Hiper-realismo reacionário

A Arte é melhor que seja reacionária ou revolucionária? Reafirmando o que já está aí, portanto limitando-se ao real, ela é reação. Em troca, inventando, ou pelo menos fazendo o que já existe existir de formas inéditas, ela revoluciona. Essa questão salta aos olhos nas esculturas hiper-realistas de Ron Mueck e de Huane Hanson, obras que reproduzem com uma fidelidade assaz intrigante corpos e hábitos humanos. Seja o enrugado casal de idosos na praia ou a mulher comum carregando um bebê mais duas sacolas de compras, de Mueck, seja o atleta fora de forma massageando o próprio pé ou o obeso turista americano sentado no chão com sua bagagem, de Hanson, o que temos são objetos artísticos que representam objetos reais exatamente como eles são na realidade, não como eles poderiam ser ou não foram até então.

A arte de fazer coisas como elas “devem ser” remonta a um passado no qual a Arte do artista, essa com “a” maiúsculo, se existia, estava subordinada a arte do artesão, com “a” minúsculo”. A arte do sapateiro, por exemplo – exemplo predileto dos filósofos antigos aliás-, é fazer sapatos como os sapatos devem ser. Aqui, obviamente, precisamos de uma boa dose de platonismo para sustentar um ideal de sapato a ser seguido por todos os sapateiros. Agora, mesmo se formos absolutamente empiristas, como Hume, e assumirmos que não existe “a forma perfeita do sapato” residindo imperiosamente nalgum céu ideal, da ideia de sapato que resiste entre nós não podemos nos desvencilhar. Quanto mais não seja, porque o próprio objeto existe empiricamente entre nós. Até mesmo o cético mais radical deve admitir que é somente dentro dos limites da ideia humana de sapato que o sapateiro exerce a sua arte.

Para o artista- sapateiro, portanto, não há problema algum em ser reacionário. Seus clientes decerto esperam isso dele: que os seus sapatos sejam nada além de sapatos. Já para os nossos artistas-Artistas, espólios das vanguardas modernas, cujo D.N.A obriga-os ao “a” maiúsculo, é muito pouco copiar fielmente a realidade. Mueck pelo menos agiganta ou apequena as suas “cópias”. Hanson, entretanto, sequer se dá ao trabalho de alterar a escala do que copia. Diante das obras desses Artistas, é como se eles nunca tivessem existido, somente a natureza. Claro, sem Mueck e sem Hanson tais esculturas não existiriam. Porém, mesmo antes de eles existirem a própria natureza já havia produzido bilhões de “esculturas” como estas, ademais, falantes, andantes, pensantes, viventes. Sendo assim, os dois artistas, por mais espetaculares que sejam suas obras, estão aquém das produções da natureza. E por tentarem reproduzi-la fielmente, são no máximo reacionários.

Revolucionários mesmo eram os antigos gregos que com suas perfeitas esculturas de deuses e semideuses traziam ao mundo justamente o que não existia nele. Da mesma forma, Michelangelo e Bernini, por exemplo, ao esculpirem um homem, faziam-no sempre mais do que ele mesmo. Eram criativamente positivos, enriquecendo sublimemente a “ordinariedade” da percepção humana. Já Mueck e Hanson, ao contrário, não ultrapassam o existente. Fixam-se nele; reproduzem-no. As suas (re)produções hiper-realistas, entretanto, são como as abjetas estátuas dos museus de cera, apenas um tanto mais detalhadas.

É como se esses dois escultores contemporâneos sofressem do mesmo mal que afeta a dança contemporânea. Explico: o balé clássico exigia que o bailarino transcendesse a capacidade natural do corpo humano. Já a dança moderna que o sucedeu fez com que a dança tivesse o mesmo tamanho do homem. Por fim, a dança contemporânea parece primar pelo aquém do que corpo humano é capaz; respeitar o corpo é não exigir dele toda a sua virtuosidade. É bem corriqueiro hoje em dia vermos um bailarino que estuda dança por décadas apenas caminhar pelo palco como alguém que nunca dançou. A favor da dança contemporânea temos que ela é bem mais democrática que o balé clássico, elitista por natureza. Contra ela, entretanto, podemos dizer que não leva o homem nem o seu corpo para além de si mesmos. Antes, faz como as esculturas de Mueck e Hanson, isto é, exibe uma arte que não aponta os limites humanos nem ultrapassa a realidade ordinária do próprio homem.

Contra mim, obviamente, depõem as grandes audiências das exposições de Mueck e Hanson, e também as dos espetáculos de dança contemporânea. Mas nada há para se espantar com isso. Se a Arte contemporânea é a arte de representar o que está do lado de cá da virtuose humana é porque o próprio homem contemporâneo está aquém-de si mesmo. Portanto é isso o que as pessoas em geral querem ver representado pela arte. E é por isso que as “estátuas de cera” hiper-realistas de Mueck e Hanson agradam tanto, pois nelas não há forma divinal alguma a esfregar na nossa cara a nossa inalienável mundanidade, mas apenas as nossas próprias formas – quiçá mais decrépitas – a sussurrar que nós, espectadores, somo melhores e mais surpreendentes do que elas. Mueck, Hanson e a dança contemporânea são espelhos diante dos quais a audiência nunca verá imagens maiores do que ela mesma. Já diante da antiga estátua de Poseidon, da renascentista Pietá, do barroquismo de Aleijadinho, ou até mesmo das contemporâneas esculturas de Picasso, o espelho não funciona a nosso favor; engrandece senão a própria Arte.

Pergunto novamente se o lugar excelente da Arte não é mesmo num além-realidade –ordinária; se não é melhor ela ser provocativamente revolucionária, não insistindo em, digamos, “respeitar” o real, reproduzi-lo, e, consequentemente, ser limitada por ele; ficar aquém dele. A Arte enquanto reação, com efeito, não nos leva a lugares alguns senão aos que já ocupamos. Em troca, enquanto revolução, seu único destino é trazer mundos inéditos ao mundo clichê de onde, aliás, tanto desejamos as produções artísticas. Por isso as produções da “Arte dos Artistas” não devem ser como as da “arte dos artesãos”, pois, do contrário, veremos nas galerias de Arte esculturas espetaculares de corpos humanos que, no entanto, somente mantêm a humanidade cativa do que ela já, do que ela já tem, de suas próprias ideias, tanto quanto o sapato do sapateiro não nos afasta da ideia perene que temos de sapato.

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