O preço de ser mídia golpista

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A grande mídia brasileira é não só o arauto, mas também coprodutora do quase finalizado golpe tupiniquim de 2106. E o jornalismo da Rede Globo merece destaque nesse poderoso, ilegítimo e antidemocrático projeto para o Brasil. O alto preço dessa espécie de vitória dos “jornalistas” Globais, contudo, é que, após ter vendido sistematicamente o golpe, ao vivo em e em cadeia nacional, a emissora fica impossibilitada de voltar, melhor dizendo, de começar a fazer jornalismo de verdade.

Mesmo com Dilma Rousseff e o PT afastados, e os velhos Michel Temer e PMDB ocupando o poder, a Globo não tem como começar a reportar a realidade conforme ela se apresenta. Como falar da absurda ausência feminina no ministério golpista, da inacreditável eliminação do Ministério da Cultura, do impopularíssimo fim da valorização do salário mínimo e da austera redução das aposentadorias sem com isso dizer que foi justamente o golpe que ela ajudou a instalar o produtor dessa angusta distopia?

O que resta para o jornalismo da Rede Globo nessa, digamos assim, saia-justa é seguir sendo parcial, isto é, continuar manipulando o real até que ele se pareça com o ideal desejado. Novamente, isso significa não poder polemizar, quiçá condenar o machismo, o racismo, a homofobia, o elitismo e o vil liberalismo que estão no cerne da “Ponte para o futuro” golpista vendida espetacularmente pela emissora. Ou seja, a impossibilidade de fazer algo a que eles se propõem: jornalismo.

Será que a Rege Globo sabia que não tem como apenas alugar a alma ao diabo pelo tempo que o pecado for conveniente, para, em seguida, recuperá-la incólume? Ou a emissora aprenderá somente agora que ao Mal só se vende definitivamente o espírito; patrimonialista egoísta e irrecuperável que é o Capeta? De qualquer forma, estranha virtude essa a do Diabo de não permitir o fim dos seus contratos.

Não totalmente virtuosa porque a impossibilidade de deixar de produzir uma propaganda ideológica disfarçada de jornalismo outra coisa não é que a permanência da mentira onde poderia começar a haver o ideal objetivo do jornalismo: o aclaramento do real. Não totalmente viciosa, todavia, porquanto é bom que o mentiroso-criminoso não possa se alienar oportuna e estrategicamente de sua vil essência.

Não é mistério para ninguém que alma da Globo está com o Diabo desde o seu princípio, filha da ditadura iniciada em 1964 que é. No século XXI, entretanto, a empresa repactuou fortemente com a Besta. E um dos principais motivos desse bestial estreitamento de relação é que a concessão do Estado que permite à Globo ser o império midiático que é expira em 2018. São, portanto, os interesses imperialistas da empresa que estão em jogo.

Por isso é mister para a empresa que à época de repactuar a sua concessão haja um Estado tão avesso à verdade, à democracia e à descentralização da mídia quanto ela. E se a velha oligarquia derrotada na eleição presidencial de 2014 não for o Estado em 2018, a emissora terá de se curvar, um pouco que seja, ao projeto de Brasil um tanto mais democrático eleito diretamente por 54 milhões de cidadãos naquela mesma eleição. Era agora ou nunca mais o golpe da Globo!

Desde sempre contrária a governos verdadeiramente democráticos, a Globo, desde a redemocratização do Brasil, fez de Lula e do seu Partido dos Trabalhadores os seus espantalhos reacionários espetaculares. Quem não lembra da Global manipulação da realidade nas eleições presidenciais de 1989? Até o então diretor de programação da Globo, o Boni, admitiu publicamente que a emissora armou contra Lula para eleger Collor. Mea culpa que, entretanto, demorou 22 anos para acontecer.

O apoio irrestrito aos vinte anos de ditadura militar no Brasil; a assunção de Boni de que a Globo elegeu o presidente que ela queria em 1989; a atual colaboração no ilegítimo afastamento de uma presidenta democraticamente eleita em 2014 -só para citar os golpes mais espetaculares da emissora nos últimos 50 anos-; de um ponto de vista minimamente democrático são razões mais que suficientes, senão para cancelar, ao menos para rever duramente a concessão dada pelo Estado, diga-se de passagem, à empresa.

Só restava à Globo vender o que restava de sua fétida alma ao Diabo. E o plano parece estar dando certo. A vitoriosa investida da empresa contra Dilma e o PT, que no final das contas visa ninguém outro que o velho Lula e a sua histórica popularidade, é o projeto em curso da emissora para que na renovação de sua concessão, em 2108, o PMDB e PSDB sejam os Diabos com os quais ela renegociará. O Mal cobra fidelidade!

Poderosa, mais forte do que 54 milhões de cidadãos juntos, a Globo mais uma vez coloca no poder quem que mais lhe interessa. Passivo, o povo brasileiro assiste em cadeia nacional à emissora realizando seus desígnios particulares. Tal vitória, entretanto, é um lento tiro-no-pé, pois na mesma telinha poderosa podemos assistir à Globo cada vez mais impossibilitada de tratar do real: “jornalistas” mulheres sem poder criticar o machismo do golpe que ajudaram a construir; “economistas” sem poder avaliar os danos do projeto econômico do governo Temer que viabilizaram; “comentadores” de cultura sem poder dizer do absurdo do fim de um Ministério da Cultura; e por aí vai.

Pelo andar da carroça brasilis, em 2018 a Globo ainda não precisará se confrontar com as cada vez mais tácitas contradições nas quais o seu projeto imperialista a coloca. Contudo, se restar alguma coisa de democracia no Brasil, chegará o dia em que o Estado, melhor dizendo, os cidadãos que o constituem, não renovarão a concessão de uma empresa que trata apenas de si mesma e não da realidade comum. Para isso, todavia, precisamos ao menos manter viva a utopia de um mundo no qual 54 milhões de votos tenham mais poder do que uma dúzia de falsos jornalistas.

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