas por Oscar Niemeyer, não está naquilo que primeiramente vemos nelas, nas suas curvas ou brancura modernistas, mas justamente naquilo que não se vê em coluna alguma: a sua função pura; que, entretanto, por motivos puramente formais, não se faz ver. O maior arquiteto brasileiro foi um excelente designer pois a forma de suas colunas palacianas está completamente em função dos esforços internos que elas suportam enquanto suportam o teto do palácio.
.
Explicando melhor: uma coluna, essencialmente, é feita para suportar o peso daquilo que é colocado acima dela. Porém, ela mesma também pesa. De modo que a base de uma coluna suporta o peso do que ela sustenta mais o peso da própria coluna. A Coluna Brasília faz desse fato design. Racionaliza-o. A famosa estrutura vai se tornando cada vez mais delgada à medida que o seu próprio peso deixa de pesar sobre ela mesma, para, no seu topo, a forma mínima – a espessura – realizar a justa função – suportar apenas o /
peso do teto, e não gerar peso desnecessário à sua base.
.
Na Coluna Brasília, o conceito de design da Bauhaus, “a forma deve seguir a função”, parece encontrar o conceito biológico de design natural ressaltado por Steven Pinker, qual seja: “o menor caminho entre forma e função”. Um design natural, um olho, digamos, que porventura tivesse estrutura para ver e digerir alimentos ao mesmo tempo, mas não digerisse nunca, somente olhasse, teria excesso no seu “design”. Antes, não seria design, pois haveria um caminho maior, portanto desnecessário, entre forma e função. Porém, a natureza é uma grande designer, quiçá a maior, justamente por não colocar em nada forma alguma que não sirva para uma função específica.
.
O design bauhausiano, por excluir tudo o que é desnecessário de um artefato, é absolutamente econômico. Diria mais: ecológico; tanto quanto o design biológico. Com efeito, se a natureza agisse desnecessariamente – como um burguês hipersensualizado – e “decorasse” superfluamente todas as suas criaturas, colocando nelas coisas de elas que não carecem, não haveria matéria suficiente no universo para sustentar tal “luxo”. Aliás, não é exatamente isso que a atual crise ecológica está nos dizendo?
.
Por isso, para uma natureza saudável, o design humano deve estar para a própria natureza assim como a forma, no conceito de design bauhausiano, está para a função, ou seja, em função dela. Em outras palavras, as coisas que o homem produz, sem as quais não pode viver adequadamente, devem ser formalmente tão mínimas a ponto de cumprirem apenas com suas funções essenciais, pois só assim não consumiremos desnecessariamente a natureza.
.
As nossas roupas, por exemplo, se fossem feitas apenas para nos proteger das intempéries, ou ainda para dar conta da vergonha da nossa nudez, não precisariam ser tingidas nem estampadas. Isso porque os pigmentos e desenhos que nelas colocamos não aumentam nem melhoram essas suas duas funções imediatas, mas, em troca, atendem a outras funções, nada ecológicas, portanto irracionais, tais como o consumismo e a ostentação.
.
A natureza, com efeito, agradeceria eternamente se as coisas que nós produzimos para o nosso próprio consumo envolvessem um design que primasse pelo “menor caminho entre forma e função”, e não pela longa promenade entre forma e função onde cabe um mundo de detalhes dispensáveis que, no entanto, só são colocados nas nossas coisas para que elas sejam mais do que precisam ser. Esse excesso, digamos, burguês, do ponto de vista do design bauhasiano, é irracionalidade pura, e, do ponto de vista da própria natureza, insustentabilidade máxima.

Realeza X realidade

Real se diz tanto daquilo que existe, que é, como também daquilo que envolve os reis. Estes, intrigantemente, são os dois reais ao mesmo tempo: primeiro, porque existem, e, segundo, devido às suas respectivas realezas. Por isso os reis eram considerados sobre-humanos pelos seus súditos, afinal, duplamente mais reais do que eles. Entretanto, essa sobre realidade régia é uma construção assaz contraditória, portanto, insustentável.
 
A realidade física que os reis compartilham com seus súditos faz deles seres tão ordinários quanto estes. Tal é a natureza. Porém, os reis escapam dessa ordinariedade existencial por via de suas realezas, que, metafisicamente, fazem com que eles, e somente eles, tenham uma outra realidade que a dos súditos, uma sobrenatural, por meio da qual jazem acima da existência banal, primeira.
 
Deparei-me concretamente com a dupla realidade da realeza no Palácio de Versalhes, construído por e para Luís XIV, rei da França. Na materialidade do palácio, nas suas formas assaz requintadas, reconheci o original de que muitos cenários de filmes e óperas, e também os pastiches arquitetônicos, são cópias. Que Versalhes é real porque existe, não há dúvida. Que é real por ser a residência de Reis, também. Todavia, aqui vimos que é real também por ser o original de onde suas muitas cópias/imitações provieram.
 
Primeiramente, fiquei intrigado com a imensidão e o luxo do palácio de Versalhes. Seus setecentos aposentos, todos revestidos com mármores raríssimos e brocados caríssimos, os magníficos candelabros de cristal, a mobília extravagante, chamada de Estilo Luís XIV em homenagem ao rei que construiu e decorou o palácio para si, e, sobretudo, o estonteante Salão dos Espelhos, tudo isso me dizia uma única coisa: sofisticação!
 
Vulgarmente, falamos que uma coisa é sofisticada quando queremos dizer que ela é chique, requintada. Não obstante, “sofisticar” deriva de “sofismar”, ou seja, de falsificar. Platão deixou bem claro nos seus diálogos: um sofisma é um argumento falso. Então, afirmar que a realidade exclusiva dos reis precisa de sofisticação para existir acima da realidade dos súditos, outra coisa não é que dizer que os reis precisam de falsidade para serem reis.
 
Por que, então, tal falsidade, tal sofisticação, é chamada de “real”, se a falsidade, que é oposta à verdade, também o é em relação à realidade? Ora, o que não existe, não é real, tampouco verdadeiro. A realidade sofisticada dos reis, portanto, precisa envolver uma contradição, visto que não é possível algo falso, sofisticado, ser real. Todavia, é justamente essa “realidade contraditória” que faz com que o reis sejam duplamente reais.
 
Aqui é preciso perguntar: é o rei que gera a contradição, ou, antes, é esta que gera aquele. Bem, nem sempre houve reis, e, nessa época, uma única realidade era compartilhada por todos. Porém, historicamente, a concentração de poder nas mãos de alguns fez com que a realidade destes parecesse ou devesse parecer diversa da realidade dos desapoderados. E, no limite do poder, os reis, aqueles cujas sobre realidades falsificadas, produzidas estrategicamente em função do poder, são mais importantes que a realidade ordinária, primeira, natural.
 
A contradição intrínseca da realidade exclusiva dos monarcas produz uma “realidade” mais real que a própria realidade. No entanto, como vimos, sofisticada, portanto falsa. O problema dessa falsidade, é tornar menos real justamente a realidade primeira e inalienável que lhe tornou possível. Desse modo, a realidade régia, diminuindo a realidade ordinária sobre a qual se fundamenta, apenas reduz a estabilidade dessa sua realidade forjada. Por isso insustentável;
 
Talvez por isso a realidade sobrenatural de reis, como por exemplo a de Luís XIV, que construiu o Palácio de Versalhes precisamente para estimular tal sobrenaturalidade, venha desaparecendo ao longo da história. Não que a república, forma de governo que superou a monarquia absoluta, deixe de prescindir de uma realidade ligeiramente outra que a dos cidadãos. A diferença, entretanto, está em que a realidade republicana não está aí para reduzir a realidade comum dos cidadãos, mas, ao contrário, fazer com que ela seja, de fato, “o” real, sem nenhum real ulterior.
 
Portanto, se “real” se diz daquilo que existe e daquilo que envolve os reis, mas esta última realidade, a da realeza, é falsa, sofisticada, essa última significação não possui um objeto real por natureza. Em segundo lugar, pelo fato de a sofisticação do real intrínseca à monarquia estrategicamente reduzir a realidade do real primeiro, visto que só assim pode ser mais real do que ele, outra coisa não faz senão tentar eliminar o único objeto verdadeiramente real, qual seja, a realidade ordinária da natureza compartilhada por todas as pessoas.
 
A república foi resposta história para esse problema. Entretanto, a superação da monarquia não eliminou a possibilidade de alguns poucos produzirem e vivenciarem realidades exclusivas, superiores, que, entre outras coisas, permite-lhes ir contra a lei comum. A diferença entre o cidadão e o súdito, entretanto, está em que o real mais elevado, para aquele, é res pública, enquanto que, para este, é res exclusiva do rei. Portanto, a sofisticação de templos do poder, como Versalhes, é a falsidade de uma realidade imprópria minando e solapando a realidade propriamente dita, inalienável: o real ele mesmo.