Ética de chocolate – uma dietética

Os chocólatras me perdoem, mas não é exatamente de chocolate que falaremos, mas daquilo que parece ser o mais importante, e sobretudo necessário para o nosso mundo: ética, o conjunto de hábitos e ações que visam o bem comum de uma sociedade. Para os gregos antigos, “ethos”, que originou a palavra “ética”, significava a morada do homem, ou seja, a natureza com o homem dentro dela, vivendo, evoluindo, ao modo de ser um homem melhor, senão para que a natureza e a humanidade juntas sejam ainda melhores. Porém, a situação crítica na qual a humanidade está colocando a natureza, e a si mesmo por tabela, mostra que ética é o que mais anda faltando. Como restaurá-la?

A destruição da natureza e a contemporânea dependência humana por aparelhos eletrônicos, só para citar dois males generalizados, por não trazerem o bem comum, pelo contrário, resultarem em males particulares generalizados, outra coisa não são senão formas de sermos antiéticos sem nos darmos conta disso, uma vez que nos desvirtuam de nossa inalienável morada e de nossa humanidade, as destroem até. E, se o homem, como se diz, colhe o que planta, é importante prestarmos atenção ao que hoje semeamos, principalmente nas nossas crianças, pois disso depende a lavoura ética futura.

Os filmes de bangue-bangue, que levavam multidões aos cinemas no século passado, deixaram para as crianças não só o gosto pelo cinema, mas também por armas de fogo. Qual menino já não desejou “brincar de revolver”? Todavia, depois que passou a ser politicamente incorreto dar revolveres de brinquedo às crianças, seguiu se desenrolando subterraneamente dentro delas o gosto por matar, ainda que se trate apenas de brincadeira. E não só as crianças! Atualmente, os EUA, e inclusive o Brasil não conseguem se livrar dessa dependência em relação às armas de fogo, como se as vidas das pessoas dependessem de uma arma, como se a “morada do homem” se tornasse inabitável sem um revolver por perto. E por acaso os justiceiros-linchadores que vemos nas nossas cidades atualmente não são adultos que brincam de “justiça” ao modo “Faroeste”, como provavelmente faziam quando eram crianças?

Há pelo menos três décadas, fumar cigarros era considerado chique, virtuoso, sendo uma atividade tão aceita, socializadora, quanto hoje ainda é consumir bebidas alcoólicas nas interações sociais cotidianas. Entretanto, essa mania tabagista não ficava restrita aos adultos. Muitos pais compravam para as suas crianças os famigerados cigarrinhos de chocolate, cujas embalagens imitavam tal qual os cigarros de verdade, com filtro amarelo inclusive, para que elas também pudessem brincar de “ser pessoa chique, virtuosa”.O preço dessa brincadeira, contudo, foi o inadvertido plantio, nessas crianças, de uma semente cujo fruto posterior foi senão uma forte afetividade e dependência em relação ao fumo, da qual essa geração, que cresceu inocentemente brincando com cigarros – e vendo os adultos brincarem -, dificilmente consegue se livrar.

Outro exemplo parecido foram os insuportáveis, e por que não dizer desnecessários “Tamagotchi”, que, na metade dos anos 1990, fizeram com que uma geração inteira de crianças desenvolvesse uma inédita e intensa afetividade por aparelhos eletrônicos. Hoje em dia, vendo a centralidade dos “smartphones” e “tablets” nas vidas das pessoas, a angústia que elas sofrem quando os seus iPhones são roubados, caem no chão, ou ficam alguns minutos se conexão com a internet, podemos ter certeza de que, há duas décadas, os adultos por trás dos “Tamagotchi” plantaram a semente certa para que hoje fôssemos demasiados apaixonados por quinquilharias à base de silício e código binário, e consequentemente, assaz obesos e sedentários.

Então, se, de fato, aquilo que os adultos dão para as suas crianças brincarem, além de um inocente passatempo, são germes que crescem e que amadurecem alienados de qualquer controle permanecendo com elas vida afora, mantendo-as, pulsional e inconscientemente, dentro da mesma brincadeira, não seria interessante tornarmos brinquedo justamente coisas de que a humanidade desde sempre precisou, e que portanto nunca deixará de precisar, isto é, de uma forma virtuosa de habitar a sua morada inalienável, qual seja, a natureza? Se sim, estamos no caminho certo em manter proibidos os cigarros de chocolate e as armas de brinquedo. Entretanto, em respeito aos eletrônicos não há proibição, muito pelo contrário, cada vez mais ensinamos às crianças que eles são “a luz, o caminho e a salvação”. E diante dessa inadvertida docência digital padece a natureza, e também nós dentro dela.

Porém, para que a morada do homem seja habitável, não basta proibir a semeadura de coisas que não queremos ver germinadas futuramente. Somente isso é paliativo. Em troca, é necessário o plantio daquilo de que a humanidade mais precisa colher futuramente. Novamente: um conjunto de hábitos e ações que visem o bem comum da sociedade humana. Isto é: ética! Portanto, em vez de armas de brinquedo, de cigarros de chocolate, ou de Tamagotchi-iPhones, deveríamos dar ética para as nossas crianças brincarem. Se, com efeito, elas não deixam as suas brincadeiras para trás, mas, em troca, as levam consigo vida afora, que brinquedo sublimado seria melhor que um que tornasse a única morada do homem um lugar mais apropriado para se morar?

Não obstante, o desafio é encontrar uma forma de fazer com que a mui necessária ética não seja coisa de adulto apenas. A ética, para ser carregada pelas crianças ao longo de suas vidas, deve poder ser brincável, passível de ser dada a qualquer um, de qualquer idade, sem contraindicação. Melhor ainda se conseguíssemos fazê-la de chocolate, como os cigarrinhos de brinquedo. Uma dietética! Com uma “ética de chocolate”, ao mesmo tempo instruiríamos e entreteríamos as nossas crianças; faríamos com que elas consumissem ética desde cedo, se nutrissem dela.

Claro, pode ser dito que chocolate engorda, que “hipertensiona” a morada imediata do homem, isto é, o seu corpo, que então seria melhor uma ética de chocolate diet – uma ‘diet-ética’? Mas isso é tão absurdo quanto a absurdidade da qual devemos nos livrar. Todavia, em resposta, o conceito grego de “pharmakon”: veneno é remédio são a mesma coisa, o que importa é a dose.Portanto, uma ética de chocolate, ou qualquer outra que fosse irresistível às crianças, seria o melhor brinquedo que poderíamos dar a elas. Passariam o tempo e gastariam a inesgotável energia que têm justamente com aquilo que faria da morada delas, hoje em dia poluída, violenta e individualista, uma morada futura um tanto melhor.

Ora, não dá para seguir “plantando antiética” nos quatro cantos do mundo e esperar que desse chão lixiviado e desrespeitado nasça uma verdejante hera milagrosa, de onde a indústria farmacêutica extrairá uma essência ética puríssima, concentrada e para ser vendida em forma de comprimidos -obviamente a preços nada acessíveis. Como, então, fazer com que a ética seja objeto para as crianças, para que, brincando desde cedo com ela, elas tenham uma melhor morada futura, com a humanidade e a natureza existindo harmoniosamente e, consequentemente, resultando em uma morada melhor para todos? Bom mesmo é se conseguíssemos fazer com que a ética tivesse gosto de chocolate, aí ninguém resistiria a ela!

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PMDB way of life

O PMDB dispensa apresentações, entretanto, não repreensões. Não que os demais partidos políticos estejam livres de serem repreendidos, corrigidos, melhorados. Afinal, representar o povo e o seu dinâmico universo de necessidades exige de todos os partidos políticos aperfeiçoamento contínuo, trabalho ininterrupto. Porém, no mais das vezes, é justamente o contrário que vemos na ópera política brasileira. Eduardo Cunha, o peemedebista de maior evidência do momento, e sem dúvida o que mais merece repreensão, representa senão os interesses do seu partido, deixando claro a todos os brasileiros, os quais apenas dissimula representar, o velho jeito de ser do PMDB.

Ao falarmos de PMDB não podemos deixar de falar de José Sarney. O oligarca-mor, desde que foi eleito governador do Maranhão, em 1966, articulou praticamente todos os últimos governos do Brasil. Foi presidente do Senado durante a ditadura militar, presidente do partido governista ARENA, vice-presidente de Tancredo Neves, presidente da república, apoiou os governos de FHC, Lula e Dilma, presidindo novamente o senado nestes períodos. Afora isso, José Sarney é latifundiário, proprietário de seis afiliadas da TV Globo, de emissoras de rádio e de jornais. Com essa presença política e midiática, Sarney, permanece há quase 50 anos com as suas mãos sujas no poder.

Oligarca eficaz que é, Sarney colocou sua filha no poder, Roseana Sarney, que começou como deputada federal, foi duas vezes governadora do Maranhão – o curral do clã -, senadora da república, e, em 2010, novamente governadora do Maranhão. Obviamente, não foi por ter bem representado o povo que a princesa da oligarquia maranhense mereceu por tanto tempo, e por várias vezes, a dianteira política. Em 2014, a respeito da crise penitenciária do seu estado, evidenciada tragicamente pelas dezenas de decapitações de presos no presídio de Pedrinhas, ela disse ao Observatório da Imprensa que as coisas por lá iam muito bem, e que a violência só acontecia por que o Maranhão estava rico. Exclusivamente para ela isso era verdade, dado que, um dia antes dessa infame declaração, ela havia autorizado licitações para a compra de camarões gigantes e sorvetes importados para o Palácio dos Leões, sede do “seu governo”.

Hoje temos Eduardo Cunha, deputado federal pelo PMDB do Rio de Janeiro e desde 1º de fevereiro de 2015 presidente da Câmara dos Deputados, representando sublimemente o sempiterno devir peemedebista. Acusado de vários ilícitos, Cunha segue como que inatingível. Tacitamente envolvido em vários crimes, dentre eles contas ilegais no exterior, o político sequer finge uma performance, digamos, mais democrática. Porém, Cunha lidera pautas e votações que fazem justamente o contrário, esforçando-se diariamente para reduzir ainda mais a construção de um pais mais igualitário onde as mulheres, os homossexuais e os índios, só para citar alguns, tem cada vez menos espaço. O espaço excelente, claro, deve ser para o PMDB.

Com o PMDB de Sarney, Roseana e Cunha o coronelismo desafia os tempos e sobrevive impertinentemente, todavia ao modo zumbi, sugando “a vida” do povo em função se sua insaciável fome por mais poder. Para um futuro livre de tal cabresto oligárquico, não devemos deixar de sabatinar todo peemedebista para sabermos se ele não é mais um apólogo do “PMDB way of life”, esse jeito antidemocrático de ser cujo objetivo é apenas o monopólio do poder, todavia sob uma fantasia democrática, que, entretanto, só convence porque aqueles que não se convencem estão sendo ou excluídos da ágora social (as mulheres, os homossexuais, os índios), ou decapitados nos presídios nos quais são estocados (as dezenas de mortos de Pedrinhas). Até aqui, podemos dizer que não há futuro com o PMDB, somente mais do mesmo, isto é, mais do sórdido passado brasileiro, em função do qual, aliás, um futuro realmente novo e descontaminado do velho coronelismo oligárquico se faz tão necessário.

#primeiroassedio

Primeiramente, parabéns às mulheres que aderiram ativamente à hashtag da hora, compartilhando publicamente os assédios-abusos que sofreram. Abusos, sobretudo os sexuais, devem ser denunciados mesmo, principalmente para que os abusadores não permaneçam protegidos justamente pelos traumas que causam. Em segundo lugar, em respeito à justa solicitação de algumas das mulheres engajadas na #primeiroassedio para que os homens confessem, outrossim publicamente, ao menos uma vez em que assediaram uma mulher, peço permissão para, antes, compartilhar um assedio que eu sofri, e, ademais, de uma mulher.

Talvez pelo fato de eu ser homem, devo confessar, – mesmo que isso me custe muita repreensão e pouca compreensão – que o meu #primeiroassedio fez de mim uma pessoa um tanto melhor, muito embora, na ocasião, eu tenha me sentido bastante desconfortável. Talvez também por eu ser homem, até aqui nunca tinha visto necessidade de falar do meu #primeiroassedio publicamente, mas só na intimidade de uma boa amizade ou nalguma sessão psicanalítica privada. Porém, a revolucionária iniciativa de muitas das mulheres me incitou a fazer o mesmo. Quanto mais não seja, porque percebo que homens e mulheres podem ser tanto vítimas de abuso quanto abusadores sexuais.

Pois bem, eu tinha então seis anos de idade e estava de férias na casa de praia do meu tio-avô Teobaldo, em Cidreira, Rio Grande do Sul. Uma neta desse meu tio-avô, uns dez anos mais velha que eu, e prima distante que eu acabara de conhecer, convidou-me para subir na cama mais alta de um beliche triplo de um quarto de hóspedes ajambrado num dos cantos da imensa cozinha da casa. O quarto sequer era isolado; apenas separado da cozinha por uma divisória de madeira que não chegava ao teto. Sentados na cama mais alta do beliche podíamos ver os adultos sentados à mesa, conversando.

Nesse leito semiprivado, a minha quase-prima puxou a sua bermudinha para o lado e me mostrou a sua “perereca”. Eu, que até ali só havia visto a da minha mãe, achei interessante a diferença entre as duas “pererecas”, sobretudo a ausência de pelos desta que a mim se exibia. Para mim, a “brincadeira” bem poderia ter ficado por aí. Entretanto, a menina pegou a minha mão e a colocou sobre a sua “perereca”, pedindo para que eu “fizesse carinho” nela. Para a criança que eu era, ou quem sabe para todo garotinho, a vagina remete demasiadamente à figura da própria mãe. Portanto, tocar na “perereca” da minha semiprima foi como tocar na da minha mãe, coisa que me deixou extremamente desconfortável.

Percebendo o meu desconforto, e excitada justamente por ele, a garota sussurrou que se eu tirasse a minha mão “dali” ela gritaria para os adultos logo a baixo de nós, do outro lado da divisória. Como eu já sentia que fazíamos algo, digamos, errado ou proibido – difícil saber exatamente -, cedi à sua ameaça. Eu estava sendo obrigado a acariciar a sua vagina. Então, ela disse para eu mostrar o meu “tico”. Olhei fundo nos olhos dela, atônito, e enquanto olhava fundo nos meus, ela baixou o meu calção e pegou no meu “tico”, que já estava “duro”, menos por excitação sexual do que por desconforto, porquanto, para um garotinho – e até mesmo para um adolescente – a ereção vem inclusive quando sentimos vergonha, timidez, ou qualquer sensação de inadequação.

Ela começou a me masturbar, coisa que eu nem sabia que existia. Também me obrigou a masturbá-la, forçando a minha mão sobre a sua “perereca”. O desconforto que eu experimentava, sobretudo em relação à vergonha que eu sentiria caso fosse descoberto pelos adultos fazendo “aquilo”, foi se misturando a um prazer estranho, inédito, até que eu, digamos, gozei. Esse proto-orgasmo foi suficiente para me convencer de que eu não precisava mais deixar o meu “tico” na mão dela nem a sua “perereca” na minha. Desci as escadas do beliche correndo, duplamente aliviado e fui me refugiar à mesa, com os adultos.

A garota, veio atrás de mim, sentou-se ao meu lado, e, sob a toalha da mesa, recolocou a sua mão dentro da minha bermuda. Se isso já havia me deixado desconfortável lá no beliche, agora, ao lado dos adultos, o desconforto era ainda maior. Maior e mais ameaçador também era o olhar da garota. Novamente, saltei da mesa e corri para a rua, para fugir dela. Para o meu desespero, ela me seguiu. E assim foi durante os cinco dias em que estive na casa de praia do tio Teobaldo: eu, fugindo do assédio sexual da minha quase-prima, e ela, insistindo em tocar no meu “tico” e para que eu tocasse na sua “perereca”. Na manhã do meu último dia lá, acordei com ela em pé, ao lado da minha cama, acariciando o meu pau.

Eu não queria aquilo, achava que era errado ela fazê-lo, mas, não sei por que, sentia que deveria manter segredo a respeito. Vergonha? De quê? De ter sido abusado ou de não ter tido coragem de denunciar imediatamente a minha abusadora? Para mim, pior era esse último. Agora, com todo respeito às mulheres, que, não é difícil observar, por serem mulheres nessa nossa sociedade assaz machista são bem mais expostas ao desrespeito sexual do que os homens, pergunto: nessas ocasiões, o que é pior, o abuso em si ou o fato de não poder externar a indignação em relação a um abuso no momento em que ele ocorre, da forma avassaladora com que ele se apresenta para quem é abusado?

Claro, pode ser dito, justamente, que pior é os dois juntos! O fato de que, para mim, pior foi a incapacidade ou a impossibilidade de ter denunciado o abuso assim que ele ocorreu, e não tanto o de ter sido abusado, decorre provavelmente de eu ser homem, e, como disse antes, até ter “gozado” no meio do abuso que (penso que) sofri. No entanto, por mais que o assédio da menina em questão tivesse me causado grande desconforto, o mundo ao meu redor, no qual vivo até hoje, não me obrigou a classificar o ocorrido como um trauma, mas apenas como o – não tão confortável – primeiro episódio da minha vida sexual.

Não que eu tenha, depois disso, passado a abusar sexualmente das mulheres – nem dos homens. Auto lá! O que ficou simbolizado para mim, entretanto, é que as abordagens sexuais, seja uma desrespeitosa mão-boba aqui, seja um cortês convite para ópera seguido de um jantar romântico acolá, são sempre pretextos para se tocar na “perereca” ou no “tico” de determinada pessoa; de ter as nossas “pererecas” ou os nosso “ticos” tocados por alguém, ou tudo isso junto ao mesmo tempo.

A diferença, é claro, está em que um convite cortês pode ser recusado, e uma mão-boba, ou o que é pior, um estupro, não. Não obstante, a pretensa pertinência do meu relato, e a inquestionável pertinência da #primeiroassedio, é evidenciar que sofrer assédio sexual são coisas bem diferentes para um homem e para uma mulher. Aquele, sem muita dificuldade, converte uma experiência sexual abusiva em combustível para o motor falocentrista que ainda – e infelizmente! – move a nossa sociedade. Já a mulher, ao contrário, de certo modo é obrigada a conviver angustiosamente com uma irrecuperável rachadura na sua autoestima. A injustiça-mor a ser desfeita, todavia, é que as rachaduras traumáticas de muitas mulheres são, ao mesmo tempo, o combustível estimulante de muitos homens abusadores.

Se em vez de confessar um assedio que eu porventura tenha cometido contra uma mulher eu preferi, aqui, compartilhar o meu #primeiroassedio – cometido justamente por uma mulher, ainda que bem jovem – não foi para me eximir de me solidarizar com a justa causa delas. Muito pelo contrário, foi para mostrar que ninguém está livre de sofrer abuso, seja homem ou mulher, seja por um homem ou por uma mulher. Todavia, a minha maior solidariedade está em confessar que, pelo fato de ser homem, o abuso que eu sofri não machucou tanto quanto se eu fosse uma menina, uma mulher. Pergunto, então: qual o tamanho da injustiça que resiste nesse estranho privilégio que os homens ainda desfrutam em se tratando de abuso sexual?

Se, até aqui, como pediram algumas mulheres, eu não confessei uma situação na qual tenha assediado uma mulher, abusado de uma, é porque, realmente e felizmente, eu não tenho o que confessar nesse sentido. Para o bem, o meu #primeiroassedio me colocou, desde o princípio, em confronto com o desconforto que é ser assediado por alguém – no caso, do sexo oposto – sem poder denunciar tal assédio, impedi-lo. O fruto virtuoso do meu #primeiroassedio, que desde então acompanha as minhas investidas sexuais, é o sempiterno desejo de que as pessoas que eu quero que toquem no meu “tico”, ou as quais eu quero tocar, seja nos seus “ticos”, seja nas suas pererecas”, o façam exclusivamente porque assim o desejam, e não por que se sentem obrigadas, constrangidas, assediadas.

Hiper-realismo reacionário

A Arte é melhor que seja reacionária ou revolucionária? Reafirmando o que já está aí, portanto limitando-se ao real, ela é reação. Em troca, inventando, ou pelo menos fazendo o que já existe existir de formas inéditas, ela revoluciona. Essa questão salta aos olhos nas esculturas hiper-realistas de Ron Mueck e de Huane Hanson, obras que reproduzem com uma fidelidade assaz intrigante corpos e hábitos humanos. Seja o enrugado casal de idosos na praia ou a mulher comum carregando um bebê mais duas sacolas de compras, de Mueck, seja o atleta fora de forma massageando o próprio pé ou o obeso turista americano sentado no chão com sua bagagem, de Hanson, o que temos são objetos artísticos que representam objetos reais exatamente como eles são na realidade, não como eles poderiam ser ou não foram até então.

A arte de fazer coisas como elas “devem ser” remonta a um passado no qual a Arte do artista, essa com “a” maiúsculo, se existia, estava subordinada a arte do artesão, com “a” minúsculo”. A arte do sapateiro, por exemplo – exemplo predileto dos filósofos antigos aliás-, é fazer sapatos como os sapatos devem ser. Aqui, obviamente, precisamos de uma boa dose de platonismo para sustentar um ideal de sapato a ser seguido por todos os sapateiros. Agora, mesmo se formos absolutamente empiristas, como Hume, e assumirmos que não existe “a forma perfeita do sapato” residindo imperiosamente nalgum céu ideal, da ideia de sapato que resiste entre nós não podemos nos desvencilhar. Quanto mais não seja, porque o próprio objeto existe empiricamente entre nós. Até mesmo o cético mais radical deve admitir que é somente dentro dos limites da ideia humana de sapato que o sapateiro exerce a sua arte.

Para o artista- sapateiro, portanto, não há problema algum em ser reacionário. Seus clientes decerto esperam isso dele: que os seus sapatos sejam nada além de sapatos. Já para os nossos artistas-Artistas, espólios das vanguardas modernas, cujo D.N.A obriga-os ao “a” maiúsculo, é muito pouco copiar fielmente a realidade. Mueck pelo menos agiganta ou apequena as suas “cópias”. Hanson, entretanto, sequer se dá ao trabalho de alterar a escala do que copia. Diante das obras desses Artistas, é como se eles nunca tivessem existido, somente a natureza. Claro, sem Mueck e sem Hanson tais esculturas não existiriam. Porém, mesmo antes de eles existirem a própria natureza já havia produzido bilhões de “esculturas” como estas, ademais, falantes, andantes, pensantes, viventes. Sendo assim, os dois artistas, por mais espetaculares que sejam suas obras, estão aquém das produções da natureza. E por tentarem reproduzi-la fielmente, são no máximo reacionários.

Revolucionários mesmo eram os antigos gregos que com suas perfeitas esculturas de deuses e semideuses traziam ao mundo justamente o que não existia nele. Da mesma forma, Michelangelo e Bernini, por exemplo, ao esculpirem um homem, faziam-no sempre mais do que ele mesmo. Eram criativamente positivos, enriquecendo sublimemente a “ordinariedade” da percepção humana. Já Mueck e Hanson, ao contrário, não ultrapassam o existente. Fixam-se nele; reproduzem-no. As suas (re)produções hiper-realistas, entretanto, são como as abjetas estátuas dos museus de cera, apenas um tanto mais detalhadas.

É como se esses dois escultores contemporâneos sofressem do mesmo mal que afeta a dança contemporânea. Explico: o balé clássico exigia que o bailarino transcendesse a capacidade natural do corpo humano. Já a dança moderna que o sucedeu fez com que a dança tivesse o mesmo tamanho do homem. Por fim, a dança contemporânea parece primar pelo aquém do que corpo humano é capaz; respeitar o corpo é não exigir dele toda a sua virtuosidade. É bem corriqueiro hoje em dia vermos um bailarino que estuda dança por décadas apenas caminhar pelo palco como alguém que nunca dançou. A favor da dança contemporânea temos que ela é bem mais democrática que o balé clássico, elitista por natureza. Contra ela, entretanto, podemos dizer que não leva o homem nem o seu corpo para além de si mesmos. Antes, faz como as esculturas de Mueck e Hanson, isto é, exibe uma arte que não aponta os limites humanos nem ultrapassa a realidade ordinária do próprio homem.

Contra mim, obviamente, depõem as grandes audiências das exposições de Mueck e Hanson, e também as dos espetáculos de dança contemporânea. Mas nada há para se espantar com isso. Se a Arte contemporânea é a arte de representar o que está do lado de cá da virtuose humana é porque o próprio homem contemporâneo está aquém-de si mesmo. Portanto é isso o que as pessoas em geral querem ver representado pela arte. E é por isso que as “estátuas de cera” hiper-realistas de Mueck e Hanson agradam tanto, pois nelas não há forma divinal alguma a esfregar na nossa cara a nossa inalienável mundanidade, mas apenas as nossas próprias formas – quiçá mais decrépitas – a sussurrar que nós, espectadores, somo melhores e mais surpreendentes do que elas. Mueck, Hanson e a dança contemporânea são espelhos diante dos quais a audiência nunca verá imagens maiores do que ela mesma. Já diante da antiga estátua de Poseidon, da renascentista Pietá, do barroquismo de Aleijadinho, ou até mesmo das contemporâneas esculturas de Picasso, o espelho não funciona a nosso favor; engrandece senão a própria Arte.

Pergunto novamente se o lugar excelente da Arte não é mesmo num além-realidade –ordinária; se não é melhor ela ser provocativamente revolucionária, não insistindo em, digamos, “respeitar” o real, reproduzi-lo, e, consequentemente, ser limitada por ele; ficar aquém dele. A Arte enquanto reação, com efeito, não nos leva a lugares alguns senão aos que já ocupamos. Em troca, enquanto revolução, seu único destino é trazer mundos inéditos ao mundo clichê de onde, aliás, tanto desejamos as produções artísticas. Por isso as produções da “Arte dos Artistas” não devem ser como as da “arte dos artesãos”, pois, do contrário, veremos nas galerias de Arte esculturas espetaculares de corpos humanos que, no entanto, somente mantêm a humanidade cativa do que ela já, do que ela já tem, de suas próprias ideias, tanto quanto o sapato do sapateiro não nos afasta da ideia perene que temos de sapato.

Das roupas dos mundos à Roupa do Mundo

Cada “mundo” tinha as suas roupas, ou, o que é o mesmo, cada roupa tinha o “seu mundo”. Entretanto, depois que os diversos “mundos” foram globalizados em um, as roupas tiveram de se despir de suas particularidades para então vestirem homogeneamente os homens do único mundo – digamos, “pasteurizado” – que restou.

Doravante, a calça jeans e a camiseta branca, o terno ou o tailleur Armani pretos, são uniformes universais que nos autorizam circular em qualquer “mundo” sem corrermos o risco cometer uma gafe. Aliás, quanto mais “neutra” a vestimenta, mais do mundo se é. Em troca, uma saia de penas ou um Niqab, por exemplo, apenas deslocam os seus usuários do “mundão” diretamente para o “mundinho” de onde tal hábito veio. Melhor para o mundo globalizado é que um morador de Nova Iorque e um de Mumbai usem as mesmas roupas.

Entre seus significados, “hábito”, mas também “costume”, significam “roupa”. Hábitos e costumes enquanto roupas outras coisas não são senão as expressões dos hábitos e dos costumes de determinadas gentes, lugares e épocas. As Chola e os Bombín andinos, os Kaftan africanos, os Quimonos japoneses, são a habituação, a “costumização” mais verdadeira da vida dos Andes, da África e do Japão, respectivamente.

Mesmo as rudimentares capas feitas com pele de animal usadas pelos homens das cavernas; as togas de puro linho dos antigos gregos; as alfaiatadas calças ¾ com meias de seda dos cortesões europeus; todas elas são as verdades vestidas e vestíveis de suas gentes, lugares e tempos.

Entretanto, em um mundo habitado por um único tipo de homem – moderna e estrategicamente construído -, onde todos os lugares são e devem ser um só – o mundo global -, e no qual o tempo a ser considerado é apenas o do capital, verdades peculiares, ou seja, étnicas, locais e extemporâneas, não devem mais ser vestidas, sob a pena de se ser destacado desse mesmo mundo.

Esquece-se, contudo, de que a verdade de uma roupa também é tecnológica. A túnica árabe, por exemplo, é a melhor veste para se despir do calor desértico. Quem não se espanta ao ler que a corte portuguesa não abriu mão de suas perucas e casacas invernais mesmo no calor tropical do Rio de Janeiro? Não estaríamos nós repetindo o fiasco lusitano ao vestirmos as mesmas roupas nos quatro cantos do mundo?

Por que o tênis deve seguir substituindo a sandália nos lugares quentes e ventilados? Ou os ternos cinzas dos executivos mexicanos os coloridos trajes típicos desse país? Certamente não é para vestir “o lugar” no qual se está ou do qual se é que são usadas as roupas feitas para serem usadas em qualquer lugar. O preço disso, contudo, é a inadequação, digamos, a mesma da corte portuguesa no Brasil.

A pressuposta adequação das nossas roupas genéricas é uma fantasia: esconde que elas, no mais das vezes, são inadequadas enquanto roupas. Talvez a única pertinência delas mesmo seja o engajamento ao projeto de mundo global que todos compartilhamos, queiramos ou não.

Absolutamente adequado, em troca, seria, no calor infernal nos vestirmos como os beduínos; no frio extremo, como os esquimós; sob a cancerígena radiação solar, em vez de camadas de “Sundown”, algumas camadas de linho, como os árabes sempre fizeram; e para um simples banho de mar, no lugar de roupas de banho de grife, a sempiterna nudez indígena.

Embora o homem seja o único animal da natureza a vestir, com roupas, a sua nudez natural, não devemos chegar ao extremo de impor a ele um único tipo de roupa. Esse é apenas o vil projeto moderno-contemporâneo. Ademais, é bom não nos esquecermos de que essa coisa chamada “o homem” é uma abstração; que, concretamente, existem apenas homens, mulheres e crianças particulares, cujas particularidades advêm senão deles mesmos, de seus lugares e tempos, e que também devem ser vestidas, vestíveis.

A verdade do “costume” de um povo não cabe, tampouco deve caber na pretensão comercial&universal de uma adidas ou de uma C&A, por exemplo. Os muitos e diferentes hábitos com que os homens se vestiram até aqui têm uma verdade que deve ser recuperada, reciclada. Pois, do contrário, findaremos uniformizados, não de animais vestidos, mas de homens universais de lugar nenhum.

Coronelismo contemporâneo

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O coronelismo, ironicamente considerado um “brasileirismo”, surge com a hipertrofia da figura de um detentor do poder, no caso o coronel, sobre o poder público, através de fraudes eleitorais e da desorganização da coisa pública. Pode-se dizer que Eduardo Cunha, presidente da câmara dos deputados, sobrevive o coronelismo ao tentar deslegitimar o poder democraticamente constituído, por meio da articulação de um golpe político – midiaticamente chamado de impeachment – contra a presidente Dilma que, até então, não tem  crime algum comprovado contra si.

Cunha abusa da sua figura de detentor de poder a despeito das graves suspeitas que recaem sobre ele, quais sejam: sonegação de imposto; fraudes em contratos celebrados, em movimentações financeiras e na declaração de rendimentos; improbidade administrativa; captação ilícita de sufrágio; abuso de poder econômico, só para citar os que estão mais aclarados no momento. Porém, o bom coronel é aquele que segue agindo como se a lei nada valesse dentro do seu latifúndio.

E o despotismo de Cunha não para por aí. Diante de da ameaça de ser deposto do seu cargo de poder, Cunha diz: “Esquece, eu não vou renunciar”, e “se me derrubarem, eu derrubo todo mundo também”. Muito sinceramente o presidente da Câmara comunica à população brasileira que permanecerá no poder e, mais ainda, como fará isso: mediante a ciência dos “podres” de outras pessoas e o podre poder que esta vil ciência lhe confere.

Todavia, por mais vergonhosas que sejam as regras do jogo do atual presidente da câmara, pelo menos uma virtude elas têm. Qual seja, Cunha fala a verdade. A pior, no entanto, mais crua verdade. Seria muito pior se ele sustentasse a sua permanência no poder dizendo que é para o bem da população, como a cartilha político-demagógica indica no mais dos casos. Mas não! Ao menos Cunha deixa bem claro a sordidez na qual está atolado até o pescoço.

Historicamente, os coronéis tomam e mantêm o poder de duas formas: ou por meio da violência, ou mediante troca de favores. Bem, tentando um impeachment infundado, Cunha outra coisa não faz além de violentar a democracia, ou seja, todos os brasileiros. E “fazendo o favor” de não denunciar os seus companheiros na condição de eles “fazerem o favor” de não denunciá-lo, Cunha mantém viva a sórdida roda dos favores que sustenta o coronelismo.

O altíssimo preço do coronelismo, não só o de Cunha, é a abstração da democracia e da justiça na concretização de uma espécie de liberdade política e econômica tirânico-despótica, que, estratégica e infelizmente, abstrai ainda mais a democracia e a justiça, e assim por diante, viciosamente.

Falando de coronéis, não podemos deixar de lembrar de José Sarney, do mesmo partido de Cunha. O coronel-oligarca-mor que, desde que foi eleito governador do Maranhão em 1966, articulou praticamente todos os últimos governos do Brasil, foi presidente do Senado durante a ditadura militar, presidente do partido governista ARENA, vice-presidente de Tancredo Neves, presidente da república, apoiou os governos de FHC, Lula e Dilma, presidindo novamente o senado nestes períodos.

Afora isso, José Sarney é latifundiário, proprietário de seis afiliadas da TV Globo, de emissoras de rádio e de jornais. Com essa presença econômica, política e midiática, Sarney, permanece há quase 50 anos com as suas mãos no poder, concretizando cada vez mais uma liberdade política e econômica que aponta não para os interesses do povo que ele sempre disse representar, mas para interesses seus, de seus familiares e de seu partido.

Bom coronel que é, Sarney colocou sua filha no poder, Roseana, que começou como deputada federal, foi duas vezes governadora do Maranhão – o curral do clã -, senadora da república, e, em 2010, novamente governadora do Maranhão. Obviamente, não foi por ter bem representado o povo que a princesa da oligarquia maranhense mereceu por tanto tempo, e por várias vezes, a dianteira política.

Em 2014, a respeito da crise penitenciária do seu estado, evidenciada tragicamente pelas dezenas de decapitações de presos no presídio de Pedrinhas, Roseana disse ao Observatório da Imprensa que as coisas por lá iam muito bem, e que a violência só acontecia por que o Maranhão estava rico. Exclusivamente para ela a riqueza maranhense era verdadeira, dado que um dia antes da infame declaração ela havia autorizado licitações para a compra de camarões gigantes e sorvetes importados para o Palácio dos Leões, sede do governo.

Hoje, é Eduardo Cunha a figura descarada do coronel que não se priva de desorganizar a “res” pública para, com isso, organizar as suas e as do seu partido. Assim (sobre)vive o coronel; assim marcha o coronelismo: um erro que, pela força de seu vício intrínseco, sobrevive mentindo para todos que é um acerto. E tanto faz que o poder de Cunha seja deslegitimado ética, política e economicamente, pois para um coronel não existe coisas tais como lei, ética ou povo, apenas os seus imperiosos interesses particulares.

O coronelismo clássico que dominou o Brasil até o início do século passado foi reduzido quando, a partir da década de 1930, grande parte da população migrou para os centros urbanos, acessando com isso à educação e aos meios de comunicação, e por isso se tornando politicamente mais consciente e crítica. Não seria o caso então de efetuarmos algum tipo de migração, ainda que não geográfica, no sentido de esvaziarmos o curral onde as leis dos coronéis contemporâneos vigem verticalmente?

Todavia, qual é o “lugar” no qual estamos cativos do coronelismo de Cunha que, abandonado por nós, deixaria o coronel sozinho e sem poder sobre ninguém? Seria a democracia esse lugar? Oxalá não seja, pois, concordando com Aristóteles, a democracia ainda é o menos pior de todos os regimes de governo. Talvez o angusto sítio que devamos deixar de ocupar seja o minifúndio, nada cidadão aliás, onde apenas nos indignamos passivamente com as absurdidades dos coronéis.

Ora, qualquer indignação passiva da população apenas vai de encontro aos propósitos ativos do coronel. Devemos, portanto, migrar não “de” nossas indignações para um lugar onde elas não nos aflijam, mas, antes, migrar com as nossas indignações para um lugar onde elas surtam efeito contra aquilo que nos indigna. Do contrário, o poder dos coronéis só crescerá, mais nu e vergonhoso do que nunca.

Se o coronelismo atual, diferente do da era pré-Vargas, não se restringe mais apenas aos maranhões rurais brasileiros, mas ocupa despudoradamente o centro iluminado do poder, é esse centro que devemos abandonar. Porém, não para deixá-lo livre para os coronéis. Antes, “abandonar o centro” deve significar habitar capciosamente sua periferia, a ponto de fazer dela uma trincheira de onde possamos espreitar todas as facetas e estratégias dos coronéis que roubam, dos “observadores periféricos entrincheirados”, o centro para si.

Migrar para a periferia política, ao contrário do que pode parecer, não é desertar o campo de batalha, mas, paradoxalmente, tocá-lo de modo ainda mais direto, isto é: estar asfixiantemente em torno do problema central que nos aflige. Por isso os nossos cinquenta tons de indignação contra o coronel Cunha não serão efetivos enquanto, dentro do latifúndio dele, nos indignarmos apenas nas nossas solitárias navegações no Facebook, leituras de jornais e audiências televisivas. O fim de Cunha, como ele deixou bem claro, não partira dele, e, pelo teor de suas ameaças, tampouco dos que dividem o palácio central com ele.

Já nós, que até aqui apenas nos indignamos passivamente com os desfeitos do coronel Cunha, temos de abandonar esse parlatório inócuo e ocuparmos um lugar bem mais crítico, sabendo, contudo, que a construção de mais um limite aos coronéis, a exemplo do século passado, será lenta, histórica, e sobretudo exigirá movimento ativo do povo, melhor dizendo, sua evolução. Do contrário, Sarneys, Roseanas, Cunhas e demais coronéis sobreviverão impertinentemente, ao melhor modo zumbi, apodrecendo vivos, porém, sugando a vida do povo em função se sua insaciável fome de mais-poder.

Para um futuro livre do cabresto coronelístico, devemos espreitar, seja nas efemeridade das urnas, seja no longo período entre elas, todo e qualquer representante político para sabermos se seus objetivos giram apenas em torno do mais-poder ou se, antes, há alguma verdade sob as togas brancas-democráticas por meio das quais se elegem. Isso porque não há futuro com coronéis no poder, somente mais do mesmo, isto é, mais do sórdido passado brasileiro, em função do qual, aliás, um futuro realmente novo e descontaminado do velho “brasileirismo” chamado coronelismo se faz tão necessário.

O” meu Facebook” X o “Facebook do Facebook”

“Rolando” o meu feed de notícias do Facebook, percebi que as postagens dos meus amigos haviam desaparecido. Tudo o que eu via eram atualizações de páginas de notícia, de arte, de política etc. Teriam os meus amigos todos me abandonado? Rapidamente verifiquei que não; ainda estávamos “marcados” para nos seguirmos. Mesmo assim, eu nada mais via deles. Senti até saudade dos selfies – que na verdade eu nem gostava de ver -, e das reclamações sobre quaisquer coisas – que, entretanto, sempre ficam melhor ou numa mesa de bar, ou num consultório psicanalítico.

Entretanto, mesmo assim eu não tinha como aceitar o fato de o algoritmo do Facebook estar escolhendo por mim o que eu estaria vendo, decidindo que as postagens dos amigos que eu curto são menos importantes do que as atualizações das páginas que eu sigo. Com efeito, Zuckerberg havia me convencido de que eu podia estar conectado à milhares de pessoas, páginas e grupos dos mais diversos assuntos e interesses, tudo ao mesmo tempo. Era só clicar em “Curtir” ou “Seguir” e pronto: doravante eu veria tudo, de todos.

Claro, se o Facebook não “algoritmizasse” o que eu vou ver nele, e enfileirasse todas as postagens, de todas as pessoas e páginas que eu curto, certamente o meu feed de notícias, digamos de um dia, teria alguns quilômetros de extensão. Eu “rolaria” as notícias por horas, simplesmente para ver tudo o que foi postado em apenas cinco minutos facebookianos. Ou seja, nunca veria tudo o que os amigos que curto e as páginas que sigo postam. O Algoritmo de Zuckerberg, de um certo ponto de vista, não torna as coisas piores. Apenas transforma uma impossibilidade em outra.

Entretanto, não poder ver todas as postagens dos meus amigos “porque” elas são muitas, é bem diferente não vê-las “porque” o Facebook, diante dessa impossibilidade, pré-seleciona o que eu vou ver, privando-me ainda mais das tantas postagens dos meus amigos; preferindo no lugar delas as atualizações impessoais de suas tantas páginas. Como reverter a situação? Como vencer o algoritmo de Zuckerberg, e a que preço?

Os clássicos passos para se manter próximo de alguém no Facebook são comentar, curtir e compartilhar as postagens desse alguém. Todavia, tais procedimentos são de pouca eficácia, pois, estrategicamente, o Facebook não converte diretamente o grau de “fidelidade facebookiana” a alguém em maior contato. Mais importante para Zuckerberg é que eu veja exclusivamente aquilo que ele quer que eu veja e saiba. Portanto, não basta apenas interagir com os meus amigos “do” Facebook para tê-los cotidianamente “no” Facebook.

É justamente porque, para Zuckerberg, as atualizações das muitas páginas são bem mais importantes e lucrativas do que as dos meus amigos, que cada atualização delas precisa “engolir” de quatro a cinco postagens destes. Agora, se eu não curtisse tantas dessas páginas, o algoritmo facebookiano teria menos o que colocar no lugar das postagens dos meus amigos. Então, o passo seguinte foi “descurtir”, deixar de seguir tudo aquilo que ocupava o lugar dos meus amigos no horizonte do meu Facebook.

Depois de fazer isso, voltei a ver mais do que os meus amigos postavam. Claro, não tudo, pois hoje em dia postamos mais do que qualquer um pode ver, ler, curtir, comentar ou compartilhar. Ainda que o algoritmo de Zuckerberg pré-selecione tudo o que eu verei, o fato de eu estar curtindo menos daquilo que ele gostaria que eu visse, e ao mesmo tempo privilegiando apenas aqueles que eu gostaria de ver, o meu Facebook, ao menos, voltou a parecer mais o “meu Facebook”, e menos o “Facebook do Facebook”.

Não curtir tantas páginas e não ser amigo de tantas pessoas, portanto, foi o modo que eu encontrei para dar a volta no algoritmo de Zuckerberg; reduzir aquilo que ele queria que eu visse; voltar a ver aquilo que meus amigos fazem nessa rede social. Óbvia&infelizmente, ainda assim há a “algoritmização” zuckerberguiana por trás de tudo o que acontece no “meu Facebook”. Porém, eu bem posso não muni-lo com tantas “curtidas” e “seguidas” à pessoas e páginas que, quando em grande número, apenas se colocam no lugar umas das outras.

“Dando arma ao bandido”, acabava senão vendo somente aquilo que o Facebook queria que eu visse, sem sequer me dar conta de que os meus amigos, precisamente aqueles que me levaram ao Facebook, desapareciam do meu feed de notícias a uma taxa de quatro a cinco atualizações deles para cada atualização de uma página qualquer. Se o Facebook, capitalizando-se mediante o seu alienante algoritmo, tem a sua própria&vil economia, eu, por minha vez, posso ter a minha, ainda que dentro da dele: economizar “curtidas” e “seguidas”, não dar tanta oportunidade para ele manipular o que eu vejo, me alienar do que eu realmente curto e do que eu mais gostaria de estar vendo cotidianamente nessa plataforma virtual.

Alfaiataria X indústria do vestuário

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A arte de medir um corpo, cortar e costurar tecidos para vesti-lo, isto é, a alfaiataria, está morrendo. Seu algoz é a industria do vestuário, cuja característica mais contrária ao artesanato do alfaiate é a produção de roupas em tamanhos e formatos que não são os de ninguém em específico, mas os de um corpo humano abstrato, pretensiosamente o resumo de todos os corpos humanos concretos. A lógica do prêt-à-porter obriga, verticalmente, a sermos de determinado formato e medida para que então possamos nos encaixar nas suas roupas.

Falando em medidas humanas, não podemos deixar de lembrar da célebre frase do sofista Protágoras, cunhada há quase 2500 anos: “O homem é a medida de todas as coisas”. Ora, as nossas roupas exemplificam como poucas coisas a máxima do sofista grego, pois não tem cabimento algum imaginar uma roupa, feita para um humano, que não tenha as as medidas dele. Porém, assim como o idealismo de Platão foi contra o pragmatismo dos sofistas, a indústria do vestuário é contrária à alfaiataria uma vez que afirma massiva&industriosamente que é o homem que  deve ter a medida das coisas. Melhor dizendo: das coisas dela!

Essa mercado-lógica da indústria do vestuário, além de praticamente ter exterminado os artesãos alfaiates, estimula fortemente em nós a cada vez mais banal sensação de inadequação dos nossos próprios corpos, fazendo com que ousemos pensar, ademais contra a perfeição da natureza, que nossos corpos e medidas estão errados; que deveríamos ser mais gordos ou mais magros do que somos (geralmente mais magros, como a publicidade dessa indústria também prega); que nossas cinturas e coxas, por exemplo, precisem sofrer lipoaspirações anuais e/ou sessões de musculação diárias. E tudo isso porque há um mundo de roupas já prontas, cujas medidas&formatos são previamente determinadas&impostas verticalmente contra os nossos corpos particulares.

Por não terem sido feitas para ninguém em particular, as roupas produzidas pela indústria do vestuário pretendem-se universais. Tal universalismo, não obstante, escraviza as nossas inalienáveis particularidades. O indivíduo singular concreto, tendo que se formatar a esse formato universal abstrato imposto de cima pela indústria do vestuário, é obrigado a cumprir a tarefa mais inglória -e por que não dizer impossível– de ser um corpo genérico, ou o que é o mesmo, corpo nenhum.

Etimologicamente, alfaiate vem do árabe “alkhayyát”, e significa “O costureiro”. Ou seja, o artesão do vestir, que as pessoas procuravam para terem roupas para seus corpos. Porém, essa dinâmica se perde completamente diante da dinâmica da indústria do vestuário. Antes mesmo de as pessoas precisarem de roupas, tal industriosidade voraz já produz massivamente tudo o que elas deverão vestir, com tecidos, cores e formatos mercadologicamente estipulados, não importando quaisquer desejos, características e necessidades particulares.

Disso decorre a tentativa, todavia condenada ao fracasso, de se ter um corpo para as roupas, e não o contrário: roupas para um corpo. Para a alfaiataria e isso é um absurdo, pois ela parte de um corpo singular para produzir roupas outrossim singulares que respeitem esse corpo. A indústria do vestuário, ao contrário, alienando-nos sistematicamente dessa conformidade entre a alfaiataria e as nossas características particulares, pressupõe um corpo genérico, universal –portanto inexistente-, findando com mercadorias genéricas que, longe de respeitarem as singularidades dos indivíduos, respeitam apenas a sua própria busca por lucro$ ma$$ivo$.

Apóloga do mais abjeto consumismo, a indústria precisa sobremaneira exterminar a arte da alfaiataria. Quem tem o costume de vestir roupas feitas exclusivamente para si -ou já teve pelo menos um roupa alfaiatada- sabe muito bem que tais artefatos não foram feitos para serem descartados de acordo com a histérica obsolescência tão necessária à ventura industrial. Antes, uma roupa feita sob medida é tão adequada, tão a cara do corpo para o qual foi feita, que esse “corpo” tende a mantê-la até que que ela pua. Ora, é justamente isso que a indústria não pode aceitar, pois, para ela, o consumismo desenfreado é o élan que a nutre.

Se, como bem sabemos, o consumismo massivo, vital para a indústria em geral, é um dos maiores destruidores da natureza, o alfaiate, hoje em dia um zumbi nesse mundo apocalíptico, oferecendo uma opção paradigmática ao consumismo desemfreado, aop passo que respeita as particularidades dos corpos humanos, produzindo roupas que são a exata medida deles, respeita também o mundo no qual esses corpos existem. E qual a melhor “roupa” para a humanidade inteira senão um planeta preservado dos malefícios do consumismo institucionalizado pela indústria?

A alfaiataria, portanto, é a forma mais ecológica para a humanidade ser o que somente ela não consegue deixar de ser: essa espécie animal que não aceita a sua nudez natural. Afinal, roupas só existem porque precisamos esconder a nossa própria animalidade. Para essa necessidade imperiosa, e para que ela não destrua ainda mais a natureza, ninguém mais adequado que o alfaiate, o artesão que, cortando e costurando tecidos, recostura com arte o velho sofisma protagórico, qual seja, “o homem é a medida de todas as coisas”. Entre a indústria do vestuário e a alfaiataria, só esta sabe que o é homem, melhor dizendo, cada homem a medida imanente de suas roupas, e não estas uma medida transcendente para ele. Em suma, a medida do alfaiate é a justa medida para a desmedida indústria do vestuário.

Tato atento

Em geral, os showrooms são feitos para que as pessoas vejam mercadorias, para que consumam ou não aquilo que veem. Em tais lugares-eventos, portanto, olha-se muito. Todavia, vê-se pouco. Na verdade, compra-se mais do que se vê. De um ponto de vista estritamente comercial, isso de forma alguma é um problema. Aliás, se as pessoas passassem a ver muito bem, poderiam enxergar que sequer precisam da maioria das coisas que compram. O consumismo, estrategicamente, requer um tanto de cegueira!

Eu montei um showroom para lançar a minha grife de roupas voltadas para o mundo da dança contemporânea, em um badalado seminário dedicado a essa arte, para que as pessoas pudessem apreciar as minhas criações, quiçá comprá-las. Entrementes, como não podia deixar de ser e, a “dinâmica showroom” se repetiu. As pessoas em geral olhavam mais do que viam. Passavam rapidamente de um cabide a outro, apressadas, como se estivessem deslizando as contas de um ábaco, apenas olhando, sem se deterem por muito tempo em cada uma das peças, até que alguma das roupas lhes chamavam atenção. Só então elas diziam: eu gostei dessa, vou comprar!

Em relação a isso, a minha “empresa” nada tinha a reclamar, ainda que, particularmente, eu achasse que meus consumidores deveriam ver melhor o que olhavam. Mas não era o que acontecia. Elas pareciam propositalmente afoitas em relação àquilo que olhavam, como se, antes, quisessem ser vistas por tais coisas, encaradas por elas, para só então as verem, própria e generosamente. Quando esse curto-circuito visual se fechava, voilá!, elas compravam.

Entretanto, no final do dia, um pouco antes de eu fechar o showroom, uma interação diferente com as minhas mercadorias aconteceu. Uma garota cega se aproximou da arara de roupas perguntando o que havia ali. Eu lhe expliquei do que se tratava. Ela pediu , literalmente, para “ver as roupas”. Eu disse que as peças estavam a dois passos dela. Tateando o ar, ela encontrou as roupas penduradas nos cabides.

Então, ela passou a examinar, com seus dedos, cada uma das peças, seus formatos, os tecidos de que eram feitas, as costuras, os aviamentos, demorando-se em cada uma delas o tempo necessário para que todos os detalhes fossem, digamos, “vistos” – ainda que a visão fosse a única sensibilidade de que ela era privada. Quando alguma peça lhe chamava atenção, ela voltava às que já tinha examinado anteriormente, como se quisesse entender a relação que as diferentes roupas tinham entre si; se formavam um conjunto harmônico; se os tecidos – não as cores, obviamente, mas as texturas – conversavam, e como.

Para a minha surpresa e delícia, a garota cega foi a única pessoa que circulou pelo meu showroom que realmente pareceu ver as minhas roupas como eu desejava. Mais ainda, tive certeza de que ela fez mais do que ver, e decerto muito mais do que simplesmente olhar para as minhas criações. Ela, na verdade, fruiu o meu trabalho como eu sempre achei que ele merecia. Fiquei certo de que nenhum detalhe passou despercebido para ela, com larga vantagem inclusive.

Entretanto, o revolucionário para mim da fruição do meu trabalho pela garota em questão foi que eu, pela primeira vez, vi as minhas roupas serem apreciadas sem serem propriamente vistas. Não que as pessoas videntes também não fruam as roupas por meio do tato. Entretanto, para quem vê, todas as demais sensibilidades estão acompanhadas de, no mínimo, uma imagem visual subsidiária. Pior ainda, substitutiva. A garota cega, em troca, dispensava tal subsídio. Seu tato atento era o substituto excelente do seu olhar, porque liberto deste.

Observar a sua fina análise tátil dos pormenores do meu trabalho evidenciou, para mim, o universo sensível que existe nos muitos detalhes que eu, pelo fato de ver, acabo deixando de enxergar. A minha sensibilização foi tamanha que, enquanto ela estava no meu showroom, eu não conseguia dar atenção a mais ninguém. Com efeito, eu estava hipnotizado pelos dedos dela, por onde eles estavam, pelo que e como faziam. Na verdade, eu tentava sentir o que ela poderia estar sentindo. Não obstante, a realidade tátil que eu tentava experienciar não provinha dos meus próprios dedos, mas do tatear dela. Mesmo ali eu repetia o pecado de todo vidente, isto é: achar que as demais sensibilidades podem ser reduzidas à visão.

Entretanto, diferente das demais pessoas, que somente ao “serem vistas” pelas coisas para as quais olham é que as veem de verdade, para só então quererem comprá-las, a garota cega, ao contrário, iniciando o seu “olhar”, todavia tátil, já na forma de uma espécie de “visão” profunda, e ademais demorando-se sem pressa nessa observação, ao terminar de “ver”, nada comprou. Simplesmente balbuciou um elogio às roupas como que querendo saber onde eu estava. Eu, que não me afastei dela um minuto sequer, reapresentei-me sonoramente. Dessa vez o seu elogio foi claro e direto.

A pessoa que melhor realizou o objetivo do meu showroom, que mais “viu” o que estava sendo mostrado, foi justamente uma que que nada comprou. Entretanto, foi a que mais me fez lucrar, pois, depois dela, eu terminei enriquecido de tudo aquilo que, pelo dom da visão, eu havia deixado de ver naquilo que eu mesmo faço. Precisamente, tudo o que há para ser fruído nas coisas, mas que, subjugado pelo império da visão, passa a não ser mais visto.

O fato de as pessoas em geral olharem afoitamente para as coisas, para somente depois vê-las de fato, é o intervalo no qual o mais abjeto consumismo penetra subversivamente. E disso são feitos os showrooms. Agora, aqueles que como a garota cega já começam “vendo” profundamente as coisas, tem nessa “visão” mesma o objeto final do seu consumo. Diante dessa relação, digamos, mais autêntica com as coisas a serem vistas, o consumismo comercial tem menos lugar. Aquela garota me mostrou que quando vemos bem as coisas para as quais olhamos, com efeito, não precisamos comprá-las, pois essa visão mesma já é o consumo, decerto, mais que suficiente.