Nave mãe patológica

Um avião cai nos Alpes suíços matando 150 pessoas. Mais uma das muitas e trágicas notícias com que somos informados sobre o funcionamento da realidade. Um simbólico minuto de silêncio foi tudo o que nós, passageiros da descontrolada nave Terra, pudemos oferecer, afinal, diferente do voo da Germanwings, a vida não parou. Entretanto, num segundo momento, foi divulgado que o copiloto, que estava sozinho no “cockpit”, deliberadamente arremessou a aeronave contra as montanhas europeias. Então, fomos inexoravelmente remetidos àquela velha notícia de somente algumas horas, pois já não se tratava de um acidente qualquer, mas de um acidente da própria natureza humana.

Doravante, a contragosto nosso, não foi mais possível culpar somente os secretos meandros do real pela desventura daquela centena e meia de pessoas, em cujo contingente poderia muito bem estar qualquer um de nós. Então, apressados em absolver a humanidade do sinistro, a especulação subsequente sobre o copiloto limitou-se a duas siamesas opções: ou ele era terrorista, ou doente; afinal, não podemos aceitar que uma pessoa normal e civilizada, e principalmente alemã, pudesse ser responsável por deliberada barbárie. Somente Hitler havia conseguido ser absolutamente terrorista e doente ao mesmo tempo.

Porém, como não foi verificado nenhum envolvimento do copiloto com organizações terroristas – o que nos devolveria de imediato a rota tessitura da nossa crísica contemporaneidade -, restou somente a opção da doença: ou o copiloto sofreu algum mal súbito enquanto voava, ou ele já havia feito o seu “check-in” trazendo na bagagem a sua própria patologia. Para corroborar com esta última hipótese, antes mesmo de os destroços do Boeing serem tocados, a casa e a vida de Andreas Lübitz já haviam sido devidamente vasculhadas.

Todavia, como a vaca profana de Caetano Veloso não nos deixa esquecer, “de perto, ninguém é normal”. Então, meia dúzia de gavetas e de namoradas foram suficiente para construir um psicopata sob medida para assinar postumamente a obra trágica que não gostaríamos de ver na vernissage desse março de 2015. As novas manchetes trouxeram, em letras garrafais, que Lübitz sofria de transtornos psiquiátricos – porque passava por um tratamento psiquiátrico –, simples assim. Todavia, em letras de bula de remédio, foi dito que o copiloto tratava de uma angústia referente a um recente problema de visão, que, em breve, o impediria de ser comandante.

Se Lübitz não fosse nem doente nem terrorista, ele seria apenas um ser humano como outro qualquer, no entanto, revelando, em cadeia internacional, uma conhecida, porém estrategicamente alienada, face da humanidade com cujo “selfie” reconhecemos as caretas que os bichos homens fazem uns aos outros. Portanto, algum erro irredimível deveria ser atribuído somente ao copiloto da Germanwings, pois assim, aos demais seres humanos que copilotam a turbulenta nave mundo não seria informado que dentro da caixa-preta de cada um deles também se entrincheira um terrorista-doente em potencial.

Da mesma forma que muitos ainda tentam provar que foi Geroge Bush o bárbaro-mor do ataque às Torres Gêmeas, a qualquer momento pode ser divulgado que Andreas Lübitz, além de maluco, era também terrorista, afinal, quanto maior o demônio, mais seguro parecerá o paraíso artificial no qual nos refugiamos. Agora, se Lübitz não fosse nem psicopata nem terrorista, mas tivesse padecido apenas de um mal súbito, as nossas certezas sobre o copiloto se voltariam contra nós mesmos. Teríamos, então, num primeiro momento, uma pessoa desmaiando solitariamente numa cabine de controle, para em seguida, no gatilho da tragédia, a humanidade inteira disparar seu terror patológico intrínseco contra um cadáver inocente, chamando-o de doente e terrorista.

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Ignorância libertária

Um sábio professor da Faculdade de Filosofia me levou ao livro O Mestre Ignorante, do filósofo Jacques Rancière, obra que trata, politicamente, da liberdade. Da leitura resta claro dois tipos de mestre: o “explicador”, com cuja performance estamos bastante habituados, mas que, no entanto, por ser a única fonte a partir da qual emana o saber, merece o adjetivo “embrutecedor”; e outro, o “mestre ignorante”, que, sem ter o que, nem como explicar, conta somente com a vontade dos alunos em aprender, merecendo, com isso, o título de “libertador”, pois assume que o saber não está nele, mas algures. Não pude evitar classificar os meus professores a partir destas duas posturas. Entretanto, mesmo aderindo imediatamente à ideologia libertária do mestre ignorante, reconheci, a contragosto, a sedução oculta dos mestres embrutecedores. Qual seria, então, a resistente vantagem do embrutecimento diante do horizonte da liberdade?

Rancière conta a experiência do professor francês Jacotot que, sem falar a língua dos seus alunos holandeses, e estes, por sua vez, sem falar a dele, mesmo assim alcançou um resultado de aprendizagem muito acima do esperado, ameaçando, dessa forma, a estrutura de ensino sobre a qual a sua sociedade – mas também a nossa – é erigida. Ora, sem falar a língua dos seus alunos, Jacotot nada podia lhes explicar. Restava, então, deixá-los a sós com o conteúdo a ser aprendido. Para a surpresa do mestre isso foi mais que suficiente. Entretanto, tal performance permaneceria oculta caso tivesse sido mantida a tradicional metodologia de ensino que hierarquiza mestre e aluno de acordo com a posse do saber.

Se Jacotot tivesse apenas explicado aos seus alunos o que eles não sabiam, o mestre teria, de antemão, se colocado acima e adiante deles. Esta dianteira, contudo, nunca seria alcançada, pois todo o mestre explicador sempre guarda para si um saber que o aluno não sabe. Só assim este tipo de mestre permanece indefinidamente necessário, porém, ao preço do eterno subjugo do aluno a ele. Por isso não poderíamos chamá-lo de libertador, mas de embrutecedor, uma vez que, sob o pretexto de ensinar, ensinaria, na verdade, que aluno algum jamais saberá mais do que seu mestre.

Agora, pelo fato de não ter explicado nada aos seus alunos, e isso por incapacidade sua, Jacotot assumiu de imediato a sua própria ignorância diante deles, destruindo, com isso, qualquer hierarquia dentro da sala de aula. Não havendo mais o latifúndio do saber, tradicional propriedade do mestre, a ser paulatinamente “usucapiado” pela ignorância passiva dos alunos, restou apenas pessoas em pé de igualdade diante do que elas poderiam ou não aprender, dependendo, contudo, da vontade de cada uma delas. Antes mesmo de os alunos aprenderem algo, para só então galgarem alguma liberdade positiva, eles já foram considerados livres por Jacotot; o que não aconteceria sustentando-se que é somente o aprendizado já dado a carta de alforria.

A ignorância de Jacotot dizia que o saber estava alhures, a ser conquistado livremente, e não homeopaticamente concedido pela superioridade de um mestre qualquer. Rancière nos faz ver que a liberdade é a melhor professora, e a ignorância, sua melhor aluna. Ora, diz o filósofo, uma criança aprende a falar simplesmente ouvindo a língua que é falada em torno de si, sem a obrigação de aprendê-la, mas experimentando-a livremente, a seu bel-prazer e necessidade. Abusando dessa liberdade, como sabemos, todas as crianças dão saltos de aprendizagem dignos de nota. Agora, na escola tradicional, quando à mesma criança é explicada a língua que ela já vinha aprendendo sozinha, sua performance se reduz drasticamente. Há inclusive notas de 1 à 10 para medir o embrutecimento a que o aluno está sujeito mediante a inexorável pressuposição de que só o mestre pode ensiná-lo.

Passando em revista os meus professores, quase só encontrei os do tipo explicador, portanto embrutecedor, pois pouquíssimos são aqueles que fazem de suas próprias ignorâncias a alavanca para libertar os alunos das suas. Antes, do topo da torre de marfim de seus saberes, tais mestres explicam que sempre estaremos presos, não só a eles, mas também ao saber que nos falta. Entretanto, dentre estes docentes embrutecedores, há, contudo, explicadores maravilhosos pelos quais tenho não só grande admiração, mas também gratidão. Ora, uma vez ciente da diferença que Jacotot estabeleceu entre o mestre explicador e o mestre ignorante, como podem os meus mestres embrutecedores ainda parecerem, a mim, libertadores?

É precisamente nessa contradição que reside a histórica supremacia da sabedoria privada, propriedade virtuosa dos mestres, em relação à ignorância pública, espólio maldito dos alunos. Não é somente pelo fato de sistematicamente embrutecer que os mestres explicadores dominam as salas de aula, mas também porque tal embrutecimento aliena confortavelmente os alunos do fato de que somente a vontade individual de aprender é a verdadeira mestra. Há, por conseguinte, um o gozo, no entanto passivo, em se esquecer da solidão e da intransferível vontade pessoal que qualquer aprendizado verdadeiro engendra. Uma vez acorrentado voluntariamente aos desígnios do mestre explicador, o aluno pode mentir a si mesmo um algoz que não a sua própria falta de vontade e de empenho como responsável pelos fracassos de sua busca individual por saber.

Avesso da liberdade, porém, filho do embrutecimento que emana do mestre explicador, é o imediato conforto de uma tutela externa, segura e certificada. No entanto, o mestre ignorante de Rancière afronta essa preguiça sustentada pelo mestre explicador ensinando a todos que somente a vontade e o empenho individuais libertam o indivíduo de sua própria ignorância. Isso porque, para Jacotot, o saber é professor menos virtuoso do que a ignorância, pois esta, por sua natureza, põe todas as inteligências em pé de igualdade. Assumindo que todos são igualmente inteligentes, o professor francês somente precisou retirar o primeiro obstáculo à plena performance dessas inteligências potenciais: o mestre explicador.

Ora, se pelo método do embrutecimento uns sempre findam sabendo mais do que outros, espelhando com isso a arraigada desigualdade social, é porque este processo educacional reproduz, basilarmente, a pressuposta hierarquia entre mestre e aluno, entre rico e pobre, entre capaz e incapaz. Infelizmente, a verdadeira igualdade, seja ela entre os cidadãos, seja entre suas inteligências, vive apenas na vil retórica política de um poder que deseja sobretudo manter a assimetria social que o justifica. Se todos forem considerados igualmente inteligentes, e portanto capazes de galgar qualquer sabedoria, como justificar que uns saibam, e por conseguinte tenham, mais do que outros, a não ser na assunção de que é justamente o modo como se ensina o carrasco da igualdade primeira?

Porém, a liberdade gratuitamente oferecida pelos mestres ignorantes não está morta. Segue viva, contudo, no horizonte revolucionário de quem se recusa em aceitar que o bruto saber, por si só, valha mais do que as inteligências que livremente o conquistam e por suas vontades o possuem. Contra a ideologia explicadora-embrutecedora, que faz da quantidade de peixes pescados, e não da capacidade da rede que os pesca, o valor com que se compra uma distintiva posição social, temos a resistente e libertária ideia do mestre ignorante que não divide as pessoas pelo que elas sabem a partir dos seus mestres explicadores, mas exclusivamente pelo que podem saber por si mesmas, a partir da inteligência de suas ignorâncias.

Em respeito aos meus professores-embrutecedores, devo buscar não por suas sabedorias, ou por mais explicação, porquanto não é aí que, segundo Rancière, reside a libertação, mas justamente por suas ignorâncias, isto é, por todas e quaisquer dificuldades que eles próprios enfrentam ao lidar com o mesmo saber que a minha inteligência, por outro lado, pretende alcançar. Só fazendo da vertical explicação que meus mestres declamam à minha pressuposta inteligência vazia aquilo que eles mesmos carecem para saber o que me ensinam chegarei à ignorância deles. Dessa forma, nossas inteligências se emparelham. Então, se, mediante suas próprias ignorâncias, as inteligências dos meus mestres ainda apontarem para o saber que eu, por minha vez, desejo aprender, terei substituído, subversivamente, meus mestres explicadores pelos libertários mestres ignorantes de Rancière e Jacotot.

A Cuba de Platão

No intervalo de um curso sobre Kant – autor com quem iniciei um relacionamento sério há três meses -, um colega me disse que ele e a sua esposa estavam estudando este filósofo. Rimos ao imaginar o próprio Kant, em espectro intelectual, circulando pela casa, pelos pensamentos e discussões deles dois. Perguntei, retoricamente, é claro, o que porventura a entidade kantiana estava gerando no ventre do casamento deles. Seu imediato silêncio, e aquela olhadela para cima e à direita de quem vasculha alguma coisa na lembrança, me sugeriram que ele ainda não havia se perguntado sobre isso.

Então, para evitar ser indelicado com o colega, e não mais especular acerca dos efeitos de Kant no seu casamento, eu citei um outro professor nosso, que, juntamente com uma esposa sua, pesquisava Hegel. Concordamos que a presença de um Hegel era mais perigosa a um casamento do que a de um Kant. Afinal, Hegel faz com que o espírito se manifeste em contradições, e que estas, quando finalmente se apaziguam, não apagam as oposições iniciais. Imagine o que isso significa a dois espíritos cônjuges. Uma única paz hegeliana, buscada por duas pessoas, portanto, só seria alcançada no acorde de quatro partes dissonantes!

Já Kant diz que a dialética imanente da razão humana, ainda que não leve às verdades científicas, é responsável, no entanto, pelas resoluções éticas e morais, ou seja, pelos acordos dos humanos consigo mesmos e com os demais. Ora, nesse sentido Kant pode ser visto como um filósofo mais casamenteiro, afinal, as inexoráveis “deérres” (discussões de relacionamento) que todo casal enfrenta ao longo da vida conjugal acabam sendo o processo através do qual é instituída, racionalmente, a harmonia conjugal.

Entretanto, não pude evitar de sugerir que, quando um casal estuda o mesmo filósofo, seja ele Hegel ou Kant, este é transformado numa espécie de cachorro da família. Este cão filosófico, então, circularia da poltrona na qual o marido o lê à escrivaninha na qual a esposa escreve sobre ele, e vice-versa. Pararia, às vezes, no meio do corredor e latiria conceitos indecifráveis. Seus donos, juntos, perambulariam peripateticamente em torno do Pet intelectual, especulando sobre o que ele quer. Conquanto esse bichano metafísico seria bem mais hermético do que um cachorro natural, marido e mulher estariam tremendamente mobilizados em função dele.

Como eu não sou casado, achei que estava livre de tal entidade filosófica esperando por mim em casa. Todavia, os animais de estimação são um antídoto largamente utilizado no combate à solidão urbana-contemporânea. Ora, assim como os casais adotam cachorros – para em seguida tratá-los como filhos -, os solteiros projetam cônjuges, contudo transcendentes, nos seu bichos. Com efeito, mesmo solteiro, eu tinha uma matilha metafísica me fazendo companhia no aconchego do lar, latindo ontologicamente, sempre faminta por mais uma ração de leitura, e ansiosa para rolar comigo – ou me enrolar – no tapete de suas célebres ideias.

A meu ver, o cão e a Filosofia disputam o título de melhor amigo do homem. Quanto mais não seja porque ambos são produções da humanidade: o cachorro doméstico é o artesanato humano a partir da matéria bruta do lobo selvagem, e a Filosofia, um artesanato da razão humana sobre sua própria irracionalidade. Entretanto, como também somos criaturas das nossas próprias criações, não escapamos de ser os “humanos de estimação” dos nossos cachorros e filósofos. Sem nós, ambos minguariam na face da terra. Os cães, entretanto, contam com as surpresas da Natureza, infinitamente mais sábia do que qualquer metafísico que já tenha existido. Já a Filosofia, coitada, sem seus donos-leitores é apenas manchas pretas em folhas brancas, espalhada pelo planeta pela tempestade da razão.

Eu, no momento, crio quatro Pets filosóficos: um kantiano, um espinosano, um marxiano, e um bergsoniano; mas tenho de cuidar desse canil sozinho. A vantagem do meu colega é dividir com sua esposa os cuidados com o Kant de estimação deles. Uma semana depois da primeira conversa, meu colega e sua esposa anunciaram à turma que estavam esperando um bebê. Imediatamente pensei que o metafísico de estimação que eu havia idealizado para eles ficaria com ciúmes desse neonato humano. Entretanto, os cachorros adoram as crianças da mesma forma como a Filosofia ama os homens. Além do mais, assim caminha a humanidade: fazendo filhos, cachorros e Filosofia.

O radicalismo colateral da cidadania pacífica

Tanto as manifestações de junho de 2013 quanto a de março de 2015 contaram com seus próprios vândalos de plantão. As primeiras tinham os Black Bloc que, pilhando latas de lixo, paradas de ônibus e bancos Itaú, espantaram a opinião pública e forneceram à mídia reacionária o precioso material com o qual ela desqualificou estrategicamente o grande movimento. Já a de 2015 também contou com seus radicais imediatamente objetáveis, apelidados de Yellow Bloc e apólogos da ditadura militar, cujo vandalismo, por sua vez, destrói a própria democracia. Assim como os arruaceiros mascarados, os desordeiros verde&amarelo expressaram a pior e mais reprovável face do que estava sendo manifestado democraticamente nas ruas de março.

É importante frisar que os Black e os Yellow Bloc eram minorias absolutas dentro de suas respectivas massas. No entanto, a presença de ambos protagonizou a performance da “multidão de bem”, matizando com cores tirânicas e inaceitáveis as bandeiras e as demandas sociais levadas às ruas pelos dois macro movimentos. Conquanto a maioria dos cidadãos brasileiros reprovou o vandalismo Black Bloc, as manifestações das quais eles participaram não escaparam de tal escrutínio. Outrossim, o jihadismo amarelinho, gritando “intervenção militar já”, imediatamente se ofereceu como pretexto ao desmerecimento do protesto global que, no entanto, lhes deu voz.

Ambas as manifestações, as de junho e as de março, embora antagônicas, também têm em comum o monocórdico grito contra a corrupção política e o polifônico clamor por um Estado eficiente. Todavia, a pertinência destas demandas foi largamente ofuscada: em 2013, pela garatuja de guerra civil que os Black Bloc e a polícia ofereceram à opinião pública, e em 2015, pelo vômito elitista que pretere a democracia à ditadura militar, não obstante, com o agravante de se servir da própria democracia para tal. Não há grito popular por vinte centavos, saúde e educação padrão FIFA, reforma política ou terceiro turno, pleitos absolutamente civilizados, que resista ao intenso ruído da barbárie, seja a performática destrutiva dos Black Bloc, seja a retórica anacrônica dos Yellow Bloc.

2013, apesar de sua pretensão revolucionária, teve de se curvar à reação do velho Brasil que venceu as eleições de 2014. A política maciçamente reeleita nos estados e municípios foi justamente a criticada naquele junho: o “fora PMDB” carioca e o “fora PSDB” paulistano, por exemplo, ecoaram, no ano seguinte, como um irônico “permaneçam”. Isso sem falar do recente crescimento do conservadorismo religioso na nossa política. Diante do quadro atual, é de se perguntar se o movimento de junho, por fim, não acabou produzindo um desserviço a si mesmo. Já o protesto de 2015, que pedia não só o impedimento da presidenta, mas também da democracia, recebeu dela, em apenas dois dias, um pacote anticorrupção e uma sessão televisionada de “Mea culpa”.

Claro, tal pacote também atende aos revoltosos de junho, no entanto, dois longos anos depois. Ora, sob este aspecto, os reacionários de 2015 mostraram um poder revolucionário mais intenso do que os declarados revolucionários de 2013. Diria que a História é irônica, porém, mestre nessa arte é o poder: todos podem democraticamente desfilar nas ruas as suas insatisfações, sejam os pró, sejam os contra o poder, mas somente um dos dois será priorizado.

Agora, se o revolucionário junho e o reacionário março tinham seus vândalos inerentes, cabe aventar se cada cidadão brasileiro também não esconde dentro de si uma dicotomia de mesma espécie e grau. Porventura o manifestante pacífico, seja de que ano for, não refletiria internamente as contradições da multidão a qual se agrega? Inversamente, não seria o radicalismo, impertinentemente representado pelos Black ou Yellow Bloc, a sintomática erupção, na arena social, da barbárie resistente que subjaz na secreta subjetividade de cada cidadão, todavia civilizadamente reprimido? Cabe a cada brasileiro fazer esse “Mea culpa” individual e encontrar o radical fundamentalista solapador de ideais escondido dentro de si mesmo, muito antes de pedir que a figura da presidenta faça isso por todos.

Só então, o cidadão, a partir da ínfima parcela que ele representa na opinião pública, deixará de propagandear o radicalismo como um erro condenável, para então entendê-lo como o inexorável outro lado da única moeda com que se negocia a mudança, seja ela para trás, seja para frente. Ter participado de Junho de 2013 e reprovar os Black Bloc, ou ter desfilado em março de 2015 sem aceitar os Yellow Bloc, é não se unir à massa a qual se diz pertencer; é, sobretudo, enfraquecê-la, não como os seus respectivos vândalos fizeram, mas de outro modo, covardemente.

Entretanto, levando essa lógica ao limite, o cidadão brasileiro, para fazer parte definitiva do “corpus brasilis”, não deve pensar a si mesmo como se não fizesse parte e ao mesmo tempo não produzisse cotidianamente tanto a pacificidade da maioria, quanto a radicalidade das minorias, seja ela Black ou Yellow Bloc, cuja virtude, contudo, é gritar barbaramente, em alto e bom tom, aquilo que a civilização têm vergonha de expressar publicamente. Dessa forma, ser brasileiro é querer, ao mesmo tempo vinte centavos, um Brasil padrão FIFA, a ruína do banco Itaú, o impeachment, a ditadura militar, e todo o resto que não cabe num único discurso pessoal.

Seria ideal se a cidadania fosse algo simples, porém, a realidade nada mais faz do que frustrar esse desejo, afrontando-nos com sua complexidade imanente, cuja pertença, no entanto, exige que não nos coloquemos acima dela, como estrangeiros burgueses que a julgam como se se tratasse de uma republiqueta nalgum terceiro mundo distante. 2013 fez do caos uma nova ordem, todavia temporária. 2015, por sua vez, fez da ordem o pretexto para apologizar o caos. Por fim, o vetor entre as forças revolucionárias e reacionárias aponta para o exato agora, mas também para todos nós, brasileiros que guardam dentro de si o radicalismo que todo desejo de mudança expressa, ainda que colateralmente.

Filósofos de estimação

No intervalo de um curso sobre Kant – autor com quem iniciei um relacionamento sério há três meses -, um colega me disse que ele e a sua esposa estavam estudando este filósofo. Rimos ao imaginar o próprio Kant, em espectro intelectual, circulando pela casa, pelos pensamentos e discussões deles dois. Perguntei, retoricamente, é claro, o que porventura a entidade kantiana estava gerando no ventre do casamento deles. Seu imediato silêncio, e aquela olhadela para cima e à direita de quem vasculha alguma coisa na lembrança, me sugeriram que ele ainda não havia se perguntado sobre isso.

Então, para evitar ser indelicado com o colega, e não mais especular acerca dos efeitos de Kant no seu casamento, eu citei um outro professor nosso, que, juntamente com uma esposa sua, pesquisava Hegel. Concordamos que a presença de um Hegel era mais perigosa a um casamento do que a de um Kant. Afinal, Hegel faz com que o espírito se manifeste em contradições, e que estas, quando finalmente se apaziguam, não apagam as oposições iniciais. Imagine o que isso significa a dois espíritos cônjuges. Uma única paz hegeliana, buscada por duas pessoas, portanto, só seria alcançada no acorde de quatro partes dissonantes!

Já Kant diz que a dialética imanente da razão humana, ainda que não leve às verdades científicas, é responsável, no entanto, pelas resoluções éticas e morais, ou seja, pelos acordos dos humanos consigo mesmos e com os demais. Ora, nesse sentido Kant pode ser visto como um filósofo mais casamenteiro, afinal, as inexoráveis “deérres” (discussões de relacionamento) que todo casal enfrenta ao longo da vida conjugal acabam sendo o processo através do qual é instituída, racionalmente, a harmonia conjugal.

Entretanto, não pude evitar de sugerir que, quando um casal estuda o mesmo filósofo, seja ele Hegel ou Kant, este é transformado numa espécie de cachorro da família. Este cão filosófico, então, circularia da poltrona na qual o marido o lê à escrivaninha na qual a esposa escreve sobre ele, e vice-versa. Pararia, às vezes, no meio do corredor e latiria conceitos indecifráveis. Seus donos, juntos, perambulariam peripateticamente em torno do Pet intelectual, especulando sobre o que ele quer. Conquanto esse bichano metafísico seria bem mais hermético do que um cachorro natural, marido e mulher estariam tremendamente mobilizados em função dele.

Como eu não sou casado, achei que estava livre de tal entidade filosófica esperando por mim em casa. Todavia, os animais de estimação são um antídoto largamente utilizado no combate à solidão urbana-contemporânea. Ora, assim como os casais adotam cachorros – para em seguida tratá-los como filhos -, os solteiros projetam cônjuges, contudo transcendentes, nos seu bichos. Com efeito, mesmo solteiro, eu tinha uma matilha metafísica me fazendo companhia no aconchego do lar, latindo ontologicamente, sempre faminta por mais uma ração de leitura, e ansiosa para rolar comigo – ou me enrolar – no tapete de suas célebres ideias.

A meu ver, o cão e a Filosofia disputam o título de melhor amigo do homem. Quanto mais não seja porque ambos são produções da humanidade: o cachorro doméstico é o artesanato humano a partir da matéria bruta do lobo selvagem, e a Filosofia, um artesanato da razão humana sobre sua própria irracionalidade. Entretanto, como também somos criaturas das nossas próprias criações, não escapamos de ser os “humanos de estimação” dos nossos cachorros e filósofos. Sem nós, ambos minguariam na face da terra. Os cães, entretanto, contam com as surpresas da Natureza, infinitamente mais sábia do que qualquer metafísico que já tenha existido. Já a Filosofia, coitada, sem seus donos-leitores é apenas manchas pretas em folhas brancas, espalhada pelo planeta pela tempestade da razão.

Eu, no momento, crio quatro Pets filosóficos: um kantiano, um espinosano, um marxiano, e um bergsoniano; mas tenho de cuidar desse canil sozinho. A vantagem do meu colega é dividir com sua esposa os cuidados com o Kant de estimação deles. Uma semana depois da primeira conversa, meu colega e sua esposa anunciaram à turma estavam esperando um bebê. Imediatamente pensei que o metafísico de estimação que eu havia idealizado para eles ficaria com ciúmes desse neonato humano. Entretanto, os cachorros adoram as crianças da mesma forma como a Filosofia ama os homens. Além do mais, assim caminha a humanidade: fazendo filhos, cachorros e Filosofia.

Um acertado erro petista

Um acertado erro petista

O Partido dos Trabalhadores cometeu um grande erro na esteira da crise internacional de 2008: manter e aumentar os níveis de emprego no Brasil. Mas essa falha, longe de ser contra o povo – aliás, o priorizou -, foi contra o próprio sistema econômico. Ora, o capital precisa de um exército de mão de obra para produzir o seu valor. Entretanto, carece também, senão mais, de hordas de trabalhadores desempregados, disponíveis e, sobretudo, desesperados por trabalho. É com este último time que o capitalismo limita, mas também rouba, o valor do primeiro, pois havendo muita mão-de-obra ociosa no mercado o valor do trabalho não faz frente ao valor do capital.

Se o governo brasileiro dos últimos sete anos fosse radicalmente liberal, na iminência da crise ele teria não só permitido, mas também articulado, o aumento estratégico do desemprego, pois assim o valor dos salários cairia forçosamente – de acordo com a lei da oferta e da procura. Assim os empresários novamente fariam dos trabalhadores a sua vil moeda de negociação com a crise para manterem seus lucros, transferindo os custos aos próprios trabalhadores, que teriam ou de se vender por menos, ou produzir mais pelo mesmo salário – apenas para não serem exilados ao estado do desemprego. Isso porque o capitalismo mente muito bem que riqueza significa a grande riqueza de poucos, e não a ausência de miséria da maioria.

Entretanto, depois de 2008 o governo brasileiro fez diferente. Colocou o Estado inteiro na manutenção dos altos níveis de emprego. Isso, por conseguinte, manteve o valor do salário diante o valor do capital, o que sobremaneira afrontou, mas também desvalorizou este último. Sem uma massa desempregada de manobra, o capitalismo tupiniquim, não podendo trocar o valor do trabalho por bônus crísicos, teve de ir beber nos seus próprios lucros, coisa que, historicamente, está desacostumado. Aí a velha vaca tossiu.

Com efeito, as duas últimas vezes em que o capital foi comprometido, sem escapatória, no reerguimento e na manutenção social – e, para Thomas Piketty, as duas únicas – foram nas grandes guerras. Do contrário aquelas sociedades solapariam. Todavia, no mais das vezes, como na crise de 2008, em muitos países o trabalhador é que foi comprometido no salvamento do capital. A dívida que os Estados Unidos, mas não só eles, legou aos seus cidadãos para que os bancos – veja bem, os bancos! – não quebrassem, é o procedimento cotidiano do atual sistema econômico.

A falha petista em não seguir a pragmática cartilha capitalista, contudo, tem o grande acerto de fazer com que não só os trabalhadores fossem os afetados e comprometidos pela crise, mas também os empresários, ou seja, o próprio capital. Claro, o vilipêndio do proletariado é tão naturalizado que sequer seria manchete caso estivesse mais uma vez sozinho, afinal, conquanto os lucros permaneçam altos apenas à minoria histórica nada há com que se preocupar. Agora, no momento em que o capital também é cobrado pela crise as manchetes gritam histericamente o fim dos tempos – ou o impedimento do governo que não o deixou de fora da tempestade.

As manifestações “coxistas” de 2015 expressam o descontentamento dos representantes do capital diante da insistência do governo em não desvalorizar os trabalhadores sem antes dispor da riqueza nacional, objeto do desejo dos capitalistas. Como assim gastar com os não ricos aquilo de que os ricos precisam para serem o que são? O instituto de pesquisa Index apontou que 70% dos descontentes com o atual governo têm ensino superior, 40% deles ganham mais de dez salários mínimos, e 80% são brancos. Faltou verificar a porcentagem de cristãos coxinhas, mas podemos afirmar de imediato que se trata da classe que historicamente detém o capital.

Entretanto, a estratégia de não lançar primeiro os trabalhadores aos leões do desemprego, para com isso evitar que o capital fosse devorado, mas iniciar saciando a voracidade da crise econômica com a própria carne capitalista “excedente”, e só por último alistar o trabalhador no exército contra a crise, não pode ser visto como erro por parte dos próprios trabalhadores; muito pelo contrário. Talvez seja a primeira vez na história brasileira que a classe trabalhadora tenha sido economicamente priorizada em detrimento do capital. Quanto mais não seja porque é obra do Partido dos Trabalhadores.

É natural que a ameaçada aristocracia capitalista bata panela, manifeste incredulidade e insatisfação, afinal, um governo ousou não lhe preferir. Além do que, e a contragosto deles próprios, o país permanece democrático e permeável à manifestações, mas não só às suas. Se desde o início da crise – que nasceu internacional, mas que não demorou a se naturalizar brasileira – as coisas tivessem ocorrido de acordo com os preceitos capitalistas, como nos EUA, onde os trabalhadores ficaram sem casa e sem emprego para que os banqueiros mantivessem seus bônus estratosféricos, a nossa elite estaria tão preservada quanto satisfeita.

Porém, os trabalhadores brasileiros – ao contrário dos americanos, e a despeito da crise econômica e da assassina bolha imobiliária mundiais – não viram seus empregos minguarem; tiveram investidas “suas casas suas vidas”; e experimentaram um inédito poder de compra – o que afrontou a elite acostumada com a exclusividade de tal poder. Agora, contudo, como assumiu a nossa presidenta, é a inevitável hora de todos lutarmos juntos para sair do buraco. Obviamente, não se trata de uma boa notícia, mas nela subjaz uma virtude que não deve passar em branco: a crise está mais democratizada do que nunca, e não são mais os trabalhadores que pagam sozinhos o pato. Se o governo do Brasil não agiu de acordo com o “jeitinho capitalista”, essa falha não tem preço. Porém, como há um custo expresso em cifrões, é melhor que ele seja dividido democraticamente.

Democracia ancestral ou oligarquia contemporânea?

Sim, os coxinhas também querem uma democracia. Claro, não essa que temos hoje, cuja universalidade os afronta, mas uma bem mais antiga do que qualquer um desses acéfalos paneleiros pode imaginar. Com efeito, o “coxismo” contemporâneo remonta à primeira democracia que o mundo conheceu, inventada na em Atenas em 500 a.C., na qual somente homens ricos comandavam a cidade-Estado. De imediato se conclui que estes reacionários de 2015 são muito mais retrógrados do que se pode supor.

Aristóteles, na sua Política, dizia que numa democracia “deve-se ser prudente com os bens dos ricos e não submeter nem suas propriedades nem suas rendas à partilha. Seria ainda mais sábio não obrigá-los a grandes despesas e até mesmo proibir-lhes serem úteis para o povo”. Podemos muito bem imaginar o que um aristocrata grego diria de um Bolsa família. O repúdio à distribuição de renda, como a experimentada na última década brasileira, é democrática, sem dúvida, mas na sua mais primitiva expressão.

Dos 400 mil habitantes daquela Atenas, somente 30 mil tinham direitos políticos – mulheres, escravos, e não proprietários de terras eram excluídos. Porventura não é algo nestes moldes o que a democracia coxinha quer ao solicitar a anulação do sufrágio universal por intervenção militar? Entretanto, e infelizmente, em vez da poderosa retórica grega que conquistava votos na ágora, os aristocratas de hoje tem o melhor de seus discursos no máximo de ruído que conseguem extrair de suas panelas.

Se democracia, em grego, significava o “governo do povo”, mas de fato ela era propriedade de menos de 8% da população, era porque as ideias de povo e de população não coincidiam. Tampouco deveriam coincidir, pois só assim o povo estaria liberto dos pobres. Essa ideia, todavia, encerrava uma contradição da qual nem Aristóteles escapou ao afirmar que “se são os ricos que comandam, será sempre a oligarquia; se são os pobres, a democracia”; ou que “a oligarquia é para a utilidade dos ricos; a democracia, para a utilidade dos pobres”.

Ora, se democracia é mesmo o governo dos pobres, como apontou o filósofo, nunca houve democracia na Grécia antiga, quiçá depois dela. Se hoje a aristocracia brasileira, preterida em função da pobreza histórica, quer a berlinda de volta para si, busca a mesma coisa que os gregos chamavam de democracia, embora se trate, lá e aqui, de uma oligarquia, ou seja, do governo de poucos. Por isso os nossos coxinhas contemporâneos acreditam realmente defender a democracia quando pedem a deposição de um governante democraticamente eleito e a subjugação da vontade da maioria à tirania militar.

A democracia grega, da qual a brasileira é filha tardia, transmite um ideia virtuosa, mas apenas no seu significado literal, pois na prática sempre carregou consigo os vícios da oligarquia. Por conseguinte, quando todos defendem a democracia, como acontece no Brasil hoje em dia, fala-se, na verdade, de duas coisas bastante distintas: a maioria, de uma velha utopia; e a minoria, de uma realidade, contudo sempre renovada, que a privilegia conquanto use um nome utópico. Os coxinhas, portanto, são ou democratas ancestrais confessos ou oligarcas contemporâneos disfarçados.

Revolução, reação e o vetor histórico.

De junho de 2013 a março de 2015 duas forças antagônicas encarnaram no povo brasileiro. A primeira, chamada por muitos de vândala, protestava contra tudo o que lá estava e sempre esteve, clamando por um novo Brasil. As máscaras dos black bloc simbolizavam nada mais nada menos do que a face ainda ausente do país a ser inventado futuramente. A segunda e mais recente força, cujo símbolo é a panela ruidosa – que, entretanto, quem nela bate não a lava – também vai contra o que aí está, mas não contra o que até aqui esteve, pois tal levante simpatiza com um velho e traumático passado no qual a democracia foi suspensa por força maior, qual seja, a militar.

Ora, revolução e reação são movimentos diametralmente distintos, cada um apontando para um lado da linha histórica. O primeiro, explodindo do agora em direção ao desconhecido futuro, e o segundo, ao contrário, fugindo tanto do presente quanto do futuro, passado adentro. A pecha que se desenrola pelas avenidas e pelas timelines brasileiras entre tendências revolucionárias e reacionárias pressupõe um resultado vetorial, até aqui desconhecido, porém de máximo valor, que, por conseguinte, empurrará o Brasil ou um tanto para o futuro ou um tanto para o passado.

Claro, resta ainda a possibilidade de tais forças terem o mesmo valor, o que sobremaneira as anularia, não gerando assim movimento final algum. Esse seria o horizonte mais crítico à democracia: a ausência de uma maioria na presença irredutível de duas metades de mesmo peso. O quase empate no resultado final da última disputa presidencial é o melhor exemplo de como a maioria e a minoria podem se emparelhar numericamente, instigando assim a própria democracia.

Entretanto, quando não é o poder da maioria o desígnio absoluto outros poderes entram no concurso, e a força do capital, adaptável a qualquer rinha, é a primeira a fortalecer um dos lados empatados. Bem, na adversidade o capital é absolutamente reacionário; na ventura, apenas finge revolucionar. Então, quando o sonho da horizontalidade começa ganhar substantivas pinceladas de materialidade – e o quadro da última década tupiniquim foi esse “work in process” -, o capital abandona imediatamente os apólogos do “agora em diante” para se enfileirar verticalmente aos demagogos do grande ontem.

A força revolucionária ensaiada em 2013 começou tímida, pedindo seus vinte centavos de volta, mas não tardou a engrossar sua demanda, a ponto de ser necessário todo um novo Brasil para atendê-la. Já a força reacionária em performance nesse 2015 crísico irrompe impetuosa, indignada, com demandas que também extrapolam um punhado de centavos, porém, com a diferença de não almejar um país novo, mas clamar pela velharia política passada que desmerece a democracia e sobreleva a tirânica presença militar. Porém, nem tudo está perdido, pois ainda que a reação conte com generoso patrocínio do capital, a revolução tem como aliado inexorável o próprio sentido da história que aponta apenas para o futuro. Felizmente, o capital é só uma página, e recente, dessa história.

Fundamentalismo tupiniquim

É muito mais fácil se escandalizar com as barbáries do Estado Islâmico, cujo objetivo radical é retornar o Islã aos seus primórdios, do que se aterrorizar com os ventos reacionários que assoviam uma re-intervenção militar no Brasil. Porém, o que significa almejar a anulação de uma eleição democraticamente dada e o retorno da ditadura militar senão fazer como os fundamentalistas jihadistas, ou seja, querer impertinentemente o retrocesso? Em que medida o radicalismo tupiniquim é mais bárbaro do que o islamita?

O que está sendo “panelado” nas varandas mais abastadas da Terra Brasilis é a insatisfação de uma velha aristocracia com o fato de ser somente a nova classe alta, em um mundo democrático que, por um lado, faz de um proletário o presidente da república e, por outro, doutores os filhos dos proletários. O atual “basta reacionário”, fantasiado de indignação em relação a uma filha sua, isto é, a mui arraigada corrupção brasileira, tem em sua nudez o deflagrado vício de repetir a maquiavélica virtude de fazer dos príncipes fins, e do povo, apenas meios.

É um novo velho mundo no qual a elite reencena seu papel histórico que está por trás dos gritos de “impítimam” e de “Intervenção Militar Já”. Enganam-se aquele que acreditam que tais anseios visem alguém que não os tradicionais detentores do poder – intrigantemente, os mesmos que detêm o capital. Aliás, esse clamor retrógrado tomou seu maior fôlego na recente ascensão das classes mais pobres à média e, também estas, deterem um tanto do capital acostumado a jazer em poucas e mesmas mãos.

Da mesma forma como a jornalista-socialite-coxíssima Danuza Leão, no pleno florescimento econômico brasileiro de 2012, disse que Nova York perdera seu glamour quando soube que até o porteiro do seu prédio estava indo para lá, a elite tupiniquim também não vê mais graça nenhuma em viver num país onde os outros também podem ser doutores, turistas internacionais e, sobretudo, decidir democraticamente os governantes do país.

O fundamentalismo reacionário brasileiro tem muito mais em comum com o islâmico do que revelam os recrutadores memes das redes sociais. Aliás, a banalização do retrocesso se disfarça muito bem de evolução na superfície do mundo virtual. Entretanto, sob essa pele digital se escondem tanto o desprezo pela democracia como também o louvor ao vertical horizonte que toda ditadura encerra; e tanto faz se esse lobo sob pele de cordeiro é latino-americano ou árabe, ambos querem o ontem o califa do amanhã, quiçá do hoje.

O impítimam, seguido de intervenção militar, pretere o pobre ao rico, os gays aos heterossexuais, a mulher ao homem, o indivíduo à família, e, principalmente, o presente ao passado. Essa empresa do retrocesso tem a única vantagem de não ser utópica, pois baseia-se numa realidade histórica empírica, contudo abjeta, dos mais de vinte anos de ditadura militar no Brasil. Todavia, imediatamente revela uma covardia tremenda diante da imprevisibilidade do agora, principalmente porque ele é democrático, ou seja, produzido pela maioria.

Deve-se especular sobre esse projeto de Brasil no qual a validade do voto democrático cede espaço à pretensa validade do não-voto oligárquico cujo valor é historicamente lastreado no capital. Portanto, abandonar a aventura do presente só porque ela é nauseante e incerta, para se refugiar no estático, entretanto conhecido solo do passado, é coisa que tanto os bárbaros jihadistas quanto os fundamentalistas políticos brasileiros encampam.

Aqueles, entretanto, têm ao menos a dignidade de não esconder seus verdadeiros objetivos sob fabulações mentirosas. Por menos civilizado que seja, os bárbaros jihadistas assumem no Youtube que são assassinos do progresso e promotores do regresso. Já os radicais reacionários brasileiros mentem, primeiramente aos outros, porém, também a si mesmos, que a luta deles é por um novo futuro ao país quando na verdade a guerra é pela vitória de um passado cuja “cracia” era patrimônio exclusivo da minoria.

Os paneleiros aristocratas brasileiros não arremessam gays vendados de suas varandas nem destroem sítios arqueológicos patrimoniais da humanidade para retornarem ao passado. Entretanto, nem por isso os nossos radicais deixam de ser tão bárbaros quanto os do Estado Islâmico. Ora, vendar uma população inteira para que ela não veja a presente crise da nossa economia sobre o pano de fundo da economia global, histérica e necessariamente crísica, para então atirá-la da cobertura do novo edifício democrático brasileiro, e isso em nome de velhos valores, é em nada menos terrorista.

Os fundamentalistas brasileiros se perdem na babel democrática porque ela não fala apenas a língua deles. Por isso precisam solapar essa torre pública que comporta todos os discursos para que o velho texto da desigualdade possa ser declamado sem ruídos paralelos. Não são as milenares ruínas assírias que os bárbaros tupiniquins destroem, mas o jovem templo da democracia brasileira. Entretanto, e felizmente, apenas a virtualidade desse vandalismo engana, não os escombros materiais dessa destruição, cujo objetivo estratégico é soterrar a recente igualdade aventada contra o velho e oligárquico Brasil.

Impítimam à preguiça cidadã.

Toda dissonância pressupõe uma harmonia fundamental, disse Henri Bergson, e essa verdade também tem expressão política. Se ecoa um acorde forte desse desafinado fantasma de impítiman que assombra o castelo mal administrado do Brasil é o fato de povo estar se ocupando da política vigente, questionando-a, em rede, para muito além do sazonal jardim das eleições. Sempre muito criticado por exercer sua cidadania apenas na urna, hoje o brasileiro ensaia revolucionar esse rótulo de alienação. Seria porventura herança das manifestações de junho de 2013, cujas máscaras também expressavam-escondiam uma latente insatisfação com a representatividade democrática no Brasil?

Ora, é muito pertinente que os representantes eleitos pelo povo após àquelas manifestações estejam sob um novo jugo, ou do contrário elas teriam sido tão inócuas quanto queria o patrimônio público vandalizado. E pouco importa se este novo julgamento tem o radicalismo histérico de uma direita mimada, porém contrariada, ou o cinismo daqueles que optaram por não votar em ninguém além de suas próprias convicções particulares. Com efeito, a representatividade que o cidadão brasileiro passou a desejar desde aquele junho só se realizará sob a árdua e presente intervenção popular mesmo, e não enquanto se compartilha esse desejo frustrado apenas com aqueles que assistem à novela e ao Jornal Nacional conosco.

É inaudito, no entanto extremamente virtuoso, o descontentamento em relação ao governo do Brasil. Uma pena que ele não se estenda com a mesma intensidade aos governadores, aos prefeitos, aos vereadores e, em última instância, a nós mesmos. Afinal, a representatividade degradada que tanto nos incomoda performa através de todos. Entretanto, é melhor que essa atividade inquisidora do cidadão pós junho de 2013 comece por algum lugar. Hoje é a própria presidente da república o boi-de-piranha desse novo exercício. Oxalá isso se institua e seja democratizado sobre todos os demais representantes do povo.

Porém, quando a insatisfação popular, traumatizada por anos de má representatividade política, chega à arena pública já em seu modo extremo, ou seja, na forma de impítimam, essa manifestação esconde um vício terrível, e também histórico, qual seja, aquele que prefere a imediata substituição da dissonância por uma harmonia qualquer, mesmo que fantasmática, em função da qual não seja preciso envolvimento e trabalho político algum por parte dos cidadãos. Substituir um presidente em pleno desafino mente muito bem que os cidadãos estão plenamente consonantes ao Estado harmônico que eles mesmos imaginam. Só que não!

O presente desejo de impítimam contra a atual presidenta reencena a comodidade do cidadão brasileiro perante aquilo que o desagrada. Ora, tirar a Dilma e colocar outro no seu lugar não nos ensina nada de novo; não faz com que saibamos, coletivamente, botar para trabalhar, a nosso favor, aqueles que escolhemos para isso. Se um impítiman fosse uma ferramenta eficaz, depois de Collor o Brasil teria se tornado um país um tanto menos corrupto. Todavia, não foi isso que aconteceu. Ora, exigir do governo que ele cumpra com os compromissos que estabeleceu conosco é o cerne de uma vida política saudável, e é só no presente, com os políticos presentes, que isso pode ser exercitado.

A bandeira do impítimam, portanto, balouça uma desistência: o desejo de não mais ter de lutar, mas de substituir a dissonância presente por uma consonância futura, entretanto improvável. A verdadeira luta deveria ser pelo direito de lutar, diária e imediatamente, e não para que tal luta seja desnecessária ou realocada nalgum amanhã: porque ela não é, nunca, dispensável.

Tirar Dilma do seu cargo rouba a imediata possibilidade de aprendermos a lidar, presentemente, com os nossos governantes a ponto de fazê-los, sem escapatória, responder e agir de acordo com nossos anseios. Ora, o tabagista não resolve o risco de câncer extirpando seus pulmões intoxicados, mas mantendo-os e aceitando que ambos são um mesmo organismo. Tampouco um transplante de pulmão resolveria conquanto não se parasse de fumar. Sendo assim, mais vale uma a presença de uma Dilma desacreditada, no entanto encurralada pelo povo, do que mais um presidente da república, aparentemente descontaminado das vicissitudes políticas atuais, cuja verdade, no entanto, conheceremos, e também protestaremos contra, só na próxima esquina política.

O momento para desnudar a paraplégica representatividade política brasileira é agora. Todavia, não é com o próximo representante do poder que aprenderemos a assediar politicamente senão com aqueles que agora vestem a sofisticada fantasia que pretende representar o uniforme roto do povo. Portanto, tirar uma Dilma e permitir que um Michel Temer ocupe o lugar dela nada mais é que reagendar para amanhã a revista que devemos e podemos fazer hoje. Tudo isso, claro, em nome de uma arraigada preguiça política, esquecida de uma antiga, porém pertinente, afirmação de Aristóteles que diz: “a qualidade de um Estado é a qualidade dos seus cidadãos”, e não o contrário.

A banalização do impítimam reflete o desejo histérico do cidadão de ser qualificado a partir do Estado, e não o fato de serem as mínimas e ininterruptas ações individuais, incluso nisso o voto, que, por fim, somadas, instituem esse Estado. Como admitir que o problema do brasil nasce dos próprios brasileiros? Por conseguinte, culpar Dilma isoladamente, ou qualquer outro indivíduo, é uma forma de o cidadão se alienar do fato de que ele também é responsável pelas desventuras brasileiras.

Encarar e questionar os nossos governantes quadrienalmente, somente em época de eleições, era até aqui a generalizada, porém ineficaz, performance política do brasileiro. Porém, cada vez mais isso se mostra insuficiente para nos trazer o Estado que merecemos. Essa emergência, entretanto, gera também o desejo de trocar, imediatamente, a oculta virtuosidade de qualquer dissonância concreta pelo vício de uma nova e promissora harmonia, todavia abstrata.

Isso é preguiça cidadã. Por isso essa ideia de impítimam é reacionária na medida em que crê na existência de um governante em relação ao qual o povo possa seguir confiante e, sobretudo, alienado. Ora, nenhum representante poderá ser onisciente como Deus, atento a todos, incondicionalmente. Tampouco Ele cumpriu tal tarefa! Essa coisa da qual estamos tão carentes, isto é, uma representatividade política de qualidade, expressa tanto nas manifestações daquele junho quanto no atual grito de impítimam desse março, não vem de graça. Antes, deve ser solicitada, por mais paradoxal que pareça lutar arduamente pelo que nós é de direito.

Revolucionário mesmo seria o cidadão lutar pela possibilidade de lutar, diária e ininterruptamente, contra qualquer politicagem que o represente mal, inclusive, e principalmente, contra a política em vigência. Tirá-la da jogada para seguir o jogo não qualifica o cidadão, apenas transfere a batalha para amanhã. Michel Temer, ou até o próprio Aécio, porventura saciariam a nossa inquietude em relação a uma representatividade política consoante às nossas necessidades? Provavelmente não.

A única vantagem, contudo paliativa, de um novo e imediato presidente da república seria a projeção no abstrato amanhã da luta fundamental que, entretanto, se desenrola na concretude do agora. Peitar a atual presidente, insistindo que ela ocupe o lugar a que se propôs, é o aprendizado que impítimam algum pode ensinar ao politicamente mal-educado cidadão brasileiro. Desistir do presente é uma utopia sempre disponível que seduz primeiramente os mais fracos. Ao contrário, tomar responsabilidade pela realidade, sem destruí-la na adversidade, somente os fortes encampam. Que a presidente Dilma fique por mais quatro anos e que nós, o povo, cobremo-la insistentemente até que ela faça jus à responsabilidade a que se propôs.

#impítiman
#impeachment
#política
#representatividade
#cidadania

Bárbaros civilizados e radicais

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O ocidente nunca precisou sair de casa para saber o que é barbárie. Porém, diante do ultrarradicalismo do Estado Islâmico nosso conhecimento e nossas categorias de entendimento parecem não bastar. Como categorizar, por exemplo, a destruição de sítios arqueológicos milenares, as decapitações transmitidas “worldwide” pelo Youtube e os arremessos de homossexuais vendados de cima de prédios cometidos por “aqueles bárbaros”? As nossas barbaridades ocidentais, que não são poucas, e, diga-se de passagem, muitas delas mais graves do que as do EI, basta lembrar o nazismo, ainda assim não são capazes de fazer-nos entender a empresa jihadista. Então, como se fôssemos seres sempiternamente virtuosos e desconhecedores do mal, perguntamo-nos: “o que eles querem?”

Ora, isso até a Wikipedia responde: afirmar autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo; voltar para os primórdios do Islã; etc. Porém, retórica alguma nos tranquiliza. Mesmo que nos seja dito “é exatamente isso o que eles querem”, seguimos perguntando: “mas o que é essa coisa que eles querem”? Desconhecer os objetivos do Estado Islâmico é uma ignorância que sem demora pode ser resolvida. Entretanto, sabê-los e ainda assim não compreendê-los é mais do que falta de inteligência ou de conhecimento. Trata-se de uma fronteira intuitiva cujo atravessamento exige categorias de entendimento que o ocidente ou não cunhou ainda para si, ou, o que é mais provável, prefira fazer de conta que não as têm.

Mesmo que condenemos barbaridades ocidentais cada vez mais banalizadas, tais como a destruição de conjuntos arquitetônicos de valor histórico inestimável, para, no lugar delas, a especulação imobiliária construir arranha-céus  ou condomínios de luxo, ou ainda a homofobia, que em plena Avenida Paulista -mas não só lá- espanca e assassina gays, somos perfeitamente capazes de entendê-las, classificá-las, categorizá-las, sem o quê, aliás, não poderíamos condená-las propriamente. Agora, quando a especulação destrutiva é cometida pelo radicalismo religioso muçulmano, e arquiteturas e gays são eliminados para no lugar deles serem edificados os mandamentos de Alá, aí nosso horizonte intuitivo e nossa capacidade de compreensão parecem não ser suficientes.

Diante do radical fenômeno do Estado Islâmico não conseguimos intuir o que pode significar distribuir “pen drives” com cânticos jihadistas religiosos-militares e vídeos antidemocráticos, homofóbicos e xenófobos para, em seguida, torturar, mutilar ou matar cruelmente quem não canta tal musiqueta. Buscamos em vão compreender essas ações através dos nossos correlatos ocidentais, mas nossos feitos, imagens ou palavras resistem em explicam tal realidade. O colorido ensanguentado das bandeiras dos nossos Estados nacionais, a liberdade absolutamente vigiada da nossa internet, e o fato de os nossos direitos humanos ainda serem latifúndio apenas dos ricos e poderosos, tudo isso, somado e potencializado, parece ainda distanciar-nos irremediavelmente da compreensão do fundamentalismo do E.I. Claro, e nessa distância mantêmo-nos estrategicamente no lado “bom” da irresoluta questão.

O fato de não conseguirmos transpor o muro que até aqui nos aliena da  barbárie radical, no entanto, deixa duas coisas bem claras: a presença dessa fronteira intransponível e a nossa incapacidade em transpô-la com o ferramental categórico de que dispomos. Entretanto, nós, que habitamos o lado “bom e livre” do mundo, que pregamos cegamente o laico fundamento da globalização, diante da nossa incapacidade de compreender e de dialogar com lado “mau e fundamentalista” do mundo, entrevemos, a contra-gosto nosso, é claro, a mentira do fundamentalismo capitalista que prega que a única fronteira entre os homens é e deve ser aquela riscada pelo capital, e que basta dinheiro para se comprar o “Green Card” global.

Tal falácia fica clara na animosidade cada vez mais impagável e incompreensível entre o império dito civilizado e o império dito bárbaro. Diante disso, o ocidental civilizado, crente de que sua civilidade deveria lhe garantir tapetes vermelhos estendidos aos quatro cantos do mundo, sente-se ultrajado por não poder “comprar”, sequer compreender a parte do globo a qual chama de bárbara que se lhe opõe terminantemente. Pior ainda, como entender que para “estes bárbaros”, bárbaros são os próprios ocidentais civilizados? Então, talvez para compreender onde está e qual é essa barbárie ocidental de que “aqueles bárbaros” nos acusam, muitos dos nossos civilizados estão indo buscar respostas emigrando às forças do Estado Islâmico e à sua bárbara jihad. Nesse passaporte radical, além da marca polegar da ignorância, está carimbada a incipiente, mas não totalmente mentirosa certeza de que o ocidente é tão ou mais bárbaro do que os bárbaros da imigração jihadista.

A experiência que esses desertores ocidentais buscam nessa abjeta cidadania jihadista, por mais que seja reprovada pelo ocidente desertado, outra coisa não compra que a mercadoria mais rara, e talvez a mais cara do mercado mundial, qual seja: a lente capaz de fazer um civilizado tardio ver a realidade através dos olhos de um bárbaro primitivo. Videogame nem viagem turística alguns são capazes disso! Somente deixando radicalmente a pretensa civilização para trás é que o sujeito laico&ocidental poderá saber o que é o pacotão formado por uma Lei, um Estado e um Deus incondicionalmente absolutos que não se vendem à moeda, tempo ou costume alguns.

Seriam mesmo esses civilizados retirantes, uma vez cidadãos da urbe da barbárie radical, os primeiros ocidentais a cunharem as categorias de entendimento que faltam ao ocidente no sentido de compreender o radicalismo do Estado Islâmico? Do ponto de vista da etiqueta laica&liberal do ocidente, entender com essa profundidade os objetivos do E.I. é uma gafe imperdoável. Porém, por mais “deselegante” e incompreensível que seja para os padrões ocidentais-liberais, os muitos Belgas, dinamarqueses, franceses, holandeses, australianos e ingleses, só para citar alguns cidadãos que aderem ao E.I., estes são os ocidentais a verdadeiramente compreenderem os objetivos dos chamados bárbaros radicais, entendendo, primeiramente, que o mal reside também no cerne da civilização ocidental, e, em segundo lugar, que o mal dos pretensos civilizados é pior que o dos bárbaros radicais.

O que os novos cidadãos do Estado Islâmico podem estar querendo nos dizer é que nossa falta de compreensão a respeito da barbárie radical não se dá porque eles são de outra categoria que a barbárie civilizada. São apenas o outro lado da mesma moeda humana. Por isso não devemos deixar de perguntar a nós mesmos, civilizados ocidentais, se essa nossa manifesta carência de categorias de entendimento capazes de compreender “o bárbaro radical” não é apenas o nosso latente desejo de não enxergarmos que ele está iludido por suas próprias leis, Estado e Deus, assim como nós, pelos nossos. Até onde nos “faremos de burros” e não reconheceremos que todos estamos imersos numa realidade assaz radicalizada, em relação a qual basta ser humano para ser vítima fundamentalista dela?

A platônica goiaba Azul

Num voo da Cia Azul, eu pedi um pacote de “Goiabinha” (aquele biscoito com goiabada dentro). Logo abaixo do nome do produto, em grandes letras, outras, menores, traziam o sedutor slogan: “A Goiaba em todo o seu esplendor”. Porém, não muito longe dali, no outro lado da embalagem, abaixo do obrigatório quadro nutricional, uma ressalva em letras minúsculas, seguindo um tímido asteriscozinho: “*Este produto não contém goiaba”.

Meu espanto foi imediatamente silogístico;
Premissa maior: A goiaba em todo o seu esplendor;
Premissa menor: Este produto não contém goiaba;
Conclusão: Logo, este produto não contém todo o seu esplendor.

Entretanto, lembrei do que disse o filósofo Slavoj Žižek, que nós vivemos na era da dessubstancialização das substâncias básicas das coisas, na qual o café é sem cafeína, o leite sem gordura, a cerveja sem álcool e, a 10 mil metros de altura, a goiaba Azul sem goiaba – paradoxalmente mais saborosa do que a fruta ela mesma. Com efeito, a Goiaba Azul é sempre deliciosa, com a mesma consistência, tonalidade, perfume e, principalmente, sabor, coisa que a fruta natural apenas eventualmente consegue ser. Isso porque qualquer sazonalidade ou defeito da goiaba é excluído quando se exclui a goiaba dela mesma.

Ora, qualquer goiaba natural sempre será um tanto menos goiaba do que desejamos: um tanto ácida, um tanto machucada, um tanto bichada, etc. No entanto, é impossível encontrar qualquer defeito no CH³COOCH²CH³, isto é, a fórmula do gosto da goiaba. Afinal, é somente isso o que queremos quando queremos essa fruta, e não o “hardware” contingente que promete veiculá-lo. Este, na verdade, apenas nos aliena daquilo que a goiaba pode ser em seu esplendor!

Platão já dizia que as coisas reais são apenas degenerações das ideias que delas temos. Portanto, se o filósofo grego tivesse comido uma goiaba real, não se esqueceria de que ela é apenas um simulacro pálido da verdadeira e inatingível fruta ideal. A Azul cia aérea, por sua vez, leva as pessoas a este céu platônico no qual a goiaba é a sua pura e irrepreensível ideia. Servindo o “esplendor da goiaba” sem usar goiaba alguma, a Azul é absolutamente platônica, revelando a excelência da ideia quando livre de sua realidade material.

Capital da garoa e congestionamento

A Mobilize – Mobilidade Urbana sustentável, apurou que o custo dos congestionamentos na cidade de São Paulo é de R$ 50 milhões ao dia; isso sem considerar os conhecidos e não menos elevados custos ambientais, sociais e psicológicos que só engordam essa conta. O exorbitante valor apontado nada mais é que a quantia de riqueza que deixa de ser produzida pelos cidadãos da terra da garoa, diariamente, enquanto ficam presos nas ruas, impedidos de produzir esse mesmo montante. Com um perda desse porte é de se perguntar por que motivo o próprio capital ainda não comprou para si a tarefa, até então estatal, de garantir a plena permeabilidade das vias urbanas. Afinal, uma circulação eficiente circularia com ela mais capital, além de evitar tamanho prejuízo.

Em todos os lugares, mas sobretudo nas grandes capitais, o capital vacila entre sua tendência para entesourar-se, expressa urbanamente no seguro patrimônio imobiliário – uma perversão capitalista cuja mercadoria de valor passa a ser o próprio cofre, e não mais o que ele guarda -, e, em contrapartida, a necessidade intrínseca desse mesmo capital de circular para mais-valer. O imperativo dinâmico do capital é uma das forças, senão a maior, a rasgar na massa urbana as vias através das quais mercadorias e consumidores devem ir ao encontro um do outro. Essa realidade, contudo, congestiona a ideologia da promenade urbana, invetada pelos gregos antigos na livre procissão arquitetônica que seus edifícios propunham, e majorada na Belle Époque parisiense com a construção dos generosos bulevares.

Com efeito, para que o capital circule dentro de uma capital o indivíduo cosmopolitano deve perambular por ela, peripateticamente, como mula desses cifrões. Afinal, é nas avenidas através das quais os cidadãos se deslocam que o capital, através deles, circula. Entretanto, quando uma territorialidade capitalista se torna uma urbe babilônica que precisa de 24 milhões de deslocamentos diários, como São Paulo, algo acontece: essa necessária circulação congestiona. Mesmo sendo causado pelos desígnios dinâmicos do capital o engarrafamento urbano acaba sempre na conta do Estado; embora sejam os cidadãos engarrafados os que pagam por isso. Ora, já estamos bem habituados com o fato de o tempo significar dinheiro, porém, é mais recente a ideia de que o espaço, melhor dizendo, a possibilidade de deslocamento nele, também signifique isso.

O capitalismo paulistano, na consideração de tamanho prejuízo, e também diante do risco de se estagnar – a exemplo de suas avenidas -, deveria ser o maior interessado na eficácia da mobilidade urbana. Claro, já se tem capital explorando tal mobilidade, como o das máfias dos transportes, e não menos o das empreiteiras, mas quase nenhum pagando por sua racionalidade e qualidade. Em vez de liberar ele mesmo as vias para si, esse capital ainda prefere ser tesouro imobiliário estático, como um arranha céu, um shopping center ou um grande condomínio, do que o valor em forma de espaço livre no qual circular sem demora. Todavia, enquanto o próprio capital se esquivar de comprar para si a pecha da eficiência da mobilidade urbana, o que só lhe beneficiaria, somente os cidadãos-mulas-de-capital permanecerão batalhando por isso, engarrafados, mas contra um Estado que, não obstante, só responde paliativamente.

Portanto, a estratégica inércia do capital da terra da garoa, pagando a bagatela de 50 milhões/dia, coloca a “paulistanada” inteira exigindo do Estado soluções para o caos do trânsito cuja causa, no entanto, é a própria necessidade de circulação desse capital. Pode-se concluir que o valor que não é convertido em riqueza conquanto os cidadãos que fazem tal conversão estão presos nas ruas deveria ser muito maior para que o capital urbano imobil-iário se mobil-izasse a ponto de pagar pela eficiência da mobilidade. Apesar da amarga conta, ainda vale mais para o capital materializar-se imobiliariamente do que fluir no sentido contrário. O dinamismo da economia virtual globalizada mente uma movimentação ideal ao capital, mas sua circulação física, a despeito de sua disposição para entesourar-se, permanece a finalidade concreta do passeio capitalista. Por isso a congestão urbana nas grandes capitais, essas catedrais concretas do capital.

A face dinâmica do capitalismo, que diz ser a circulação o maior tesouro, cobra seu preço na mesma moeda. Então, as pessoas precisam circular tanto quanto ele. Todavia, na saturação desse ir e vir, como na cidade de São Paulo, o desejo de movimento do capital é frustrado; mais ainda o dos paulistanos. Estes, por sua vez, permanecem nas ruas congestionadas solicitando o restauro de uma mobilidade perdida, iludidos de que clamam por fluidez a si mesmos, mas na verdade, quando conseguem alguma coisa nesse sentido, quem ganha qualquer mobilidade é sempre o próprio capital. Portanto, até o ponto em que o capital paulistano – mas não só ele – lucrar com a miséria de mobilidade que ele mesma gera, nada fará além de obstaculizar ainda mais os cidadãos e, sobretudo, colocá-los num embate que, entretanto, é seu, pois não é das pessoas o imperativo de mais circular para mais valer.

Manifesto copo plástico

“Um espectro ronda o planeta” – o espectro do plástico. No Pacífico Norte há uma formação artificial contínua e visível formada por garrafas PET, copos e sacos plásticos, que ora tem setecentos mil, ora quinze milhões de quilômetros quadrados, dependendo da disposição do tempo e também da dos humanos em reciclar ou não seus próprios resíduos. Considerando que o copo plástico é o principal ícone da indústria de descartáveis, e também o resíduo sólido menos reciclado ao redor do planeta, aquela ilha venenosa e dinâmica é majoritariamente alimentada pelos nosso copinhos cotidianos.

Um singelo copo plástico, aparentemente inofensivo e efemeramente útil nas mãos de um indivíduo, perde toda sua inocência quando são 48 bilhões deles produzidos anualmente. A partir desse dado lidamos com um monstro horrendo. Esteja onde estiver, contendo o nosso cafezinho, lambuzado na lixeira ao nosso lado, perdido entre as árvores, enterrado, entupindo bueiros, ou finalmente boiando nos mares do mundo, essa Tiamat sintética acompanhará a humanidade por no mínimo duzentos anos, quiçá testemunhará o ocaso dela.

O copo plástico é o polímero que mais facilmente se decompõe em microplástico, e essas abundantes partículas-pragas já compõem o ecossistema global. Especialistas afirmam que esse material já faz parte inclusive da composição da água. Plânctons e crustáceos se alimentam de microplástico; por conseguinte, os peixes que os comem; “long story short”: o próprio ser humano – mas injustamente não só ele – come os bilhões de copos plásticos que recentemente usou. Fala-se muito em reciclagem, mas não há retórica que dê conta do fato de estarmos comendo os nossos copinhos descartados

O poliestireno, matéria prima com a qual é feita o copo plástico, é tão barato que não compensa a reciclagem. De acordo com os ambientalistas também não é sustentável lavá-los devido ao nosso frágil horizonte hídrico. Como até agora não encontramos solução para esse dilema, a Mãe Natureza, subversiva como ela só, já vai dando o seu jeito. Então, depois de os nossos copos plásticos permanecerem não mais de quinze minutos nas nossas mãos, e por alguns anos boiando clandestinamente nalgum oceano, é de uma providência supernatural que estejamos ingerindo os nossos próprios descuidos.

Ao contrário do que parece, o acesso universal a um copo plástico não entrou para o rol dos nossos direitos humanos. Porém, ele é distribuído indiscriminada e gratuitamente, seja ao se comprar uma cerveja em uma esquina qualquer – e pouco importa se vêm dois copos juntos para uma única dose -, seja nas torres plásticas – não vigiadas!!! – formadas por centenas de copinhos ao lado dos bebedores espalhados pelos corredores da civilização, onde, aliás, as pessoas se servem deles como bem desejam.

Por isso o manifesto: que os copos plásticos não sejam mais gratuitos. Ora, se o valor deles não compensa a reciclagem, e o custo ambiental é tremendo, essa conta é nossa conquanto precisemos de um ambiente para viver. Que o copo plástico custe aos seus sedentos usuários mais do que ele custa ao planeta, e já! Somente no momento em que este abjeto objeto sair mais caro que a bebida que ele serve o civilizado descartador verá a si próprio como o verdadeiro bárbaro ecológico que é.

BEBEDORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

E pagai não somente pelo que beberdes, mas pelo ignóbil graal polimérico que reencontrardes a cada gole. Pois o copo plástico que agora usais não tardará a reencontrar-vos logo ali, na quimérica saúde que buscardes num filé de peixe ou na fantasiosa hidratação que esperardes de um copo d’água, ambos, contudo, microplastificados por obra vossa e de mais ninguém!

Príncipe of Cards

O que o seriado House of Cards, da Netflix, o de maior sucesso da atualidade, tem em comum com O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, obra que inaugurou o pensamento político moderno? Ora, ambos tratam de política, mas o que eles ressaltam é o pragmatismo de um fazer político que se dá a despeito da ética. A frase ícone do maquiavelismo “os fins justificam os meios” deixa isso bem claro.

A grande realização do escritor e diplomata renascentista foi esclarecer que, ao contrário do que se pensava até o ocaso da Idade Média, o verdadeiro poder político não se exercia consoante aos preceitos religiosos e morais; que isso era só uma aparência. Maquiavel foi revolucionário ao destruir uma arraigada e estratégica ilusão. Entretanto, foi reacionário na medida em que, despindo o poder de sua fantasia medieval, legitimou a velha nudez do exercício do poder político escondida sob elas. Doravante os príncipes podiam agir como sempre, só que livres do pesado manto divino e da longa capa de suas próprias decisões.

Beau Willimon, criador de House of Cards, também encena a crueza do exercício do poder político alienado dos valores éticos, bem como de quaisquer valores que se interponham em seu caminho. Frank Underwood, o príncipe do seriado, enxerga o poder em sua forma pura, desnudado de qualquer costume. Portanto, traições, assassínios e, sobretudo, o alheamento absoluto em relação aos cidadãos que ele governa não representam mal algum, mas procedimentos disponíveis e valiosos à conquista e à manutenção do que para ele é o bem maior: o puro poder.

Assim como Maquiavel, Willimon também encerra uma dialética entre revolução e reação. Por um lado, colocando seus telespectadores em contato com uma sordidez política cujo disfarce revelado ora é o devaneio da democracia, ora a quimera da justiça. Há um quê de revolucionário em arrancar o pomposo figurino da diva em cena aberta, pois sem tantos artifícios se pode analisar a verdade de sua atuação. Porém, por outro lado, House of Cards não propõe solução à abjeção que veicula, apenas ressalta suas vantagens. Underwood é um reacionário que faz dos hábitos passados os melhores uniformes para se conquistar o futuro.

Maquiavel escreveu sobre a ventura do poder a um dos donos do poder de sua época, Lorenzo II de Medici, e não ao povo. Já Willimon, inversamente, transmite a sua visão de poder corrompido justamente ao povo, isto é, aos seus milhões de seguidores “worldwide”, muito mais que a presidentes da república – embora House of Cards seja o seriado preferido de Barack Obama. Entretanto, ao democratizar o vislumbre sobre a avidez do poder, ainda que ficcionalmente, estaria porventura o americano prestando um serviço a que o florentino não se propôs ao tratar exclusivamente com o seu soberano?

É de se aventar que os absurdos que Underwood leva a cabo, que sobremaneira desvestem a tradicional ideia que se tem de um político, sejam somente as novas e mais apropriadas fantasias com que o poder em exercício dissimula absurdidades ainda maiores, aberrações que de forma alguma poderiam ser mostradas, sequer ditas. Por conseguinte, cabe perguntar se também Maquiavel, ao despir o poder do manto ético-religioso medieval, com isso não coseu para ele um novo e mais eficiente disfarce.

Considerando a clara fronteira entre verdade e entretenimento, o florentino teve ao menos a dignidade de colocar em cena os protagonistas da cena sociopolítica de seu tempo vestindo uma secreta, entretanto real, nudez. Nisso o renascentista foi absolutamente pós-moderno! Já House of Cards, por se tratar de uma mercadoria, não pode contar com os poucos e finitos cifrões que a verdade tem a oferecer. Portanto, pelar o poder nada mais deve ser que vesti-lo com subsequentes, oportunas e mentirosas nudezes. Aqui, o pós-modernismo reencena a mais tradicional pantomima medieval.

A máxima maquiavélica “Os fins justificam os meios” interrompeu o pensamento ético de uma Idade histórica na qual, sem opção, era a qualidade das ações particulares que resultavam na qualidade da ação absoluta. O maquiavelismo de Underwood da mesma forma solapa a ideia de que os passos devam ser bons para que a caminhada finde próspera. Os autores de O Príncipe e de House of Cards concordam que os meios já são fins em si mesmos, e que qualquer rococó ético só atrapalha a performance do poder.

A Netflix, entretanto, extrapola o maquiavelismo, pois além de o seu príncipe Underwood justificar seus próprios meios com o poder que deles deriva, criador e criatura, juntos, justificam um meio maior, isto é, os meios de comunicação, que investidos adquirem o poder de fazer com o mundo aplauda, quiçá eleja, em cadeia internacional, inclusive o mais vil dos políticos.

O desafio petista

O governo do PT enfrenta ao mesmo tempo uma incontrolável queimada econômica e, o que é pior, uma deflagrada corrupção sistemática no seu próprio subsolo. Diante disso, muitos cidadãos e forças políticas, alienados do fato de que todos os partidos políticos são vulneráveis à tais pragas – muitos deles completamente corroídos por elas –, convenientemente gritam “impeachment”. Até parece que é da natureza da política partidária brasileira a imunidade absoluta às adversidades tanto do exercício do poder quando do poder em exercício das demais forças políticas, sociais e econômicas. Ora, tal capacidade e lisura só são adquiridas em parcelas, na lida, sob os olhos democráticos da sociedade, e, como a História ensina, ao passo em que se fazem necessárias. Considerando que nenhuma outra sigla que tenha se assenhorado do “latifundium brasilis” esteve livre de carunchos é no mínimo injusto exigir do PT uma safra absoluta.

Talvez essa onipotência impossível solicitada ao atual governo seja o desejo histérico de uma sociedade que quer a continuidade daquele florescimento econômico experimentado na última década, no qual o Brasil saudava a histórica dívida externa, e a partir do qual os brasileiros tinham gordas colheitas de eletrodomésticos, automóveis, férias no exterior e diplomas universitários, só para citar alguns. Entretanto, durante essa bonança nunca deixou de ser dito que tal fazenda não era obra do PT, mas uma apropriação oportunista das semeaduras do governo FHC. Ainda que seja a mais pura verdade, isso não tira o mérito do partido vermelho, só prova que ele soube honrar, adubar e regar as sementes azuis com um rendimento que governo algum havia alcançado desde a tragédia militar, quiçá antes dela.

Porém, atualmente a lavoura econômica brasileira produz menos arrobas. Com efeito, prevenir o esgotamento do solo é responsabilidade do fazendeiro que o administra. O grito de “impeachment” tem a ingênua virtude de solicitar o revezamento de culturas, mas também o vício oligárquico de substituir uma monocultura por outra. convenhamos, precisa-se de uma boa dose de alienação para desconsiderar as intempéries da economia globalizada, como por exemplo o tsunami crísico de 2008 que solapou as maiores economias mundiais – mas que o segundo Lula soube marolar e a despeito do qual a primeira Dilma manteve o crescimento da nação.

Todavia, a meteorologia petista não foi competente suficiente para prever o refluxo da crise, ou seja, que na recuperação das grandes economias abaladas a tempestade se voltaria para os capachos históricos delas. Mas não só isso, o PT também não soube evitar a erva-daninha da corrupção interna, cuja inimizade declarada foi por muito tempo a sua honrosa pedra de toque. Hoje, portanto, o PT padece das mesmas dificuldades que os demais partidos enfrentaram antes dele: evitar que o país quebre e impedir que a corrupção interna o arruíne.

Dizer que o PT é como os outros partidos tem o primeiro significado, contudo pejorativo e inócuo, de que todos eles roubam igual. Porém, uma significação positiva que escapa disso tudo é que, finalmente, o PT se encontra no horizonte crísico comum a todos os grandes partidos, cujo enfrentamento é absolutamente necessário a uma maturação partidária. Uma vez evidenciada a contaminação do solo petista, que por sua vez o levou à aridez de um descrédito generalizado, esse partido está nu diante de suas próprias contradições. Todavia, essa lixiviação tem a vantagem de estar se dando sob a atenção de todos – claro, com a ajuda erosiva da mídia reacionária -; mas é melhor que seja assim, ou do contrário seria como o artificial canteiro peessedebista, viçoso conquanto as flores sejam de plástico.

Para a felicidade dos seus opositores, o PT não está livre de ruir inteiramente, seja mediante seus próprios antagonismos, seja perante à crise econômica atual. Esta, no entanto, apenas em parte é responsabilidade sua, mas não totalmente, dada a vulnerabilidade imanente à participação no latifúndio liberal globalizado. Todavia, só superando tudo isso é que o Partido dos Trabalhadores provará a que veio. O fato de hoje o PT estar devassado – coisa que os outros partidos evitam por via de mais corrupção – ou fará dele fruta podre, ou essa podridão mesma lhe servirá de adubo revolucionário. A direita brasileira, na histeria em que se encontra, só lhe propõe a primeira opção. A segunda, entretanto, é o mais legítimo e necessário desafio petista.

Rio 450

Um gaúcho no aniversário do Rio come do bolo mas não sabe do que ele é feito – só que é uma delícia! É difícil descobrir os ingredientes cariocas porque esse povo, que gosta de confraternizar e que sabe fazer isso como ninguém, não costuma levar forasteiros para suas cozinhas como faz a italianada lá do Sul. O quitute carioca aparece pronto e para ser saboreado na rua, seja numa mesa de bar – ou num caixote que faz as vezes desta -, seja na praia, onde, aliás, sem embalagem, é muito mais apetitoso.

Lá no Sul se diz de um homem com mais de trinta anos que não tenha barriga que ele é “viado”, mas no Rio nem isso nem barriga fazem sentido. Em vez de leite, o carioca toma açaí proteinado no seio materno, e os seus primeiros passos já são uma corrida na areia fofa da praia. Todavia, o culto carioca ao corpo e à saúde não tem mais de cem anos; veio com a invenção de Copacabana, quando uma juventude aristocrática ociosa pôde passar seus dias à beira-mar, com o corpo à mostra.

Parabéns ao malandro carioca que transforma o resto da humanidade em “mané”. Antropônimo de Manuel, mané era como os nascidos nos Rio apelidavam os gringos, que, aliás, sempre foram uma constante na cidade. Não fosse a personagem do malandro, contudo estereotipada, carioca da gema correria o risco de fazer como o portenho que se pensa europeu. A malandragem, portanto, foi a fantasia brasileiríssima com a qual o carioca afirmou sua identidade diante do mundo.

Nesse 1° de março são muitos e diversos cenários aniversariando: a zona sul urbanizada e cosmopolita; o centro verticalizado que ainda cheira à Belle Époque; a zona norte fina-flor suburbana; e também a recente zona oeste canteiro de obras do Rio futuro. No entanto, como certa música disse, “o Rio é uma cidade de cidades misturadas”; e quantas Santas Teresas nos morros de Copacabana; quantos palacetes do antigo centro em Botafogo, quantos Novos Leblons ao longo da interminável Barra da Tijuca!

Entretanto, o único cenário carioca que verdadeiramente comemora 450 anos é aquele visto por Estácio de Sá, na Praia Vermelha, no momento em que ele fundava a cidade de São Sebastião; cenário cujos elementos predominantes eram a natureza e os índios tupinambás. Hoje, contudo, a natureza é coadjuvante paisagística na urbanidade da cidade maravilhosa. Já o índio, esse desfila digna e livremente apenas na Marquês de Sapucaí, e eventualmente.

Todavia, foram os índios, em 1565, vendo o homem branco (em Tupi, cari) construir a primeira casa (oca), que cunharam o nome que seus colonizadores carregam até hoje. Talvez se os tupinambás tivessem sido convidados à intimidade das ocas dos brancos o nome dessa cidadania teria sido outro. Porém, tudo o que um índio podia saber daqueles cariocas – que não é muito mais do que um gaúcho pode saber dos atuais – é o que se vê apenas nas ruas: que eles são cosmopolitas, festeiros, sensuais, malandros, e que colocaram suas ocas no lugar mais lindo do mundo.