Prisão de Lula: cereja do bolo melancólico.

 

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Desde os primeiros tilintares pré&pró golpe de panelas em 2015, incerteza, angústia e medo foram, digamos assim, largamente democratizados no Brasil. Depois dos 367 votos e discursos golpistas da fatídica sessão da Câmara dos Deputados que aprovou a admissibilidade do processo de impeachment contra a presidenta Dilma em abril de 2016, a mãe de todos os afetos tristes, a Tristeza ela mesma, se instalou no cerne da maioria dos “cidadãos-de-bem-pensar”. Nos meses que se seguiram, a performance da nossa oligarquia política apenas fez engordar essa tristeza. E o último ato espetacular da presente tragédia golpista não deverá ser outro que a prisão de Lula.

No meio desse processo eu publiquei um ensaio chamado “Contra o golpe, qual o melhor afeto?”, onde relacionei a crítica de Spinoza à tristeza, na qual o filósofo demonstra que este é o afeto mais impotente de todos, à necessidade de o povo brasileiro cultivar afetos que lhe potencializassem diante do Mal que se apresentava. A minha aposta era, conforme Spinoza, o amor. Se é o afeto mais potente de todos, é o melhor contra o golpe. A pergunta, portanto, era: como sermos afetados de amor diante de tamanha barbaridade? A resposta teve de buscar o único objeto passível de amor dentro do caos tupiniquim, qual seja: o povo golpeado. Em suma, somente nós, o povo, amando-nos uns aos outros, podemos nos afetar de modo a nos potencializar contra as forças contrárias a nós. Qualquer tristeza, seja ela a raiva, o medo, a vingança, a angústia, etc., portanto, deve ser desinvestida, pois apenas nos enfraquece.

Cerca de um mês depois, ouvi o filósofo brasileiro Vladimir Safatle dizer que, diante do golpe, precisávamos fazer uma crítica dos nossos afetos. Para ele, o afeto generalizado era a melancolia, ou seja, a tristeza em forma de saudosismo em função do que estávamos perdendo. Mesmo sem se fundamentar em Spinoza, Safatle criticava acertadamente a imobilização na qual a melancolia nos coloca. Muito mais pragmático do que eu, a aposta de Safatle era (e ainda é) a necessidade de superarmos as nossas melancolias individuais para finalmente colocarmos as nossas demandas reais (de democracia, respeito, direitos, etc.) em constelação, pois só assim poderemos formar um grande, forte e conectado corpo político, uma vez que forte e grande e conectadíssimo é o corpo inimigo.

A leitura afetiva de Safatle denunciando a melancolia como o afeto do brasileiro diante da realidade em curso não me saiu da cabeça. Subsumi minhas ideias às dele desde então, pois essa chave de leitura passou a clarificar muito melhor não só o que eu particularmente sentia, como principalmente a inefetividade de quaisquer ações coletivas tentadas contra os golpistas, hoje quase absolutamente vitoriosos. A nossa melancolia, aliás, produz espécie de tábula-política-rasa sobre a qual os golpistas seguem erigindo o seu “bunker” elitista. E o afastamento definitivo de Dilma, bem como a destruição de leis trabalhistas e, mais recentemente, a retrógrada proposta de reforma do ensino médio que saca as humanidades dos currículos escolares, só para citar três das várias absurdidades com que estão nos golpeando, tudo isso mantém pulsante dentro de nós a melancolia pelo que, dia a dia, vamos perdendo.

Minha proposta aqui é inverter o velho princípio da causalidade que nos convence de que, primeiro, temos a causa para, somente depois, experimentarmos o efeito, para investir na psicanalítica visão de que são os efeitos que criam, retroativamente, as suas próprias causas. A ideia, portanto, é deixar de pensar a nossa tristeza melancólica enquanto efeito dos atos dos golpistas para, em contrapartida, pressupormos esse afeto triste como o produtor dos seus próprios algozes. Essa proposta, todavia, só se sustenta em um “desejo prévio de melancolia” fundado em uma promessa de gozo na própria melancolia. Perguntar se essa tristeza em relação a tudo que perdemos e estamos perdendo com o atual governo golpista é primeiramente um desejo obscuro nosso, que aos poucos foi permitindo que um golpe de estado ipsis litteris fosse sendo pública e escandalosamente construído até a sua presente efetivação, é ao menos um primeiro passo não covarde.

Assumindo que de fato produzimos as causas para o efeito melancólico que experimentamos, vale investigar essas causas. Proponho fazer um recorte histórico para pensar o caos atual a partir do maior e mais caótico evento da nossa história recente, qual seja, a “Primavera brasileira” de junho de 2013. Quanto mais não seja, lá clamávamos justamente pelo oposto do que estamos vivendo hoje. Naquela ocasião, multidões foram às ruas, vestindo e gritando o que tinham certeza de possuir inalienavelmente: direitos, voz, força e, especialmente, democracia.

Entretanto, as muitas e difusas pautas do movimento, somadas às performances blackbloquianas contra bancos Itaú e paradas de ônibus, e principalmente o grito de “Sem partido” –em rejeição à organização política partidária-, minaram os seus próprios propósitos diante da opinião pública. Não, todavia, sem a mão pesada da mídia reacionária. Isso porque aquelas manifestações populares ameaçavam muito mais o Império da direita oligárquica  do que a favela da esquerda. Seria ingenuidade deixar de pensar que o tsunami da direita em 2016 é também resposta àquela liberdade democrática na qual o povo se aventurou em 2013.

E não precisamos nem esperar o golpe de estado de 2016 para termos certeza de que a primavera brasileira foi um fracasso. As urnas de 2014 já deixaram isso bem claro: a eleição de parlamentos muito mais à direita e fundamentalistas. No entanto, até aqui resistimos em fazer o nosso mea culpa. Ainda achamos que ter saído às ruas por vinte centavos gritando coletivamente contra a representatividade e os partidos políticos valeu a pena; que não poderíamos não ter nos manifestado; mesmo que isso tenha sido o início da fragilização espetacular do PT e das esquerdas em geral. Em outras palavras, até aqui não queremos aceitar o fato de que aquele nosso desejo primaveril de um Brasil menos corrompido e mais igualitário não só deixou a direita corrupta de cabelo em pé, como principalmente a colocou numa “jihad” incontrolável cujo prosseguimento nos escandaliza até o presente instante.

Por isso devemos investigar se a melancolia que atualmente experimentamos não é espécie autopunição pelo que foi feito -principalmente pelo que não foi feito- em 2013. Pergunta subsequente inevitável: o que tínhamos em 2013? Ora, uma notória desaceleração do venturoso projeto lulista de inclusão social, distribuição de renda e combate à corrupção, cuja responsabilidade, obviamente, é também do próprio PT, mas que foi fortemente dramatizada pela crise econômica internacional, é preciso dizer. O Brasil de 2103 então explodiu quando a bonança democratizada por Lula se reduziu nas mãos de Dilma. Acostumados que estávamos com a crescente valorização das demandas populares, abandonamos o barco na primeira tempestade. Agora, se pudéssemos ter previsto o tsunami oligarca antipopular que assolaria o Brasil três anos depois, teríamos nos revoltado tanto contra as intempéries de 2013, que perto das de 2016 parecem, nas palavras de Lula, marolas?

A tristeza, mais especificamente a melancolia que nos assola hoje, porventura não é uma culpa travestida por termos explodido, coletiva e fortemente, contra uma conjuntura que, comparada à atual, nem era tão contrária a nós assim? Aqui vale lembrar a estrutura das tragédias da antiguidade: qualquer tentativa de escapar ao destino que os deuses estabeleciam para os homens trazia apenas destinos mais vis. Édipo Rei que o diga! Por acaso o destino que os deuses oligarcas tupiniquins reservaram para nós, que tentamos mudar o Brasil em 2013, não é a trágica armadilha golpista de 2016, da qual novamente não temos como escapar?

Com as tragédias, os gregos aprendiam que não podiam escapar ao destino; que tinham de conviver com o que os deuses tinham reservado para eles. Com a nossa atual tragédia, os nossos “deuses capitalistas” não estão querendo dizer-nos o mesmo? Tristes, melancólicos, somos tal qual Édipo Rei furando os nossos próprios olhos, punindo a nós mesmo por termos tido a petulância de desafiar o “destino liberal”. Não que eu acredite que haja de fato um destino predeterminado escrito por algum deus. No entanto, não posso me esquecer de que a mão invisível liberal escreve e reescreve livremente o destino de todos ao escrever o seu. E aí de quem tentar escapar dele!

O fato de não haver nenhum afeto potente sendo cultivado e atravessando os corpos dos brasileiros golpeados, mas apenas afetos tristes, com destaque à melancolia, é indício de que, ainda que inconscientemente, sentimos merecer tal tristeza, quiçá a desejamos subterraneamente, como se, ao vivê-la pungentemente, pudéssemos nos redimir do nosso próprio erro. Não conseguirmos ser afetados por outra coisa senão por tristeza deve ser visto como uma insistência nessa própria tristeza; um gozo paradoxal e coletivo que promete a superação da nossa incapacidade de, pelas nossas próprias mãos, termos feito um país melhor, justamente o que queríamos desde o princípio.

Lula ter terminado o seu segundo mandato com 87% de aprovação popular, recorde na história do Brasil, e hoje estar prestes a ser preso por crimes que sequer podem ser provados, dentre eles ter roubado badulaques da Presidência da República, é o que senão o povo brasileiro estar produzindo a sua própria tristeza, ou, dito de modo mais adequado, permitindo que a produzam pelas suas costas para entregá-la espetacularmente pela frente, como se não soubéssemos de nada? Atenção: a prisão de Lula pelos golpistas, que veem no maior líder popular da história do Brasil a única força que pode vencê-los democraticamente, será o desabamento definitivo do horizonte utópico de 2013.

Certamente nos entristeceremos e nos melancolizaremos mais ainda na primeira nota da prisão de Lula, quando ela sair. Mas, como desde há muito nada estamos fazendo para impedir isso além de ineficientes postagens no Facebook, penso que precisamos ainda desse último golpe, como se se tratasse da cereja do bolo melancólico com o qual estamos nos empanturrando desde o fracasso de 2013. Não que desejemos essa vil dieta para sempre. Longe disso. Na verdade, estamos querendo mais que tudo chegar naquele domingo gordo, no qual arrotaremos a bílis da nossa própria gula desmedida, para então cairmos na real e vermos o perigo dos nossos desejos difusos. Talvez a prisão de Lula inaugure a famigerada segunda-feira na qual se começa -pelo menos mentirosamente- as dietas para emagrecer.

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