Grécia descalça sobre espinhos europeus*

A Grécia a.C. levou democracia, arte, arquitetura, ciência e filosofia aos confins do mundo antigo numa empresa epopeica&histórica chamada de Helenismo, que quer dizer “viver como os gregos”, concretizando assim o ideal do seu grande invasor, Alexandre, o Grande. A difusão da cultura Grega, entretanto, não ficou restrita àquela época e região, mas fez carreira exitosa, mundo e futuro afora, merecendo o longevo título “o berço da civilização”. Dois mil anos depois, a Hélade agoniza, não naquele berço esplêndido, mas num leito crísico&econômico atualíssimo, por cujo pernoite, aliás, ela não pode pagar.

Em um mundo no qual a economia faz es vezes da democracia, da arte, da arquitetura, da ciência e da filosofia juntas, a Grécia é novamente invadida, só que agora o Alex da vez é o Capital, o Grande. Diferente de há 2300 anos, os atuais dominadores-credores que se assenhoram da Grécia não querem saber de peculiaridades suas algumas, para então disseminá-las “Worldwide”, mas sim de levarem o seu “World Very Wild” econômico-globalizado para lá, para então legarem os parcos Euros gregos à ‘liberabília’ mundial.

O mesmo mundo que, na antiguidade, ganhou dos gregos a civilização, na contemporaneidade, não se importa em assassinar essa mãe civilizadora para saciar a sua sede, contudo insaciável, de cifrões. O império do capital, portanto, outra coisa não representa senão a mais abjeta barbárie – cujos bandos partem dos bancos – marchando à passos econômicos na ágora globalizada do exato agora. Hoje em dia, basta fazer do dinheiro um Deus para que a barbárie reluza palidamente um verniz de civilidade. Todavia, como diz um velho provérbio grego, “As vestes não fazem o sacerdote.”

O bárbaro-mor da vez é o perverso Banco Central Europeu, para quem não é problema algum devassar uma nação inteira, precisamente porque ele é o primeiro banco central do mundo cuja sagaz centralidade dispensa um território e uma soberania nacional, ou seja, uma nação. Ora, por que um banco que não representa nenhum país determinado se privaria de arruinar um país historicamente determinado como a Grécia? Ademais, uma vez vitorioso no ‘economicídio’ da moeda mais antiga do mundo, o Dracma grego, o euro, essa vil moeda sem país, só precisa seguir ‘eurobarbarizando’.

Agora, se no passado a Grécia legou ao mundo a sua cultura, de valor inédito&inestimável, no presente, ao contrário, é o mundo que leva a ela a sua cultura, de valor liberal&globalizado, cuja arquitetura, arte, ciência e filosofia trata sobretudo do capital. Entretanto, o que pode a Grécia novamente legar ao mundo a partir desse angusto legado que a atualidade lhe impõe? Pobreza não é, pois com isso o mundo já convive há muito tempo. Calote tampouco, afinal, esse também já é um fantasma demasiado internacionalizado.

Ora, se lembrarmos que a polis grega antiga foi o berço da política, cujo lastro democrático acolhia os cidadãos e os seus problemas, para, mediante a palavra, resolvê-los diretamente, o que a metrópole grega contemporânea pode voltar a disseminar sobre o mundo é a arte, assaz ausente hoje aliás, de solucionar enigmas globais com o verbo local. O Eurobanco, obviamente, não quer cambiar capital por discurso nenhum. Porém, ao repetirem impertinentemente que não irão pagar conforme quer o Bárbaro Central Europeu, os gregos, retórica&civilizadamente, fazem da Europa inteira a sua nova assembleia política. Os gregos contemporâneos parecem não ter esquecido de um provérbio ancestral: “É preferível ser dono de uma moeda a ser escravo de duas”.

Na acrópole ateniense, mulheres-colunas-gregas chamadas de cariátides sustentam em suas cabeças, há 2500 anos, o peso do templo de Erecteion, consagrado a Palas Atena, deusa da civilização, da guerra, da sabedoria, da artes, da justiça e da estratégia. Para Atena, a recente pressão do BCE sobre a Grécia é apenas um vento invernal. Já as cariátides, d o topo mais nobre da Hélade eterna, simbolizam perenemente que os gregos e as gregas têm dentro de si um ‘daimon’, isto é, um espírito-guardião, capaz de suportar, não só o peso do tempo, mas também o peso dos templos, sejam eles às divindades, sejam os do capital, afinal, como diz outro provérbio grego, “São os cães maus que morrem dolorosamente”.

*do provérbio grego “Como você vai andar descalço sob os espinhos?”

Rainbow Blocs

A paleta de cores do já clássico&histórico junho de 2103 tupiniquim variava em cinquenta tons de black, cujo matiz mais radical era o bloc. Essa mono tonalidade massiva, contudo, não realçou uma vitória assaz colorida dada naquele mesmo ano, qual seja, o reconhecimento legal dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. Já o colorido 26º dia de junho de 2105, cuja paleta popularíssima é o arco-íris gay gratuitamente oferecido pelo Facebook, comemora aquela vitória, entretanto, na festa da aprovação do casamento igualitário nos EUA.

Se junho de 2013 levou multidões das redes sociais às ruas, junho de 2015, por sua vez, traz as pessoas das ruas – das encruzilhadas de um congresso retrógrado, das vias de mão única do evangelismo malafáico, dos becos sem saída do preconceito bolsonárico – ao Facebook. Porém, a peculiaridade da manifestação-comemoração atual é trocar os coquetéis molotov caseiros de 2013 por bombas arco-íris em forma de filtro instagrâmico. Os manifestantes atuais protestam em cores! O jornalista Vitor Angelo, no seu Blogay, sacou sagazmente que “os avatares coloridos são um repúdio ao estado das coisas no Brasil”.

Poucas horas depois de anunciada a nova lei americana, os murais do Facebook eram um ‘bloc’ massivo de seis cores arco-íricas, borealmente solidário à igualdade, por um lado, e cromoterapicamente crítico à desigualdade, por outro. Entretanto, nem tudo são cores! Muitas pessoas estão criticando opacamente a colorização facebookiana, dizendo que se trata de mais uma onda colonizadora&imperialista, porém, desta vez, surfada por ninguém menos que Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

No entanto, assim como na Natureza é a luz que brilha, mas não as trevas, as cores – que são brilhantes expressões da luz! -, juntas, em número de seis, e adotadas por milhares de usuários do Facebook, filtraram, reluzentemente, os cinquenta tons de cinza dos seus críticos de plantão, cujos matizes extremos são, de um lado, a densa escuridão do preconceito arraigado, e, de outro, o pálido lusco-fusco da indiferença em relação àquele.

Se a maré alta das seis cores mais populares no Facebook desse final de junho de 2105 ainda não inundou&pintou as ideias de determinadas pessoas, paciência imediata, mas resistência eterna! Afinal, é justamente contra estas telas-avatares fundamentalistas&antiaderentes, que não recebem o vermelho-vida, o laranja-poder, o amarelo-luz, o verde-natureza, o azul-arte e o violeta-espírito, que os pincéis-manifestantes da onda colorida devem insistir. Ora, se não fosse o breu do preconceito historicamente construído contra o amor livre, as cores da igualdade não seriam apenas as do arco-íris, mas as dos diversos tons-de-pele humanos.

No entanto, a luz e os seus espectros coloridos há muito se digladiam com a escuridão. Na Alemanha do século XVI, durante a guerra dos camponeses contra a aristocracia, a bandeira arco-íris foi empunhada pelo sacerdote Thomas Muentzer como sinal de esperança de uma nova era. Nos anos 1960, a bandeira colorida era usada como símbolo pacifista pelos italianos. Porém, foi Gilbert Baker, na San Francisco de 1978, que, reduzindo as cores da antiga bandeira de oito para seis, deu ao mundo o ícone do movimento LGBT que, hoje, matiza irreverentemente as ‘timelines’ facebookianas numa cruzada virtual para libertar o amor-livre-camponês do preconceito-homofóbico-aristocrata e anunciar a esperança de uma nova era de paz.

Por que, então, resistir ao poder das cores? Como não aderir, sem preconceitos adoecidos e com uma salutar esperança epocal, à força revolucionária que historicamente resiste nas faixas do arco-íris? Desculpem-me, mas, resistir a elas, hoje, é ser um vândalo destruidor da construção de uma igualdade mui necessária. É fazer como o Black Bloc de 2013 que, investindo mormente contra paradas de ônibus e Bancos Itaús, teve, contudo, de pagar o amargo preço de um congresso ainda mais reacionário, que, por conseguinte, legou-nos uma indigesta escalada religiosa-homofóbica a qual ninguém esperava nem desejava. Porém, não foram só os Black Blocs que pagaram esse preço, mas toda a sociedade.

Sendo assim, para que esse junho de 2015 possa reduzir, quiçá encerrar a conta evangélica-homofóbica aberta na sequência daquele junho de 2013, adesão irrestrita às cores, venham elas do arco-íris da Natureza, do antiaristocratismo camponês-alemão do século XVI, do pacifismo ítalo-hippie dos 1960, do LGBTismo californiano dos 1980, ou ainda dos filtros digitais facebookianos de Zuckerberg. Quanto mais não seja, porque, por uma ironia do destino nada gay, o uniforme de guerra histórico contra o preconceito ainda é o mesmo que a roupa de festa da comemoração da igualdade entre os amantes, sejam eles os brasileiros desde 2013, sejam os americanos desde 2015. Que possamos ser, todos&irrestritamente, Rainbow Blocs!

Toda nudez será sabida

A natureza não fez nenhum animal nu, tampouco o homem, pois afirmar isso significaria dizer que ela fez um trabalho incompleto, o que é um absurdo. Entretanto, o homem, quando está somente com a sua pele animal&natural, tem a ideia da nudez. Já os demais animais, cuja natureza é não questionar a alfaiataria da Natureza, não são nem estão nus, mas eternamente vestidos com suas peles, pelos, plumas, escamas ou cascos. Jacques Derrida disse aquilo que somente um homem poderia dizer dos animais, que “o próprio dos animais, e aquilo que os distingue em última instância dos homens, é estarem nus sem o saber”.

No entanto, se considerarmos que a sabedoria é uma indumentária propriamente humana, é impróprio dizer que os animais sabem ou não sabem de qualquer coisa, inclusive de suas próprias nudezes. O que podemos desconfiar de imediato é que talvez tenha sido justamente a sabedoria humana a inventora da nudez, contrariando a Natureza cujo costume, aliás, nunca deixou nenhum dos seus seres despidos do essencial. Porém, para o homem vestido, todo resto parece estar nu, ou melhor, precisa estar nu, exposto em sua verdade natural. O saber absoluto, qual seja, a ciência humana, é o grande alfaiate, todavia invertido, que desnuda sistematicamente o corpo pleno do universo.

No paraíso, Adão e Eva não eram nus até cruzarem a fronteira do saber, isto é, a casca da maçã da sabedoria. Uma vez violada a pele da fruta proibida, o casal primordial soube que já sabia demais, ou pelo menos tanto quanto o seu Criador. Então, imediatamente, precisaram esconder tal impertinência. Uma vez que tudo estava descoberto, as únicas coisas que eles ainda podiam cobrir eram os seus corpos, antes paradisiacamente inocentes, agora sabidamente culpados. Tal sabedoria os levou a se esconderem detrás da folha da videira. Eis a invenção da nudez! Depois, quando Caim matou Abel, e soube o que era o assassínio, fugiu, fazendo da distância a veste mais apropriada à nudez do seu corpo fratricida. Noé, por sua vez, sabendo que Deus inundaria o mundo, fez de sua arca a roupa impermeável com a qual protegeu as nudezes das criaturas do olhar do Criador.

Portanto, há nudez apenas mediante o saber. E como a sabedoria é uma confecção meramente humana, só há nudez mediante a humanidade. Por que, contudo, essa nudez sabida precisa ser coberta? Seria ela vergonhosa por natureza? Claro que não, respondem-nos os demais animais. Derrida diz que a maior vergonha do homem é estar nu como um animal. Porém, para um animal, aquilo que nós chamamos de nudez é o seu nome, sobrenome e, ademais, o seu ser. Já para nós, homens, nome e sobrenome são as nossas primeiras vestimentas, customizadas, contudo, com o tecido roto da cultura. Depois desse primeiro hábito, as demais vestes são as fantasias com as quais seguimos escondendo de nós mesmos que, naturalmente, somos apenas animais, nus ou não.

Entretanto, uma vez figurinada a nossa animalidade, para não sufocar ela precisa respirar. Mesmo sem tirarmos a roupa, o animal escondido debaixo dela respira, seja através da filosofia, da ciência, da arte, ou da moda. Somos os únicos animais que inventaram a vestimenta para tapar o nosso sexo; os únicos que inventaram a cultura para tapar esse tapa-sexo; e os únicos que inventaram a moda para tapar sazonalmente essa cultura. Com a moda, aliás, vestimos a nossa vergonha animal com o prêt-à-porter cultural, fingindo que nos vestimos simplesmente porque, a cada estação, há novidades para vestir, mas, na verdade, é porque a nossa animalidade nos parece insuportavelmente démodé.

Alain Badiou diz que jamais há nudez no teatro, pois a nudez é, ela própria, o mais escandaloso&vistoso traje. Podemos concluir então, a partir das palavras do filósofo, que o figurino do ator, mas também as nossas roupas cotidianas, têm por função nos despir do imponente&inalienável traje com o qual a natureza primordialmente nos vestiu: a nossa animalidade. E, para um animal fantasiado de homem, somente um espelho, seja ele teatral, cultural ou científico, para refletir essa nudez sem que ela nos envergonhe. Entretanto, vergonha e nudez são coisas das quais só o ser humano sabe.

Sendo assim, os animais não são animais porque estão nus sem o saber, como queria Derrida. E nós não somos homens porque sabemos que estamos nus debaixo das nossas peles artificiais. Ora, se na Natureza não há nudez – pois se houvesse ela estaria em falta com as suas criaturas, o que é um absurdo – não há de ser justamente a nudez inventada tardiamente pelo homem um critério válido para ele se distinguir do animal.

Entretanto, Derrida aponta para um caminho bastante provável ao dizer que a vontade do homem de se vestir fala de um sentimento de pudor ligado ao fato de estar em pé, ou seja, ereto. Essa ereção evolucional, por conseguinte, evidenciou outra, a ereção sexual. E esta, por sua vez, evidencia a natureza animal do homem. Ora, sobre quatro patas, o ventre animal estava sempre voltado para o chão. Nessa configuração, os olhos e os sexos de um animal não se enquadravam em uma única visada. Porém, uma vez eretos, o homem e o seu sexo animal estavam expostos aos olhos e aos sexos dos outros homens. Então, só a folha de videira, o fino linho, e posteriormente a moda para vestirem essa animalidade impertinentemente ereta que o homem chamou de nudez.

Educação: preocupação ou ocupação?

Em vez de nos perguntarmos, passiva&reacionariamente, que educação queremos para os nossos filhos, a questão deveria ser colocada de forma mais ativa&revolucionária: de que educação queremos ser pais? Essa resposta é pertinente à vida contemporânea que obsoletou o “penso, logo existo” cartesiano em benefício de um oportunista ‘me especializo, logo existo no mercado de trabalho’. Zigmunt Bauman discorre acerca dessa nova ordem socioeconômica na qual um profissional que se mantém, digamos, trinta anos na mesma função ou na mesma empresa, tem, nessa antiquada estabilidade, o seu maior inimigo, isto é, a desvalorização da mercadoria profissional que ele é.

Baumam, para tal, usa uma interessante metáfora. O sociólogo polonês, na sua teoria da liquidez, diz que, hoje em dia, não existe mais o moderno solo seguro sobre o qual um profissional edificava a sua única, longa e segura carreira. Em contrapartida, na contemporaneidade líquida, diz Bauman, o único chão de um profissional é uma cada vez mais fina&frágil camada de gelo que só não se quebra, e na qual somente não se afunda, movimentando-se com cada vez maior velocidade sobre ela, como um patinador sobre um lago em desgelo no final do inverno. A velocidade de que fala o pensador, no entanto, é a da transformação do profissional em muitos outros profissionais, e o gelo delgado, as demandas do mercado.

Para dar conta dessa mudança, a universidade, por exemplo, precisa deixar de ser aquele lugar no qual o indivíduo ingressa e se prepara, uma única vez, para uma carreira outrossim única, para se tornar o meio-ambiente de vários reingressos, pois só assim o indivíduo poderá ser tantos profissionais quanto a realidade atual demanda. Os processos de formação acadêmica, portanto, precisam entremear as cada vez mais curtas e obsolescentes aventuras profissionais que o sujeito pós-moderno deve empreender simplesmente para se manter na superfície da realidade sem nela afundar e desaparecer. Daí a necessidade de reavaliarmos o papel das universidades na vida das pessoas e, não menos importante, na da sociedade.

Heidegger, já em 1920, dizia que a universidade era uma instituição esclerosada que ainda atendia às necessidades de uma indústria da segunda metade do século XIX. As nossas universidades, ainda hoje, reproduzem tal práxis, pois, com muita precariedade, mal conseguem oferecer a um cidadão uma única formação profissional adequada, novamente, para uma única&perene&condenada carreira. Já a indústria – aqui querendo significar o mercado de trabalho atual -, pelo contrário, tem como demanda urgente um profissional que seja muitos profissionais em um. Necessidade, porém, que ainda não é acompanhada pelas universidades. Se em 1920 o filósofo alemão chamou a universidade de esclerosada por ela atender às necessidades de uma indústria de cem anos antes dele, hoje, com as nossas universidade não atendendo às demandas do mercado de trabalho atual, mas, em troca, as dos anos 1920, a universidade segue tão esclerosada como há cem anos.

Como, então, as universidades devem formar as pessoas hoje em dia? Produzindo, em regime de linha de montagem, profissionais razoáveis&hiper-especializados em um único assunto ou atividade, ao velho modo fordista de produção, cuja mercadoria primeira é o assassínio definitivo do artesão medieval que fazia, digamos, todo o sapato, para, nessa limitada sobrevida contemporânea, produzir apenas o cadarço do mesmo sapato? Profissionais que, de tão especializados&limitados em suas performances, só conseguem se libertar dessa limitação comprando um iphone por ano e acumulando carros na garagem até uma sonhada&gorda aposentadoria, todavia, privada?

Faz no mínimo cem anos que isso já era, relembra-nos Heidegger. A universidade, hoje, deve formar pessoas com potencialidades múltiplas que atendam a multiplicidade de demandas, não só as do mercado de trabalho, mas também as das próprias pessoas. Todavia, enquanto nos preocuparmos com o futuro, isto é, com a educação dos nossos filhos, estamos, na verdade, nos alienando de que nós mesmos já somos filhos-reprodutores dessa educação que, de tão esclerosada, não garante futuro promissor algum, em primeiro lugar, a nós mesmos, e, em segundo, aos nossos filhos. Se essa preocupação faz algum sentido, todavia não aponta para tranquilidade alguma.

Se, até aqui, as universidades foram feitas para produzir profissionais-mercadorias altamente especializados – já para Heidegger isso era uma esclerose -, a partir de agora, em troca, elas devem superar esse ambiente árido&solitário da especialização, pois, só assim, os profissionais estarão à altura dos múltiplos&conectados desafios da contemporaneidade. Que desafios são esses? Ora, a desigualdade socioeconômica, a destruição da natureza, o individualismo egoísta, as guerras, e muitos outros. Por tudo isso é que não precisamos de universidades que gerem profissionais superespecializados que consigam dar conta apenas de um desses urgentes problemas, mas cidadãos que integrem, não só em suas carreiras, mas também em suas vidas, capacidades&atividades&compromissos para, ao mesmo tempo, trabalharem em função da igualdade social, da preservação da natureza, da paz, e assim por diante.

A universidade, que para Heidegger era a cereja vintage&esclerosada do mofado bolo industrial do século XIX, e que, hoje, é o lugar da hiper-especialização que visa tratar de particularidades cada vez mais particulares, e que, por isso mesmo, produz massivamente a alienação do profissional em relação ao todo do qual ele faz parte, essa universidade deve, imediatamente, atender não só à multiplicidade de demandas do presente, como já queria o filósofo alemão nos 1920, como também da multiplicação futura dessa multiplicidade presente. Afinal, o presente é um vestíbulo que já se encontra pleno de demandas múltiplas, convidadas e penetras, que, sem dúvida, adentrarão impertinentemente no salão de espelhos desse futuro.

É exclusivamente com esse lugar chamado futuro que se preocupam aqueles que se preocupam somente com a educação de seus filhos. Esquecem-se, todavia, de que a educação futura será, inevitavelmente, os reflexos da educação do passado e do presente combinados; combinação, aliás, da qual esses preocupados presentes são os personagens em ato. Há um gozo, no entanto alienante&infrutífero, em deixar de se preocupar com o presente para se ocupar do futuro; em esquecer-se de si e lembrar apenas dos filhos; em ignorar o sistema educacional do qual devemos ser parte cada vez mais atuante&presente para atentarmos somente à educação que se dará à nossa prole futura.

Entretanto, a resposta à pergunta “que educação queremos para os nossos filhos?” já está dada se a preocupação presente for exclusivamente essa – e ela, por sua vez, é nada animadora. Talvez a educação presente deva ensinar, do maternal à universidade, que não adianta nada nos preocuparmos com o futuro da educação enquanto não nos ocuparmos do seu presente. Por isso, eu acredito que as perguntas mais apropriadas, e inclusive mais producentes, sejam elas em relação ao presente, sejam em respeito ao futuro, devam ser: de que educação somos filhos?; de que educação queremos ser filhos?; de que educação seremos os pais?; de que educação queremos ser os pais? A preocupação com a educação dos nossos filhos, portanto, deve ser a ocupação da nossa própria educação.

O nirvana, oficina do diabo.

“Mente vazia, oficina do diabo”, definitivamente, não é um lema budista. Na verdade, essa é a primeira ideia que deve ser jogada fora por qualquer um que almeje o nirvana. Isso porque o diabo, para essa filosofia oriental, é justamente a presença constante de pensamentos, visto que são justamente eles que impedem que estejamos livres em relação às nossas mentes.

Já aqueles cuja filosofia pessoal leva o provérbio à risca se dão conta, cedo ou tarde, de que a mente lotada também é um inferno. Esse atribulado hades, na verdade, é o éden pervertido que a pós-modernidade hiperocupada construiu para si, cuja constelação reluzente são as infinidades de informação e atividades com as quais as nossas mentes são obrigadas a se ocupar.

Hoje em dia, quando queremos esvaziar a cabeça, outra coisa não fazemos senão enchê-la com toneladas de informação e atividades. Ora, para um contemporâneo hiperconectado de nada serviria adentrar o nirvana sem fazer o devido “check in”, postar fotos e “comments”, comprar a camiseta do nirvana, etc., etc., etc., e, além do mais, etc. Os anacrônicos tédio e ócio, atividades excelentes da mente vazia, de forma alguma encontram “app” na superfície “touch screen” desse atribulado planeta.

Ora, os capetas que as nossas mentes vazias temem são os nossos próprios desejos e paixões. O diabo, com efeito, é só um eficiente totem, sobejamente esculpido pelo Deus cristão, cujas funções são apontar e espantar estes sentimentos. Além do que, estar à toa também é pecado capital para o Deus Capital, pois, para este, mentes vazias não enchem shopping centers, agências de viagem, nem os desejosos bolsos dos pontífices capitalistas apaixonados por si mesmos.

Entretanto, como um budista apontaria, uma mente absolutamente vazia não deve comportar nem desejos, nem paixões. Aliás, o trabalho de esvaziar a mente visa, sobretudo, livrá-la dessas solicitantes afecções. Sendo assim, o diabo que aterroriza a cabeça vazia, coitado, é apenas um totem solitário, que, nesse universo mental esvaziado, pode espantar apenas a si mesmo.

Se, conforme o ditado, a mente vazia é a oficina do diabo, e se, como quer o budismo, o nirvana é a mente vazia, o nirvana, portanto, é a oficina do diabo: o local perfeito para ele agir livre, porém solitariamente, espantando, contudo, apenas a si próprio. Essa é a sua oficina! Desse modo, só o diabo pode alcançar o nirvana, todavia, enquanto o crítico solitário e impertinente desse esvaziamento da mente, que nos liberta dela, mas, infelizmente, para um pós-moderno, não do diabo.

Dialética do grevista e do kamikaze

Não pude deixar de fazer uma dialética grevista-kamikaze depois de ouvir, de um companheiro de luta, que “grevista tem de estar disposto a arriscar tudo”. Concordaria, entretanto, se ele tivesse dito que grevista tem de arriscar muito. Porém, “tudo”, penso eu, ultrapassa o limite do conceito de grevista. Se os proletários porventura arriscassem tudo, e, por algum revés, tudo perdessem, perderiam, por conseguinte, não só suas vidas, mas inclusive a sua classe. Sendo assim, posso concordar apenas que um grevista tem de estar disposto a arriscar seja lá o que for, porém, até o limite de não arriscar a sua vida, a sua capacidade de estratégia, a resistência que só existe dentro de si, o seu amanhã – revolucionado ou revolucionário.

Se tentássemos ser kamikazes verdadeiros, aqueles cujas vidas são destruídas para que as dos inimigos também o sejam, talvez esse “arriscar tudo” fizesse sentido e fosse eficiente. Vale notar que, na Segunda Grande Guerra, 2500 kamikazes mataram 5000 soldados aliados. O que podemos calcular disso? Que eles tiveram um rendimento de 200%? Entretanto, se ainda para os japoneses suicidas arriscar tudo não fez com que eles ganhassem a guerra, imagine para nós, que não participamos das profundidades aliciantes da cultura oriental, mas sim do individualismo demasiado hedonista da cultura burguesa ocidental?

O grevista, por sua vez, não arriscando tudo, tem a oportunidade de se valer, na hora de dificuldade, pelo menos daquilo que não colocou em risco, sejam forças e estratégias em potencial, seja a própria vida, sem a qual, aliás, nem a luta nem a vitória são possíveis, tampouco fazem sentido sem ela. Aceitar a derrota, e vivê-la, é a ocasião aprender com ela. Todavia, isso é uma coisa que só o grevista vivo tem oportunidade de fazer, mas não o kamikaze morto.

O kamikaze é uma espécie de fundamentalista radical. Aprende uma única lição, para, em seguida, morrer em função dela, mas, infelizmente, somente com ela. Um kamikaze, portanto, não evolui, mas apenas repete o ato radical de sua própria destruição na destruição do oponente – ou de dois deles. Já o grevista deve ter em seu devir o aprendizado de novas lições que só a permanência na vida e na luta pode oferecer. Tais novas lições, entretanto, não podem advir somente de suas vitórias, mas, como a vida em geral não cansa de ensinar, também das derrotas.

Sendo assim, não morrer, ou melhor, não arriscar tudo, é o primeiro passo, e talvez o mais inteligente, para se poder seguir arriscando algo mais. Ademais, a construção histórica de uma classe social, como por exemplo a dos trabalhadores – os grevistas mais legitimados da história -, não se daria caso os seus componentes não tivessem preservado, em primeiro lugar, a si mesmos e, em segundo, algo de suas forças, esperanças, estratégias e potencialidades. Os kamikazes, por suas vezes, nunca evoluíram desse modo porque as suas ações de risco total lhes impediram de aprender o que lhes faltava, qual seja, as fundamentais lições da derrota.

A cegueira fundamentalista de um kamikaze o impede de vislumbrar uma guerra enquanto uma composição de batalhas que, algumas pedidas, algumas ganhas, constroem o resultado final. Perder uma batalha e ainda assim não ter a guerra como perdida é uma ventura possível ao grevista, mas de modo algum ao kamikaze, para quem a guerra – na qual ele se suicida – é composta de uma única batalha, entretanto, e infelizmente, sempre derradeira. O kamikaze, seja ele o clássico japonês da segunda guerra, seja o islamita-bomba, arrisca realmente tudo pela sua causa, mas, com efeito, a deixa, irremediavelmente, na sua primeira e única ação.

Agora, numa guerra, ou numa greve, nas quais cada um precisa sobretudo dos outros, para todos, juntos, vencerem um inimigo em comum, perder companheiros outra coisa não é senão enfraquecer o fronte. Eu, de minha parte, prefiro os meus companheiros de luta vivos, e, ainda que derrotados, com alguma munição guardada, pois, só assim, poderemos, sempre juntos&vivos&parcialmente munidos, sermos capazes de novas batalhas. Se todos eles arriscarem tudo, e perderem a aposta, eu, por minha vez, estaria sozinho diante do inimigo, sem a maior munição da qual dispunha, isto é, dos meus companheiros de luta.

Por isso não posso concordar com a ideia de que que grevista tem de arriscar tudo. Ora, sequer lutamos, quando lutamos, por tudo, mas apenas por algumas coisas. Arriscar tudo, inclusive a própria vida, por algo que constitui somente parte dela, não me parece uma jogada muito inteligente. Porém, de tal inteligência o kamikaze da última grande guerra, que matava duas vidas com a sua, estava privado. Em primeiro lugar, porque esse fundamentalista radical é, juntamente com as suas duas outras vítimas, mais uma vítima fatal de sua única verdade. E, em segundo, porque a sua inteligência, na verdade, é a burrice de arriscar tudo por uma verdade que muito bem pode, logo ali, depois da curva da derrota, ou simplesmente depois da curva da história mesmo, revelar-se absolutamente mentirosa.

O que um soldado aliado faria numa batalha na qual estivesse perdendo? Mataria a si mesmo ou, ao contrário, assumindo o insucesso do embate, recuaria estrategicamente, buscaria reestruturar-se coletivamente, estudaria melhor e novamente o inimigo, descobrindo tanto as fraquezas dele quanto forças suas para embatê-lo mais eficientemente das próximas vezes? Bem, os aliados – vivos – da Segunda Guerra – que não se suicidaram em batalhas – venceram a guerra. Em contrapartida, o que pode um kamikaze morto? Como podem, por conseguinte, os seus companheiros vivos serem reforçados por alguém que arriscou tudo e nem pode mais lutar com eles?

Por isso um grevista deve estabelecer limites diversos, e bem aquém, dos de um kamikaze, ou, do contrário, será um grevista de uma única batalha, sempre desertando, todavia de forma espetacularmente heroica, a luta a qual pertence. Se o kamikaze tem uma inteligência, ela é uma só, e, ademais, finda no seu primeiro ato. Já a inteligência de um grevista pode, e inclusive deve, ser muitas outras, contrárias entre si até, pois, ao permanecer vivo, o indivíduo que eventualmente encarna um grevista pode, atravessando historicamente todas essas inteligências acumuladas, evoluir, e quem sabe, vencer.

Clareiras gregas

Heidegger, na sua primeira visita à Grécia, e impressionado com a luminosidade do lugar, disse que era óbvio que a verdade deveria ter se desvelado lá mesmo. O grande filósofo descobria, na selva do conhecimento de onde partira, a sua clareira iluminada, justamente sob o céu grego. Na minha primeira – e até aqui única – visita à Grécia, e antes mesmo de saber da clareira grega de Heidegger, aquele lugar também me causou a ideia de clareira, porém, não a da verdade filosófica, mas a de que as ilhas gregas eram as clareiras da Grécia, isto é, os lugares onde a Grécia se desvelou para mim.

E, veja bem, essa clareira é bem generosa, afinal, são mais de seis mil ilhas e ilhéus! A minha entrada nas clareiras da Grécia se deu, contudo, deixando Atenas. Como a metáfora da clareira só faz sentido com relação a outra, a da floresta, a minha metáfora de clareira grega tem como metáfora dialética a Atenas selva, da qual, aliás, foi preciso sair para que eu pudesse encontrar a clareira da Grécia do meu imaginário.

Essa selva urbana que é Atenas faz dela mais uma grande e caótica cidade do mundo. A não ser pelos sublimes monumentos históricos que pontuam a metrópole, muitos bairros bem poderiam estar em Buenos Aires ou em Belo Horizonte. Além do que, na vida cotidiana da capital grega, o absoluto Partenon, por exemplo, é só mais um equipamento urbano, como um shopping center ou um aeroporto qualquer. Nem a deliciosa simpatia tagarela dos gregos dá para se apreciar direito nos fast-food internacionais disfarçados de cafés e restaurantes atenienses.

E, por ser uma grande cidade como as demais grandes cidades do mundo, Atenas é cosmopolita. Essa internacionalização, entretanto, fala mais e melhor do resto do mundo do que propriamente da Grécia, ou pelo menos daquela mais histórica que eu desejava conhecer. Então, com efeito, eu fui para a Grécia apenas quando deixei Atenas, no Porto de Pireau, na industriosa zona portuária ateniense de mesmo nome.

Não demorou muito para a clareira grega estar aberta em volta de mim! A duzentos metros do cais, nas primeiras águas Mediterrâneas, eu já descobria a Grécia. Sem ter mais Atenas no horizonte, o “skyline” era somente o mar e o céu, sempre muito azuis, ou, de vez em quando, ilhas, todavia entre aqueles. E, dentre elas, Mikonos, a pérola do imaginário grego. Do barco já era possível avistar, ao longe, a onda branca de Míconos se aproximando, toda ela feita de casinhas da mesma cor, porém, com janelas e portas da cor do mar e do céu.

Sobre as janelas e portas de Míconos, descobri, mais tarde, conhecendo o centro da ilha, que algumas delas eram vermelhas ou verdes. Um garçom doce e tagarela que me servia café gelado e pepino cru para o desjejum, o que, para eles, é usual, disse-me que as janelas azuis são das casas dos gregos; as vermelhas, turcos; e as verdes, italianos. São, portanto, mais civilizado que nós, burgueses urbanos, que selvagem e histericamente pintamos as nossas portas e janelas com as cores da moda, e não com as nossas.

Em Míconos é possível conhecer os gregos! Diferente das agorafóbicas e congestionadas avenidas e pontos turísticos de Atenas, as estreitas e tortuosas vielas de mais de três mil anos de idade de Míconos não desconvidam as pessoas à rua nem à vida local. Ao contrário, as conduzem ao lugar que, aliás, eles mesmos inventaram, isto é, a ágora, o espaço onde as pessoas interagem umas com as outras.

Somente de Míconos se parte para a ilha de Delos, museu à céu aberto cuja obra semi-perene é a ruína de uma cidade inteira, esvaziada há muitos séculos, provavelmente porque em IV a.C. os gregos proibiram, lá, mortes e nascimentos. A ilha, com isso, foi se esvaziando, deixando toda a arquitetura envelhecer sozinha, e, hoje, Delos deserta é um santuário de uma urbanidade verdadeiramente antiga. Como ninguém dorme em Delos – porque ninguém pode morrer em Delos -, eu a deixei no pôr-do-sol, mas não para morrer, obviamente.

Quando o sol nascia, eu aviste, do mesmo mar azul, os altíssimos e vermelhíssimos despenhadeiros da ilha-cratera-de-um-vulcão-explodido de Santorini, em cujos topos, que à distância pareciam nevados, pendura-se, na verdade, a cidade, de frente para o mar e bem acima dele. Por ser uma ilha colonizada por italianos, os estilos arquitetônico e de vida de Santorini não são tão clássicos quanto os de Míconos. Entretanto, é considerada a ilha mais bela e cosmopolita da Grécia. E, também, na sua extremidade oeste, em Oia, acontecem os pores-do-sol mais belos do mundo – coisa da qual eu não posso discordar.

Dentro da clareira grega que se abriu depois que eu deixei Atenas, para a minha surpresa, se abriram outras. Em Mykonos, não só a clareira da Grécia clássica do meu imaginário, mas também a clareira da civilidade, em cujo interior se dialoga agorísticamente e onde as “gentes” dizem, pelas suas janelas e portas, de que “gentes” ela são. Em Delos, a clareira do viver, onde sequer é permito morrer, quiçá nascer. E, em Santorini, a clareira que desvela o pôr-do-sol mais belo do mundo.

Só nas clareiras-ilhas eu pude encontrar a Grécia eterna pela qual procurava, pois, da selva-Atenas, ao contrário, via apenas a Grécia do obsolescente agora, onde a língua inglesa vale e compra tanto quanto a grega, e, ademais, onde se fala mais do mundo do que da Grécia . Se, por um lado, Heidegger descobriu a clareira da verdade na Grécia, e eu, pelo meu, descobri a clareira da Grécia nas suas ilhas, então, só posso concluir, precisando o filósofo, que foi nas ilhas gregas que a verdade se desvelou. Ou, pelo menos para mim, a verdade é que as ilhas gregas são a verdadeira Grécia.

O ponto-de-vista do ponto-de-fuga

De um ponto-de-vista um sujeito vê tudo o que há diante dele. Aliás, todas as coisas, para serem vistas, devem estar dentro desse campo de visão, em cuja centralidade, no entanto, está o seu inimigo visual, isto é, o ponto-de-fuga, organizando espacialmente todas as coisas vistas. Um ponto-de-vista é um cone visual, todavia olhado a partir de seu vértice e no sentido do centro de sua base locada no infinito. Claro, ao se mover esse cone visual para um lado ou para o outro – isto é, virar a cabeça para um lado ou para o outro – o vértice-ponto-de-vista permanece o mesmo, porém, a base desse cone visual é outra, pois então, nela há outras coisas a serem organizadas visualmente.

Se, entretanto, um ponto, para ser de fuga, deve estar no infinito, e, além disso, ter todas as retas paralelas convergindo para si, do ponto de vista do ponto-de-fuga há, outrossim, um cone, cujo vértice, porém, está locado nele, no próprio ponto-de-fuga, e em cujo centro da base está, justamente, o ponto-de-vista que o vê. Basta lembrar das estonteantes perspectivas renascentistas, assaz artísticas e matemáticas aliás, para perceber que tudo o que há para ser visto está projetado justamente nas paredes internas desse cone cujo vértice está no ponto-de-fuga, e não nas paredes internas do cone cujo vértice é o ponto-de-vista.

O ponto de vista e ponto de fuga, portanto, são dois cones visuais que se organizam espacialmente com o vértice de um locado no centro da base do outro. Porém, tudo o que vemos é visto, não nas paredes internas do nosso cone-ponto-de-vista, mas nas do cone-ponto-de-fuga. Novamente, basta pensar numa perspectiva renascentista para ter a sensação de que tudo o que estamos vendo está de dentro do cone cujo vértice aponta para o infinito. Sendo assim, à visão cônica que lançamos ao centro do infinito para vermos as coisas volta-se na forma de uma projeção, também cônica, de tudo o que estamos vendo.

Como o ponto-de-fuga está sempre e intransferivelmente no infinito, em oposição absoluta ao ponto-de-vista, este nunca poderá se colocar no lugar daquele sem que aquele, automaticamente, se coloque no lugar deste. Ponto-de-vista e ponto-de-fuga tem um contato mais distante do que dos amantes de O feitiço de Áquila que, ao menos por um breve instante, podiam tocar um no outro. Tentar alcançar o ponto-de-fuga é como tentar chegar ao horizonte: por mais que se avance, ele estará sempre à mesma distância, ou o que é o mesmo, a uma distância sempre infinita.

Entretanto, se no centro de tudo o que vemos estará sempre o infinito, sugando não só o nosso olhar, mas também todas as retas paralelas para si, é porque o infinito também nos olha, por sua vez, como se ele próprio fosse um ponto de vista, e nós, em troca, o seu ponto-de-fuga . Vemos as coisas, portanto, não só porque as olhamos e porque esse olhar as fuga para o infinito, mas também porque, ao olharmos para elas, é o próprio infinito que nos olha, sorrateiramente, do centro da nossa visão. Então, todas as coisas que podemos ver entre nós e o infinito fugam tanto para o ponto-de-fuga, no infinito, quanto para o ponto-de-vista, em nós.

Ideologia perspectivada

A perspectiva é um efeito aplicado a todas as coisas que se colocam entre o ponto de vista de um observador e o seus respectivos pontos de fuga, locados sempre no infinito, para onde todas as linhas paralelas convergem necessariamente, fazendo do observador aquele para o qual o mundo se manifesta a partir de um único ponto. Embora a perspectiva com um ponto de fuga tenha sido oficialmente inventada no renascimento pelo arquiteto e escultor Filippo Brunelleschi, ela é bem mais antiga que isso. Ora, se basta um único olhar para que toda a realidade fugue para o infinito, a perspectiva não foi propriamente inventada pelos renascentistas, apenas sistematizada por eles. Ademais, desde que enxergam, os homens lidam com a relação problemática que a visão humana estabelece com o mundo.

Os antigos gregos conseguiram contornar os defeitos de perspectiva inerentes ao olhar humano de uma maneira muito peculiar. Tomemos como exemplo o majestoso Partenon, construído na acrópole de Atenas no século V a.C. Os seus construtores sabiam que o edifício, ao ser observado por qualquer pessoa, seria visualmente deformado pela perspectiva que o olho humano imputa a tudo o que vê. Dessa forma, trataram de construir o grande templo, digamos, torto, isto é, subvertendo a racionalidade geométrica do edifício. Então, deformando deliberadamente o Partenon no sentido contrário ao que o olho humano o desfiguraria, no final das contas o templo seria visto por todos como se fosse geometricamente perfeito, vencendo, dessa forma, problema inicial.

Também as colunas dóricas do Partenon, se fossem perfeitamente cilíndricas, ganhariam do olho humano um inevitável ‘acinturamento’, um pouco abaixo de suas metades. Então, os arquitetos trataram de corrigir essa deformação, esculpindo as colunas mais grossas justamente no meio, isto é, na parte em que o olho a estrangularia , e mais delgadas na base e no topo. Somente dessa forma as colunas se manifestariam, para qualquer pessoa, como cilindros perfeitos. Essa técnica ganhou a história, e inclusive o renascentista Michelangelo não se privou de alterar as proporções do seu David, engrossando-lhe o tronco e aumentando-lhe a cabeça, para que, visto de baixo, pelos olhos deformadores de um transeunte florentino qualquer, a estátua do belo rapaz parecesse ter as proporções ideias – o que não seria possível caso o mestre italiano respeitasse as proporções naturais do corpo humano.

Essa técnica de correção de perspectiva inventada na antiga Grécia foi chamada, pelos latinos, de “entasis”( êntase, em português), que outra coisa não era senão a correção da deformidade a que o olho humano submete a realidade ao seu redor. De certa forma, podemos dizer que a êntase é uma espécie de ideologia que leva o homem a ver a realidade como ela naturalmente não se apresentaria para ele. Ora, em meio a um mundo deformado pela relação perspectivista que os pontos de vistas individuais têm com seus respectivos pontos de fuga, o Partenon de Atenas, as suas colunas dóricas, e até o David de Michelangelo, imunes à tais deformidades, por conta da êntase se apresentam a nós como se fossem mais perfeitos do que todo o resto; portanto, sumamente preferíveis. É aí que a êntase revela o seu maior potencial ideológico.

No entanto, paradoxalmente, a êntase só consegue vencer as deformações inerentes à perspectiva natural do olhar humano por via de mais deformidade, todavia, no sentido contrário àquelas. A êntase, portanto, assume que não é a verdade – no caso, a verdade geométrica – que, uma vez posta, corrige um ponto de vista distorcido. A esta altura, podemos concluir que um erro – do nosso olhar – é corrigido apenas por um outro erro – a êntase -, para que, no fim das contas, as coisas nos pareçam tão perfeitas a ponto de nos convencerem de que os nossos olhos não as distorcem naturalmente. O erro da êntase, ou a sua mentira, têm por objetivo enganar a limitação natural do nosso olhar, para então fornecer à exigente razão humana aquilo de que ela não se esquece, ou seja, das coisas em seus estados de perfeição.

Comunicabília

Há alguns dias, numa assembleia na qual cerca de quarenta pessoas estavam presentes, mais metade delas permanecia com seus smartphones em punho, conversando entre si, paralela e privadamente, nos seus aplicativos de mensagens instantâneas. Nesse ínterim, dois participantes podiam muito bem ficar conversando sobre um terceiro sem que este sequer imaginasse que era assunto de uma discussão paralela. Grupos maiores, de até dez pessoas, também podiam discutir privadamente sobre o que a assembleia deliberava, entretanto, sem que essa interação colateral resultasse em algum acréscimo à discussão geral. Essa interação virtual clandestina gerou, portanto, não o aprofundamento do debate coletivo, mas sim a proliferação de diálogos superficiais de interesse apenas particular.

Um dia depois aconteceu uma outra assembleia, desta vez em um espaço aberto. Eu estava com um grupo de doze pessoas, conversando sobre outros assuntos, a uns cinquenta metros da discussão oficial. À primeira vista, estávamos alienados da tal assembleia. Porém, a presença de um único colega, lá, na assembleia, bastou para que, a cada punhado de minutos, recebêssemos, todos, pelos nossos aplicativos de mensagens instantâneas, atualizações acerca do que eles estavam discutindo, das opiniões de tal e tal pessoa, bem como do rumo da conversa da qual nós não participávamos. Tínhamos a doce ilusão de que estávamos envolvidos na discussão coletiva, mas, na verdade, essa era uma impressão nossa apenas, com a qual, aliás, ninguém que estava na assembleia concordaria.

A rede-socialização virtual aberta pelas novas tecnologias digitais atravessa o mundo com a promessa de facilitar e melhorar a comunicação entre as pessoas. Porém, o que os exemplos acima citados mostram é que, ao contrário, com tanta ‘comunicabília’ fica cada vez mais fácil se alienar das interações coletivas e não contribuir com elas. Não está sendo criticada aqui, contudo, a comunicação virtual entre indivíduos separados pelo tempo e/ou espaço que os ‘vintage’ telegramas e telefonemas, cada qual ao seu modo, já possibilitavam. Nesse sentido, o Whatsapp não é nada revolucionário. Entretanto, quando pessoas se reúnem, ao mesmo tempo e num mesmo lugar, e mesmo assim abrem diálogos privados acerca dos demais através de aplicativos virtuais, não só se recusam a uma interação genuína com seus pares, como também gastam, consigo mesmas, a atenção que deveriam dedicar ao grupo todo.

Caso as pessoas daquelas duas assembleias não dispusessem de seus whatsapps & genéricos elas poderiam apenas: 1) lidar solitariamente com seus próprios pensamentos, na esfera solipsista de suas consciências individuais, e assim lucrar com as benesses da autocrítica; 2) expressar suas impressões através de olhares ou gestos a quem porventura se dispusesse a recebê-los, exercitando, com isso, relacionamentos empáticos; 3) comunicar, aberta e publicamente, as suas ideias a todos, e não somente àqueles que, com certeza, não as criticariam. É preciso, portanto, muito mais coragem para se estar entre iguais com as mãos vazias do que com elas digitando desvios dialógicos subterrâneos nos famigerados aplicativos de mensagens instantâneas que mais sacam as pessoas umas das outras do que as conectam genuinamente.

Ágora ou impotência

Ágora, em grego, significa “eu reúno, eu junto”, mas também era o nome do espaço público no qual os cidadãos gregos deliberavam sobre seus assuntos coletivos. Podemos dizer que também foi instaurada, pelos estudantes universitários uma ágora na qual é polemizado o sucateamento das universidades públicas que ameaça o futuro da educação do nosso país. Porém, diferente dos antigos helenos, que livre e diretamente conduziam os seus assuntos fundamentais, os atuais estudantes – reunidos, juntados – ainda não têm reconhecida a legalidade da sua decisão de entrar e permanecer em greve pelo que acreditam e necessitam.

Os estudantes, proibidos de fazer greve, não dispõem da liberdade de agir! Entretanto, como disse Spinoza, “a liberdade é uma virtude, uma perfeição, e que tudo quanto no homem é sinal de impotência não pode ser atribuído à sua liberdade”. Ora, a manutenção da ilegalidade de uma greve de estudantes, portanto, outra coisa não é senão a manutenção da impotência destes estudantes. A quem interessa, entretanto, o sustento de tal fraqueza? Obviamente não aos estudantes, que, se lutam pela melhoria das condições de ensino no Brasil, apenas buscam um ambiente educacional que estimule tanto as potências individuais quanto as coletivas.

Se, como colocou Spinoza, “pertence menos ao direito da cidade aquilo que provoca a indignação da maioria”, outrossim, pertence menos ao direito da universidade aquilo que provoca a indignação da maioria dos que compõe o corpo universitário. Portanto, se a maioria dos estudantes não aceita, por exemplo, o corte de verbas da educação, ou a terceirização na contratação dos docentes, deve ser legal lutarmos com todas as armas disponíveis, inclusive a greve e a suspensão do calendário acadêmico. Parafraseando o filósofo, aquela [universidade] cuja paz depende da inércia dos [universitários] é mais uma solidão do que uma [universidade].

Com que direito a universidade pode não reconhecer a greve estudantil se, conforme Spinoza, quando “dois [ou mais, ou a maioria] se põem de acordo e juntam forças, juntos podem mais”? Seria a manutenção da ilegalidade da greve estudantil justamente a manutenção da alienação dos estudantes em relação ao poder de sua coletividade? Está parecendo que sim. Se “a potência de um estado deve ser medida pelo número de cidadãos”, conforme disse o filósofo, a potência de uma universidade deve ser medida pelo número – esmagadoramente majoritário – de alunos universitários.

Spinoza expande os nossos horizontes afirmando que “as leis pelas quais a multidão transfere o seu direito para um só conselho ou para um só homem devem, sem dúvida, ser violadas quando interessa à salvação comum violá-las”. Então, a ilegalidade dessa greve de estudantes que visa salvar a educação do sucateamento pode sim, e inclusive deve, ser violada, pois tal ilegalidade vai contra o interesse da maioria. Se nós queremos que a universidade ensine, entre outras coisas, o que é liberdade e ação, devemos agir contra uma estrutura que as tolhem, pois, caso contrário, sairemos dela doutores em impotência.

“A liberdade não tira, antes põe a necessidade de agir”, diz Spinoza. E se, porventura, os estudantes universitários desejam levar para a vida uma lição fundamental, devem agir em função da manutenção, e sobretudo da expansão, da sua liberdade de agir, inclusive contra uma lei que não reconhece as greves estudantis. E que lugar melhor do que a ágora universitária, principalmente a filosófica, para os estudantes universitários exercitarem e ampliarem as suas liberdades e potências? Que a ágora aberta pelos estudantes brasileiros nesse junho de 2015 não seja gentrificada pelas forças promotoras da impotência e da inação.

Conatus! A gente somos Conatus!

Em uma animada festa nas ruas do centro histórico do Rio, meus amigos e eu falávamos da direita reacionária brasileira, quando, espontaneamente, parodiamos a música “Inútil”, do Ultraje à rigor, substituindo a letra original pela nossa: Coxinhas! A gente somos coxinhas! (a gente não sabemos eleger presidente, a gente não sabemos nem escovar os dentes – e por aí vai). A música se prestou muito bem à nossa crítica. Em um segundo momento, entretanto, falando de Spinoza, não conseguimos deixar de entoar, também ao ritmo de “Inútil”, aquilo que, na teoria do filósofo, nós sentíamos ser absolutamente: Conatus! A gente somos Conatus! Um pouco depois disso, musicando o resultado de uma outra conversa, sobre a linguagem, foi inevitável uma terceira variação da mesma melodia: Discurso! A gente somos Discurso!

Então, depois de mais uma divagação, desta vez sobre o tempo, não escapamos de, ainda na brincadeira musical, cantarmos, todos juntos: Minutos! A gente somos minutos! Porém, diferente das outras vezes, não foi com uma gargalhada coletiva que encerramos a cantata. Um segundo depois de vocalizarmos em coro que éramos nada além de minutos a piada soou extremamente sem graça. Mais do que isso, ela estancou a gratuita alegria que nós vínhamos fruindo, paródia após paródia, naqueles becos do Rio antigo. Assumir, assim, sem anestesia alguma, que “a gente somos minutos” roubou o nosso chão, cuja tectonicidade, aliás, era sustentada justamente porque estávamos, até ali, alienados do fato de que éramos minutos sendo gastos despreocupadamente.

Porém, para restaurarmos a alegria perdida por conta da nossa infeliz última paródia, só Spinoza mesmo para nos salvar. Então, dos olhares graves que silenciosamente trocávamos naqueles minutos que perdíamos ressurgiu, graciosa, em nossas bocas, a musiquinha que há pouco cantávamos: Conatus! A gente somos conatus! Revivificamo-nos instantaneamente com este mantra. Foi nesse momento, aliás, que ele passou a ter, para nós, a sua melhor e mais potente significação. Com efeito, qualquer um de nós pode ser reduzido a um número determinado de minutos. Porém, não é isso o que somos, mas outra coisa. Em outras palavras, somos algo que existe e que age durante todos os nossos parcos minutos, mas de forma alguma apenas minutos.

Spinoza nos garantiu que durante todos esses minutos que parecem se entrincheirar contra a nossa existência, nunca deixamos de ser conatus, isto é, potências singulares para permanecer existindo. Cantar, a plenos pulmões, que somos conatus, a despeito principalmente do impiedoso tic-tac do relógio, foi a nossa revanche musical contra o réquiem que nós mesmos havíamos composto mas que não fez sucesso entre nós, muito pelo contrário, foi um fracasso de público e de crítica. Agora, por que, então, em meio a tantas pessoas e melodias alegres, chegamos àquele triste momento da nossa ópera urbana no qual cantávamos Minutos! A gente somos minutos!, se, conforme o nosso salvador Spinoza, não é isso que somos? Ora, obviamente porque, como também cantamos, duas melodias antes desta: Discurso! A gente somos discurso!

Greve de estudantes contra as más lições

Eu participo, há alguns dias, de uma greve nacional de estudantes que luta sobretudo contra o sucateamento das universidades públicas em face dos atuais ajustes econômicos que tanto o governo brasileiro, quanto o desgoverno do capital, tentam impor ao sistema de educação. Dentre os objetivos deste movimento estudantil, dois deles me parecem os mais nevrálgicos: o primeiro, a não aceitação do corte orçamentário de 9.4 bilhões de reais à educação brasileira, e o segundo, a não instauração da terceirização na contratação de professores para as universidades federais, cujo efeito – ou defeito – imediato é o fim dos concursos para docentes, e a consequente perda, por parte das universidades, do controle sobre esse processo de seleção.

Um corte de verbas na educação já é inadmissível antes mesmo de ser pensado, pois, do analfabeto ao doutor, todos sabemos que a educação no Brasil carece, e historicamente, de investimento, não de mais limitação. Ainda mais num momento em que os bancos estão tendo lucratividades recordes, mesmo nesse momento de crise econômica. O banco Itaú, por exemplo, o alvo preferido de dez entre dez Black Blocs, só no primeiro trimestre de 2015 lucrou 5.3 bilhões de reais. O banco Santander também não tem do que reclamar! Ora, pelo visto, dinheiro há, e muito! Portanto, é inadmissível aceitar, sem protestar, essa redução da verba destinada às universidades enquanto banqueiros expandem seus paraí$o$.

Já a terceirização, que afeta diretamente o futuro daqueles que, como eu, pretendem ser professores-pesquisadores nalguma universidade pública, o problema é que, com o fim dos concursos para docentes, serão privilegiados aqueles que já está no mercado de trabalho, e não os recém pós-graduados que, pelas suas primeiras vezes, buscarão, futuramente, trabalho nas universidades. Além disso, como, e por quem serão selecionados os docentes com as universidades alienadas desse processo? Abre-se, no mínimo, uma via àquela velha forma de negociação, velha conhecida nossa, plena de “jeitinhos”, que, certamente, não se privará de valer-se da mais abjeta politicagem marrom.

Entretanto, quando oficialmente informamos aos nossos professores que os alunos estavam em greve, solicitando, com isso, a adesão deles à nossa causa, quão decepcionante não foi ouvir deles, em tácito desestímulo, que “aluno não faz greve”. Porém, como bem disse o amigo-colega-companheiro Filipe Fortuna, se as pessoas podem fazer greve de fome, de sexo, e até de silêncio, greve de estudante, portanto, tem de poder também! Além do que, os estudantes são a imensa maioria em uma universidade, cerca de 95%, além de serem o fim desta instituição. Sendo assim, os alunos são aqueles a quem deve ser garantido mais direitos, inclusive o de greve.

Disseram-nos ainda que as nossas demandas eram utópicas, que não as alcançaríamos com uma paralisação, e que, portanto, deveríamos desistir da greve. Tal ensinamento, vindo de professores universitários, sobretudo filósofos, descortina mais um grande fracasso da educação no Brasil. A infeliz lição que tais mestres tentaram nos passam é a de que seria melhor para todos, inclusive para o calendário acadêmico, que desistíssemos, enquanto estudantes, das nossas reivindicações. Querem, portanto, que voltemos às aulas, confortavelmente derrotados, antes mesmo de tentar a justa vitória. Será que estes professores, diferente de nós, alunos, acreditam que será o banco Itaú ou a Rede Globo que se mobilizarão e lutarão por nós todos? Os lucros destes mostram exatamente o oposto disso.

Ao contrário do que nos foi dito, nossas demandas não são utópicas. Seriam, caso estivéssemos exigindo a paz mundial, o comunismo já, ou a legalização das drogas. E olha que muita gente pé no chão investe em objetivos como estes de forma bastante concreta! Agora, pedir que a verba à educação não seja reduzida, que as contratações dos nossos professores não sejam terceirizadas, que as bolsas acadêmicas dos graduandos valham, no mínimo, um salário mínimo, só para citar algumas, são demandas absolutamente viáveis, mas que só parecem utópicas porque alienadas de nós pelos ímpetos de um capital e de uma política que preferem muito mais os bancos privados às carteiras escolares públicas. Desse modo, incluo entre as minhas demandas a total rejeição ao conceito de utopia dos meus professores filósofos.

Outro mestre, com o qual recentemente vínhamos lendo sobre o Maio de 1968 e suas greves estudantis, sem pestanejar deslegitimou a nossa paralisação. Abriu, com isso, um infrutífero abismo entre a teoria estimulante que ele mesmo nos apresenta e a possibilidade de nós a praticarmos, diária e concretamente, na nossa realidade. Por um lado, ensina-nos sobre revolução, mas, por outro, diz-nos que, se formos revolucionários, reprovaremos no seu curso. Esquizofrenia também se aprende na universidade! Outro mestre, ainda, ouvindo que a decisão pela greve havia sido tomada por uma assembleia soberana, feita pelos os alunos, disse-nos, não apenas jocosamente: fiquem com a “soberaniazinha” de vocês que eu fico com a minha. O que aprendemos com ele? Que, de um lado, ou muito acima, estão os deuses doutores-universitários, e de outro, ou muito abaixo, os anjos-estudantes caídos.

A decisão dos professores da Faculdade de Filosofia da Unirio de não apoiarem nem aderirem à greve estudantil, mas, pelo contrário, muitos deles ameaçarem com a reprovação aqueles que insistirem na paralisação, mostra, contudo, que aquilo que para muitos estudantes é insuportável, para eles, professores, pelo jeito, não está tão ruim assim. Ou, talvez, só estejam querendo nos ensinar algo que eles mesmos aprenderam, nas muitas greves pelas quais já passaram, e das quais, aliás, na grande maioria das vezes saíram derrotados: não adianta reclamar, não adianta se organizar e lutar; afinal, até os módicos aumentos de salários que eles sempre pediram, ou nunca chegaram, ou foram convertidos em migalhas antes mesmo de caírem nos seus bolsos. Se querem nos ensinar essa triste história, parabéns!, os meus professores estão fazendo um excelente trabalho.

Felizmente, a universidade, ainda que tão carente de investimento, e inclusive correndo o risco de ter seus doutores contratados como se fossem entregadores de pizza, tem mais a ensinar do que só aquilo que os professores tem a doutrinar. Se nós, alunos, permanecêssemos somente em aula aprenderíamos dos nossos mestres inclusive as suas derrotas, o que não nos interessa. Vale, então, descartar todos os ensinamentos derrotistas que eles porventura tenham a nos passar.

Uma greve estudantil, portanto, precisa nascer livre de quaisquer derrotas prévias. Não porque os estudantes não devam se deparar com elas, mas porque este não é o caminho para encontrarem as suas próprias derrotas, com as quais aprender, e não as dos seuss professores, derrotados catedráticos. Ainda que, finalmente, nos seja negado o que quer que seja que tenhamos a pedir, de modo algum os nossos mestres devem começar ensinando que não temos o direito de pedir o que nos falta e o que acreditamos nos ser de direito.

Sete bilhões de smartproblemas

Parabéns, humanidade, pelos sete bilhões de smartphones produzidos: um para cada pessoa do planeta! A despeito dos desafios mais críticos que temos de enfrentar, tais como a exaustão da Natureza, os fundamentalismos religioso e econômico, a gentrificação dos nossos espaços urbanos, só para citar alguns, necessidades diante das quais, aliás, parecemos tão impotentes quanto conformados, a despeito de tudo isso, pelo menos conseguimos uma marca histórica, contudo abjeta, com a qual afirmar a nossa suspeita potência: um smartphone por ser humano.

Seria no mínimo cômico e igualitário se não fosse maximamente trágico e desigual este dado que hoje é divulgado, pois, obviamente, estamos muito longe de termos, cada um de nós, um desses desejados e inclusivos gadgets que nos conecte com os demais seres humanos e com as oportunidades do mundo globalizado. Sem falar que tal recorde produtivo, por sua vez, significa mais exaustão da Natureza (extração de matéria-prima, geração de energia para a produção, consumo de mais combustível para o transporte das mercadorias, etc.), e também mais gentrificação, pois, pelo preço que os smartphones chegam às lojas, certamente não é para todos que eles forma feitos.

Ao menos a minoria da população mundial, quiçá metade dela, pode se conectar como nunca para não só visualizar, mas também curtir, comentar e compartilhar a destruição da Natureza e a desigualdade crescente que também sabemos produzir tão bem quanto smartphones. Ao passo em que água falta a cada vez mais pessoas no mundo, temos uma abundância de artificialidades, largamente “publicitarizadas”, que possibilitam àqueles a quem nada falta a oportunidade de se alienarem, no toque de um display digital, do que falta a muitos e também do que afeta a todos, como, novamente, a destruição da Natureza.

A famigerada notícia sobre o recorde histórico de sete bilhões de smartphones produzidos pode facilmente ser lido a partir de qualquer um dos dois, três, ou mais, gadgets inteligentes que você e eu, individualmente, já tivemos nos últimos anos. Isso basta para deixar tácito que dois, três, ou mais de nós não tiveram os seus como o anúncio da paridade humanos-smartphones tenta mentir. Cabe salientar, outrossim, que tampouco nos importamos em saber para onde os nossos “celulares espertos” velhos foram parar com a chegada dos nossos últimos modelos. Ora, para onde iriam senão para a Natureza; senão para poluí-la mais um pouco?

O recorde “smartphonado”, portanto, é bem mais grave do que somente produzir eletrônicos inteligentes em vez de produzir sustentabilidade e igualdade. Na verdade, essa quantidade absurda de smartphones espalhados pelo mundo só aumenta a crise ecológica e a gentrificação da acessibilidade à informação. Se esta marca histórica é uma vitória, o é apenas para o capitalismo e suas demandas nada sustentáveis e igualitárias. Porém, se é a derrota que eu não consigo deixar de ver, esta é da humanidade inteira, que produz sete bilhões de soluções portáteis e inteligentes que, em vez de resolver problemas gerais, cria, por sua vez, sete bilhões de novos problemas individuais.