Kairologia

“Que é, pois, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”, disse Santo Agostinho. Antes dele, os gregos antigos diziam bem mais. Tinham inclusive duas palavras para falar do tempo: Khronos e Kairós. A primeira dizia do tempo cronológico, de natureza quantitativa. A segunda, do tempo existencial, de natureza qualitativa. A lógica de Khronos, isto é, a cronologia, é bem compreendida por nós. Inexorável até. Já a lógica de Kairós, ao contrário, nos escapa sistematicamente. Por quê?

Primeiramente, tentemos apreender a inapreensibilidade de Kairós através da própria mitologia grega: Filho de Zeus, pai dos deuses e dos homens, e de Tyche, a deusa da prosperidade, Kairós era tão veloz que era quase impossível capturá-lo, a não ser agarrando-o pelo único cacho de cabelos que tinha na testa. A dificuldade de compreender Kairós, portanto, é a mesma que agarrá-lo pelo topete na sua velocidade divinal.

O problema de pensar uma kairologia, porém, só aumenta quando atentamos ao que diz a teologia: enquanto Khronos dimensiona o tempo dos homens, isto é, a duração, Kairós expressa o tempo de Deus, ou seja, a eternidade. Haveria portanto desafio maior para uma criatura do que se colocar no lugar de seu próprio Criador? Tal é a dificuldade envolvida na ideia de kairologia.

Entretanto, se para a lógica divina a kairologia seria a maior das pretensões mundanas, para a arte do discurso humano, qual seja, a retórica, apreender Kairós é desejabilíssimo, pois, segundo E. C. White, autor de Kaironomia, outra coisa não é senão a arte de aproveitar “o momento fugaz em que uma oportunidade se apresenta e deve ser encarada com força e destreza para que o sucesso seja alcançado”.

Como, todavia, arte e lógica são coisas distintas, o conceito retórico de Kairós, para ser científico, isto é, para a kaironomia ser kairologia, a arte de “sacar” o momento oportuno de que fala White deve ser transformada em uma ciência através de cujas leis a captura da oportunidade certa e a garantia do sucesso final sejam sempre, em qualquer experiência, universalmente dadas.

Contudo, como diria o teólogo, a pretensão de obter sucesso sempre, em todas as jogadas, pertence a Deus, não aos homens. Seria a kairologia, portanto, uma ciência estritamente divina, ou melhor, a própria onisciência exclusiva do Criador? Como até hoje não houve uma criatura sequer que não tenha experimentado o fracasso, inúmeras vezes até, a lógica do Kairós, isto é, a ciência de onde estão, ou de quais são as oportunidades que sempre levam ao sucesso, parece ser raciocínio de Deus apenas.

No entanto, esse mesmo Deus que, por um lado, guardou para si a ciência do Kairós, isto é, a lógica da qualidade, por outro, compartilhou com as suas criaturas a ciência do Khronos, ou seja, a lógica da quantidade. Basta o sol estar no mesmo lugar do céu em que esteve ontem para que todos recebamos a universal e irrefutável “prova científica” de Khronos de que houve aí a “quantidade” de um dia. Agora, da qualidade desse dia não temos como ter ciência.

A lógica do Kairós nos deixa tão mudos quanto Santo Agostinho diante do enigma do tempo. No entanto, não estaria justamente no fato de o filósofo cristão não raciocinar kairologicamente, mas apenas cronologicamente, a sua dificuldade de dizer o que é o tempo? E os gregos, eram mesmo sábios kairológicos ou, antes, apenas chamaram de Kairós aquilo de que nunca teriam ciência alguma?

Kairologia; ciência da qualidade; lógica da oportunidade e do sucesso: ambição humana que parece ainda mais quimérica diante da cronológica ciência moderna, para quem as quantidades macroscópicas e infinitesimais da existência são tudo o que realmente importa medir. Também pudera, a ciência é a face de Khronos vista sem distância alguma. Já para estarmos tête-à-tête com o Kairós podemos contar somente com sua intempestividade, pois ele não agenda encontros nem obedece o tic-tac de Khronos.

Talvez a ciência do Kairós, a kairologia, só seja possível ao homem na forma cartesiana mais simples, ao modo “penso, logo existo”, porém, ligeiramente modificado. Afinal, se no momento em que não temos dúvida alguma de que uma oportunidade foi realmente capturada, e também de que o sucesso está garantido, afirmarmos “esse é o tempo da qualidade, logo Kairós”, teremos feito kairologia, ainda que a validade dessa ciência seja tão intempestiva quanto o próprio Kairós e, ademais, não tenha vindo ao mundo para subsistir no tempo de Khronos, absolutamente incapaz de expressar a qualidade da existência.

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