2015 e o seu sentido

O que é 2015? Tudo o que acontece nos 365 dias consecutivos entre 2014 e 2016? Concretamente, sim. O problema é que assim fica impossível falar o que é 2015, pois foram muitíssimos os acontecimentos, as interações, etc. Temos, então, de sair dessa densa cronologia e fazer como a História, buscar um sentido geral para os acontecimentos, e não a coleção indiscriminada deles. Fazer a história de um ano, entretanto, não fica muito distante da cronologia. Procuremos, na sequência dos principais acontecimentos de 2015, algum sentido histórico.

Pois bem, em 1º de janeiro de 2105, Dilma Rousseff tomou posse para o seu segundo mandato. Nem a presidenta, nem nós, imaginávamos o que ela enfrentaria ao longo deste ano. Devido à crise econômica que o ano anterior já anunciava, e ao quase empate com Aécio Neves nas eleições de 2014, o ano já começava exigindo atenção extrema. Porém, em 7 de janeiro, todos nos distraímos e voltamos nossas atenções ao atentado terrorista ao jornal Charlie Hebdo.

No final do mesmo mês, em 25 de janeiro, começa o maior folhetim político-econômico mundial do ano: a extrema-esquerda vence eleições na Grécia e, cinco dias depois, em 30 de junho, a Grécia já é o primeiro país desenvolvido a não pagar dívida com o FMI. Os próprios gregos, na sequência, em 5 de julho, decidiram, em plebiscito nacional, que não iriam pagar os seus credores internacionais. Duas semanas depois disso, em 13 de julho, ao contrário do que era de se esperar, os países do Euro chegaram a um acordo e não excluíram a Grécia do bloco e, o mais interessante, liberaram outro pacote de ajuda econômica ao país inadimplente.

Outros países do mundo também vão mal das pernas. E alguns, inclusive, mal das ideias… Em 24 de março, o avião da alemã Germanwings foi jogado contra os Alpes franceses pelo copiloto da aeronave. Andreas Lubitz, de quem foi dito ter problemas psicológicos. Cinco minutos depois de anunciado o acidente-atentado, a polícia já estava na casa do copiloto em busca de provas para chegar à patética resolução de que ele não era normal. De perto, alguém é? Todavia, provaram que não é a humanidade que é insana, mas somente Lubitz e malucos como ele.

Tanta coisa acontecendo no ano, e os brasileiros que estavam descontentes coma vitória de Dilma, encontraram somente em 15 de março, um domingo ensolarado, espaço na agenda anual para fazerem os seus protestos pedindo reformas, a volta da ditadura militar, o fim da corrupção e do Governo Dilma.

Sobremaneira, a tecnologia e a futilidade humanas supera qualquer crise ou tragédia humanas. Em 3 de maio, foi propagandeado o primeiro café expresso feito e consumido no espaço. A astronauta Samantha, enquanto sorvia a cafeína intergaláctica, escreveu no seu twitter: “Espresso fresquinho na gravidade zero!” Beijinho no ombro para a realidade mundana. Enquanto isso, no Brasil e no mundo, gravidade extrema!

E para ficar pior para a Terra, em 23 de julho foi descoberto o exoplaneta Kepler-452b, a uma distância de 1400 anos luz de nós, com condições de suportar a vida. No final do mês, em 31 de julho, as atenções se voltaram ainda mais para o espaço com o fenômeno da Lua Azul. Ah, e no final do ano tivemos a Lua de Sangue, lembram? Com a cabeça no espaço!

No oligárquico chão brasileiro, enquanto isso, em 6 de agosto, o país parou para vaias, gritos e para o argumento político mais idiota já inventado até hoje: o “panelaço”. Durante um programa eleitoral do PT em rede nacional de rádio e televisão, a burguesia pegou nas panelas e argumentou ruidosamente com a mesma consistência de sempre. Pobres burgueses…

Mas eles tentam! A histeria, por exemplo, sintoma burguês clássico, quase chegou ao seu fim com o Viagra feminino. Mas a ilusão durou pouco. Em 16 de agosto finalizaram-se os testes, para, em 20 do mesmo mês, o medicamento já estar nas drogarias. Porém, pesquisas independentes apontaram falha do medicamento, e em 17 de outubro, foi anunciado o abandono do Viagra feminino. A burguesia, pobrezinha, não se livrou totalmente de si mesma. Ainda…

Dos proletários, em troca, ela se livra facilmente. Tal é a onda migratória que em 2015 inteiro levará mais de um milhão de migrantes e refugiados à Europa. Alan, o menino curdo encontrado morto na praia turca em 2 de setembro de 2015, é o grande ícone dessa movimentação populacional épica que fazia séculos o mundo não via.

Problemas terráqueos, como a Rússia bombardeando o Estado Islâmico em 28 de setembro, exigem distrações celestes! Então, no mesmo dia, a Nasa anuncia a descoberta de água líquida no planeta Marte, e alguns dias depois, em 8 de outubro, que foi encontrada água congelada e céu azul em Plutão. Ah, Universo: doce alienação dos terráqueos!

Alguém lembra do meme facebbokiano do vestido ‘azul e preto’ ou ‘verde e dourado’, ou o que deixou de pensar porque estava pensando nele? Ou no que pensou para não mais pensar que, em 10 de outubro, ocorreu o mais mortífero atentado terrorista da Turquia; que, no dia 23 de outubro, o Furação Patrícia, o mais forte história, destruiu costa mexicana; ou ainda que, em 5 de novembro, aconteceu o maior desastre ambiental da história brasileira, o rompimento de barragens de mineração em Mariana, Minas Gerais?

A terra aterroriza. Aterroriza-se consigo mesma. E em 13 de novembro, mais terror: os atentados em Paris, em retaliação a ataques franceses na Síria, realizados pelo Estado Islâmico em locais simbólicos da cultura e da sociedade parisiense. A França declara guerra ao terror. Como se não bastasse, em 24 de novembro, nas manobras da guerra civil síria, a Turquia derruba um avião russo. Às portas da Terceira Guerra Mundial?

No Brasil, muito! Em 2 de dezembro, foi finalmente recebido, por Eduardo Cunha, contra quem pesam inúmeros ilícitos já aclarados, o projeto peemedebista e peessedebista do impeachment de Dilma, contra quem, é preciso ressaltar, nenhum crime foi comprovado. A razão entrou em guerra mundial? Ficou sem palavras! Sim!, Tanto, que em 21 de dezembro o próprio Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, incendiou.

E como se não fosse restar amanhã, 2015 já fez o museu para ele. Em 17 de dezembro, foi inaugurado o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, senão para que a Rede Globo, “a” parceira da prefeitura carioca no projeto, possa hospedar com exclusividade o amanhã, já que está sendo cada vez mais difícil de contar com ele hoje.

De qualquer forma, o melhor acontecimento do ano, foi a Rede Globo tendo de noticiar, ao vivo e em cadeia nacional, e na finaleira do ano, dia 30 de dezembro, que Aécio Neves foi citado em delação premiada por ter recebido 300 mil Reais em propina. William Bonner, obviamente, não deu essa notícia. Férias? Ora, se fosse para apresentar uma denúncia ou uma condenação de Lula ou de Dilma, Bonner viria da Ilha de Caras onde estivesse com o seu sorriso oligárquico-menor-amarelo.

Qual, então, o sentido da cronologia de 2015? Seguramente e proximamente: 2016, 2017, o futuro. Porém, essa é a resposta mais abstrata que poderia ser dada. Em direção à concretude, o sentido de 2015 foi a complexificação da já hipercomplexa sociedade globalizada contemporânea.

Agora, sendo bastante concreto, em termos materiais-econômicos mesmo, o que aconteceu foi que alguns poucos países, bancos e pessoas enriqueceram, enquanto a maioria dos países, e das pessoas – não os bancos, obviamente – empobreceram. Essa dinâmica econômica, no entanto, não é exclusividade de 2105. Não cabe, portanto, buscar saber o que é 2015 em coisas que os outros anos também são ou têm.

Se, concretamente, 2105 é “tudo” o que houve entre 2014 e 2016, e não o que houve em 2014, 2016, nem em qualquer outro ano da história, para sabermos o que 2015 é, o que tem de exclusivo que o definirá adequadamente, é preciso aguardar não somente que 2016 seja, mas que um punhado de décadas ou séculos também sejam, pois aí teremos o distanciamento histórico fundamental para a concepção de um sentido para a populosa cronologia de 2015.

Anúncios

O átomo do problema brasileiro

A proposta de Luciana Genro, fundadora do PSOL, de, em 2016, serem feitas eleições gerais que substituam toda a corrompida classe política brasileira que aí está, é virtuosa apenas por atinar à lógica de que não é o caso que há algo de errado na estrutura política brasileira que a comprometa e que por isso deva ser reformado, mas, antes, e essencialmente, que a estrutura em si mesma seja errada. A estrutura é próprio erro aliás, em relação ao qual nenhuma reforma significaria realmente evolução.

Agora, a substituição total da atual estrutura essencialmente corrompida-corruptora que aí está não significa que a próxima, a ser construída democraticamente pelos próprios brasileiros no promissor vazio deixado pela atual, será mais virtuosa. Como falou Aristóteles lá atrás, a qualidade de um estado “é” a qualidade dos seus cidadãos (não há universal, somente particulares!).

Se Luciana Genro fosse mais ousada, e dissesse que além da atual classe política corrompida precisamos também esvaziar o Brasil de brasileiros coruptos, melhor dizendo, da corrupção que jaz em cada um de nós, para então um povo não corrupto-corruptível ter oportunidade de propor-construir uma nova estrutura livre de corrupção desde sua base, seria possível levá-la a sério. Entretanto, o aparente radicalismo da proposta de Genro vai só até metade do caminho. É reformista ainda assim. Portanto frágil e vulnerável aos mesmos males dos quais quer se ver livre.

A máscara transcendente do imanente Leviatã hobbesiano faz-nos crer que podemos ser, e que de fato somos melhores que nosso Estado; que temos escondido em nós, como se se tratasse de um plano B, a fórmula de um Estado melhor do que o que nos desagrada. Porém, isso outra coisa não é senão a abstração da nossa corrupção intrínseca concreta, em relação à qual, infelizmente, não nos revoltamos. Porventura tudo o que queremos ver deposto na política brasileira já não esteve desde sempre naquilo que chamamos de “jeitinho brasileiro” democraticamente espalhado pelo nosso país?

Ora, depondo uma presidenta, um único partido, ou todos eles juntos até, nos alienamos covardemente do fato de que o mal que nos aflige não nasceu neles nem a partir deles. Em ordem crescente, os políticos, os partidos, as figuras soberanas e, por fim, o próprio Leviatã são apenas expressões mais universais, e portanto mais abstratas do que, na verdade, existe particular e concretamente nos próprios cidadãos.

Sendo assim, se tivéssemos a bravura de vestir, cada um de nós, brasileiros, a veste rota da corrupção que mentimos a nós mesmos só os políticos vestem, ou seja, se imanentizássemos absolutamente a vil realidade éticopolítica brasileira, talvez aí a estrutura pudesse sofrer ou expressar alguma espécie de revolução virtuosa. Agora, enquanto formos vulgares e não resistirmos ao maniqueísmo que nos protege indevidamente no “lado bom” do problema que é de todos, seguiremos sendo esse problema que covardemente se auto ignora e que por isso mesmo permanece intocado.

E se é assim, ou seja, se permanecemos acreditando que a corrupção vem de cima para baixo, e nos recusarmos em ver justamente o contrário, é melhor partir para uma “política de redução de danos”, como acontece com usuários de drogas. Nesse sentido, é preferível a estrutura corrupta colocando cisternas nas casas áridas dos nordestinos, exigindo a construção de milhares de casa populares em troca de “favores mensaleiros”, e filhos de empregadas domésticas e de pedreiros na universidade pública, só para citar alguns, a estrutura corrupta que só proporciona a manutenção dos privilégios da velha e arraigada oligarquia.

A corrupção que nasce nos cidadãos, mas que é tão difícil de encarar, insuportável até, é essa que queremos ver somente em abstrações “transcentalizadas” tais como determinados partidos, representantes políticos, no Leviatã mesmo, porém, para que estes “outros transcendentes” carreguem uma culpa que na verdade é imanentemente de todos, e para que, obviamente, eles sejam punidos espetacularmente no nosso lugar. Essa corrupção que alienamos no outro realmente é mais fácil de ser deposta por nós. Entretanto, depor a corrupção que jaz no núcleo dos átomos brasileiros, ou seja, nos cidadãos, essa é bem mais difícil de ser tirada do poder.

A própria Luciana Genro, que defende veementemente o fim do financiamento empresarial a campanha de partidos políticos, não se privou de receber dinheiro de corporações oligárquicas tais como a Gerdau e a Zaffari. Contudo, antes de afirmar que ela prega moral “de cuecas”, cabe perguntar seriamente se há possibilidade de haver alguma pregação de moral sem ser “de cuecas”. Talvez o único moralismo que não seja contraditório nem vergonhoso seja aquele que não é pregado, mas atuado mudamente, sem propagandeamento prévio e estratégico.

Tire a Dilma do seu cargo, o PT do governo, os demais partidos, todos até, ainda assim restará um povo com as mesmas contradições no papel de operário de um outro Estado que, feito pelas mesmas mãos, em coisa não muito diferente resultará. Com efeito, o Brasil corrupto será concretamente deposto quando “impitimarmos” sistematicamente a nós mesmos sempre que baixamos filmes piratas da internet, aceitamos que os estabelecimentos comerciais nos quais consumimos não nos forneçam a devida e necessária nota fiscal, ou, como disse o historiador Fernando Karnal, quando colamos de um colega, ou damos cola a ele em uma prova sobre a Ética de Spinosa.

Retirando a soberana e transcendente máscara do Leviatã, tudo que veremos será uma relação absolutamente imanente entre aquilo que concretamente fazemos e aquilo que não queremos que seja feito. Entretanto, aqui, colocamos essa máscara abstrata como nossa representante soberana justamente para, ali, não mais nos reconheçamos como responsáveis naquilo que nos aflige. Porém, o problema estrutural aí permanecerá enquanto as peças essenciais dessa estrutura, os átomos brasileiros, quais sejam, nós, os cidadãos em geral, permanecermos nos iludindo de que o nosso problema é um outro que não nós mesmos.

Rafael Silva

Kairologia

“Que é, pois, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”, disse Santo Agostinho. Antes dele, os gregos antigos diziam bem mais. Tinham inclusive duas palavras para falar do tempo: Khronos e Kairós. A primeira dizia do tempo cronológico, de natureza quantitativa. A segunda, do tempo existencial, de natureza qualitativa. A lógica de Khronos, isto é, a cronologia, é bem compreendida por nós. Inexorável até. Já a lógica de Kairós, ao contrário, nos escapa sistematicamente. Por quê?

Primeiramente, tentemos apreender a inapreensibilidade de Kairós através da própria mitologia grega: Filho de Zeus, pai dos deuses e dos homens, e de Tyche, a deusa da prosperidade, Kairós era tão veloz que era quase impossível capturá-lo, a não ser agarrando-o pelo único cacho de cabelos que tinha na testa. A dificuldade de compreender Kairós, portanto, é a mesma que agarrá-lo pelo topete na sua velocidade divinal.

O problema de pensar uma kairologia, porém, só aumenta quando atentamos ao que diz a teologia: enquanto Khronos dimensiona o tempo dos homens, isto é, a duração, Kairós expressa o tempo de Deus, ou seja, a eternidade. Haveria portanto desafio maior para uma criatura do que se colocar no lugar de seu próprio Criador? Tal é a dificuldade envolvida na ideia de kairologia.

Entretanto, se para a lógica divina a kairologia seria a maior das pretensões mundanas, para a arte do discurso humano, qual seja, a retórica, apreender Kairós é desejabilíssimo, pois, segundo E. C. White, autor de Kaironomia, outra coisa não é senão a arte de aproveitar “o momento fugaz em que uma oportunidade se apresenta e deve ser encarada com força e destreza para que o sucesso seja alcançado”.

Como, todavia, arte e lógica são coisas distintas, o conceito retórico de Kairós, para ser científico, isto é, para a kaironomia ser kairologia, a arte de “sacar” o momento oportuno de que fala White deve ser transformada em uma ciência através de cujas leis a captura da oportunidade certa e a garantia do sucesso final sejam sempre, em qualquer experiência, universalmente dadas.

Contudo, como diria o teólogo, a pretensão de obter sucesso sempre, em todas as jogadas, pertence a Deus, não aos homens. Seria a kairologia, portanto, uma ciência estritamente divina, ou melhor, a própria onisciência exclusiva do Criador? Como até hoje não houve uma criatura sequer que não tenha experimentado o fracasso, inúmeras vezes até, a lógica do Kairós, isto é, a ciência de onde estão, ou de quais são as oportunidades que sempre levam ao sucesso, parece ser raciocínio de Deus apenas.

No entanto, esse mesmo Deus que, por um lado, guardou para si a ciência do Kairós, isto é, a lógica da qualidade, por outro, compartilhou com as suas criaturas a ciência do Khronos, ou seja, a lógica da quantidade. Basta o sol estar no mesmo lugar do céu em que esteve ontem para que todos recebamos a universal e irrefutável “prova científica” de Khronos de que houve aí a “quantidade” de um dia. Agora, da qualidade desse dia não temos como ter ciência.

A lógica do Kairós nos deixa tão mudos quanto Santo Agostinho diante do enigma do tempo. No entanto, não estaria justamente no fato de o filósofo cristão não raciocinar kairologicamente, mas apenas cronologicamente, a sua dificuldade de dizer o que é o tempo? E os gregos, eram mesmo sábios kairológicos ou, antes, apenas chamaram de Kairós aquilo de que nunca teriam ciência alguma?

Kairologia; ciência da qualidade; lógica da oportunidade e do sucesso: ambição humana que parece ainda mais quimérica diante da cronológica ciência moderna, para quem as quantidades macroscópicas e infinitesimais da existência são tudo o que realmente importa medir. Também pudera, a ciência é a face de Khronos vista sem distância alguma. Já para estarmos tête-à-tête com o Kairós podemos contar somente com sua intempestividade, pois ele não agenda encontros nem obedece o tic-tac de Khronos.

Talvez a ciência do Kairós, a kairologia, só seja possível ao homem na forma cartesiana mais simples, ao modo “penso, logo existo”, porém, ligeiramente modificado. Afinal, se no momento em que não temos dúvida alguma de que uma oportunidade foi realmente capturada, e também de que o sucesso está garantido, afirmarmos “esse é o tempo da qualidade, logo Kairós”, teremos feito kairologia, ainda que a validade dessa ciência seja tão intempestiva quanto o próprio Kairós e, ademais, não tenha vindo ao mundo para subsistir no tempo de Khronos, absolutamente incapaz de expressar a qualidade da existência.

Antiguidades imediatas

Na contemporaneidade hiper apressada, as coisas não podem mais esperar o tempo passar para serem consideradas antigas. A antiguidade, hoje em dia, é dada pelo ritmo de produção das novidades. Essa pressa em fazer com que o absolutamente recente já seja tomado por antigo traz a seguinte questão: seria a súbita transformação de parte da atualidade em antiguidade o modo do restante dessa mesma atualidade poder ser percebida como novidade? Qual o tempo mínimo necessário para algo ser de fato antigo? Ou, ao contrário, o tempo nada tem a ver com isso?

Há menos de um mês as linhas de ônibus do Rio de Janeiro foram reformuladas; algumas extintas, outras substituídas. Então, de um dia para o outro, uma das novas linhas veio com o seguinte aviso no para-brisa do ônibus: “antiga 125”. Impressionante! Em menos de um dia, a linha 125, de atual, passou a ser antiga. Entretanto, chamar algo que foi ontem com o mesmo nome usado para falar de algo que foi há mil ou dois mil anos, por exemplo, é não querer falar na imensa diferença que o tempo traz às coisas.

Então, que palavra mais adequada poderia ter sido usada no lugar de “antiga” para designar a recente não-atualidade da linha 125 que, outrossim recentemente era absolutamente atual? Difícil! Até agora não encontrei um termo que melhor fale da diferença que o tempo faz nas simultâneas não-atualidades das coisas. Ok, de certo ponto de vista, tudo que não é atual é antigo. Mas, como dito antes, o antigo de há milênios e o antigo de ontem solicitam diferenciação. Seria o caso então de chamar aquele de “muito antigo”, e este de “recém-antigo”? Não. Isso seria fugir do problema.

O ataque aos Charlie Hebdo em Paris, por exemplo, que se deu em janeiro de 2105, em dezembro desse mesmo ano é o quê? Antigo? Atual? Nenhum dos dois exatamente. Antes, é de uma espécie de atualidade, e também de uma espécie de antiguidade que não se encaixa bem em nenhuma das duas definições. Por um lado, devido ao intenso fluxo de acontecimentos que a contemporaneidade nos traz, um mês depois o massacre dos cartunistas já parecia ser parte de um passado quase distante. Agora, por outro, o fato de estarmos ainda no mesmo ano do atentado nos autoriza dizer que é um fato do presente.

O problema é que o presente absoluto, isto é, o átimo temporal no qual o atual performa a sua plena atualidade, é demasiado estreito. Por isso o que aconteceu, digamos, ontem, ou há dois meses, pode ser chamado apressadamente de antigo. E em relação ao ataque aos chargistas franceses, tanto melhor para a mídia que a tragédia figure como artefato arqueológico dias depois de ocorrido. Afinal, desse modo há espaço, melhor dizendo, necessidade de novas mercadorias midiáticas.

Na contemporaneidade hiperinformacional o já estreito presente está sendo cada vez mais estreitado precisamente para que todos os “agoras” sejam cada vez mais carentes de substância, isto é, de acontecimentos, de mercadorias. A obsolescência apressada das coisas, a antiguidade imediata delas, são coprodutoras do presente atualíssimo a ponto de dizermos que só é possível uma atualidade total se espreitada, cada vez mais de perto, por uma antiguidade estrategicamente imputada a tudo que não queremos que seja considerado verdadeiramente atual. Produção de passado, mais do que nunca, é produção de presente!

E como a contemporaneidade não está aí para brincadeira, essa sua sede de atualidade, que converte cada vez mais presente em passado, chega ao extremo de desatualizar completamente o próprio presente em função de um atual ideal que que precisa ocupar o lugar do atual concreto. Hoje em dia, até o presente já é visto como uma espécie de passado que solicita uma atualização do que sequer deixou de ser. E porventura não é exatamente isso que faz o mundo da moda ao lançar uma tendência que, quando chega às lojas e veste as pessoas já traz outra tendência que faz com que a atual seja já antiga?

A antiguidade apressadamente imputada a tudo que recém deixou de ser, ou até mesmo àquilo que ainda é, é o combustível excelente do motor capitalista contemporâneo que não pode se dar ao luxo de esperar que as coisas envelheçam naturalmente, que fiquem antigas “com o tempo”, para só então produzir mercadorias-novidades que preencham os cada vez mais estreitos e exigentes agoras. Antes, tudo o que há deve necessariamente deixar de ser, o mais rápido possível aliás, inclusive enquanto ainda está sendo, para que o novo seja cada vez mais necessário, e o motor capitalista funcione em velocidade máxima, a sua preferida.

Se a contemporaneidade me impressionou ao chamar de antiga uma coisa que há um dia era atual, impressionaria muito mais se, um mês antes de a linha 125 deixar de existir, já trouxesse o seguinte aviso: “esta linha será a antiga 125”. Seria bem mais a cara da contemporaneidade assumir que até o que é plenamente atual, para ela, já é idealmente antigo. Pois, respondendo à pergunta inicial, não é mais questão de tempo a antiguidade das coisas. Na verdade, o que temos é o sórdido projeto capitalista que, de um lado, produz antiguidade, para, de outro, haver necessidade de um outro produto seu, a novidade.

Democracia e ocupação

Cidadãos, nas democracias modernas, são indivíduos cujos interesses são representados não por eles mesmos, mas por representantes democraticamente eleitos que, não é difícil observar, sem cerimônia preterem os interesses dos seus representados em função dos seus próprios. Não é exatamente isso que experimentam os cidadãos paulistas que elegeram Alckmin e o PSDB, para também terem uma educação de qualidade para seus filhos, mas que, no andar da carroça representativa, estão prestes a receber a “reorganização escolar” que, na verdade, é o pretexto para o fechamento de quase cem escolas?
.
Com efeito, a representatividade política da atual democracia torna os cidadãos demasiados impotentes sempre que seus interesses não são levados a cabo pelos seus representantes. Resta reclamar inocuamente até a próxima eleição, na esperança de que os próximos representantes façam o que os atuais não estão fazendo. Em relação à contraditória reorganização das escolas paulistas, os cidadãos (pais e mães dos estudantes) gostando ou não da reforma tentada por Alckmin, pouco podem contra ela, a não ser sofrê-la até que um dia, representados por outro político ou partido, possam ter o que desejam para si e para seus filhos.
.
Entretanto, ligeiramente externos a esse esquema democrático-representativo estão justamente os jovens estudantes que, por não serem eleitores, não são propriamente cidadãos, e por isso não precisam se submeter a esse sórdido esquema representativo, pelo menos não como seus pais-e-mães-cidadãos-oficiais. Uma vez que não elegeram representantes alguns, os estudantes não têm por que esperar deles que representem os seus interesses.
 .
Então, sem se valerem da tal representatividade democrática com a qual estamos habituados, e através da qual somos facilmente preteridos, os alunos-pré-cidadãos ocuparam duzentas escolas paulistas na representação direta de seus interesses. A cidadania não-plena deles talvez os tenha mantido virtuosamente alienados da crença cega nessa fábula chamada representatividade política que mais pretere que prefere os cidadãos propriamente ditos.
.
Essa ação de ocupação dos estudantes paulistas, no sentido de seus interesses não serem postergados, remonta à democracia direta dos antigos gregos, na qual cada cidadão “ocupava” a representação dos seus próprios interesses diante dos demais cidadãos. Para os criadores da democracia, um cidadão colocar outro para representar seus interesses era um absurdo, uma burrice até. Então, todos os assuntos que dissessem respeito à vida dos cidadãos eram debatidos e deliberados diretamente por eles. Esse era o modo mais seguro de não serem mal representados.
 .
E, sob a pressão da ocupação das escolas paulistas, direta e presencialmente atuada pelos estudantes, Alckmin teve de ceder e suspender, ainda que temporariamente, a tal reorganização que os alunos não queriam. Agora, se estes mesmos alunos tivessem agido conforme seus pais e mães, isto é, acreditado desde o princípio que somente através dos seus representantes políticos poderiam barrar a reorganização escolar alckminiana, o projeto peessedebista teria seguido incólume. Porém, felizmente e subversivamente, os alunos mandaram um “beijinho-no-ombro” para a falácia da representatividade política e protagonizaram diretamente a defesa dos seus interesses.
.