Elite na torcida

Na ausência de uma presidenta inimiga à vista, a controversa “Elite Branca”, dos seus assentos VIP padrão FIFA, vaiou o Hino Nacional chileno em plena execução, ao vivo e a cores para todo o mundo. Aos que não são elite, VIP, nem padrão FIFA, restou somente uma sensação de vergonha que, infelizmente, não pode ser dita alheia por quem é brasileiro. No entanto, ao vaiar a presidenta e os chilenos, o que essa classe privilegiada mostrou de fato foi sua incapacidade de entender, respeitar e aceitar aquilo que se coloca como adversário.

Claude Lévi-Strauss disse que “um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. Consoante à frase do antropólogo, podemos enxergar uma elite maliciosa definindo um Brasil carente de tal civilização. Na noite anterior ao jogo, no burguês e boêmio bairro da Savassi, em BH, essa elite que pode pagar $15 por uma cerveja confraternizou amigavelmente com os mesmos adversários. Entretanto, poucas horas depois, essa hospitalidade brasileira tornou-se inóspita e inoperante através do “Uuuu” coletivo e dissonante entoado contra o hino do vizinho latino-americano.

“O prestígio é uma espécie de domínio que uma pessoa exerce”, e a partir de onde ela “não tolera qualquer demora entre seu desejo e a realização dele”, disse Freud. O que seria, por conseguinte, o desejo dessa “Elite Branca”, manifesto no “ei-dilma-vai-tomar-no-cu” e no “Uuuu” ao hino do adversário de jogo? A máxima da socialite – branca, elitista e paulista – pode ajudar nessa resposta: “eu não sou melhor do que ninguém, mas paguei mais caro!”. E o psicanalista alemão já nos advertiu de que “uma massa desse tipo se comporta como uma criança mal-educada, ou como um bando de bichos selvagens”.

Talvez, o desejo da “Elite Branca” seja simplesmente o de seguir estruturando a realidade em benefício próprio através do grito robusto de suas contas bancárias, porquanto, esse é o seu grande poder. “Não tenho medo de ti, te enfrento, possuo um pênis”, afirmou Freud em relação ao poder intimidatório do macho na natureza. Todavia, os falos dessa “Elite” são os seus muitos cifrões, e é com estes que fodem&intimidam quem ameaça a realização dos seus desejos. Segundo Lévi-Strauss, “o excesso de luxo e o excesso de miséria faz uma sociedade na qual os que têm tudo não oferecem nada” a quem nada tem, ao contrário, tomam-lhe mais.

Freud entendia que na massa o indivíduo é amado pelas perfeições a que aspirou a si próprio, e é através desse rodeio que procura obter a satisfação de seu narcisismo. Portanto, os mal-educados elitistas elogiaram-se mutuamente ao vociferarem juntos contra aquilo que desacorda com os seus desejos mimados. Acostumados a abrirem a carteira e voilà!, os abastados fizeram o mesmo “em estádio”, porque, de acordo com Freud, “a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa”, precisamente porque “as massas nunca tiveram a sede da verdade”.

“Pelo simples fato de pertencer à massa o homem desce vários degraus na escala da civilização”, disse Freud. Essa decadência é potencializada no movimento da nossa camada $uperior – seja contra a presidenta, seja contra o hino do Chile – porque é justamente ela, porquanto vitoriosa e privadamente atendida por educação, saúde, segurança, lazer internacional, etc., que decai abissal e vergonhosamente ao nível do miserável ignorante carente de política e de palavras melhores do que a vaia e o palavrão. Isso porque “no anonimato da massa desaparece por completo o sentimento de responsabilidade que sempre retém os indivíduos”, completa Freud.

Em qualquer uma das classes, “o sentimento social repousa na inversão de um sentimento hostil”, e “quando a hostilidade se dirige para pessoas normalmente amadas, chamamos isso de ambivalência”, colocou Freud. A primeira valência dos protestos da “Elite Branca” é dada e comum, visto que o desagrado em relação ao adversário, no aperto do embate, faz parte da luta pela vitória. E esse primeiro valor é inclusive compartilhado pela a maioria da população brasileira, também insatisfeita com os desgovernos da sua governante e não menos ciente da ameaça em potencial do futebol adversário.

Entretanto, a segunda, pervertida e importante valência da hostilidade VIP reside no fato deles não aceitarem a possibilidade de derrota, seja política, seja esportiva, e no desrespeito público às regras de qualquer jogo que não possam vencer com os seus falo$. Já os desprivilegiados, perdedores por natureza, apesar dos seus desejos de vitória, não são estrangeiros em relação ao sabor angusto do Real: perder uma eleição ou uma copa é ruim, claro, mas o que é perder para quem é habituado à perda? Participar do jogo deveria ser suficiente. Porém, para quem já tem mais do que o suficiente, apenas participar figura como derrota: sem essa de espírito esportivo!

“Toda a paisagem apresenta-se como uma imensa desordem que nos deixa livres para escolhermos o sentido que preferimos lhe atribuir”, escreveu Lévi-Strauss, e a paisagem brasileira está aí, não menos aberta aos sentidos que desejamos e, mais importante, podemos lhe atribuir. Entretanto, qual é a nossa capacidade, enquanto massa total, “Elite Branca” + “deselitizados”, de atribuirmos um sentido mais apropriado e educado à nossa realidade comum? Para Freud, “trata-se de prover a massa daquelas mesmas qualidades que eram características do indivíduo e que nela foram extintas pela formação da massa”; ou seja, para as elites, vergonha na cara e contingência, e para todos os outros, vergonha na cara e emergência!

 

Desejo de tempo

Reclamamos o tempo todo que cada vez mais o tempo nos falta, e culpamos o ritmo frenético da vida contemporânea com suas constantes e excessivas demandas. Porém, esquecemos com isso de que o escravo grego, o servo medieval e o proletário moderno tampouco tinham o tempo necessário para a suposta grande atividade da vida, a saber, realizar os próprios desejos. Não somos, por conseguinte, menos afortunados que os nossos antecessores históricos em matéria de tempo, e se tal miséria nos parece imperiosa, cabe aqui indagarmos sobre a responsabilidade por essa carência.

O tempo, em si mesmo, não pode ser pouco nem muito, visto que puro e infinito. Sua pureza fica evidente ao ser dividido, seja em quantas partes desejarmos, inclusive nas mais ínfimas: o que resta é sempre a mesma coisa, isto é, tempo, nada além dele mesmo, disse Aristóteles em sua “Física”. Já um ser impuro, uma pessoa, por exemplo, quando dividida, torna-se sempre algo de outro: membros, órgãos, células, átomos, etc., pois, ao se dividir algo impuro, o que resta é sempre outra coisa que não o que foi dividido.

Portanto, é do impuro que surgem as quantidades sensíveis, pois, conforme o exemplo acima, uma pessoa se torna quatro membros, dezenas de órgãos, milhões de células, “ad infinitum”, porém, não mais uma pessoa. Enquanto a divisão do que é puro, aqui o tempo, apesar de também gerar quantidades, a saber, anos, dias, horas, etc., não cria diferenças sensíveis em suas partes, porquanto sempre tempo. Isso para dizer que tempos menores não perdem qualidade, apenas aumentam em quantidade, e de forma alguma faltam. Aliás, quanto menores, mais abundantes.

Todavia, o tempo não divide a si próprio, pois é absoluto e impessoal. Quem o partilha somos nós, e qualitativamente. Retornando à perspectiva histórica anterior, o escravo dividia sua vida em quando era livre e quando já não o era mais, de resto, nada mais importava; o servo, entre os meses de trabalho para si e nos devidos ao seu senhor; e o proletário, tão somente no turno da fábrica e no de sono. Hoje em dia, contudo, devido ao espaço oferecido aos nossos desejos, passamos a viver de hora em hora, de instante em instante, tantos quantas forem as coisas que desejamos; e porquanto são muitas, haja tempo para todas!

Logo, não é o tempo que é reduzido, visto que infinito para fora e para dentro de si mesmo, seja em direção ao passado e ao futuro seja em um período determinado qualquer: um dia, por exemplo, pode ser dividido em algumas dezenas de horas ou centenas de milhares de segundos. Por consequência, quanto menores forem os instantes, mais deles teremos, e a intensa subdivisão temporal dos dias atuais não obstante deveria causar sensação de mais tempo, de mais oportunidades, não de menos. Conquanto o tempo nos falta, provavelmente estamos pervertendo sua pureza e infinitude.

A finitude angustiante das nossas horas, contraposta à infinidade temporal disponível, se dá porque, conforme Aristóteles, “no infinito está incluído o finito”; e em relação ao tempo, a escolha de tomar a parte finita em vez do todo infinito não é do próprio tempo, mas exclusivamente nossa. Talvez estejamos, sintomaticamente, reduzindo o tempo infinito à finitude que os nossos desejos encarnam ao se tornarem sequencias, auto-obsolescentes, desconectados da totalidade da vida e cada vez mais confinados ao “tamanho” dos instantes nos quais se mostram a nós.

“Tudo que muda, muda o tempo”, escreveu Aristóteles. Parafraseando aqui o filósofo, no sentido de entender o desejo afetando o tempo, conclui-se que ‘tudo o que deseja, deseja o tempo’. Ainda que o desejo se apresente instantânea e pungentemente, seu desenrolar se impõe temporal, precisamente porque a fruição se dá ao longo do tempo. Consequentemente, a vida de um desejo ocupa mais tempo do que aquele no qual ele se apresenta. Portanto, ao preenchermos todos os instantes com desejos, literalmente roubamos-lhes o tempo de realização. Daí a sensação de falta de tempo, mesmo sabendo que ele é infinito.

 

À moda Moderna

O jornal “The Guardian” decretou a morte dos “hipsters”, aqueles fantasiados de “pré-pós-moderninhos”, de óculos “vintage”, barbas excêntricas e calças de atravessar poça rasa. Essa moda, “beijinho no ombro” à sistematizada sociedade de consumo do novo, cresceu a ponto de se tornar, ela mesma, tão sistematizada e generalizada que, por conseguinte, merece morrer se quiser corroborar com seu ideal manifesto.

A moda é um abutre pervertido e apressado cuja vida consiste em se alimentar dos cadáveres que ela mesma cria. Se algo persistir, o novo não terá espaço nem função, e uma das funções do novo é morrer! Alimentada pela “obsolescência programada”, teoria de Bauman acerca do planejado, estratégico e curtíssimo prazo de validade das coisas, a moda vive de suas constantes mortes. Fosse um processo menos artificioso, as modas aguardariam a decadência total para, só então, serem sucedidas. Entretanto, para maior eficiência do $istema, uma moda deve morrer precisamente no seu ápice, porquanto o vazio deixado por ela potencializa a necessidade de outra, “ad eternum”.

Os acessórios mais populares dos “hipsters” são o bigode e a barba, ícones dessa moda. A maioria dos homens jovens ocidentais deram seus rostos ao tapa “hipster”, e hoje vemos hordas de barbudos de todas as espécies e em todos os lugares. Há quem goste, há quem não… Porém, em um movimento, esses barbados engrossam uma tendência ao modo de serem rebeldes a ela, ao mesmo tempo em que desenterram, através dos seus pelos, uma masculinidade afetada pelo metrossexualismo e pelo “goyismo”, isto é, pela sofisticação e sensibilidade que os tempos atuais exigem dos homens.

No mundo árabe, fortemente machista, a barba é item socialmente prescrito à dignidade masculina, inclusive pelo Alcorão. Aos históricos revolucionários políticos, a barba também é icônica: Marx, Lenin, Castro, Che e Lula (quando revolucionário…). Também para estes, as barbas e bigodes atribuíam potência e virilidade, fundamentais à guerra contra os barbeados&alienados burgueses. No entanto, foi do cruzamento entre a Primavera Árabe com o “vem-pra-rua-vem” que nasceu essa legião de novos barbados “semi-hipsterizados”, devotos da religião da aparência e revolucionistas esteticizados.

Todavia, o inimigo imberbe, representado pela neozelandesa “Schick” de lâminas de barbear, visando seu restabelecimento econômico, usou o Deus Publicidade para anunciar o fim do “hipisterismo” barbudo. Com a ajuda do Anjo Caído do jornalismo, aqui o “The Guardian”, a morte dos “hipsters”, e por conseguinte da barba, encontra a finalização cultural nesse$$ária. As barbas históricas dos árabes ou dos revolucionários clássicos resistem ao tempo porque colaterais a interesses gerais e perenes, a saber, religiosos e sociais. Já as dos “hipsters”, frutos do consumismo romântico individual, vão-se com a mesma superficialidade com que vieram, afinal, moda…

A Idade anterior à nossa, ou seja, a Moderna, assim foi chamada porque estruturada nas “modas”, no novo: movimento em oposição ao medievo arraigado nas tradições. Contudo, hoje em dia, somos tão ou mais “Modernos” do que os próprios Modernos, visto que mais ao sabor das modas. O nome da nossa Idade seja Pós-moderna ou Contemporânea serve, estrategicamente, para alienar-nos do fato de que nunca deixamos de ser absolutamente Modernos. Assim como a Fênix, que renasce das suas próprias cinzas, a moda precisa deixar de ser ela mesma para seguir sendo quem sempre foi; e mentir que não é mais moderna, que é pós-ela-mesma, é sua tática infalível de sobrevivência através desses tempos teimosamente Modernos.

Era Avatar

O mundo-em-rede-social contemporâneo é feito pelas e para as pessoas ao mesmo tempo em que, inadvertida e simultaneamente, as pessoas são feitas por e para esse mesmo mundo-em-rede-social. O que possuímos também nos possui, e enquanto possuídos pela realidade, buscamos alforria na virtualidade. Porém, virtual não enquanto oposto ao real, mas como a via de acesso a ele; pois, em latim, “virtual”, significa virtude, força ou potência. A partir de potencialidades é que nos lançamos no mundo, e os avatares são as plataformas apropriadas a esse lançamento.

Vivemos a era do indivíduo, e somente enquanto indivíduos é que podemos ser. A empresa mais acessível, porquanto conhecer o “ser” é mais difícil que inventá-lo, é, por conseguinte, a da construção desse indivíduo. Isso não é um problema, pois, conforme o filósofo belga Raoul Vaneigem, “não há uma pessoa sequer que não esteja mergulhada em um processo de alquimia individual”: e esse ouro alquímico são os nossos avatares, tão potentes e virtuosos quanto impotentes e viciosas forem nossas chances no real. “As pessoas adotam uma causa porque não puderam adotar a si mesmas e aos seus desejos”, disse Vaneigem.

Avatar é a objetividade funcional a travestir o fato de que “cada individualidade é apenas um erro especial, um passo em falso”, citando Schopenhauer. Entretanto, em potencial virtual, temos a possibilidade de sermos mais, outros, melhores. “O que me importa a perda dessa individualidade se trago em mim a possibilidade de um sem-número de individualidades?”, pergunta de Schopenhauer. Vaneigem, todavia, alerta para a fragilidade intrínseca ao indivíduo, pois, “não existe arma alguma da tua vontade individual que, manejada por outros, não se volte imediatamente contra ti”.

Vivendo em um mundo interconectado e interativo, não escapamos do manejamento e da remixagem a cada nova conexão e interação. A fé que temos na estabilidade individual não obstante advém de uma autocultura egoica, pois, segundo Schopenhauer, “o egoísmo consiste no fato de que o homem limita toda sua realidade à sua pessoa, pois presume existir apenas nela, não na dos outros”. A indeterminação acerca do que somos parece se dar, precisamente, porque nossa existência individual advém partir dos outros, e em função deles.

Um horizonte existencial tamanho expandido e alheio ao controle obriga-nos a autodeterminar a autonomia e a autoria das nossas próprias individualidades. Porquanto “o mundo ideal é construído sem descanso dentro de cada um”, como disse Vaneigem, e mesmo que “você não acredite nas coisas, as fará mesmo assim, se acostumará a elas e acabará gostando delas por fim”. Dessa forma nasce um avatar: um simulacro confortável e apropriado, precisamente porque que o real não o é.

“Estou em terreno inimigo e o inimigo está em mim. Por isso me abrigo dentro da carapaça dos papéis”, resumiu Vaneigem o inferno e o céu da individualidade externamente condicionada. Mas em que medida um avatar nos serve? Vaneigem afirma que buscamos nos outros a parte mais rica de nós mesmos existente neles; portanto, ao lançarmos mão de um avatar visamos não aos outros, como primeiramente acreditamos, mas a algo de “rico” de nós mesmos, neles. Essa é a primeira mentira do avatar contra quem dele se utiliza: dissimula perfeitamente o narcisismo inerente a uma individualidade.

Quem se recusa a reconhecer a presença fundamental dos outros em si mesmo está, por conseguinte, condenado ao ostracismo em relação à interdependência positiva entre indivíduo e grupo. Não entender a individualidade enquanto forma de ser para os outros, e em função dos outros, é desvesti-la de seu propósito básico, pois, se ela fosse para si própria, sequer perceberíamos os outros; pareceríamos todos autistas. A falta dessa consciência condiciona ainda mais o indivíduo ao seu avatar, e a “mudar de pele, mudar de papel: só a alienação não muda”, aponta Vaneigem.

Precisamos de avatares para atuar da vida porque somos solicitados à ação muito antes de saber satisfatoriamente quem somos. Entrementes, “na vida cotidiana, os papéis impregnam o indivíduo”, diz Vaneigem, a ponto das “únicas recordações serem as dos papéis que foram desempenhados”, conclui o filósofo. Os simulacros nos servem na mesma intensidade que eles se servem de nós, e mentir através deles é, portanto, sujeitar-se ao logro na mesma medida. No sentido inverso, revelar o que se oculta atrás de um avatar, no uso mesmo dele, é manter o equilíbrio entre verdade e mentira, entre eu e os outros, em favor do que é comum, a saber, dos sujeitos.

 

Mal Belo

O “Belo” tem sua própria história, e é independente das “coisas” que o recebem ocasionalmente; existindo, definitivamente “nos olhos de quem vê”. Belo é o que tem a capacidade de oferecer uma experiência de prazer ou satisfação, ou seja, algo completamente subjetivo. A beleza, portanto, pode ser encontrada em qualquer lugar, época ou circunstância onde haja um sujeito. Uma expressão intrigante do Belo apareceu recentemente nalguns jornais e nas redes sociais na figura de “um dos criminosos mais violentos na região de Stockton”, segundo a Polícia da Califórnia. Jeremy Meeks, 30 anos, preso após uma série de tiroteios e roubos, instantaneamente atraiu 30 mil “likes” apaixonados no Facebook.

Umberto Eco, no livro “A História da Beleza”, afirma que criamos o belo à nossa imagem e semelhança da forma como nos vemos e representamos a nós próprios, isto é, uma auto-homenagem. Consoante a essa teoria, cabe aqui perguntar: o que no belo criminoso de Stockton, que encheu de beleza milhares de olhos, auto-homenageia os próprios admiradores dessa beleza? Já que, para Eco, a beleza é uma projeção da forma como o homem vê a si mesmo, o que estariam os admiradores do criminoso, por conseguinte, vendo de “si mesmos” ao projetarem nele tanta beleza?

A pergunta acima deve necessariamente levar em conta as declarações públicas ao belo presidiário: “estou apaixonada por um criminoso”, “podemos ser algemados juntos?”, “ele pode me sequestrar qualquer dia”, “ele deveria estar modelando e ganhando milhões?”, etc. Versace e Dolce & Gabbana já disputam o bonitão, pois estas grifes investem em modelos masculinos de rostos fortes e marginais, menos angelicais. Tendência internacional essa que já colocou nas passarelas o filho do pedreiro desaparecido Amarildo, referência desse padrão de beleza. Mesmo destino teve o modelo mendigo de Curitiba, que foi sacado da miséria por conta de sua beleza rapidamente publicizada.

Hegel, no texto “Quem Pensa Abstratamente?” traduzido por Charles Feitosa, cita uma circunstância similar à do belo criminoso americano: “Para o povo em geral, trata-se somente de um criminoso e nada mais. Algumas damas comentam que ele é um homem forte, belo e interessante. O povo reage com repulsa: ‘o quê?’ ‘um assassino belo?’ ‘Como se pode pensar tão equivocadamente a ponto de chamar um assassino de belo?”. Para Hegel, “ver no assassino somente o fato abstrato de que ele é um assassino e, através dessa simples qualidade, anular toda a essência humana ainda remanescente nele”, é reduzi-lo abstrata e desumanamente. Pensar concretamente como Hegel, no caso do californiano, seria, por conseguinte, não condicionar as qualidades do criminoso à sua condição legal, porquanto sua beleza é! independente de ser marginal ou não. E não foi isso que fizeram todos os seduzidos por Meeks?

Para os antigos gregos o belo formava uma unidade indissociável como bom e o verdadeiro, e nada que fosse mal ou falso merecia título de beleza; Meeks, portanto, não receberia tantos “likes” na polis grega quanto os que recebeu na nossa urbe contemporânea. O divisor destas águas está, no entanto, mais próximo dos gregos que de nós, visto que foi Aristóteles quem se encarregou da ruptura entre o belo e a ideia de perfeição, condicionando a beleza à mundanidade. Portanto, é longa a história da beleza alienada do bom e do verdadeiro; o que nos permite, hoje em dia, naturalmente elevar “um dos criminosos mais violentos” a objeto de consumo da beleza. Meeks, concretamente, tem feições físicas conforme a necessidade estética do momento, e são todos os seus “likes” que atestam isso.

Porém, num outro sentido, abstraindo aqui os belos atributos físicos de Meeks, estaríamos nós, de alguma forma, enxergando beleza na exclusão social e econômica sofrida por ele? Haveria algo de belo em ser esquecido pelo sistema, vingar-se desse sistema no mesmo ato de relembrá-lo de si, e por final fracassar nessa tentativa de revolução? Se para Eco a beleza é uma projeção da forma como o homem vê a si mesmo, podemos, inadvertidamente, estar projetando sobre Meeks o esforço de sobrevivência a que todos estamos submetidos na excludente selva capitalista atual. Vencer, no mundo de hoje, é uma necessidade imperiosa e não um estado do espírito relacionado à beleza. Talvez seja o próprio fracasso de Meeks que tanto sensibilize esteticamente as pessoas. Concretamente: mesmo criminoso, pode-se ser belo!

Para concluir, vale a pena enfocar etimologicamente o “belo” que, para os gregos, é um adjetivo que vem da palavra “hora”, de tempo. Eurípedes já dizia que ter beleza é “estar em sua hora/seu momento”. O nosso criminoso de Stockton, por conta dos periódicos e das redes sociais, nunca esteve mais “em sua hora/seu momento” do que agora; e segundo Eurípedes, só isso é necessário para que a beleza seja. Da exclusão socioeconômica às capas de revistas, Meeks é um modelo “da hora”, um belo exemplo daquilo que todos somos em potencial, ou seja, pessoas cuja beleza, interior e/ou exterior, excede sim qualquer um dos nossos atos individuais, mas que, ela mesma, não pode impedir de sermos excluídos e/ou criminalizados. Todorov escreveu: “A beleza salvará o mundo”. Meeks está usando sua beleza para salvar seu próprio mundo. Todavia, invertendo Todorov: o mundo salvará a beleza?

 

Contemporaneísmo

Como será chamada a nossa Idade Contemporânea quando contemporâneas forem as Idades posteriores? As Idades históricas são nomeadas posteriormente, entretanto, no imediatismo dos dias de hoje, já rotulamos a nossa. Chamá-la de contemporânea é extremamente genuíno quando a partir dessa mesma contemporaneidade; no entanto, as contemporaneidades futuras terão sérios problemas identitários caso o nome “contemporâneo” permaneça atrelado a esse nosso período determinado. Aristóteles, ao se confrontar com o pensamento dos antigos – ou dos “antiquíssimos”, segundo ele, já se diferenciava atribuindo a si, e ao pensamento de sua época, a palavra “contemporâneo”.

Ler um Aristóteles contemporâneo de há 2500 anos é experienciar a relatividade do contemporaneísmo. Não é difícil imaginar uma contemporaneidade contingente a cada momento histórico, inclusive aos mais longínquos, isso porque quadros históricos, porquanto passados, já são reduções produzidas para serem icônicas. Todavia, épocas históricas excedem a qualquer determinação; isso para dizer que não há contemporaneidade que caiba inteira noutra. Há, portanto, uma dessubstancialização das Idades históricas assim que elas perdem suas respectivas contemporaneidades.

“O que” de substancial não é carregado para além de uma mesma contemporaneidade? Seja a da cultura grega, do imperialismo romano ou a do “europeísmo” histórico; o que, precisamente, perdeu-se definitivamente neles mesmos? O que é, de fato, aquilo de que nunca se terá consciência, seja dos gregos, dos romanos ou dos modernos europeus? Somente enquanto contemporâneos podemos saber até onde uma contemporaneidade é contingente. Para tanto, a única via de investigação possível é a partir da contemporaneidade determinada de onde tal pergunta é feita; nesse caso, esta aqui!

Desse mesmo ponto de vista, temos, porventura, alguma ideia do espírito subjacente exclusivo à nossa própria época? Imaginamos algum ícone que apreenda a alma subcutânea e invisível desse presente e que seja invisível a esse mesmo presente? “O que” de nossa época é ininteligível a ela mesma que, por conta disso, o será a todas as outras? Retornemos à tomada histórica anterior no sentido de atualizar a questão: o que, especificamente, do Sino Americanismo ao molho BRIC contemporâneo, enquanto substância das relações globais dessa precisa fatia histórica, no caso, a nossa, não será substancial a nenhum outro momento histórico?

Trata-se de investigar o subjacente vivificador destes dias enquanto jacente absoluto em quaisquer outros; como quem procura o ser somente em suas ausências, em todo o seu não-ser. Refaço a pergunta em uma tomada mais universal: o que será o não-ser da nossa Idade Contemporânea? Quando “contemporâneo” somente disser respeito aos anos 2750, por exemplo? É como perguntar quem somos “nós” àqueles para quem “nos” não somos há muito. Para evitar tal indeterminação vale expandir a fronteira leste da linha histórica e saber até onde a Idade Contemporânea expandirá sua área de cobertura.

Entretanto, quando for virada a próxima esquina das Idades, visto que são tantas as contemporaneidades quantas são as “quebradas de esquina” históricas, seremos reduzidos a uma linha temporal tão carente de substância quanto de um novo nome que não “contemporânea”. Nossos deslocamentos na cidade, durante um mês, por exemplo, contêm muitas viradas de esquina, subidas e descidas, ou seja, se dá em múltiplas dimensões. O que acontece, portanto, quando esse mapa quadridimensional é esticado até virar uma rua só, uma linha – a histórica -, quando a miríade multidimensional da vida é obrigada a residir na tímida espessura de uma linha qualquer?

Contemporaneidade, em um sentido, é a certeza da multidimensionalidade plena ainda não linearizada pela História. Contemporânea é a possibilidade de desvio, sem com isso abandonar o sentido. Por conseguinte, o que seria um sentido abandonado? Do ponto de vista aristotélico que diz ser a substância aquilo que não é predicado de nada além de si mesma e, ao mesmo tempo, aquilo que recebe as predicações, condiciona-se aqui a sobrevivência substancial da histórica às suas próprias predicações. Se uma ideia, um modo de viver, um conceito, seja lá o que for não mais carregar predicado algum, aí existe sua dessubstancialização absoluta, ou seja, a incapacidade de receber qualquer predicação: o não-ser. Em perspectiva histórica, o substancial se simplifica em circunstancial e qualquer coisa de substancial se eterniza nalguma predicação remanescente.

Ampliar a idade contemporânea até não se sabe onde é obra para a consciência que não se quer fora do seu próprio tempo. Não podemos ser “os” Antigos, por certo, ainda que venhamos a ser “como” eles. E apesar das tentativas, tampouco conseguimos ser como os “Futuros”. Substancialidade, portanto, exige contemporaneidade: o substancial é! As contemporaneidades de todos os homens, individualmente, ainda que objetivamente diferenciadas pelos rótulos das Idades, todas elas, são as substâncias essenciais da Histórica; no entanto, as primeiras a serem dessubstancializadas. E quando nossa Idade Contemporânea estiver completamente dessubstancializada de sua contemporaneidade, quando “contemporâneo” for um meio ambiente outro, de onde os “futuros” se identificarão distintivamente de nós, que Idade, afinal, seremos?

Fomos extremamente precipitados e redundantes em nomear a nossa experiência enquanto contemporâneos com esse mesmo nome. É como chamar o agora de “agora” achando que com isso o nomeamos melhor. Cristalizar um período histórico passageiro através do nome “contemporâneo” é, em grande medida, adiar sua nomeação definitiva . Nosso auto-título “contemporâneo”, entre seus muitos sentidos, também pode ser visto como uma generosidade à posteridade, pois, ao dizer que somos contemporâneos não dizemos, de fato, nada acerca desse contemporâneo. Há, portanto, nesse sentido, mais liberdade aos “futuros” quando estes forem nos nomear.

Nossos antecessores, os da Idade Moderna, assim se denominaram porque aquela contemporaneidade era estruturada nas e estimuladas pelas novas modas. Eles seguiam modas, por conseguinte, modernos, e foi essa a Idade deles. Não há, por conseguinte, conflito entre aquela contemporaneidade não mais contemporânea e o nome sob o qual ela jaz. Umberto Eco, no seu livro “História da Beleza”, acredita que o futuro enxergará essa nossa Idade como a do “mass midia”, na qual somente o que é massivamente divulgado merece existência, tanto no momento imediato quanto nos futuros. Qual será, contudo, o nome do nosso contemporâneo quando ele não for mais contemporâneo? Idade da Mídia? Idade Contemporaneísta? Quem seremos nós quando já não formos mais? 

Cultura além-cooltural

Foi quando se tornou humano que o ex-bicho-homem passou a habitar em uma natureza própria, não mais aquela compartilhada com os animais. Essa nova natureza, primeira do homem, e segunda em relação ao bicho de outrora, é um ecossistema exclusivo, pleno de linguagem e de ideias, com passado e futuro – não mais o eterno presente –, e com a consciência da finitude, ou seja, da morte. Foi, aliás, ao começar a enterrar os seus mortos, e a cultuá-los, que se cria a cultura.

Em um contexto cultural o homem deixa de simplesmente “existir”, como fazem os demais seres, para propriamente “viver”, conforme colocou Duarte Júnior. Na natureza “natural” os animais tem uma existência unidirecional no sentido da busca do bem-estar em função do mal-estar. Entretanto, na natureza humana-cultural, reintroduz-se sintomática&sistematicamente o mal-estar no cerne do bem-estar.

Para o sociólogo, antropólogo e filósofo Edgar Morin, somos “culturalmente hipnotizados desde a infância”, pois o ser humano só se conhece através da cultura; e, contraditória e complementarmente, a cultura só se conhece através dos seres humanos. Cultura e indivíduo estão, portanto, em relação geradora mútua; e, segundo o autor, o “imprinting cultural” é uma matriz que estrutura “a ignorância da ignorância” que “faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças”.

O desabrochar cultural, por conseguinte, “necessita de condições frágeis, com grandes perdas de energia, modas, futilidades e superficialidades”, disse Morin, em um limite crítico e constantemente “crísico”. A humanidade, no afã de transformar sua errância em itinerância, esquece-se da diferencia entre atalho e desvio, a ponto de “ninguém escutar mais os [próprios] homens, mas apenas economistas, ontologistas, sociólogos e outros idiotas da mesma espécie”, ironizou o matemático, psicólogo e poeta Spencer Brown.

Consoante à teoria de Marx, segundo a qual o capitalismo será o responsável pelo seu próprio fim, Morin nos incita a uma cultura produtora daquilo que a arruinaria, pois, para o autor, “a vida do pensamento realiza-se na temperatura de sua própria destruição”; porquanto “bárbara é a nossa ideia de que o racionalismo é racional, de que a ciência é científica e de que o humanismo é humano”. E essa funcional barbárie cultural dissimula o caos subjacente, talvez porque, com a ajuda de Adorno, “a não-contradição não pode ser a última palavra para um pensamento conquistador”.

A cegueira sobre tudo que não seja ambição, interesse e vaidade nos esclarece apenas sobre os que semeiam tal cegueira, afirmou Morin; pois a cultura também oculta o fato de que quanto mais se cria menos se é cria de sua época. Nesse sentido, o aforismo de Lenin, “os fatos são teimosos”, em algum sentido, estimula a teimosia contracultural oxigenadora na própria cooltura, porquanto, para Morin, “a verdadeira criação é individual, mas só pode realizar-se em condições culturais”.

A liberdade, portanto, deve exceder a liberdade de expressão, abarcando plenamente a liberdade de alteração! Ou, no mínimo, de transversão. Assim como “possuímos os deuses que nos possuem numa relação de simbiose, de exploração, de parasitismo mútuo”, como colocou Morin, também a cultura deve ser explorada e parasitada simbioticamente na mesma medida em que nos explora e parasita. Um clássico exemplo é o da cultura grega, que, saqueada por Roma, espalhou seus genes culturais no Império que a destruiu; e, de império em império, até nos dias de hoje.

“As grandes obras esperam”, disse Adorno, pois “todas as grandes obras do passado estão à nossa frente” completamos com o filósofo Philippe Lecoue-Labarthe. A própria filosofia grega atesta isso, visto que floresceu verdadeiramente não no coração da plena democracia, mas justamente na decadência “crísica” desta. Foi na queda de Atenas que Platão e Aristóteles revolucionaram o conhecimento humano.

A teoria da relatividade, marco cultural da nossa sociedade, só foi possível, para Einstein, e nas palavras dele, porque “eu sou um verdadeiro solitário que nunca pertenceu ao Estado, à pátria, ao círculo de amizade, nem mesmo à família nuclear”. Foi, portanto, na periferia cultural – e a partir dessa excentricidade -, que o físico alemão revolucionou a cultura cuja centralidade, não obstante, foi-lhe reservada. O centro deve se alimentar das bordas!

Consoante a Nietzsche, Morin promove o abandono cultural como modo genuíno de relacionamento com a própria cultura, porquanto suas “mil singularidades nos ocultam o universal “disse Morin, “enquanto um universal abstrato nos oculta as particularidades”. Levantar-se culturalmente, e para longe dessa mesma cultura, no entanto sem deixá-la – visto que impossível -, é, essencialmente, ampliar o espaço de culto num mesmo ato de rebeldia em relação ao cultuado.

A cooltura humana é um sofisticado acolchoado àquela natureza “natural” compartilhada com os demais animais. O mundo cultural é um berço esplêndido! No entanto, ele demanda retroalimentação positiva, produtiva, “crísica”, revolucionária e, o mais importante, constante, para manter-se num equilíbrio ecocultural positivo e fundamental. Do contrário, a própria cultura adormece, a ela mesma e a nós, como a bebês incapazes e/ou velhos doentes.

Excentricidade sim! Cultura do “além-cooltural”.

O “Selfie” de Dorian Gray

O culto de nossos dias à beleza e à juventude remonta à obra de Oscar Wilde, parafraseada no título deste texto, muito apropriada à reflexão do preço que se paga na busca de tais objetivos. Dorian teve de vender nada menos que sua alma ao diabo, não obstante vendo seu retrato envelhecer à medida que ele permanecia jovem, belo e alegre, porquanto, para Wilde, “a alegria de mentir é estética”.

O diabo de Wilde, enquanto encarnação do mal absoluto, abduzido à contemporaneidade, encarna-se na palavra Botox (toxina botulínica), o veneno mais perigoso encontrado na face da terra, cuja dose, por pequena que seja, pode matar milhares de pessoas. O nosso diabo, tanto quanto o de Dorian, por malévolo que o seja, possibilita “reter apenas o lado ensolarado da vida”, como escreveu Wilde, entretanto, para o escritor, “revelando uma visão mutilada da vida”.

Historicamente os homens deixaram de amar aos deuses para amarem uns aos outros. Agora, contudo, passa-se a amar a si mesmo como a um deus, e tal amor cobra perfeição e eternidade. Todavia, para Tzvetan Todorov, esse é um “esteticismo redutor, anti-humanista, na medida em que mutila o ser humano”, pois, para o filósofo, esse individualismo é entendido como egocentrismo e autossuficiência, o que nos leva a desconsiderar os outros; e a nós mesmos enquanto qualquer um.

Benjamin Constant já alertava para o fato de que “há na contemplação do belo alguma coisa que nos destaca de nós próprios, fazendo-nos sentir que a perfeição vale mais que nós”. Entretanto, “não são os seres perfeitos, mas os imperfeitos que necessitam do amor”, disse uma das personagens de Wilde. Tudo o que é vivo é forçosamente imperfeito e perecível, e a beleza eterna, por conseguinte, reside na assunção dessa verdade. Feio é evitar a vida no seu desenrolar natural.

“A beleza é uma faceta provisória do ser, não sua totalidade”, colocou Todorov, pois “dissimula a face atroz da realidade”, que é o fato de envelhecermos e morrermos, o tempo todo, inexoravelmente. Melhor é acreditar no que disse Montaigne: “As mais belas vidas são aquelas que permanecem no modelo comum e humano, sem milagre e extravagância”. Cirurgias plásticas e injeções de Botox, portanto, são um remédio excessivo e bem pior do que aquilo que prometem curar, visto que o envelhecimento é o que há de mais natural e simples.

Os gregos, os grandes amantes do belo, atrelavam a beleza à verdade, ainda que louvassem a juventude enquanto portadora excelente da beleza física, único atributo de valor de um jovem. Aos velhos, a beleza residia na sabedoria e na temperança, e era ridículo a um não jovem desejar juventude. Hoje em dia, identifica-se o belo ao falso, ao sofisticado, à máscara que se usa ao deixar os salões e clínicas estéticas.

As estátuas gregas serviam para eternizar simbolicamente beleza e juventude ás pessoas, visto que estes ideais não acompanhavam a mobilidade da vida, e o seu desaparecimento era, portanto, o grande convite a algo maior, ou seja, à sabedoria. Hoje, contudo, muitos se convertem em suas próprias estátuas, marmorizando-se através de pactos botulínicos com o diabo do excesso de amor impróprio: esculturas narcísicas refletidas em águas tão rasas quanto pouco sábias.

 

Multiverso

O conceito e a palavra universo (uni=única, verso=versão) não mais se apropriam ao evento cósmico a que dizem respeito, pois trata-se de chamá-lo, e de entendê-lo, em uma pluralidade de sentidos que só cabem no termo: multiverso, ou seja, múltiplas versões. Essa teoria físico-científica diz que somente o Big Bang e o seu desenrolar não dão conta de tudo que existe, e de como existe; porquanto seu devir retroage diretamente sobre ele mesmo, modificando-o contraditoriamente a cada instante de sua existência em múltiplos sentidos. Na sua empresa de conhecimento, o homem acaba por descobrir que “a verdade é sempre certa abertura de horizontes, uma abertura do mundo”, disse Žižek.

Multiverso são as interações das reflexões do Big Bang nas paredes limítrofes dessa explosão mesma, retornando em direção de onde vieram, sobre as imagens subsequentes dessa mesma explosão que emana do centro à periferia. É o encontro de projeções, umas contra as outras, e, no acidente dessas duas imagens diferentes, nalgum lugar intermediário, surge uma imagem virtual, que é precisamente aquilo outrora chamado de universo material. O Real, portanto, é uma ilusão perspectiva, uma holografia no meio de um vazio cruzado de imagens em todos os sentidos; milhares de reflexões em um labirinto de espelhos, porém, sem os espelhos.

“A ética do Real”, afirma Žižek, “tende a emergir através da transgressão das normas e da descoberta de novas direções”, e o que existe, seja lá o que for, não é aquilo que parte do, e desde o, Big Bang, mas também os seus efeitos que retornam no sentido contrário, confrontando-o, modificando-o, e gerando virtualmente tudo o que há. “A questão não é que o real é impossível”, disse Lacan, “mas que o impossível é real”. Portanto, esse mundo material, atômico, em construção e corrupção, é uma ilusão feita de luz em movimentos contraditórios, funcionando, segundo Žižek, “como algo que não pode ser representado, mas, mesmo assim, é constitutivo da representação”.

Einstein comprovou que o universo é a relação de uma curvatura causada entre matéria e gravidade. Entretanto, esse paradoxo se complexifica no multiverso, pois não só a curvatura espaço-temporal, mas a própria matéria e a gravidade são nada além de ilusões holográficas. Nossa consciência e sentidos que acreditam e insistem na materialidade do mundo, e inclusive na do nosso corpo porque, segundo a psicanálise zizekiana, nós “elevamos tudo o que contradiz nossas certezas à condição de impossibilidade, como meio de adiar ou evitar o encontro com isso”; justamente pelo fato de, e consoante ao conceito multiversal, “o núcleo da nossa subjetividade [ser] um vazio preenchido de aparências”.

Para Žižek, “o real trata-se de uma ilusão, porque, na verdade, ele é traumático demais para ser encontrado”, e no multiverso, “traumático demais” é a nossa inexistência material, o fato de tudo ser, realmente, nada mais que projeções holográficas em meio a um vazio criado por essas mesmas projeções. “Não se trata de não encontrarmos [ou não existir] o objeto” explica Lacan, “mas que o objeto em si é apenas vestígio de uma falta”, é o que falta é justamente aquilo que mais queremos que não nos falte, ou seja, nossa materialidade unívoca. Heisenberg, físico alemão, falou que “não temos uma visão neutra, nossa percepção distorce a realidade porque o observador faz parte do observado”. Presume-se dessa afirmação que tudo o que percebemos já é uma distorção em exclusivo benefício próprio, pois até para “os filósofos verdadeiros”, diz Žižek, “há um momento de cegueira, e creio que esse é o preço que se tem de pagar”.

Jesus Cristo, na sua fronteira material derradeira, perguntou desconsolado: Pai, por que me abandonaste?. Podemos, hoje, recolocar a questão, entretanto, aos nossos pais físico-cientistas, perguntando-lhes: Por que me desmaterializaste? Eles não obstante viriam com equações tão imateriais quanto esse real que querem provar. Aumentando a lista zizekiana dos produtos despojados de sua substância essencial, ofertados pela sociedade contemporânea, mais um, multiversal: a materialidade sem matéria. Em homenagem ao filósofo, e na assunção do multiverso no qual estamos imersos, uma percepção anacrônica, entretanto pertinente, de Lenin: “A realidade real sempre foi virtual”.

Homo Extinctor

Foi veiculada a notícia de que o último Rinoceronte Negro foi caçado, e sua espécie, oficialmente extinta. Postagens com a foto do animal figuraram no facebook, para nós, humanos, agentes ativos desta tragédia, curtirmos, comentarmos e compartilharmos, ao modo de um clique, como que observadores passivos. Entretanto, “não há o animal no singular genérico, separado do homem”, aponta Derrida, “existe viventes cuja pluralidade não é oposta à humanidade”.

O news feed do nosso mundo memético sobrepõe-se sobre o drama genético que se desenrola desde que o homem se organizou em sociedade; drama no qual mais de 90% dos seres vivos que já existiram foram extintos, de acordo com o biólogo Dougal Dixon. E não para por aí, pois para o secretário sobre a diversidade da ONU, Oliver Hillel, até 2030 perderemos 75% das espécies restantes, pois ele estima que 150 delas sejam extintas todos os dias no mundo.

Derrida articula a passividade animal à sua nudez, afirmando que “o próprio dos animais, e aquilo que os distinguem do homem, é estarem nus sem o saber”, no entanto, a propriedade mais triste deles parece der a de serem extintos sem o saber. Mais que da Natureza, os animais são a Natureza, porém, com a ajuda do homem, despediram-se dela ao embarcar na Arca de um tal Noé, transformando-se em animais de circo e de zoológico. Agora, cada um deles aguarda a sua vez de ser desaparecido definitivamente.

“O teatro insensato do completamente outro que chamamos animal”, conforme escreveu Derrida, esvazia-se genocidicamente para o homem performar o seu solitário monólogo. O filósofo ainda afirma que é com base em uma falta, ou um defeito do homem, que este se faz mestre da natureza e do animal: uma falta que ele empresta ao animal e instaura sua propriedade. A natureza do homem parece, portanto, ser a de atuar solitariamente e a de assistir desatentamente tal atuação, protagonizando-se justamente sobre cada antagonista que extermina em cena aberta.

De Aristóteles a Lacan, muitos foram os que se perguntaram se os animais podem pensar, não obstante chegando à conclusão alguma. Na falta dessa resposta, permanecemos fiéis a Descartes e ao seu “penso, logo existo”; porquanto sem pensar, não se tem direito próprio à existência. No entanto, foi o filósofo Jeremy Bentham, nos 1790, que fez a pergunta mais pertinente em relação à existência animal: “eles podem sofrer?” Aí fica mais difícil não considerá-los. Derrida, mais tarde, alimentou essa questão perguntando: “eles podem não poder sofrer?” Quase podemos sentir na pele a resposta.

E que sofrimento seria maior que a extinção de uma espécie, de uma forma única de sofrer, e em primeira instância, de existir? No entanto, “os homens fazem tudo o que podem para organizar em escala mundial o esquecimento dessa violência”, criticou Derrida. Atualmente, cientistas se propõem à clonagem de espécies extintas, como que industrializando a preservação da natureza. Teremos, portanto, Rinocerontes Negros, Visons Marinhos, Tigres do Cáspio, Leões do Atlas, entre muitos outros, produzidos conforme a demanda, tal como produzimos iphones. Estes últimos, aliás, bem apropriados à visualização da extinção que impomos à natureza, para curtirmos, comentarmos e compartilharmos o cruel e insustentável legado que somos.

 

A gravidade da filosofia

As coisas mais simples e corriqueiras tornam-se graves quanto tomadas pela filosofia. Não que ela busque dramatizar seus objetos, mas porque o ato de conhecê-los evidencia justamente a gravidade intrínseca ao próprio sujeito. O próprio “ser”, isso que há mais comum a tudo que é, permanece, não obstante, como a questão mais antiga e cara à filosofia. E em tal empreitada, disse Gaston Bachelard, “é preciso ser sério como uma criança sonhadora”.

O filósofo é aquele que deve se permitir ao espanto e/ou maravilhamento com tudo aquilo cuja cotidianidade torna invisível. Nessa abertura existencial, a filósofa Simone Weil confessou: “tudo o que é precioso em mim vem de outra parte que não de mim, como empréstimo que deve ser continuamente renovado” e, por conseguinte, investigado e conhecido em profundidade. Só então se pode saber de que se trata esse “precioso” extrínseco que se é – que somos todos.

Entretanto, perguntar-se o que se “é” envolve tantas coisas, e por que não dizer tudo, que, se respondemos a essa pergunta com um nome – o nosso nome -, fugimos da maneira mais leviana da grave questão. “O ser humano é um ente dividido e que se divide novamente sempre que se entrega por um instante a uma ilusão de unidade”, afirmou Bachelard, porquanto no momento em que nos tomamos por indivíduos independentes, só fugimos da interconexão fundamental que nos institui.

Por isso o filosofar: para encarnarmos a gravidade com a qual atraímos os diversos predicados com os quais sufocamos o ser das coisas e, inclusive, o nosso. Portanto, “só podemos compreender as coisas”, disse Paul Valéry, “graças à rapidez da nossa passagem pelas palavras”. E a filosofia é a letra àquele que deseja conhecer as coisas por elas mesmas; e estas, sem ele nelas. O filósofo é esse “sonhador que escuta já os sons da palavra”, colocou Bachelard, pois “o bico da pena [hoje, o teclado] é um órgão do [seu] cérebro”.

“Estou sozinho, portanto penso no ser que curou minha solidão”. Nessa frase, Bachelard encontra-se genuinamente na filosofia, (des)encarnando a um só tempo a “insustentável leveza do [seu] ser”, o sustentável peso do seu nada e a gravidade estruturante entre um e o outro. E, por acaso, “o metafísico”, pergunta Bachelard, “não é o alquimista das ideias grandes demais para serem realizadas?”

 

Faceburca

As telas através das quais nos conectamos ao mundo-rede-social assemelham-se às pequenas aberturas das vestes islâmicas, os niqab, com as quais carne e osso são encobertos, e só o olhar – e aquilo que é visto – é evidenciado. Quando no facebook, por exemplo, nossa existência se resume no rastro daquilo que olhamos e, do outro lado, nos olhares enquadrados nos estreitos rasgos das demais burcas virtuais. Mundo de ausências, ou como afirmou Beckett, um universo um vazio infestado de sombras.

Cabe aqui a pergunta de Alain Badiou: como um sujeito pode sustentar-se a partir do momento em que desaparece e em que somente o próprio ‘eu’ é sua única atestação? A resposta, também do filósofo, é a de que “só existe verdade autêntica sob a condição de podermos escolher a verdade”. Portanto, visto que o real é a impossibilidade dessa escolha, ou seja, o irresistível, encontramos na virtualidade a liberdade em relação ao real. Também aventamos aí uma dignidade segura e desejada, porquanto “toda vulgaridade vem da incapacidade de resistir”, já afirmou Nietzsche.

A superficialidade subjetiva nas redes é proveitosa porque, “evocadas segundo sua ausência, as coisas tem uma energia poética sem precedente”, pois “aquilo em que uma verdade se apoia não é a consistência, mas a inconsistência”, disse Badiou. Por conseguinte, encontra-se força e potencialidade inimagináveis justamente no enquadramento redutivo das redes sociais virtuais; não obstante, em detrimento da materialidade sensível, propriedade até então das redes humanas tradicionais.

Uma vez no palco virtual, o ator é obrigado a encenar seu avatar conforme o manda o figurino, e este, aqui proposto, é a faceburca, que reduz o ser àquilo que sai do olhar, bem como o nele cai através dos displays digitais: cópia pálida e apropriada daquilo de caótico que se esconde por detrás dos panos. “Um simulacro é sempre a substituição de uma fidelidade […] pela encenação de um vazio”, já afirmou Badiou, pois, mais fácil é “contentar-se subjetivamente com o simulacro”.

No entanto, de acordo com o filósofo francês, “as narrativas têm como única função propor-se como matéria para a dúvida”; e ainda que nesse mundo virtual sejamos somente nossos olhos, devemos, através deles, duvidar sempre das narrativas que a eles se oferecem. A verdade nua e crua, aquela da qual o sujeito não consegue escapar quando está frente a frente, corpo a corpo, é essa a que mais se oculta nos rasgos da faceburca. Contudo, a vantagem que podemos tirar das máscaras, segundo Oscar Wilde, é a de que a verdade melhor se mostra através da mentira na qual se esconde.

Arte de ver

Não vemos simplesmente porque temos olhos, mas os possuímos porque precisamos enxergar as coisas, pensar acerca delas e, enquanto animais que desde sempre somos, deliberar de quem e em que momento fugir ou atacar; com quem procriar; quais alimentos consumir ou não; etc. A visão não é uma capacidade que existe para si mesma, mas em função de uma intelecção primordialmente voltada à sobrevivência, pois “a ação é um movimento no qual já existe um fim”, disse Aristóteles.

No entanto, instituições históricas tais como a aristocracia grega, os clãs romanos e a burguesia moderna, dispensaram os mais abastados da ocupação e do acautelamento acerca da sobrevivência, liberando seus olhos ao deleite estético supérfluo e, por conseguinte, à arte. Isto porque o “espírito humano é capaz de conceber formas muito antes de elas lhe serem reveladas”, afirma Lévi-Strauss, o que evidencia a precedência da capacidade de ver em relação àquilo que é visto. Olhos ociosos, por conseguinte, hão sempre dar-se o que ver.

A arte, portanto, perverte a visão no sentido de ocupá-la com o não fundamental. Talvez nos encante justamente por isso, como que as férias da visão voltada à sobrevivência. Plutarco já dizia que “nosso entendimento deleita-se com a imitação como de algo que lhe é próprio”. Ver por ver, sem a necessidade de envolver o restante do software que condiciona e origina a visão, parece ser um privilégio confortável, porquanto os “esquemas geométricos [e artísticos] se afastam da natureza a ponto de cada um interpretá-los a seu modo”, conclui Strauss.

Todavia, a arte não faz diferença entre os acidentes da natureza e as coisas por ela representadas, deixando-os, de certa forma, todos no mesmo plano; de um lado valorando o supérfluo e, de outro, alienando o vital. A realidade de quem frui é, portanto, mais vulnerável em relação ao real. Sintomaticamente, “o único meio de a arte perpetuar-se”, para Lévi-Strauss, “é dar origem a outras obras de arte, que, para seus contemporâneos, parecerão mais vivas do que aquelas que as precederam”.

E cá estamos nós, no atual império-torrente das imagens – artísticas, publicitárias, selfísticas, etc. -, vendo muito mais do que precisamos para simplesmente viver, cegos em relação aos sinais da natureza no sentido da nossa preservação e atribulando exaustivamente o ócio visual que tal cegueira outrora nos proporcionou. A evolução e a bonança histórica, que liberou o olhar humano da sua própria contingência, devolvem, por conseguinte, o homem à inexorabilidade de ver incessantemente seu mundo se nele quiser sobreviver.

Escrever na vida

Escrevo quando não sei o que fazer com a vida, e ao começar, a dúvida se transforma nas possibilidades que essa vida em questão comporta, pois, segundo Lukács, “a realidade não é, torna-se – e, para que se torne, é necessária a participação do pensamento”. Permito-me ser encurralado por essa obsessão em escrever acerca da vida que se atravessa no meu viés filosófico por confiar na afirmação de Adorno de que os “pensadores em que falta o elemento paranoico não têm impacto, ou são prontamente esquecidos. A fuga das ideias fixas transforma-se numa fuga do pensar”. E “nada de útil acontece enquanto as pessoas não começam a dizer coisas que nunca disseram antes”, disse o filósofo Richard Rorty.

O mundo globalizado e “hiperinformacionalizado” é uma nova Babel, mais caótico que nunca e resistente em se deixar ser apreendido. É fundamental o uso de mapas supersimplificados e constantemente atualizados a informarem a mutável topografia contemporânea para que se possa, inclusive, permanecer no mesmo lugar; visto que “o mesmo lugar” desloca-se, hoje, na sua relação volátil com todos os outros. Essa mobilidade esquizofrênica da vida se dá, conforme Althusser, porque “os homens expressam não a relação entre eles e suas condições de existência [o que seria uma âncora], mas o modo como eles vivenciam essa relação”, ou seja, uma nau desgovernada.

Pierre Bourdieu criticou nossa sociedade justamente porque os teóricos habilitados a falar sobre o mundo não sabem coisa alguma sobre ele, e as pessoas comuns, que de fato conhecem o mundo, não são capazes disso. Percebe-se aí, com a ajuda do sociólogo francês, que importante é os “comuns” – os verdadeiros sábios – dizerem do que se trata, afinal, o mundo, mesmo que incipientes em relação às “teorias habilitadas”. Hegel já dizia: “temos que ter uma nova mitologia”; pois, ao homem, o mito se oferece como terreno mais firme que qualquer prova científica abstrata, e porque é “o senso comum que cria o folclore do futuro”, disse Gramsci.

Os pensadores autorizados é que, por costume e tradição, desautorizam os outros que não eles próprios, isto é, os “comuns”, de inscreverem-se no mundo que é comum a todos. Entretanto, Terry Eagleton questiona essa relação hierárquica afirmando que “a moral [o costume] é o resíduo fossilizado de uma história anterior”, sendo a primeira a pedir revolução. “O importante é o que podemos fazer para convencer as pessoas a agirem de maneira diferente das que adotaram no passado”, disse o filósofo americano Richard Rorty, e o passado é a concisa torre de marfim residência de poucos e ícones.

A vida, que de todos é posse comum, só pode ser descrita apropriadamente quando todos a descreverem simultaneamente, ainda que isso nos coloque distantes das conceituações acadêmicas e de suas abstrações acerca da estrutura da realidade. Não escrevo para saber o que a vida é, porquanto indefinível, mas para esquecer a necessidade dessa questão sempre que se-me apresenta, talvez por concordar com Zizek quando ele diz que “se viéssemos a saber demais, a desvendar o verdadeiro funcionamento de realidade social, essa realidade se dissolveria”.

A Bruxa Má Homofóbica

Há exatos 60 anos, Alan Turing fez seu logoff depois de comer a maçã envenenada por ele com cianureto. O gênio cientista matemático, sem o qual não existiria o computador no qual escrevo, foi vítima da homofobia inglesa incapaz de absorver a sua genialidade e a sua humanidade a um só tempo. Ao assumir publicamente sua homossexualidade, foi imediatamente condenado por atentado aos bons costumes, sendo rechaçado pela sociedade e privado de seguir em suas pesquisas.

De forma ironicamente binária, Turing teve de escolher entre a prisão e a castração química. Optando por esta última, passou ao ostracismo social e profissional, ao mesmo tempo em que via seios lhe surgirem por efeito dos hormônios do seu tratamento. Caiu em uma depressão da qual nunca mais saiu. Segundo Freud, “a miséria do melancólico é a expressão de uma aguda desavença entre as duas instâncias do eu decomposto em dois pedaços, um dos quais se enfurece com o outro”.

Obrigado a sumir publicamente com sua masculinidade não-conforme através de overdoses diárias de hormônio feminino que aniquilavam seu desejo e o seu corpo, a punição para Turing foi transformar-se naquilo que ele evitava, ou seja, numa mulher – e ainda por cima frígida! Para Freud, os gregos, fortemente homossexuais, tinham no mito da Medusa a mulher frígida e petrificante que enrijecia e mortificava ao mesmo tempo. Turing, no entanto, foi duplamente meduzificado, enquanto símbolo petrificador e imagem petrificada.

 De acordo com o pai da psicanálise, a escolha homossexual se origina de uma rivalidade com os homens, o que explica o conflito entre homossexualidade e sentimento social, porquanto o objeto do desejo serve para substituir um ideal não alcançado do próprio Eu. E Turing havia encontrado vitória social através dos seus inventos científicos, tanto quanto e paz no seu conflito com os homens através do desejo por eles, porque, novamente com Freud, “os instintos de autoconservação seriam também de natureza libidinal”. No entanto, impedido de se autoconservar, autodestruiu-se.

A maçã envenenada que tirou a vida de Turing foi, simbolicamente, a homenagem derradeira à sua última paixão lícita e possível, sua obra predileta, Branca de Neve e os Sete Anões. No entanto, o cianureto com o qual o gênio se despediu foi gota no oceano das mentes envenenadas dos seus contemporâneos. Sim, ele comeu do fruto, e porque proibido, fez questão de morrer justamente através dele. Para quem sobrou o papel da Bruxa Má? Felizmente, Turing sobrevive nas milhares de maçãs da Apple mundo afora, inicialmente preenchidas, em sua homenagem, com o arco-íris gay.

Corpo-só-órgãos

“Não é próprio do homem desejar o impossível?”, perguntou certa vez Deleuze. Por certo que sim! Tanto o é, que na última semana cientistas japoneses mapearam a genialidade do craque Neymar em uma empresa de redescoberta da matéria humana. Revestiram o corpo e o cérebro do jogador com sensores eletrônicos e mediram, durante um jogo, os diferenciais químicos e geográficos de suas sinapses, a utilização e especificidade de cada um dos seus músculos, bem como a contribuição de cada um dos seus órgãos, separadamente.

Agora, o Japão tem a posse de mapas e gráficos da genialidade futebolística, e do “algoritmo Neymar”. Importante para os pesquisadores era saber o que, objetivamente, o craque tem de especial que não ele mesmo em sua totalidade natural e subjetiva; pois, segundo o psicanalista Serge Leclaire, a ciência só se interessa por “sistemas cujos elementos estão ligados entre si precisamente pela ausência de liames, um conjunto de puras singularidades”, ou seja, tão somente usos e funcionamentos.

No entanto, Deleuze aponta que ciência e tecnologia, “agindo por si próprias, tomam uma coloração fascista”, pois ambas estão “voltadas à formação de soberania”. Não nos esqueçamos de Hitler na sua tentativa de sobrepor a suposta superioridade ariana mundo – e judeus – afora. Agora, algum laboratório farmacológico milionário, com a posse da fórmula neymariana, poderá desenvolver um Prozac futebolístico e um “shake” proteico que oferecerá a musculatura ideal para a geração de uma legião de melhores do mundo. “O real não é impossível, ele é cada vez mais artificial”, concluímos com Deleuze.

“Foi preciso chegar-se ao capitalismo para se ter um regime técnico de exploração do homem”, disse  Marx. Por conseguinte, organizar o Neymar enquanto coleção desconexa de órgãos, músculos e trocas neuronais é explorá-lo como se ele fosse menos que um simples e único objeto, mas sim enquanto objetos apropriáveis, em pleno detrimento do sujeito que ele é. Lacan já dizia que “a parte nada tem a ver com o todo”, pois é o todo, inabordável, que reina sobre todas as partes.

“Os animais guardam seus órgãos nos seus próprios corpos, ao passo que [agora] no homem ficam alojados aqui e ali, em diferentes lugares do mundo”, disse certa vez Samuel Butler. Destruição à la Hegel, à moda de conservar, ou construção tipicamente humana, à maneira de destruir? Enquanto respondemos a essa pergunta, Neymar está decodificado, algoritimizado e disponível para download no nosso mundo altamente especializado e desumanizado, em um formato criado há 300 anos por Andrew Ure: “Órgãos mecânicos e intelectuais”.

Linguagem infinita

Apesar de ter concebido o infinito, o homem o fez através do finito horizonte que a natureza primeiramente lhe impôs. Os antigos árabes já lidavam com o conceito de infinito através dos algarismos matemáticos que podiam ser enfileirados e somados indefinidamente. Contudo, a ideia de ilimitado que a linguagem algébrica proporcionava a eles servia, até então, para mensurar grandezas maiores que suas possibilidades de intelecção.

Milênios mais tarde, Wittgenstein condicionou essa capacidade de alcançar o inalcançável à linguagem humana com a seguinte máxima: “os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem”. A partir da afirmação do filósofo, o universo é tão somente o que foi pensado acerca dele; e até onde o pensemos, eis seu limite. Todas as coisas que o homem pode conceber são, portanto, obras-primas da sua extensão linguística.

A invenção do universo infinito por Giordano Bruno, em 1600, foi esse processo dramático entre realidade imanente e linguagem transcendente. O pensador intuía um cosmos ilimitado, porém não conseguia pensá-lo objetivamente. Para tanto, imaginou-se lançando uma flecha aos céus e a seguiu com seu pensamento. Entretanto, a flecha esbarrou nalgum muro sideral limítrofe – o pensamento resistindo ao impensado – no qual Bruno subiu e relançou sua flecha para além dele.

Repetindo muitas vezes o procedimento sempre que um muro se interpunha entre ele e o infinito desejado, deduziu, por conseguinte, que poderia transpor os limites do universo sempre que estes se lhe apresentassem; de muro em muro; de flecha em flecha; de coisa em coisa; de palavra em palavra. Contudo, tal aventura levou Bruno à fogueira, pois, se ele havia extrapolado os limites do seu próprio mundo, os da sua sociedade permaneciam muito aquém, e o que não podiam eles pensar não deveria ser pensado; portanto, pecado mortal!

Isaac Newton, décadas depois, intrigado com a queda dos corpos em direção ao centro da terra, utilizou-se de artifícios linguísticos para conceber a gravitação dos corpos celestes. Imaginou um canhão lançando horizontalmente um projétil que, não obstante, caia nalgum lugar distante. Triplicou a potência do canhão e a bala imaginária caiu três vezes mais longe. Calculou, então, qual deveria ser a velocidade necessária de uma bala para que esta desse a volta no planeta sem cair e, em seguida, a força que deveria ter o lançamento para que um corpo nunca mais caísse.

Descobriu, portanto, que a força da gravidade podia ser vencida por outra força (velocidade), desde que esta fosse muito maior que aquela; tal a que a lua, por exemplo, possui para nunca cair na terra; e, por conseguinte a da terra para que gire em trono do sol sem nele cair, apesar da atração constante deste sobre ela. Newton, contudo, teve um destino mais feliz que Bruno, visto que seu mundo já tinha limites mais amplos, por conta de uma linguagem mais ampliada e compartilhada.

Todavia, os avanços dos dois gênios só foram possíveis porque estruturados na simplicidade manuseável de suas palavras e das coisas pensáveis através delas. Sem tais tijolos linguísticos não teríamos, eles e nós, como construir nosso mundo nem o universo infinito que o contém; no entanto, este último, por dizível e pensável que seja, existe muito mais na possibilidade de ser dito que na de ser provado empiricamente. Logo, a primeira – e talvez única – infinidade real do universo seja a própria linguagem humana mesma, inesgotável em sua potencialidade de criar mundos&fundos infinitos.

 

Fodidos, uni-vos!

A frase que encerra o Manifesto Comunista, “Proletários de todo os países, uni-vos”, deveria ser reciclada em proveito das presentes greves no nosso país; da dos metroviários em SP, à dos professores, rodoviários, garis, policiais, etc. No entanto, a desconexão estrutural entre as várias manifestações é o produto genuíno de uma elite que, através do seu poder – midiático, principalmente -, precisa alienar a máxima de Marx e Engels, pois sabe que justamente nela reside a revolução.

Atomizadas e cercadas por um vazio intransponível, as ações dos trabalhadores dispersam a energia que têm em comum, e essa força é sagazmente reabsorvida pelo poder, e contra os átomos-trabalhadores. A “mass-midia”, ao priorizar a dificuldade que o restante dos trabalhadores enfrenta numa greve de ônibus, por exemplo, coloca todas as categorias contra uma, e esta, isolada, tem seus objetivos – que são nobres e comuns – desqualificados.

O jornalismo deveria ser o encontro racional e imparcial da sociedade, no entanto, aliena-a de si mesma, criando estratégica&oportunamente um todo ficcional a contradizer qualquer parte que ameace seus parceiros patrocinadores. Em 1848, Marx afirmou que “a sociedade se divide cada vez mais em dois campos opostos”. Porém, hoje, através da mídia, essa divisão é feita a cada semana, a cada dia, entre quaisquer partes, sempre que a união de interesses comuns ameace a estrutura do poder.

“O movimento proletário é o movimento da imensa maioria em proveito da imensa maioria”, afirmaram os dois comunistas alemães, justamente porque “o preço que se paga ao operário é o mínimo para que ele viva como operário”, não como um ser humano digno de realização pessoal. Só quando o professor explorado se identificar com o metroviário explorado, e estes a todos os outros trabalhadores explorados, é que sobrevirá a possibilidade de todos se libertarem da exploração, esta sim, sistematicamente socializada.

Marx avisou que “as ideias dominantes sempre foram as ideias da classe dominante”. Entretanto, o que mais importa aos trabalhadores são suas próprias ideias, dominadas, sim, porém comuns; e só dominadas porque não unidas. Enquanto as partes necessitadas não se solidarizarem harmoniosamente em benefício de todos, teremos cada uma delas em uma solidão angusta e ineficiente, e, conforme o filósofo alemão, “seus objetivos só poderão ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente”. E é nesse extremo desesperado que o trabalhador é veiculado como vândalo, ilegal, e toda a cartela de predicados que o poder ameaçado tem a oferecê-los.

Uni-vos, porra!

Selfiensteins

De acordo com Sergio Matsuura, o fenômeno “selfie”, no último ano, fez com que a ocorrência de plásticas faciais aumentasse em 10% entre pessoas com menos de 30 anos. Segundo o autor, os jovens decidem melhorar seus rostos devido às impressões que têm a partir de fotos suas postadas nas redes sociais, e à quantidade de “likes” que estas recebem; ainda que, quando diante do espelho, não “vejam” tal necessidade.

A autoimagem pessoal passa a ser submetida, portanto, à autoimagem social e ao efeito que esta causa nas redes, bem como aos “click-retornos” que traz. Consoante ao subjugo que o monstro impôs ao Dr. Frankenstein, estamos permitindo às nossas criaturas virtuais voltarem-se implacavelmente contra nós mesmos, ou seja, seus criadores reais.

Em “Vida Para Consumo – A transformação das pessoas em mercadoria”, Zygmunt Bauman discorre sobre a coisificação dos sujeitos ao exigirem, de si e dos outros, funcionalidade plena; como quando uma pessoa substitui o cônjuge assim que sente que este não mais a faz feliz, aos moldes da substituição do eletrodoméstico que deixa de funcionar adequadamente; ou aqui, do rosto quando este não fotografa bem…

O efeito “selfie” sobre a complexidade subjetiva que cada um de nós é para além do que “aparece”, é, por conseguinte, mais uma volta – e apertada – que damos no parafuso mercadológico apontado por Bauman. Não mais importa como a pessoa percebe a si própria, nem a coisificação primeira, e de nossa responsabilidade, que é a experiência pessoal diante do espelho. O modo como “temos” de ser vistos pelos outros é que oferece, do lado de lá da “touch-tela”, a imagem inexorável que devemos ser.

A transformação da aparência em essência, e o esquecimento desta última sob sua superfície, promove uma aridez subjetiva que, não obstante, revela – triste&pervertidamente – aquilo que é mais humano e essencial; pois, conforme Pierre Bourdieu, “talvez não exista pior carência que a dos perdedores na luta simbólica por uma existência socialmente reconhecida, em suma, por humanidade”.

A Diva História

A História é a gigante duna ficcional composta pelos bilhões de grãos de areia individuais tornados anônimos sob os grandes&icônicos resumos que capitalizam impérios, reis, heróis e gênios. A impossibilidade historiográfica de contemplar a miríade substantiva das individualidades enquanto estrutura do edifício do mundo, figurou, por conseguinte, inadmissível às obras-primas da era moderna, ou seja, às subjetividades burguesas. De lá para cá, com ciência&tecnologia as pessoas foram transformando historiografia em cronologia para melhor marcarem presença individual nas tomadas históricas.

Na esteira da notoriedade, as redes sociais virtuais advém como as novas paredes da caverna contemporânea nas quais todos nos desenhamos rupestremente. Facebook e Twitter, por exemplo, são os murais onde cristalizamos objetivamente nossas subjetividades (opiniões, relações, sentimentos, etc.) como os hieróglifos digitais indispensáveis à compreensão&constituição desse próprio mundo. Essa possibilidade, hoje disponível a cada terminal humano, atende à crítica de Gaston Bachelard de que “os indivíduos não são as testemunhas da evolução, mas seus atores [todos] protagonistas”.

Entretanto, o que resultaria de uma “historiografia-time-line” que dispões de TODOS os dados que tecem a realidade a ser historiografada? Cronologia pura ou a realização plena da História? Por certo que a humanidade sempre foi a obra-prima de todas as mãos, não obstante assinada por poucas. Agora, contudo, essa obra recebe, cada vez mais, as devidas assinaturas individuais, com a fotografia histórica se transformando na “performance-working-process-coletiva” da existência humana por ela mesma.

Empreendemo-nos na dissolução do drama central&unívoco em prol de uma multitude inabarcável de dramaturgias subjetivas individuais, tão anônimas quanto presente, tão grãos de areia quanto os que compõem qualquer duna Histórica. Teatro pós-dramático! Portanto, as subjetivas intenções individuais de participação notória na construção coletiva absoluta, representadas aqui pelo somatório de todas as “time-lines” virtuais online, reconduz os indivíduos ao mesmo anonimato que a História sempre pode lhes oferecer.

Sendo a História essa ficção injusta&inexorável, porquanto absorve todas as originais ficções individuais no mesmo movimento em que as despersonaliza eternidade adentro, podemos encontrar na afirmação de La Fontaine uma confortável verdade em relação à Diva História, e ao anonimato que sua existência necessariamente nos concede, : “As ilusões nunca nos enganam ao nos mentirem sempre”.

Topografia Bissexual

Se há um motivo primeiro no sexo, este é a reprodução, tanto que a natureza dotou-o de um gozo/recompensa que excede o próprio ato para garantir que nenhum indivíduo lhe escapasse. Há muito pervertido em relação à perpetuação da espécie, o sexo, para muitos, é um intercurso indispensável à vida psicológica e social; sexualizados para além da função sexual primeira, mas plenamente abertos a ele por razões pessoais e/ou culturais. No outro extremo temos as pessoas ditas assexuais, que dispensam completamente a prática como se o sexo fosse um acidente a ser contornado, também em benefício de motivos de natureza individual.

Entre esses dois extremos, abre-se a demissexualidade, um espaço a meio caminho da sexualidade plena e da sua recusa absoluta. Os demissexuais são os que não experienciam atração ou atividade sexual antes de estabelecerem conexões emocionais com alguém. Entretanto, havendo sentido afetivo, realizam satisfatoriamente suas dimensões sexuais. A demissexualidade também atende a imperativos e necessidades exclusivamente pessoais; porquanto toda orientação sexual, alienada da preservação da espécie, é uma condição essencial que orbita em torno e em prol do sujeito, como que um sistema-natureza individual.

Todavia, a demissexualidade é trazida aqui na intenção elevar topograficamente o fenômeno da bissexualidade. Heterossexuais são aqueles que “sexuam” exclusivamente com o sexo oposto; homossexuais, com os do mesmo sexo; porém, ambos se orientam em relação a um sexo determinado em detrimento de quaisquer características pessoais não natas. Agora, se a condição para envolver-se sexualmente com alguém é fundamentalmente a afetiva/sentimental, ao modo dos “demi”, o sujeito-parceiro é elevado a tudo aquilo que excede o sexo a ele determinado por uma natureza há muito perdida. A demissexualiidade, então, vem a ser a possibilidade da bissexualidade.

Portanto, já que o “fazer sexo” não mais nos advém como procriação, e é só o prazer-gozo de fazê-lo – ou não – o que importa, importa muito pouco – ou nada – o sexo daqueles com quem fazemos sexo. A demissexualidade, por conseguinte, é o respeito indiscriminado ao humano em sua pluralidade potencial, muito mais que à nossa binária existência animal.

Natureza falha!

O homem historicamente desenvolve uma relação de desrespeito e insustentabilidade crescentes com a natureza, chegando às raias de se repetir na mítica expulsão de Adão&Eva do paraíso no qual nada faltava. Na pré-história, éramos a natureza; já na antiguidade passamos a tentar entendê-la; a modernidade foi o momento de dominá-la; e agora, na contemporaneidade, somos 7 bilhões a destruí-la globalmente. Não satisfeitos em comer do fruto proibido, estamos queimando a macieira, o solo, a água e o ar de todas elas.

Num paraíso não tão distante, em Ipanema, sob a antiga restinga/mangue entre o mar e a lagoa, hoje asfaltado pelo metro quadrado mais caro do mundo, o progresso escava os novos túneis do metrô. Nas últimas semanas, o solo sobre as obras afundou, engolindo calçadas e rachando os espigões de alto luxo. As “gentes ricas” rapidamente mobilizaram as autoridades em defesa do valioso patrimônio, e receberam dos técnicos engenheiros a inacreditável resposta: “foi falha geológica”. A natureza falhou! Estávamos fazendo o nosso mundo e a natureza errou. Que vergonha, que incompetência, merece mesmo ser destruída.

A arrogância inconsequente do homem, “spoiler” há muito ilustrado na parábola bíbllica, foi ignorado tanto quanto é a natureza que sistematicamente destruímos. Da primeira vez, fomos jogados do paraíso para a terra pela bagatela da nossa imortalidade. Perdendo isso que nos restou, e caindo num buraco pior, tendo que pagar com a desvalorizada moeda da nossa reles mortalidade, o que sobra? A inexistência, provavelmente. Retomando contudo a triste história entre homem e a natureza, resta a expectativa de que a era pós-contemporânea consiga revolucionar a crítica relação com o paraíso que lhe sobrou, ou se terá de assumir, a contragosto, que é a sua própria humanidade uma natureza falha.

Entendeu ou quer que eu filosofe?

Ouvi de uma professora que em filosofia não se desenha, pois, por princípio, ela deve ser textual&argumentativa, o que muito frustrou o meu conhecimento arquitetônico e geométrico disponível&impetuoso. Nesse momento, sobreveio a máxima que Platão colocou no portal de sua academia: “Quem não é geômetra não entre”. E, como alguns dizem que toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé das páginas de Platão, desacreditei confortavelmente da minha mestra contemporânea.

No diálogo “Timeu”, o filósofo grego desenha sua epistemologia afirmando ser o conhecimento um ponto geométrico adimensional e perdido no espaço. O deslocamento desse ponto em direção a um fim determinado perfaz, no vazio, uma reta unidimensional, e esta seria a ciência. No momento em que aquele ponto se afasta da reta científica delineada, como que para contemplá-la à distância, triangula-se o plano bidimensional das opiniões. E quando esse ponto se eleva sobre o plano descrito, visando de uma só vez a sua posição inicial, o seu trajeto científico linear e a sua superficial posição opinativa, tridimensionaliza-se um espaço, o único capaz de abarcar a complexidade volumétrica das sensações. Platão levantou sua pena aí.

Entendeu ou quer que eu filosofe?

Distante o suficiente da minha mestra acadêmica, e próximo o bastante de Platão, risco impetuosamente sobre o desenho iniciado há 2.374 anos pelo sábio, e adiciono uma dimensão extra à sua teoria: a quarta, ou seja, o tempo. A intenção é contemplar de uma só vez o conhecimento em seu solipsismo adimensional primevo, o subsequente deslocamento unidimensional científico, a bidimensionalização superfícial das opiniões e a tridimensionalização volumétrica das sensações. A quarta dimensão aplicada sobre o devir epistemológico seria, por conseguinte, a própria filosofia, pois só a ela interessa igualmente todo o processo do conhecimento em todos os seus estágios.

Minha professora, não obstante, tratou o conhecimento simplesmente como o ponto platônico inicial, adimensional e indeterminado, por isso impossível de ser desenhado; somente apontável abstrata&argumentativamente. No entanto, deixando a nota de rodapé na qual a filosofia pós-platônica teima em permanecer, vejo, a partir de Platão, que o conhecimento subsume-se constitutivamente no próprio espaço que ele desenha, ocupa e preenche. As muitas dimensões do saber, da adimensionalidade à tetradimensão, cabem num desenho muito mais que num texto, porquanto nosso intelecto é muito mais um tempo&espaço infinito que a aridez topográfica da superfície de uma página.

Filosofou ou quer que eu desenhe?

Evento constante

Depois de ler Zizek sobre a dessubstancialização das substâncias essências das coisas, tais como o café descafeinado, o leite sem gordura, a cerveja sem álcool, etc., é impossível deixar de ver na nossa sociedade o consciente&engajado exercício conjunto de alienação sistemática em relação ao que é fundamental. Trata-se, segundo o filósofo, de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade: consumir mais, muito mais, daquilo com o qual se havia naturalmente estabelecido certa medida; e a joia-da-coroa atual é o chocolate diet com laxante – veneno&antídoto, juntos&disponíveis à contemporânea fome dissociada da vontade comer&cagar.

A própria ideia de amizade, outrora patrimônio indispensável à sobrevivência mundana e psicológica, foi pervertida, graças às redes sociais, em objetos rasos e inodoros; às centenas, à distância&intensidade de um “touch”, dispensando interação presencial e conversas autênticas. O novo grito memético facebookiano são os muitos eventos virtuais pró&contra – ou nem – qualquer coisa. Eles são os encontros comemorativos perfeitos para os “amigos” que nunca se encontram para comemorar nada. A festa se resume ao convite, para que, finalmente, possamos “participar” de todos os eventos, com todos os “amigos”, justamente por ambos não ocuparem mais tempo e espaço algum: esvaziados de si mesmos.

Aonde esse esvaziamento estrutural leva as pessoas? De primeira, a resposta zizekiana seria: ao empanturramento com vazio, à saciação com o nada das coisas! Entretanto, de forma mais profunda e consistente, estamos às portas da necessidade de uma nova gramática que contemple apropriadamente essa inver[perver]são da realidade que nos contém. Pois, se chamamos inadvertidamente de “eventual” aquilo que é “insistentemente presente”, bem como de “coisa” aquilo que não mais contém a “coisa-em-si”, queimamos nossas preciosas&precisas palavras com aquilo para o que elas não foram feitas. Ficamos, por conseguinte, nós e as palavras, órfãos de uma verdade substancial, sensível, imediata e necessária à compreensão do que se tratam as “coisas-em-si-em-suas-essências-essenciais”.

Educação&Futuro

Em vez de passivamente nos perguntarmos “que educação queremos para nossos filhos?”, a questão deve ser colocada de forma mais imediata e inclusiva: de que educação queremos ser filhos? Essa resposta é fundamental à vida contemporânea que obsoletou o “cogito ergo sum” cartesiano em benefício de um oportunista “me especializo, logo existo” mercadológico. Zigmunt Bauman discorre acerca dessa nova ordem na qual o profissional que sege, digamos, trinta anos na mesma função, ou na mesma empresa, tem nessa estabilidade mesma o maior desvalorizador do “produto” que ele é.

A formação acadêmica deixou de ser a preparação antes de uma carreira para se tornar o processo que entremeia constitutivamente as cada vez mais curtas e sucessivas etapas na vida do sujeito pós-moderno. Daí a necessidade de reavaliarmos o papel da educação na vida das pessoas e, não menos importante, na da sociedade. Heidegger, já em 1920 dizia ser a universidade uma instituição esclerosada por ainda atender às necessidades de uma indústria da segunda metade do século XIX. As nossas, infelizmente, não abandonaram tal práxis, pois seguem formando matéria-prima-humana às demandas do mercado e da economia.

Quem as universidades devem formar hoje em dia? Bons profissionais especializados em cuidar dos próprios umbigos e em acumular três carros na garagem até a gorda aposentadoria privada, e nada mais? Claro que não! Isso já era. Precisamos de advogados, arquitetos, filósofos, médicos, professores, etc., competentes o suficiente para reduzir efetivamente as insustentáveis diferenças sociais existentes no planeta, não para aumentá-las; gente que tenha capacidade inventiva para viver e construir um mundo em harmonia com a natureza, não destruí-la em função de um romântico consumismo individual.

“Se dar bem”, no presente e no futuro, não pode se dar “em relação” aos outros, mas justamente COM os outros, ou todos nos “daremos mal”. É isso que precisa MUITO ser ensinado, do maternal ao doutorado, tantas vezes quantas forem necessárias.

Sofisticados&arrogantes “eus”

O mundo, em primeiro lugar, e o universo, por último, são as melhores e mais eficazes ficções intelectuais a serviço da ordenação do caos que extrapola nossos limitados sentidos e as nossas circunscritas racionalidades. Realidades são os frutos dessas empresas ficcionais individuais; e são tantas as versões quantas forem os seres humanos a experienciarem a miríade incognoscível do real; tantos centros quantos forem os pontos de vista; tantos deuses quantos forem os crentes; tantos “eus” quantos forem os outros.

A filosofia e a ciência são tentativas de centralização unívoca das múltiplas e periféricas realidades individuais. As verdades, tanto as filosóficas quanto as científicas, pretendem-se, por conseguinte, como os centros correcionais irredutíveis para onde todas as versões particulares do real devem se voltar, para então expiarem suas precipitadas originalidades. Um juízo único e funcional é, portanto, preferido no lugar da riqueza complexa e contraditória dos muitos juízos particulares.

Entretanto, as limitações dos sentidos e da razão humana não desaparecem nas empreitadas filosóficas e científicas, subsistindo incólumes, e não menos contraditórias, na construção positiva de suas versões únicas para o plurívoco e irredutível real. Assim como qualquer um ordinariamente crê no mundo que institui ao seu redor, filosofia e ciência acreditam nas suas ficções extraordinárias, figurando somente como mais dois sofisticados&arrogantes “eus” adossados ao rol de todos os outros pré-existentes.

Ignorância e criatividade são os patrimônios naturais sem os quais o homem não teria deixado sua simiesca condição primeva. Foi o desconhecimento em relação ao todo que fez com que cada um inventasse uma satisfatória e particular estória para si, sem com isso reduzir em nada a complexidade daquilo que se ignorava. A ciência e a filosofia são o mesmo tipo de desconforto em relação à miríade de versões que o real profere, porém reducionistas. Felizmente, as ficções seguem brotando nas mentes dos ignorantes e nos corações dos artistas. Com estes heróis, ainda que extremos, o universo está a salvo de uma versão única.

Belles Époques

O que há de mais belo do que um momento que não olha para nada além de si próprio, que suspende a análise do que o antecede ao mesmo tempo em que desconsidera o que o sucederá? Por acaso não são instantes assim que chamamos de felizes? Por certo, porquanto são as elipses nas quais nada mais importa para além do que está contemplado dentro das alienadas fronteiras; delimitação oportuna que afasta a barbárie caótica da realidade em sua inextricável conexão com o todo e com o sempre.

Épocas são nada mais que isso mesmo, períodos onde os laços que as ligam com o todo são inadvertidamente ignorados, como quando estamos entretidos com amigos, às voltas de um bom papo&vinho. Já nos singulares momentos encurralados entre um angusto passado e um imperioso futuro é que estamos inescapavelmente ligados ao contraditório e desconcertante real. São esses os períodos inquietantes que clamam por revolução no sentido de uma nova bela época livre de tais desconfortos.

Pirro de Élis, grego fundador do ceticismo, na sua radical pressuposição da impossibilidade de conhecermos as coisas – e suas conexões com o todo e com o sempre – disse que a única coisa digna de ser feita diante da realidade é a suspensão completa do juízo; e o seu termo para isso era “epokhé”, que deu origem à nossa palavra “época”. Portanto, época vem a ser esse lapso de tempo onde a razão é suspensa em função da sua incompetência em abarcar a complexa textura&conectividade do real.

Uma época gravita essencialmente em torno da própria ignorância em relação às suas conexões externas, exigindo, por conseguinte, atenção estrita naquilo que somente ela mesma é. Entretanto, suspendendo-se tal irracionalidade, e ajuizando-se acerca da contextura subjacente entre a parte – a época – e o todo – o sempre -, sobrevém cognoscível a nossa pirrônica incapacidade de conhecer&aceitar o severo real. A partir daí, tudo que vemos é crise, ou seja, a transição insuportável&necessária do passado para o futuro; o intervalo entre uma época e sua subsequentemente desejada belle époche.

Semovente&Mutante

O que quer que seja que nos mova, isso mesmo é inalcançável, porquanto sagazmente semovente: move-se mais rápido do que qualquer coisa que tente acompanhá-lo, a ponto de ser precisamente aquilo que concede a inércia a todo resto. Se atingíssemos definitivamente esse motor da vida, seria ela própria movida por nós – a vida subjugada pelo que vive – e nós, movidos somente por nós mesmos. No entanto, o sonho de sermos nosso próprio “deus ex machina” é a perversão maior que nunca tardou em expiar tal pecado.

Sendo dinheiro o que buscamos, ao consegui-lo nos damos conta de que não era exatamente ele, ou de que se tratava de mais, ou não somente disso. O mesmo acontece com fama, amor, felicidade, ou qualquer coisa que elegemos como motor. Ao tangermos o tal objeto desejado ele é esvaziado ao seu próprio nome: objeto; e é neste exato momento que sobrevém tudo aquilo que não cabe dentro dessa “coisa”, ou seja, o sujeito e a abertura impreenchível do seu desejo.

Os gregos eram movidos pelos seus ideais etéreos; os romanos, pelo seu objetivo imperialismo; a idade média, por um Deus ideal; o mundo moderno, pelo capital, objetivamente! ; e nós, contemporâneos, pelo ideal de um indivíduo plenamente socializado. Contudo, ao reificar precipitadamente o motivo motor de si próprio – e acreditar cegamente nele – é que o homem encontra nada além do que é movido, isto é, ele próprio; sendo irremediavelmente levado por aquilo que lhe escapa, tomando direções as mais contraditórias: vide o movimento da história.

O que nos move – que é semovente&mutante – não pode, portanto, ser uma coisa determinada, visto que as “coisas” é que são determinadas pelo que as move. O motivo motor do homem parece ser, antes, um inexorável princípio de credulidade na sua própria inércia, e o esquecimento dessa crença mesma. Desejar a posse daquilo que o possui é seguramente o que move o homem, mas é como o cão que corre atrás do próprio rabo, revolvendo-se inadvertidamente sobre suas próprias pegadas, privando-se do revolucionário&gratuito passeio da existência. E “existir” (ex-sistire, em latim) significa “assistir de fora”, não de dentro, não no centro: nós não somos a movida que nos move, e quando somos não nos movemos.

Ângulo&Filtro

É impressionante como pode sobrevir alguma sabedoria, ainda que pervertida, no que há de mais vil nesse nosso mundo-rede-social. A rainha brasileira do “selfie”, na “famefêmera” do seu ritual diário de maquilagem, vestimenta, poses, autorretratos e postagens, aos seus milhares de seguidores redes sociais afora, diz categoricamente que “tudo na vida é uma questão de ângulo e filtro”.

É genial a percepção da garota, ainda que invertida em relação ao seu sentido. De fato, ângulo e filtro, se pensados enquanto ponto de vista e análise crítica, são posturas fundamentais para se perceber a realidade; afinal, a realidade, em si, é nada mais que isso mesmo, o fruto de um ponto de vista e de uma análise crítica: o que se vê a partir de onde se está, e como se vê o que é visto.

Entretanto, a “selfielebridade”, colocando o que é visto a observar quem vê, ao mesmo tempo em que turva “photoshopticamente” essa visão autonomizada no sentido dela não ver o que está sendo realmente visto, e finalmente publicando essa tranversão de si mesma, a “selfieQueen” impõe tiranamente aos milhares de súditos “instagramicos” o seu ângulo e o seu filtro, uns que eles nunca teriam nem aplicariam a ela se lhes fossem respeitados os seus muitos pontos de vista e análises críticas.

Vem, vem, vem-pra-rua-vem! Deixe-se ser vista a partir dos outros ângulos e através dos outros filtros, cadela, visto que é isso que você realmente é: o jeito como o mundo te vê por ele mesmo – não o mundo te vendo sendo vista do jeito que você gostaria de ser vista pelo mundo! Aberração! Assumir que tudo na vida é uma questão de ângulo&filtro é dar-se livremente a estes, não manipulá-los calculistamente; pagando, contudo, o preço de perder tal majestade. O que sobra? A boa máxima, essa sim, vale!

“Moradia é um verbo”

Favelas crescem duas vezes mais rápido que a cidade legal, a uma taxa de 25 milhões de habitantes por ano. Seremos 2 bilhões de favelados em 2030 com as orlas urbanas transformando-se em depósitos de lixo humano&urbano. As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como projetadas por Corbusier nos ‘1920, e cinegrafadas por Tati nos ‘1950, serão construídas de tijolo aparente e restos de madeira; e, visto que onde o mercado imobiliário explora livremente é nas favelas, só teremos favelas sem cidades!

A favelização decorre do aumento da riqueza urbana; no entanto, de acordo com o arquiteto anarquista John Turner, homenageado no título desse texto, os pobres são os ricos sem acesso à própria riqueza, pois a “superurbanização” é impulsionada pela produção da pobreza, não pela oferta de emprego dos detentores dos meios de produção – do capital -, mas sim por aqueles explorados por eles. Turner afirma enfaticamente que as favelas são a solução para as contradições do capital, não o problema.

Mike Davis, em seu livro “Planeta Favela” informa que na cidade do Cairo 2 milhões de pobres moram em cemitérios onde foram sepultadas gerações de sultões e emires. Em Mumbai, 1 milhão vive só nas calçadas, entretanto, pagando taxas regulares a policiais e milicianos. Também culpa os britânicos pela sistematização da favelização asiática e africana, pois eles acreditavam que uma apropriada urbanização promoveria solidariedades anti-coloniais. Sem deixar aqui de lembrar Haussmann, que fez a mais célebre reforma urbana em Paris, no entanto, somente para os burgueses.

Nos países subdesenvolvidos 78% dos habitantes urbanos são favelados, e o perverso&atual elogio social à práxis dos pobres é a tacada de mestre com a qual o Estado se retira da problemática, mantendo investimentos no embelezamento de áreas já beneficiadas da cidade em detrimento dos serviços básicos às mais pobres. Criminalizar as favelas é a estratégia inversa para melhor desassisti-las. E a grande jogada de há quase um século são os jogos olímpicos, os eventos institucionalizados que mais expulsam os pobres das cidades.

A extrema riqueza inverte&perverte o processo urbano natural, e o ideal contemporâneo das elites é o estilo de vida californiano, só que em condomínios temáticos nas periferias, com Starbucks e multiplexes privados, enquanto os pobres se adensam nos decadentes centros urbanos. De acordo com Davis, a busca de segurança e isolamento social é obsessiva e universal, porém, a segregação urbana só permite uma ilusão de proteção, pois, para o autor, o pobre favelado ainda é o maior e mais presente símbolo humano: vítima e herói do movimento social e econômico.

As favelas consomem inclusive as antigas periferias agrícolas produtoras dos víveres necessários ao sustento urbano, bem como os entornos dos maiores reservatórios de água das grandes cidades. Em Nairóbi, por exemplo, a água encanada não é mais potável. Falta de água e excesso de esgoto são as contradições urbanas primordiais, corrompendo o motor fundamental que viabiliza o ajuntamento humano. O urbano do futuro viverá com sede e dentro da merda!

Os antigos gregos instituíram o ostracismo que bania para os arrabaldes o cidadão que alcançava poder e notoriedade em demasia. Hoje em dia, a favela é a orla de um ostracismo duplamente invertido que exclui justamente os já excluídos, e não para longe, pois são eles que justamente sustentam a riqueza – aos moldes do proletariado marxiano -, mas sim para dentro de uma exclusão ainda mais obscena e instituída chamada favela.

Tostão eterno

Paz depois da paz, solução após solução, ordem surgindo da ordem, progresso após progressão? Ilusão imatura de quem é mimado por circunstâncias favoráveis. Paz só depois de guerra, solução só no pé de um problema, ordem só a partir do caos, e progresso só na esteira da estagnação! Dura sabedoria sem a qual não se enfrenta o devir em sua dinâmica intrínseca e contraditória. Paz, ordem, progresso, etc., são somente a “cara” de uma moeda que, contudo, é indissociável da sua “coroa”.

Heráclito de Éfeso, grego de há 2.500 anos, enxergou a misteriosa e profunda força vital que sobrevém da guerra superficial entre os opostos sob uma “natureza que ama se ocultar”. Segundo ele, “o contrário é convergente e dos divergentes, a mais bela harmonia”: o quente nada é esquecendo do seu oposto, o frio. Só é quente aquilo que pode – e fatalmente irá – esfriar. Por conseguinte, só merece ser chamado de vivo aquilo que carrega a morte consigo, visto que, não morrendo, não viveu! Algo só “é” se for ao mesmo tempo o seu oposto e o inevitável caminho de uma ao outro.

Enxergar estabilidade na natureza furta o vivo movimento da existência, pois a fixidez é uma quimera que só existe no mundo insipiente das ideias. Do que se está alienado ao se enxergar o perene e o particular? De acordo com o filósofo grego, do princípio estruturador da realidade, do incondicional fluxo entre algo e o seu oposto que, nesse percurso mesmo, gera a cartela de qualidades e particularidades que inadvertidamente intentamos fixar.

Todavia, se há estabilidade no universo, esta é somente o desejo de permanecermos nós mesmos nele, ou de que algo particular permaneça nele, e para nós: birra contra a subjacente certeza da transitoriedade que atravessa nossa carne, nossos desejos e nossa existência. Fixar um universo que só faz se transformar é perversão que, não obstante, cobra sintomaticamente alto preço, e este é a dramatização da transitoriedade primeira da qual se tentou escapar; daí o medo da morte, da guerra, do caos…

Encarnar a efemeridade absoluta do percurso, sabendo que justamente atrás de qualquer qualidade particular espreita o bote do seu oposto, é a sabedoria que Heráclito nos incitou a buscar por detrás da brincalhona natureza. Sua aposta na contradição é tão profunda que inclusive sugere que, quando queremos algo, devemos buscar justamente o seu oposto, pois não é lá que terminaremos, mas sempre no outro lado da moeda. Só a transitoriedade entre os opostos é qualificável e eterna, só ela vale, ainda que um tostão.

#aristóteles, seu reaça!

#trabalhador é uma espécie de instrumento.
#diferença há entre os artesãos e os escravos?

Não parecem “posts” de um odioso reacionário de direita, homem, branco e rico, da nossa saturada sociedade contemporânea? Aristóteles publicou-as todas em sua “Política”, um manual que procurava investigar instituições que assegurassem uma a vida feliz aos cidadãos.

#macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.
#homem consiste em se impor; mulher, em vencer a dificuldade de obedecer.

Por certo que há 2.300 anos essas ideias estruturaram satisfatoriamente a sociedade grega aos seus cidadãos que, não obstante, eram somente os homens ricos e livres. Já a insatisfação acontecia àqueles que não tinham direito de externá-la nem revolucioná-la.

#exigindo dos escravos e das mulheres virtudes, em que diferirão dos homens?
#somente entre os bárbaros a mulher e o escravo estão no mesmo nível.

O problema é muito menos dos antigos gregos que nosso, pós-modernos-pós-direitos-humanos, porquanto ainda hoje discursos como estes ecoam positivamente aos ouvidos de alguns e, por anacrônica infelicidade, tão negativamente sobre a vida de muitos outros.

#idade para casar as moças é aos 18 anos, para os homens, 37.
#pai de família deve governar mulher como cidadã, filhos como súditos.

Há muito, o centro do poder foi disposto em torno dos falos mais capitalizados e tradicionais. Ignóbil é tal herança insistir&resistir, machista&imperiosa, como propriedade particular inalienável de alguns que, nas suas realizações pessoais, ainda podem dispor despoticamente de muitos seres humanos.

#homem não precisar dedicar-se aos trabalhos servis.
#escravo é aquele que tem tão pouca alma que resolve depender de outrem.

Entretanto, perceber a contraditória contribuição grega que estrutura nossa sociedade ocidental é, no mínimo, frutífero no entendimento das mazelas&engodos subsistentes nas instituições sexistas, exploratórias, patrimonialistas, democráticas, consumistas e antiecológicas que até hoje privilegiam uns em detrimento de outros.

#natureza nada fez de inútil; ela fez tudo para nós.
#para bem viver juntos é que se fez o Estado, sem o quê, a sociedade compreenderia os escravos e até mesmo os outros animais.

Pós-pré-socráticos

Há 2500 anos, os gregos inventaram a filosofia não por necessidade imperiosa alguma, mas justamente pelo motivo oposto, por desfrutarem de uma época de pleno desenvolvimento social e econômico. Foi quando os cidadãos (homens brancos e livres) deixaram de se ocupar com a subsistência – os escravos é que cuidaram disso -, é que experimentaram pela primeira vez o ócio que liberou o pensamento ao imediatamente desnecessário, ou seja, a constituição do cosmos, o ser, etc.

Os helenos de até então não eram habituados às abstrações filosóficas; muito pelo contrário, o homem era o núcleo e a imagem verdadeira da realidade, e nem seus deuses escapavam dessa mundanidade sensível e inalienável, porquanto cheios de paixões destemperantes. Parafraseando Nietzsche, era difícil para os gregos captarem conceitos; ao contrário de nós, [pós]modernos, que facilmente sublimamos o pessoal em abstrações, para eles o mais abstrato retornava sempre a uma pessoa. Tudo o que não coubesse a um homem ou a um deus, isto é, a natureza inteira, era nada além de um disfarce metamorfoseado e passageiro.

Todavia, com desenvolvimento econômico entre as cidades hélades, a adoção do dinheiro-moeda substituiu as trocas de coisas-por-coisas, abrindo caminho à generalização da abstração. O pensar, desvinculado de imagens alegóricas, somado ao tempo livre dos livres, passa a vagear em torno do amor, da amizade, do tempo e, em mínima instância, do átomo! A natureza, por conseguinte, irrompe com uma realidade própria e autônoma, não mais ilusória, mas a ser pensada: cada vez mais determinada e determinante. Deuses e homens, antes senhores do cosmos, encontram-se doravante subjugados e reificados.

Desde então, a empresa entre o pensamento e o capital não cessou de valorar coisas e desvalorizar homens e deuses. Dessarte, o átomo-proletário ateu&consumista é o fruto pós-moderno daquele casamento entre o trabalho escravo e a abastada aristocracia grega ociosa às realidades paralelas. Até hoje a supra-realidade do tempo livre e do dinheiro segue como privilégio de poucos e a expensas de uma massa simbolicamente escravizada. No ócio criativo subjaz, portanto, sempre e em qualquer sociedade, uma injustiça em relação aos fatigados&impossibilitados de reinventarem a si próprios.

Linchamento de ponta-a-ponta

O primeiro linchamento registrado no Brasil é de 1585, com Antônio Tamandaré tendo sido mutilado, estrangulado e queimado por índios insatisfeitos. Se até hoje atos como este conflitam com a evolução da nossa civilização é porque revelam o primitivismo sistêmico da nossa sociedade, visto que o linchamento é muito menos a perturbação da ordem&progresso do que o questionamento de uma desordem estrutural.

Linchar é uma forma bárbara de participar na reconstrução de um mundo que se tornou insuportavelmente assimétrico; é questionamento do poder e das instituições sempre que estas não cumprem sua parte no trato social. A população lincha, sobretudo, para indicar sua indignação com a falta de um Estado eficiente, e esse descontentamento explode em decisões simbólicas, obscenas, súbitas, irresponsáveis e irracionais.

Foucault bem colocou que “na justiça popular há a massa e o inimigo”, onde é exibido “um aspecto de carnaval em que os papéis são invertidos e os poderes ridicularizados”. Um casual ajuntamento em torno de um suspeito faz com que o simples indivíduo seja, a um só tempo, ele mesmo e todo o resto, fazendo coisas que em outra situação não faria. Por conseguinte, e infelizmente, a injustiça a que todos se percebem irremediavelmente atados não figura menor que a vivenciada pelo linchado.

A última linchada do Brasil, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, foi mais uma vítima injusta do mesmo povo insatisfeito&encurralado que incendeia ônibus e destrói agências bancárias, precisamente por este se perceber invisível aos desgovernos do Governo em benefício do 1% que o interessa e o compõe. Devemos, e até podemos, sentir na pele a barbárie a que Fabiane foi submetida, pois, afinal de contas, foi a nossa sociedade mesma que a linchou. Inserir-se, social&politicamente, nessa problemática é a única forma de revolucioná-la.

#descartes #selfie #existo

#odiainteirofechadonumquartoaquecido
#bastantetempodisponívelparaentreterme

Podemos dizer que o “facebook” surgiu em 1637 – mais “book” que “face” – no livro Discurso sobre o Método, de René Descartes, onde o autor conta do luxo solipsista a que pode se submeter em nome dos seus anseios pessoais.

#quetodosapreciemaminhafranqueza
#tendominhaobrameagradadobastantemostroaquioseumodelo

Nessa obra, o filósofo busca a prova racional da sua própria existência, visto que nem seus sentidos lhe serviam mais para tal; e numa inovação pop, deixa de escrever em latim e “compartilha” seus “status” em língua vernácula.

#gostariamuitodemostrarquaissãooscaminhosquesegui
#representarminhavidacomonumquadro

Escrevendo para o povo, e não só para os intelectuais, Descartes desejava “add new friends”, para que assim mais pessoas pudessem visualizar sua privilegiada “timeline” e “curtissem” seu método:

#empregueiorestodajuventudeemviajar
#outracoisanãofizsenãoirdecápralánomundo

Em uma época ainda rançosa de medievalismos, cujo povo era recém-iniciado na sórdida exploração capitalista que o vilipendiaria inimaginavelmente, o filósofo introduz categoricamente a ostentação sobre os desprivilegiados:

#estudeinumadasmaiscélebresescolasdaEuropa
#tivemuitasortedesdeajuventude

Descartes “publicou” sua jornada intelectual afortunada, alienado da realidade circundante, contando, tin tin por tin tin, o tranquilo caminho que trilhou até descobrir a prova que lhe faltava:

#pensologoexisto
#nãopudeimpedirmedeadquirircertareputação

#LOL

Apare-ser

Heidegger fez a diferenciação entre ser e ente, ou seja, entre aquilo que é em plenitude máxima, independente de como é tomado, e suas emanações aparentes imediatas que, quanto mais os sejam, são nada além dos recortes funcionais feitos sobre a textura infinita da realidade. O filósofo fez a analogia do ser enquanto clareira aberta e povoável pela torrente dos entes em suas presenças temporárias.

O ser é o universo de possibilidades que, não obstante, gosta de se ocultar, porquanto a miríade de suas efluências, todas juntas, são irreconciliáveis ao entendimento. Já a aparência é imediatamente dada, ama se exibir precisamente porque é somente uma faceta parcial, insuficiente tanto quanto existente.

Porém, imediatamente, os entes são tudo o que temos. A partir deles é que sempre começamos, pois as aparências acontecem no mesmo instante que acontecemos nós mesmos. Nossa existência dentro da realidade, por conseguinte, começa sempre pelos recortes que dela fazemos: uma parte manuseável do múltiplo ser que bem serve ao transitório agora.

Contudo, o ser guarda em si um mundo que só se revela através da decadência de suas aparências; nunca se mostrando por completo, afirmando-se somente enquanto o excedente que resiste ao aparecer. O ser, portanto, devém da insuficiência dos entes, das aparições. Entretanto, é intuição estratégica sem a qual se transcorre o real alienado de suas infinitas possibilidades.

O ente é o grão de areia ordinário e aparente – o átomo – com o qual nos lançamos na construção da realidade imediata. Já o ser é o espaço extraordinário – o vazio – que se oferece aos nossos castelos de areia que, não obstante, desabam sempre em suas próprias inconsistências.

Cientista no divã

Werner Heisenberg, físico alemão, no limiar de suas investigações quânticas, chegou à paradoxal conclusão de que quanto mais o homem pesquisa, menos do que é pesquisado é descoberto, e mais daquilo que ele próprio deseja encontrar é evidenciado. O limite último de qualquer resposta é tão somente quem pergunta, visto que uma dúvida busca nada além de sua origem mesma. O que chamamos de verdade é, portanto, simplesmente o seguro, confortável e temporário distanciamento entre o homem e ele mesmo.

Um local onde esta distância é transposta sistematicamente é na psicanálise. Lá, nenhuma verdade afora o próprio sujeito analisado atende a quaisquer questões. Procuramos por respostas às nossas perguntas fundamentais primeiramente no mundo, nos outros e nas coisas, como que esperançosos em escapar do insaciável vórtice que subjaz no cerne do nosso ser. No entanto, qualquer resposta que não tenha o inexorável “eu” como centro gravitacional absoluto tem prazo de validade e funcionalidade determinado.

No entanto, esse “eu” que subsiste como resposta final a qualquer pergunta é uma ficção, não existindo para além da ilusória colcha de retalhos de várias experiências desconexas ao longo do tempo e do espaço. Somos indubitavelmente um “eu” simplesmente porque é esse que coloca todas as perguntas, tenham elas respostas ou não. O “eu” no final de toda questão é a estrutura quimérica que insiste teimosamente uma existência; por isso a voraz necessidade de questões.

Contudo, recusando-nos como resposta última às nossas próprias perguntas e pesquisas profundas, criamos o mundo todo em resposta à única pergunta que não quer calar, e que na verdade nem foi feita para ser respondida.

Mariola indigesta

E se fosse um tomate, #seriamostodosoque? Já que há um ano essa fruta foi capitalizada a ponto de fazer jus ao seu nome em italiano, “pomodoro” (fruto de ouro), receber uma tomatada seria até um elogio! Já bananas, não! “Yes”, nós as temos para dar e vender, mas não gostamos de recebê-las.

Há muito o brasileiro é embananado pela sua classe política, bem como pela economica, e a esse empalamento estamos bem habituados. Agora, bananas também no ópio futebolístico do povo? Bananas por todos os lados? Isso já é demais! Uma aqui, outra ali, tudo bem; mas em todos os buracos, não!

Entretanto, se o tal jogador embananado tivesse manifestado indignação e revidado agressivamente ao insulto que sofreu, talvez “as redes” tivessem menos #hashtagsindignados. Sobrou para nós, os enfastiados com tanta banana, e não menos para as estrelas privilegiadas, desacostumadas a engolir a fruta, o espaço de ofensa e protesto.

“Não brinque com a comida” e “Não alimente os animais” são proibições subjacentes contra as quais lutamos desde criança. No entanto, houve a brincadeira – de mau gosto e criminosa – e não menos que isso, o animal (racional) se lambuzou com o que lhe foi jogado, ao vivo e no palco mais sagrado da nossa sociedade do espetáculo. #Somostodos o bando de adultos estridentes reprovando as malcriações que nos foram negadas. De uma banana particular fizemos uma mariola generalizada&indigesta.

Lugar-não-lugar

Na década de 1990 foi cunhado o termo “não-lugar”, por Marc Augé, para denominar locais sem suficiência significativa às interações humanas, como por exemplo, aeroportos, shopping centers, estacionamentos, estradas, etc. Vinte anos depois, estes “não-lugares” são demasiadamente estruturais e significativos na nossa sociedade hiperconsumista, não mais admitindo tal rótulo. É fácil observar isso nos “rolezinhos” que colocaram os “shoppings” no centro nevrálgico da vida de milhares de jovens; e no fato de ter onde estacionar o automóvel ser tão – ou mais – importante quanto o “lugar” para onde se vai. Cada vez mais se ouve: “não fui porque não tive onde estacionar”.

Os clássicos “lugares”, onde exercíamos genuinamente nossa humanidade, ou seja, a nossa casa, a sala de jantar, a casa do amigo, etc., acolhem cada vez menos significados e representam, por conseguinte, os lugares onde não se faz nada, onde nada de mais acontece: um “não-lugar”! O tédio e a sensação de estar perdendo algo ao se permanecer num lugar é a prova da saturada insuficiência deste. Somente em trânsito, e em meio ao trânsito de muitas outras pessoas, é que sentimos autenticamente nossas atividades. O “não-lugar” passa a ser portanto o lugar perfeito para a movimentada e desconjuntada vida contemporânea.

Há 2.500 anos, o filósofo grego Anaximandro já dizia que o “não-lugar”, chamado por ele de ápeiron, era o “não-local” a partir do qual os infinitos mundos que percebemos são criados e destruídos, conforme a necessidade. Para o filósofo, o “lugar” era nada mais que uma ficção espacializada do desejo de ambiência, tão confortável e adequada às necessidades de permanência e estabilidade. Entretanto, vinte e cinco séculos depois, a histórica&ilusória edificação do “lugar” solapa frente ao dinamismo inerente à vida, e somos devolvidos, efervencentes, ao volátil espaço de transição do qual, na realidade, nunca saímos.

Ao saber, as nuvens

O homem desconhecedor do mundo e de si criou o Deus que tudo sabia, e ofereceu à criatura, feita sua miragem e dessemelhança, um lugar especial e acima de todos: as nuvens.

Com o progresso científico moderno, muito do divino deveio mundano, e as pessoas herdaram a plena liberdade para conhecer e dominar a natureza com suas próprias mãos. Entretanto, mesmo desvencilhados dos desígnios etéreos sobre a materialidade de suas vidas, os homens mantiveram nas nuvens os seus grandes imperativos morais: o firmamento enquanto conector virtual da humanidade.

Na esteira da evolução, a epopeia enciclopédica do Século XIX fez o download de toda sabedoria divina necessária à vida dos homens; e esse conhecimento fundamental, espalhado pelo chão do mundo pós-moderno, sistematizou-se “em rede”, valorizando ainda mais o terreno em detrimento do divino. Não obstante, o paraíso permaneceu vivo simplesmente por sua inutilidade.

Ironicamente, no cibertecnológico mundo contemporâneo, a sabedoria absoluta reina binária e liberta de qualquer materialidade contingente, pairando onipresente sobre a cabeça de todos, na “nuvem”. Por conseguinte, o éter celeste volta a ser o receptáculo e o administrador perfeito daquilo que é mais valioso aos humanos: a informação e o conhecimento acerca de si e do seu próprio mundo.

Quando inventou sua própria ignorância, o homem precisou colocar a sabedoria bem acima de si, em esferas divinas não alcançáveis. Contudo, uma vez instituído na plena ciência do seu mundo, ele sintomaticamente repete a ancestral elevação do seu saber às nuvens, como que culpado por tê-las esvaziado na sua sede de saber.

Bando de comunistas!

Pensando bem pequeno, muito aquém de sistemas ou estados, o comunismo existe simplesmente no considerar o indivíduo “de acordo com SUAS habilidades” e “de acordo com SUAS necessidades”. É exatamente isso que acontece quando, por exemplo, um amigo nos pede um favor, ou quando uma vizinha pede ajuda com as sacolas das compras: fazemos o que essas pessoas precisam sem cobrá-las por isso justamente porque entendemos, verdadeira e humanamente, SUAS necessidades.

Somos naturalmente comunistas, visto que não saímos por aí cobrando por tudo que nos pedem. E sabemos ser o comunismo inerente às relações humanas porquanto pedimos inadvertidamente favores ao longo de nossas vidas, pois acreditamos que as pessoas podem entender&atender às nossas necessidades e (privações) de habilidades. Fosse o ser humano um capitalista nato&pleno não pediríamos ajuda nem ajudaríamos gratuitamente.

O comunismo é a forma humana de relacionamento por excelência, pois são as incessantes trocas não monetarizadas – com a família, amigos, vizinhos e colegas – que nos fazem humanos e que resolvem nossas questões essenciais. Bem sabemos quanto a boa conversa com um amigo não tem preço! De fato, só uma parcela muito pequena das nossas necessidades e habilidades pode ser convertida em capital. Entretanto, quando isso acontece, o que é capitalizado se torna acessível aos outros somente em troca de mais capital.

Mantemos vivo o germe comunista nas instâncias que nos são mais preciosas, até onde sentimos na nossa pele a pele do outro. A partir daí, esse outro deixa de ser um sujeito e, infelizmente, é objetivamente reificado. Capitalismo é o que bagunça esse comunismo ordinário e cotidiano que resolve&envolve gratuitamente nossas mínimas e humanas coisinhas.

Façamos o favor!

Tudo é favela

Subi o Vidigal, na Zona Sul do Rio, corrigindo-me sempre que pensava ou chamava aquele lugar de favela. “Comunidade” é o termo politicamente correto e socialmente adequado que fomos instruídos a usar. Aos políticos, esse novo nome agrega a ideia de algum trabalho correto sobre os irregulares aglomerados. À sociedade, dizer “comunidade” é adequado porque diminui – mesmo que somente no discurso – a cruel dissimetria entre as duas formas urbanas, sua indesejada, porém inalienável responsabilidade.

No entanto, uma visada da comunidade a partir de cima mostra que se trata de uma favela mesmo! Não pela desassistência de serviços e infraestruturas bem ofertadas&cobradas no asfalto, tampouco devido à sua marginal ocupação originária, mas precisamente pela econômica justaposição espacial. As casas são construídas umas ao lado e por sobre as outras como favos em uma colmeia. “Favela” refere-se originalmente a um conjunto de favos: “justas estruturas usadas para armazenar alimento ou para o desenvolvimento da cria”.

Restaurada a adequação do termo “favela” às comunidades, foi no asfalto que novamente o conceito de favela se mostrou. A bela&asfaltada Copacabana, com suas centenas de prédios de muitos andares densamente justapostos, com seus milhares de apartamentos ladeados&encimados por tantos outros milhares é, por conseguinte, nada mais que uma imensa&ortogonal favela de cem mil favos imobiliários legais&especulados.

Contudo, se as comunidades ainda permanecem como estruturas “favelares”, é precisamente porque a cidade nunca deixou de ser economicamente constituída pela unidade básica, celular e agregável do favo. Comunidade ou cidade, tudo é favela.

1822 não existe

O tempo pode ser divido em anos, dias, segundos, etc., tantos instantes quanto quisermos. A despeito das elipses nas quais o delimitamos ficcionalmente, ele permanece um só, inteiro. Entretanto, esvaziado de sua substância à medida que recortado. A fatia de 360 dias é uma instrumental abstração para um entendimento limitado, deixando de fora, não obstante, as realidades. Tampouco conseguiríamos a onisciência de todos os instantes correlacionados; isso é coisa de deuses e googles.

O ano da independência do Brasil, por exemplo, é visto em uma tarde por um aluno escolar. Um adulto que lê um bom livro sobre o ano, ao longo de semanas, percebe que 1822 é um mundo bem maior que aquele; já um pesquisador histórico, em uma vida inteira, não consegue descobrir tudo o que houve naquele período. 1822 foi, absolutamente, todos os seus eventos: os grandes&icônicos, os menores&articuladores e, principalmente, os mínimos&substantivos! Cada movimento, cada intenção individual foi, quanto mais não seja, substrato&alicerce indispensável.

É inesgotável o que existe dentro de 1822, ainda mais considerando tudo o que em 1821, 1820, e regredindo até o Big Bang, tem relação fundamental com seu preciso acontecimento. Sem esquecer que 1822 também é, necessariamente, seu próprio reflexo nos anos posteriores, até o momento presente. O ano da nossa independência não existe sem tudo antes dele + tudo até aqui. Sua independência do tempo, por conseguinte, é uma ficção. Permanecemos, contudo, colonos do soberano temporal, submissos à sua secreta miríade de determinações indetermináveis. De momento em momento, momentaneamente protegidos da dissolução tempo afora.

Sincero descaramento

Quando disse à minha psicanalista que não dava mais pagar pelas consultas, elas passaram a custar a metade do valor até então cobrado. Ao reclamar o preço do xerox, na minha faculdade, o cara passou a me cobrar 1/4 do valor inicial. O creme dental “Oral-B” prescrito pelo meu dentista tem uma versão não prescrita, de mesma fórmula, nas partes baixas das gôndolas, custando a metade do preço. E agora, até a “Barilla” oferece a mesma&deliciosa pasta em embalagem opcional por 1/3 do valor da tradicional.

Livrar-se da perversa exploração subsistente&estruturante da vida cotidiana parece impossível, por certo. E a percepção objetiva da dupla, tripla, quádrupla, e até da quíntupla, mais-valia a que estamos sorrateiramente submetidos é visão fundamental que, no entanto, mostra mais a inexorabilidade da prisão que o caminho da liberdade.

– Sim! Exigiremos o máximo até que você não possa mais pagar! A partir daí, cobraremos o preço justo (hahahahahahaha), só para que você não deixe de seguir pagando! Qualquer um que tenha tentado se livrar da NET sabe bem o que é isso… Ao menos no derradeiro, o mundo tem a sinceridade de assumir o preciso descaramento com o qual nos vilipendia.

O esforço máximo em pagar o tanto que nos é cobrado é que abre a sórdida possibilidade para se esforçarem tanto em nos cobrar maximamente. Não custa muito para que as coisas não custem tanto, e o preço disso é o questionamento do preço em si. O valor com o qual os valorosos se valoram vale somente suas sobrevalorizações, nada mais! E se o capital é inexorável, que ele explore a todos igualitariamente, ora bolas!

Narciso acha feio o que não é selfie.

O narcisismo é acessível a todos! Porquanto a forma mais fácil e inútil de amor – disfarçada de amor-próprio. Sentimento que não deixa a própria reflexão e que não atinge a mais ninguém. É isso que o narcisismo é: uma maneira de amar a si mesmo como a ninguém. Precisamente por isso o narcisismo é injusto inclusive com quem o pratica, pois mesmo esse deveria amar a si mesmo como a alguém.

A bíblica – e atualmente nonsense – proposição “amar ao próximo como a si mesmo”, é mais evidente na sua inversão: “amar a si mesmo como a um próximo”. E por “próximo” devemos entender “qualquer um”. Devemos amar a nós mesmos como amamos a qualquer um, pois é exatamente isso que somos: qualquer um! Amar aos outros e a si mesmo da mesma forma é o grande desafio que, infelizmente, é facilmente desertado.

Hoje, o espelho é “smartphonado”, e o “selfie”, a tentativa narcísica goela do mundo abaixo: “olha o que eu sou enquanto tento ser isso”. Nosso olhar próprio só sabe mostrar o que queremos ser, não aquilo que somos. E o que somos é o que realmente interessa ao mundo, não aquilo que queremos ser. Entretanto, esperar que o mundo nos enxergue, e que devolva gratuitamente tal imagem, exige coragem e comporta risco; ainda assim, é somente o olhar dos outros que revela quem somos.

No lugar do “selfie”, que só enquadra o narciso, o generoso e descompromissado olhar sobre os outros, que os revela através dos nossos olhos. Ver os outros para que se sintam vistos, para que existam. Só assim seremos vistos genuinamente através dos seus olhos, e é essa a imagem que diz verdadeiramente o que somos. O amor-próprio deve ser o reflexo do amor que temos pelos outros, ou acabamos desidratados diante do espelho d’água no qual nos refletimos masturbatoriamente.

A carne do museu

Na era das cirurgias plásticas, dos filtros “instagramados” e dos “selfies photoshopados”, fica bem difícil saber do que se trata simplesmente ser humano. As filas homéricas para ver as esculturas ultrarrealistas de Ron Mueck, no MAM do Rio, falam de uma remanescente&saudável curiosidade acerca da vida que subsiste às exibidas “timelines” individuais.

A pelanca, a pele manchada, o cabelo falho, a velhice, o tédio, o tempo inútil, – imperfeições naturais tão desnaturalizadas –, tudo isso, hoje em dia, é coisa de museu! Quando a vida é instituída no extraordinário “selfie” da sua melhor parte, a matéria ordinária&não-editável de que somos feitos grita e fascina enquanto – e somente enquanto – objeto; e de arte.

As incontingências da carne e do tempo, evidenciadas diariamente no solitário espelho ao lado do chuveiro, nas mulheres do ônibus, nos homens da praia, são exatamente as mesmas expostas no MAM. Entretanto, somente dentro&através de uma instituição, no caso, a arte, é que se tornam belas&suportáveis.

Mueck “extraordinarizou” a inexorável realidade humana em sua crua imagem&semelhança. E, a um museu de distância, ganhamos a pervertida segurança em relação à ordinária decrepitude que insiste&assiste a tudo que vive “off-line”.

Sim, só que não!

O princípio da não contradição, formulado por Aristóteles, estabelece que uma proposição não pode ser verdadeira E falsa ao mesmo tempo; ou, do contrário, não há possibilidade de comunicação nem de pensamento . Afirmar que algo é e não-é afirma nada, e o produto dessa afirmação é a falta de sentido, o nonsense.

Hoje em dia, vemos um pervertido investimento na contradição em afirmações do tipo: “a ideia dele é ótima, só que não”. Nesses casos, temos uma essência contraditória intencional que exige uma sobrecompreensão: existência lógica e ilógica, simultaneamente. É como botar dois inimigos na arena e ver quem sobrevive para só então escolher a favor de quem torcer.

Dizer “eu gosto de filosofia, só que não”, por exemplo, é não dizer nada acerca do gosto por filosofia: é covardemente não tomar a posição pressuposta de um dizer sobre o gosto por filosofia. Dizer ao modo de não-dizer; ser nada querendo ser algo; nonsense buscando sentido; o ilógico – na elipse pré-lógica – tentando logicidade. E não é essa a evolução do caos à ordem?

Aristóteles estava certo, só que não.

Na cama com Parmênides

Há 2.500 anos, Parmênides revolucionou a filosofia com o seu poema de três movimentos. Na primeira parte, ou preâmbulo, ele narra uma epopeia mítica, forma usual até então, com cavalos alados, ninfas, véus, etc.. Na segunda parte, a grande revolução: Parmênides deixa de lado a poética mítica e pari a prosa argumentativa abstrata, falando sem rodeios do ser e da verdade. Já na última parte, ele abandona sua inovação textual e faz uma cosmologia, utilizando-se novamente dos elementos míticos para falar do universo.

Os três momentos da obra falam de deuses, verdade e opiniões, respectivamente. A tradição até então existia entre deuses e opiniões, e Parmênides, no meio do seu poema, inventa a verdade definitivamente distinta daqueles. Ele fode com a tradição da época! Aqui, uma analogia com o coito é bem apropriada:

Imaginemos que o início do poema seja o momento primordial da corte, onde a deusa, intocável e desejada, exige o usual “chaveco” dentro dos padrões estabelecidos; ou, do contrário, não sucumbirá à investida. E ele usa as palavras que ela quer!

Na segunda parte, descortinados todos os véus da divina, Parmênides cai sem dó nem piedade sobre o seu objeto de desejo, repetindo falicamente até a exaustão o seu é, não-é, é, não-é, é, não-é, é, não-é, etc… Orgasmo!

Finalmente, depois de ter ejaculado sua verdade, Parmênides acende o cigarro “post coitum” e relaxa sobre o acolchoado de suas opiniões mundanas. Na terceira parte, ele divaga sobre as coisas e sobre o cosmos como que por divagar. Sem ter mais que conquistar a deusa despida, fala qualquer coisa.

Contudo, a poesia parmenídica foi feita para recomeçar, “ad eternum”: endeusando o objeto, lambendo sua verdade nua-e-crua, e terminando sempre nas opiniões acerca de tudo isso.

A velocidade da paisagem

Com nossas gerigonças atuais demoramos 80 horas para chegar à Lua, enquanto que à velocidade da luz, levaríamos somente 1 segundo. Querendo ir à Plutão, o mais distante planeta do sistema solar, teríamos 5-horas-luz contra 130-anos-ônibus-espacial, sem escalas nem serviço de bordo! Para apressar suas pretensas viagens, o pensamento humano empenha-se em alcançar tal velocidade máxima.

Contudo, a velocidade da luz, por rápida que seja, também demora um tanto – o seu tanto – para ir de um ponto a outro. Porventura desejasse velocidade maior, a luz teria somente a velocidade do pensamento humano no seu horizonte de possibilidade. Isso porque o pensamento simplesmente anula tempo e espaço para cruzar quaisquer confins do cosmos, podendo ir, por exemplo, do sol a Netuno, instantaneamente, se assim pensar.

Portanto, ao desejar a velocidade da luz, o pensamento humano não deseja maior velocidade, mas sim um limite universal de velocidade a si mesmo: deseja tempo para poder apreciar a paisagem, e não estar onde pensa no exato momento em que pensa. Para tanto, é necessário acreditar ser a velocidade da luz a maior possível…

“Smart” colonizadores

Temos a ideia de que o ser humano é o colonizador-mor da natureza, que ele está no topo da cadeia predatória, dominando estrategicamente os outros seres e territórios em exclusivo benefício próprio, preservando-se e reproduzindo-se exitosamente sobre a face da terra.

Estamos plenamente convencidos de que a natureza e a cultura servem subservientemente aos nossos interesses, entretanto, tal ideia pode ser uma estranha ideologia a dissimular a situação de colonização plena à qual o homem está sendo submetido.

Hoje há mais aparelhos celulares no Brasil que brasileiros: 199 milhões de pessoas contra 270 milhões de aparelhos. No resto do mundo a situação não é diferente. Estes “gadgets” são seres não-naturais que chegaram recentemente à face do planeta e cuja dominação utiliza vida de seres humanos como substrato de replicão e perpetuação.

Um ser extraterrestre que observasse a relação entre a humanidade e os celulares, certamente diria que os “smart” aparelhos dominam com vantagem a cena: bilhões de pessoas interconectando estrutural e irreversivelmente suas relações e atividades através de um ente digital, “desdeeniizado” como um vírus, que suplanta com vantagem seus usuários em número.

Se a vida no planeta desaparecesse agora, restariam menos cadáveres humanos que aparelhos celulares. E estes ainda marcariam presença insólita no globo terrestre por muitos séculos por sobre a poeira de qualquer osso…

… um “espaço do seu tempo”, por favor…

Então eu falo ao garoto do telemarketing que só tenho um “tempo do meu espaço”, nada mais. Ele hesita um instante e inicia sua caminhada através do meu tempo. Já eu, no espaço dessas linhas…

O que cargas d’água ele quer dizer com “espaço de tempo”? Por certo que o meu tempo, mas definir previamente um espaço para isso me parece capcioso. Fosse só o tempo, eu poderia encerrá-lo a qualquer instante – afinal, não é isso que o tempo mais faz consigo mesmo? Mas, sendo também espaço, tenho eu de percorrê-lo todo, até o fim, para só então de deixá-lo?

“Espaço de tempo” é uma ideia que dimensiona previamente um transcorrer temporal, que assegura a dois distantes pontos do tempo – e a todo o recheio – ser uma coisa só. É como fotografar a duração sem que ela deixe de durar. História é o referente perfeito à expressão “espaço de tempo”: a visualização “espacializada” de um devir qualquer. Essa é a armadilha telemarketingniana!

Como o meu impertinente “tempo de espaço” ajuda a me desvencilhar do atendente? Penso na evolução dada de determinado lugar, por exemplo, o bairro de Copacabana: nos últimos cem anos esse lugar deixou de ser o arrabalde de chácaras esparsas para se tornar a densa princesinha dos prédios – e preços – altos. Sua evolução urbana é o tempo desse espaço.

No entanto, o termo “lugar” é uma superficialização demasiada do universal absoluto que é o espaço. Tomo então todo o espaço disponível como objeto de investigação: o próprio universo. “Tempo de espaço”, portanto, refere-se primordialmente à expansão desse mesmo universo. E não é o que acontece com o espaço desde o Big Bang, espacializar-se?

O espaço só é enquanto expansão ao longo do tempo; e o tempo, enquanto duração através do espaço. Um é medida e verificação do outro. A disputa entre esses dois deuses universais primevos gera uma tensão materializada cujo nome oficial é gravidade. Quando nem o espaço, nem o tempo arredam pé, o excesso obsceno dessa dupla presença é o universo propriamente dito; as coisas em si; o peso.

Parágrafos à frente, o “espaço de tempo” do atendente encontra sua fronteira derradeira, e ele me solicita uma posição definida. Entretanto, o meu “tempo de espaço”, expandido dos limites iniciais, e afrontado pelo tempo decorrido, materializa gravitacionalmente o peso do telefone, e a ligação, inevitavelmente, cai!

Ela morreu

A notícia. Silêncio. Antes que a tristeza desse seu primeiro passo em minha direção, um lapso temporário no qual, para além da má nova indesejada, só existia a história da minha irmã que acabava de acabar.

Eu era o espectador perdido que não entendia o enredo da trama. Entreato. Só um cigarro existia no meu horizonte de desejo. Então, caminhando do hospital até a tabacaria mais próxima, procurava, no ar quente daquela Porto Alegre do dia vinte e sete de janeiro de 2014, nicotina e pistas do que e de como sentir. Afinal, o que fazer antes de doer demais?

Lembrei então de um assalto que eu havia sofrido há alguns anos, quando dirigia o carro do meu mestre cenógrafo, Rodrigo, nos arrabaldes daquela mesma cidade. O ladrão me levou para o meio de um matagal, jogou-me no chão, e colocou o cano da arma na minha nuca. Parecia meu último momento. Naquele instante, o mato no qual meu rosto estava enterrado brilhou verdejante como nunca; seu cheiro explodiu ácido como que em narinas virgens; e a estrila dos grilos era de um timbre de surpreendente intensidade.

Os minutos foram passando… Eu não morria. Olhei para trás e o assaltante não estava mais lá. Ufa! Olhei novamente para a grama. Só que a cor especial havia desaparecido. O ruído e o cheiro também eram novamente pálidos, soterrados pela minha existência mais uma vez assegurada. Incrível foi que somente na iminência da morte a vida se mostrou em sua gratuita plenitude e exuberância.

De volta à antessala do meu luto, no trajeto até o cigarro, aquele ar quente e úmido do verão portalegrense tinha cheiro, cor, densidade. As palmeiras da Avenida Ipiranga me diziam verdades absolutas só por balançarem. Até o cheiro da poluição era uma surpresa à respiração. Mais uma vez o protagonismo da morte me afrontava com a sua antagonista inerente: a vida.

Acendi o cigarro, e cada tragada me devolvia o mundo em sua incompletude: cada vazio sendo preenchido por uma falta, até que o vazio deixado pela minha Graziela se apresentou absoluto: falta sensível e presente, mundana e doída. Não mais a vida se apresentando na iminência da morte, mas a morte, na iminência da vida.

Protoderradeiro

Não faz sentido chamar de primeiro o que não é seguido de um outro; tampouco dizer que é último aquilo desprovido de um anterior. O primeiro somente é o último em se tratando de algo único. Aliás, o único existe somente por insistir, eternamente e em todos os lugares, sua “primeiritude” e “ultimidade” contemporâneas.

O tempo, por exemplo, é algo único. Mesmo constituído de infinitos instantes, estes não são propriamente o tempo; ao contrário, é a partir do tempo que é possível o instantâneo. O tempo é o que há em sua categoria, nenhum outro o antecedeu, e nenhum outro o sucederá. Qualquer outro que se insinue é somente mais do mesmo.

Entretanto, o “agora” é o exclusivo instante do tempo que é único em si, sempre presente, deslizando itinerante por sobre todos os instantes, genérico, adimensional e atemporal. É a Diva do tempo! O “agora” nunca deixou de ser o instante único através do qual todos outros vêm a ser: o único que já foi, é, e será todos os instantes.

Outro exemplo de unicidade absoluta é o espaço. Mesmo aparentando ser o somatório de todos os lugares, o espaço é que contém todos eles. Antes do espaço não havia nada como ele, e uma vez dado, não há mais espaço para qualquer outro. O espaço já é tudo o que precisa ser.

Contudo, o “aqui” é o singular lugar do espaço que se auto delimita como único, nunca localizado nem fixo, onde quer que esteja. O “aqui” é a vedete do espaço justamente por sua particular capacidade de ser qualquer lugar, inclusive todos eles. O “aqui” é genérico, adimensional e atemporal, à medida do “agora”.

“Agora” e “aqui” são únicos precisamente por se recusarem à temporalidade e à espacialidade absolutas: são as verdades incontestáveis do tempo e do espaço. O tempo só é único por que história do “agora”, e o espaço, enquanto horizonte do “aqui”. A relação que existe entre todos eles é de pura gravidade.

Único é singular, e “Singularidade Absoluta” é o que os cientistas chamam de Big Bang: o nascimento do tempo e o surgimento do espaço. “Aqui” e “agora” são supernovas singulares cujas nebulosas, plenas de gravidade, são o desenho do espaço e do tempo no universo protoderradeiro.

Mente do diabo, oficina vazia

“Mente vazia, oficina do diabo” definitivamente não é lema para os budistas. Na verdade, essa é a primeira ideia que deve ser jogada no lixo por qualquer um que almeje o tal Nirvana. O diabo, para essa filosofia oriental, é justamente a presença constante dos pensamentos.

Já aqueles que levam o provérbio a sério encontram, cedo ou tarde, a insuportável paráfrase invertida: Agenda lotada, próprio inferno! Esse angustiante “hades” é o pervertido “éden” da era da hiper ocupação; e os smarphones “facebookados”, seus anjos caídos.

A atribulada mente pós-moderna se esvazia ocupando-se com as toneladas de informação que brotam nos quatro cantos do seu mundo. De nada serve adentrar o Nirvana sem fazer o devido “check in”. O anacrônico tédio e o vergonhoso ócio não encontram “app” algum na superfície “touch screen” desse planeta.

Os capetas os quais a mente “cheia” teme são os seus próprios desejos e paixões; e o diabo é só esse eficiente totem esculpido por um deus cristão. Estar à toa também é pecado capital para o Deus Capital; para este, a paz de espírito está disponível somente nos corredores dos “shopping centers”, nas agências de viagem, nos wi-fi’s de banda larga, etc.

Entretanto, uma cabeça vazia não comporta nada além das distorções de suas próprias perspectivas: “satanazinhos-de-faz-de-conta”; “capetinhas-devaneios”; “luciferzinhos-imaginações”; “coisa-ruinzinhos-sonhos”; “belzebuzinhos-fantasias”… Somente a realidade desaparece no vácuo mental, não as nossas quimeras individuais.

Talvez só o diabo, ele mesmo, possa alcançar o utópico Nirvana: sem culpa alguma abandona a oficina para deixar seus diabos à solta na mente.

Gozo Existencial

Anonimato, fama e celebridade acontecem ciclicamente enquanto devir de todo Ser. Seja na esfera individual, seja capitalizado culturalmente, o Ser percorre esses três espaços constitutivos da experiência existencial; não obstante, sendo reconduzindo ao início do ciclo, “ad eternum”.

“Anônimo”, em grego, significa “sem nome”, sem identidade. Antes de nascer – ainda sem nome -, ou no meio de uma multidão – já sem nome -, o anonimato assegura existência ao Ser contra qualquer tentativa de determinação. Anonimato: primeiro gozo a despeito da inexistência!

“Fama” (Phêmê) era a deusa grega incumbida de expressar toda a informação possível acerca dos homens e dos demais deuses. O Ser, por conseguinte, ao se aventurar para além do solipsismo primordial, age como a deusa, reportando ao mundo um nome e todo seu panteão de características individuais. A fama é, contudo, um “sobre-gozo” existencial.

Já “Celebridade”, que em latim significa abundante, ilustre (e “illustre” diz “embelezado”) é a assunção e o sucesso da aventura famosa. No extremo da celebridade o Ser é cada vez menos o que ele propriamente foi; alienado de sua essência fundamental. O célebre “É” simplesmente por que celebrado. Sobretudo, a celebridade é um gozo “trans-existencial”!

No final do ciclo um extremo encontra o outro, e a inconsistência pública toca derradeiramente a substância anônima. A condição de possibilidade existencial na celebridade descerra um correlato inerente: o anonimato. O mais celebrado de todos é ao mesmo tempo, subjetiva e verdadeiramente, o mais anônimo. Um grande sobrenome oculta o Ser tanto quanto o inominado.

Gozo existencial é desejo e criação, e entrementes contempla a destruição. Só assim a roda do Ser gira “ad infinitum”.

À prova de si mesmo

É impossível se arrepender de um arrependimento. Esse sentimento é protegido de si mesmo, pois querer que ele desapareça é desejar a recorrência do erro. Arrepender-se é manter o ato na sua própria esfera de cometimento; é, a um só tempo, o espelho, a face do erro e a reflexão propriamente dita.

O arrependimento é o desejo-de-não-ter-feito encurralado pelo desejo-de-não-mais-fazer. Comprime estreitamente passado, presente e futuro através de uma angusta e inalienável casuística. É o agora sofrendo o antes em função do depois. Senda demasiado próxima do Real, onde o desvio se identifica com o atalho.

Todavia, há certos gozos no arrependimento: a descoberta de limites auto-impostos inconscientemente e evidenciados somente na ultrapassagem dos mesmos; a consciência de não ter ficado aquém do possível – o que pode ser uma dúvida cruel -; e por fim, gozo na antevisão de um horizonte livre daquilo que, no momento, o macula.

A gravidade do arrependimento é suspensa à medida da transformação que provoca. Entretanto, pode perdurar indefinidamente, seja por alguma obscuridade reminiscente da consciência que o sofre, seja porque a lição não tenha ainda oportunizado futuro algum para si. Mesmo quando eternamente presente, o arrependimento é evolução, é excesso de certeza; leva, no mínimo, para além dele mesmo.

A Utilidade do Inútil

À primeira vista o útil parece melhor que o inútil. É até difícil imaginar o contrário. No entanto, suspendendo o campo gravitacional com o qual o útil se sustenta, ele perde suas grandes e aparentes qualidades, a ponto de figurar muito abaixo do inútil.

Nossa vida pode contar com o que é básico ou com o luxo. Com qual desses dois a inutilidade se identifica? Com o luxo, é claro, pois esse não é fundamental, é excessivo e dispensável. Por conseguinte, o inútil é um luxo! Já aquilo sem o qual não podemos passar, o extremamente útil, é o básico, ordinário. O útil certamente é importante, mas o inútil, imensamente superior.

Se alguém vê em você uma utilidade irresistível, seu dinheiro, sua aparência, etc., esse lhe toma por objeto. A utilidade, então, rebaixa o ser ao seu nível mínimo: o de coisa. Mas se esse lhe pergunta sobre o amor, ou sobre a situação da Crimeia, por exemplo, sua resposta não lhe resolverá a vida, obviamente. Todavia, é justamente por não ser útil, e ainda assim considerado, que você é tomado como sujeito, o máximo na hierarquia do ser. Portanto, a inutilidade faz de você uma pessoa, enquanto a utilidade, coisa.

O inútil, por não ter função prevista, excede qualquer situação. É aquilo que se dá ao luxo de corroborar uma subjetividade. Já o útil serve a um fim bem determinado. Existe para ser descartado tão logo cumpra sua tarefa. A unidirecionalidade utilitária, objetiva e mortal, não faz frente à miríade de inutilidades que preenche o tridimensional horizonte do desejo humano. O útil serve para algumas coisas, por certo. Mas é o inútil o eterno cenário desse devir.

1979 U’s

Aos cinco anos de idade a minha hiperatividade pediu algo além das folhas brancas nas quais eu costumava desenhar, e onde, inadvertidamente, me perdia. Troquei-as, naquela tarde, pelas pautadas, repletas de linhas e margens. Essas prometiam materializar melhor tempo e direção àquela inquietude infantil. Não sabia escrever, é claro. Nem os numerais todos. A única coisa aprendida até ali eram os dígitos do ano corrente. De resto, uma ideia de sabedoria ainda esvaziada dessa mesma.

Inaugurei o caderninho espiral com a “hidrocor” vermelha, intitulando primeiramente minha certeza maior: 1979. Duas linhas abaixo nascia o desenho de um texto. Eu desconhecia a grafia das palavras que imaginava, só que elas existiam. Então, enfileirei sequências de “Us” cursivos, em grupos de três, quatro ou mais. Em algumas horas o calhamaço estava preenchido.

Meu primeiro texto surgiu assim, bem datado e com o conteúdo mais abstrato e subjetivo de toda a minha vida. Meus pais adoraram! Mais pela paz que experimentaram enquanto eu “garranchava” entretido&solitário do que, obviamente, pelo teor da obra…Perguntaram o que tinha sido escrito, e eu sabia contar e recontar a estorinha que se escondia atrás das linhas e mais linhas de “Us” sequenciais.

Trinta e cinco anos depois, vinte e cinco letras e seis numerais a mais, cá estou, enfileirando novamente tudo o que sei, tentando dar conta dessa vernacular inquietude que permanece. Entretanto, a distância que separa essas justas palavras daquilo que deseja ser realmente escrito é insuportavelmente intransponível. Letra alguma deu conta, até aqui, do desassossego desse espírito que se quer descrito.

Se, como dizem, o limite da minha linguagem é mesmo o limite do meu mundo, “eita” mundão de meus Deus!

Bobagem Filozoófica

A filosofia busca saber, há 2.500 anos, o que é o “ser”, e todas as brilhantes mentes tentaram, sem sucesso, resolver essa questão. Se já é difícil saber o que são coisas bem conhecidas de todos, como o amor, a verdade, a justiça, etc, imagine tentar esse “ser” sem nada além dele mesmo!

Imaginemos, por um instante, que os animais pudessem ruminar, filozooficamente, tal pergunta a si mesmos, o que responderiam?
De forma alguma “ser” estaria desvinculado de algo bem objetivado, como a fome, o sono, o medo, a vigília, o cio, etc. Para os bichos, só essas coisas – coisas! – podem ser…Que utilidade teria “ser” sem nada mais além dele?

Entretanto, para o homem, “ser” insiste mesmo no nada. O paradoxo reside justamente na histórica ausência de resposta à eterna pergunta filosófica. Poderíamos forçar a barra e dizer que “ser”, simplesmente ele, objeta ironicamente uma pergunta boba que não tem resposta!

Todavia, para que os animais não “instintem” que nós humanos somos irracionais, demasiado irracionais, digamos, aqui, que “ser” mantém viva uma pergunta que fazemos quando não há nada mais a perguntar.

“pequenos-Eus”.

O olhar revela tudo, menos o olho que lhe dá origem. Estamos sempre do outro lado da paisagem, a ponto de acreditar que ela anteceda a visada em si. Todavia, o elemento que compõe o quadro é o correlato positivo do desejo que o pintou. O negativo é o desejo, e ambos são primeiros: espaço vazio que se preenche com o seu esvaziamento mesmo.

O próprio “eu” é sujeito à imagem do que ele não é: todos os outros. “Eu” é o que não consegue ser através de qualquer outro: aquilo que resta; a “orfandade” do universo adotada por um paroxismo egoísta que não dá trégua! Nada além do caos determinado desejando-se ordem possível. O “Eu” é a fuga do fantasma que primeiro o assombra: a inexistência.

Não obstante, o posterior disfarce positivo, sem o qual a negatividade primeira não se revela, é mentira dupla: falseta acerca da essência inconclusa&desejosa do ser e, ao mesmo tempo, a dissimulação dessa mentira mesma. Uma mentira para a mentira! O ser enquanto a mentira do nada, justamente porque o nada é a verdade do ser.

O universo individual é a tela branca sempre já pintada com todas as cores e formas; cada vazio preenchido imediatamente antes de ser percebido como tal. A mínima coisa já deve figurar plenamente antes mesmo de revelar-se completamente. Projeção cinemática espetacular positivando cada sórdida&inconsistente negatividade. Pequenos e infinitos “eus” desejosos&inconclusos criando desesperadamente a mesma quantidade de “outros” que lhes devenham.

Entretanto, se o vazio é asfixiante, o todo, na mesma intensidade, é acachapante! Tantos “pequenos-Eus” ricocheteando-se e atomicamente entre si, escondendo uns dos outros suas próprias ilegitimidades: eis o caos retomado e ameaçando todo o edifício do ser! Uma mentira a mais, sobre tantas outras, não há de ser a ruína de uma fundamental ilusão! Pode-lhe ser combustível inclusive! Mintamos, então, excessivamente!

Todos os fantasmas, corpos etéreos e primeiros de todas as coisas do mundo, devem, contudo, ser representados por menos personagens: economia cênica. Em vez de tantos “pequenos-Eus” insipientes, um bom resumo da ópera clama por uma estrela maior, uma que iluda para muito além do espetáculo. Depois do aplauso final, é a eterna imagem da “Diva” que mantém o encantamento indefinidamente.

A suprema figura do “Grande-outro”, portanto, chancela perfeitamente a farsa maior, coagulando a estrutural miríade de incompletudes que é o ser para o lado de lá da imagem que vemos. O desejo materializa-se justamente no que impede sua materialização.

Ainda sem deixar o espaço dramático do ser, nada representa melhor a ilusão máxima a qual podemos nos submeter do que a absurda destemperança da Diva ao dizer: “Oh! O universo está contra mim!”.

Do Outro Lado do Mármore.

Um admirador perguntou a Michelangelo como ele havia feito seu Davi a partir daquele bloco de mármore, e ele respondeu: “Simples, eu olhei a pedra e então retirei dela tudo o que não era o Davi!”.

O curioso que questionou o gênio renascentista acreditava que a escultura havia sido feita a partir de fora, da superfície bruta e amorfa da matéria, com o aventureiro trabalho do cinzel a transformar o disforme em forma plena. Pensava o simples homem que uma obra-prima certamente deveria ser feita do mesmo modo como ele construía a sua própria vida: aos poucos, através de tentativas e erros, e sem saber bem do resultado.

Entretanto, Michelangelo não fez nada além de resgatar aquele ser perfeito do excesso de mármore que, por milhões de anos, o privava de seu espetacular devir. A visão lá dentro do grande artista encontrou no interior secreto daquele bloco amorfo um correlato irresistível. Duas maravilhas recônditas, uma no homem e outra no mármore: a ideia genial e a excelência formal.

Quanta humanidade em ter a obra só no final do processo! Quanta genialidade em tê-la desde o início! As duas maneiras, por certo, exigem trabalho e espera. Porém, no primeiro caso, o empreendimento é solitário, sem a presença do objeto desejado até que todo o trabalho tenha sido feito. Aí só há a busca. Já no segundo, esse objeto é presente o tempo todo, amigavelmente camuflado do seu próprio devir.

Presente, passado e futuro são inextensivos e contemporâneos na genialidade: Davi já espreitava enclausurado na rocha a partir do instante em que essa era visada, na pedreira, pelo olho do artista; passou a revelar-se pacientemente, blasé à mão que o desnudava na talha, até a última martelada; para então, livre de tudo o que não era ele próprio, passar à existência eterna, para muito além de sua materialidade.

Nas “obras-nada-primas” da vida cotidiana nas quais nos lançamos, muitas vezes acreditamos estar como aquele curioso que primeiro indagou Michelangelo, longe do nosso Davi, separados dele por tempo e esforço. Entretanto, como só o gênio pode mostrar, o desejo de Davi já é o Davi por excelência: ele já nos aguarda, bem ali, do outro lado da superfície marmórea, desde o instante em que começamos esculpi-la.

Fênix Capitalista

A poluição e o lixo humanos, frutos podres e malditos da boa vida que todos almejamos desesperadamente, sistematicamente reconstituem o planeta: a água dando lugar ao esgoto e aos venenos químicos; o ar, ao monóxido de carbono e ao dióxido de enxofre; assim por diante.

Espanto e preocupação com a degradação do meio ambiente são posturas que bem agregam valor ao produto social que somos, sem com isso representarem revolução alguma no preocupante quadro. Atitudes ecológicas acabam por ser mais um produto de consumo que no mais das vezes piora a situação. Não nos esqueçamos da ação da prefeitura do Rio, no “Réveillon Ecológico” de 2013, que para pregar a preservação da natureza usou toneladas de fogos de artifício de cor verde, muito raros – e caros -, dezena de vezes mais poluente que os já poluentes fogos convencionais.

Fundamental mesmo para o bicho humano é trocar com cada vez mais frequência aparelhos celulares, “tablets” , TVs L.E.D, carros, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc. Hierarquizamos perversamente esses bens de consumo em detrimento da capacidade de absorção e renovação da natureza, e não há sinais indicando que deixaremos essa senda nefasta. 

Alienados&entretidos, não realizamos – ou não queremos realizar – que a fabricação de uma simples camiseta, por exemplo, polui 2.500 litros de água, uma calça Jeans, 10.000 e um par de sapatos, 8.500!!!. Um básico “rolezinho” individual inviabiliza mais de 20.000 litros d’água. Pensemos nos nossos guarda-roupas, em todos os que já tivemos! Vestimos e descartamos inadvertidamente lagoas inteiras durante as nossas curtas, porém intensificadas vidas. 

Queimamos cada vez mais carvão nas nossas termelétricas para suprir nossos “ares-condicionados-divinos” que brotam em qualquer cubículo onde haja presença – e até ausência – humana. O ar que vestimos é infinitamente mais importante que o ar que respiramos. Fato! É como se quiséssemos regredir às pré-históricas glaciações para não transpirarmos a insalubre fogueira das vaidades que criamos.

A destruição da natureza, por devastadora que seja, simboliza nossa evolução. Depararmo-nos com essa degradação gera um gozo perverso e pulsional: estamos todos sim consumindo e vivendo ao máximo! Ebah! Entretanto, tudo tem seu preço, e poluir é só mais um deles. Felizmente temos na salvação do planeta o próximo produto a ser consumido na próxima “season”!

Contudo, não há indícios de que o meio ambiente seja salvo ou preservado devido suas insubstituíveis características. Seguimos evoluindo como se, em si, ele não tivesse importância inerente alguma. A natureza só existe se utilizada pelo homem, fora disso ela não merece atenção. É para que nossos (meus!) filhos saibam o que é um mico-leão-dourado que essa coisa maravilhosa da natureza deve seguir existindo, mais nada.

Em uma matéria sobre o lixo excessivo na Baia da Guanabara, hoje pela manhã, a jornalista da Rege Globo condenava tal situação simplesmente por prejudicar o funcionamento das barcas Rio-Niterói. O lixo entope os motores das embarcações e o custo disso é altíssimo à Barcas S.A. O ponto alto da reportagem foi o comprometimento dos interesses do Comitê Olímpico Internacional nos jogos próximos. Nada sobre os botos intoxicados e agonizantes! O que realmente importa, em primeira e última instância, é o capital econômico, cristalizemos isso!

Despoluirão a Guanabara sim, mas é para que Barcas S.A.s e Comitês Internacionais fiquem satisfeitos e possam seguir lucrando – e poluindo. A recuperação ambiental é um excelente negócio para quem quer seguir destruindo o planeta. O sonhado&impossível moto-contínuo pode encontrar aí sua descida à realidade: poluir e despoluir intensamente, ad eternum, e assim manter o movimento da roda sórdida do consumismo capitalista. 

O capital tem o poder de destruir completamente a natureza. Entretanto, somente ele, hoje, tem o poder de reconstruí-la, para melhor consumi-la. 

Oxalá o meio ambiente seja Fênix e renasça das próprias cinzas!

Filosoprima-dona

Uma leitura filosófica é como um dueto de vozes em ação: de um lado o filósofo-prima-dona do evento cantando suas ideias e, de outro, o leitor/ouvinte acompanhando ativamente cada palavra/melodia da ópera. 

Entretanto, esse acompanhamento que fazemos ao ler não pode se dar em silêncio, pois isso seria calar nosso espaço próprio de atuação na cantata e, de certa forma, deixar a estrela principal a sós num Odeon vazio.

Tampouco o canto em uníssono acrescentaria algo de novo ou de melhor ao espetáculo, isso só duplicaria o que já está dado: a quantidade homogênea do volume ocupando todo o desejado espaço da heterogeneidade tímbrica.

Um frutífero dueto filosófico acontece quando o leitor acompanha o autor em uma linha melódica paralela complementar – uma “terça” ou “quinta”, “alta” ou “baixa” – acrescentando brilho ou peso, abertura ou suspensão à partitura ideal. Dessa forma é possível fruir, simultaneamente, a melodia principal do autor, a secundária, do leitor e a precisa distância que as separa e constitui: espaço promissor e convidativo, porém vazio e necessariamente impreenchível.

Funcionando a opereta nessa dupla e fecunda harmonia, a magia polifônica de uma terceira melodia cantada por ninguém (a própria filosofia?) brota espontaneamente para além das duas iniciais. Brilha aí, virtualmente, o fundamental acorde maior, universo onde todo e qualquer ruído encontra lugar.

Goiaba Azul

A Goiaba pode ser azul! E também pode nem ser ela mesma…

Num voo da Cia Azul peço, como sempre, um pacote de “Goiabinha” (biscoito de massa assada envolvendo um pedaço de goiabada). Na embalagem, logo abaixo do nome em grandes letras, outras, menores, estampam o sedutor slogan: “A Goiaba em todo o seu esplendor”. Não muito longe dali, bem do outro lado do pacotinho, abaixo do obrigatório quadro nutricional, uma ressalva em letras minúsculas seguindo um pequeno e deslocado asteriscozinho: 

“Esse produto não contem goiaba”.

Vivemos na era da “dessubstancialização” da substância básica das coisas, da “desessencialização” da essência essencial que constitui um ser: café sem cafeína, leite sem gordura, cerveja sem álcool, guerra sem baixas, riqueza nas dívidas e, a 10 mil metros de altura, a goiaba sem goiaba. Nada de novo, só mais do mesmo. Nesse caso, menos…

É incrível como algo que não é a goiaba em si pode ser tão ou mais suficiente que a fruta verdadeira. A Goiaba Azul é sempre deliciosa, com a mesma consistência e constante tonalidade, e será exatamente assim, para sempre! Qualquer traço de sazonalidade é excluído da goiaba quando se exclui a goiaba dela mesma. 

Os gregos bem sabiam que as coisas são o que elas não são para nós. Destrua todas as cadeiras do mundo e ainda assim a “coisa” cadeira existirá mais perfeita do que nunca. Toda e qualquer cadeira material só faz atrapalhar e desdizer a cadeira em seu devir esplendoroso. Assim é a Goiaba! Qualquer goiaba natural sempre será um tanto menos goiaba do que desejamos – um tanto ácida, um tanto machucada, um tanto bichada, ad infinitum. 

Impossível é encontrar algum defeito na CH³COOCH²CH³! Isso é o que queremos quando queremos a goiaba! A fruta verdadeira, que envolve e carrega essa precisa e preciosa fórmula, é o que nos atrapalha e distancia daquilo que a goiaba pode ser em seu esplendor!

Portanto, a Cia Azul, ao afirmar, na antiecológica embalagem hiper-publicitarizada, que o “esplendor” da “goiaba” está na sua ausência, devolve uma verdade platônica fundamental soterrada pela materialidade contingente do nosso mundo.