Homem lobo solitário do Homem

solus lupus

Homo homini lupus”, ou seja, o homem é o lobo do homem, disse o dramaturgo romano Tito Mácio Plauto em 200 a.C., máxima que o filósofo inglês Thomas Hobbes, dezoito séculos depois, usou para justificar o contrato social que institui o Leviatã, isto é, o Estado, cuja função primordial é a de proteger os homens da morte violenta. As palavras de Plauto e o posterior uso que Hobbes fez delas, a meu ver, explicam muito melhor o fenômeno assaz contemporâneo, bastardo do terrorismo, encarnado nos “lobos solitários” do que a ideia fácil que diz apenas que “os lobos caçam solitariamente”.

Quanto mais não seja, porque a recência dos “solus lupus” na arena contemporânea ainda nos deixa com muito mais perguntas do que respostas. Pois bem, que o lobo solitário age desconectado de organizações terroristas, digamos assim, oficiais, é óbvio pelo próprio nome. Obscuras, todavia, são as ideias que o move. Provavelmente, a ideologia insólita do lobo solitário seja um híbrido de psicopatologia, ignorância, frustração pessoal e informações desconexas que ele saca da mídia e das redes sociais, porém, diante da qual é impelido incontrolavelmente ao terror. A sombra ideológica na qual vive o lobo solitário faz com que entendê-lo seja tão difícil quanto prever um ato seu.

Agora, se como dissemos no início, afirmar que “o homem é o lobo do homem” é uma metáfora para o fato de o homem ser o seu próprio e maior inimigo, quem então seria seu amigo? Impossível não lembrar do provérbio popular “o cachorro é o melhor amigo do homem”. E interessante é recordar que esse amigo canino, como sabemos, é um produto propriamente humano, cuja matéria prima foi justamente o lobo selvagem, ou seja, o inimigo. Essa gradual domesticação do lobo selvagem em cachorro amigável, portanto, nos recoloca na questão hobbesiana da instituição do Estado: o “homo homini lupus”, domesticado pelo Leviatã, porventura não se tornou o “homo homini canis”?

Da perspectiva da ideia de Hobbes e da imagem do lobo/cão, porventura o lobo solitário terrorista não estaria querendo mostrar que dentro dos canis que são os nossos Estados a paz e a amizade que eles deveriam assegurar não estão mais funcionando? O terror que ele traz ao mundo por acaso não seria o recado de que na verdade voltamos a ser lobos de nós mesmos, ainda que sob o uniforme de cachorro? Só mesmo muita alienação para não ler nos atos dos lobos solitários um protesto radical, por exemplo, contra o capitalismo, esse lobo-em-pele-de-cachorro que vive livre e dominante no canil, fazendo dele, não um ambiente pacífico e amigável, muito pelo contrário, mas o açougue-de-guerra ideal para matar a sua fome voraz e engordar indefinidamente.

Pensando nos lobos solitários, é impossível também não lembrar da “Idade do Lobo”, expressão usada para falar da fase da vida na qual certos homens, por volta dos 40 anos, entram na famigerada “crise de meia idade”. A psicologia explica que na Idade do Lobo os homens percebem que não viveram as suas vidas conforme desejaram porque seguiram apenas as regras da sociedade. Isso os leva então a querer fazer tudo o que nunca fizeram, e com pressa, pois sentem que não lhes resta mais muito tempo de vida. A patologia a ser percebida aqui é a seguinte: o Lobo busca desesperadamente “fazer as coisas que não fez” em vez de simplesmente “fazer o que gostaria de fazer”.

A analogia entre o lobo solitário e o homem na Idade do Lobo é válida. O terrorista insólito seria aquele que, a certa altura de sua vida, percebe que é escravo de um sistema opressor muito maior do que ele; que é vítima de imperativos extrínsecos que não o satisfaz, nem tampouco satisfará. Então, a certeza de que sucumbirá em breve o leva a fazer coisas que nunca fez. Senão a primeira, com certeza sua mais pungente ação é se revoltar radical e violentamente contra o seu opressor, o próprio sistema. Note-se, seu desejo era o de viver livre da opressão, mas o seu ato patológico se resume em oprimir quem o oprime. Ou seja, produzir justamente mais daquilo que ele queria que houvesse menos.

A expressão Idade do Lobo, todavia, é inspirada no conflito psicopatológico analisado por Freud e nomeado por ele de “O Homem dos Lobos”. O Lobo freudiano é o indivíduo vítima de um excesso pulsional causado pela sensação de castração devido à sempiterna “ausência do pai ideal”. Como essa falta é cada vez mais insuportável, ele se vê num processo vicioso de, por um lado, admiti-la e, por outro, negá-la. Em suma, esse dilema resulta na “divisão do eu”, ou seja, a divisão do ego como forma de defesa. Um “eu”, resignando-se à falta, renuncia ao seu desejo frustrado, e o outro “eu”, porém, desmentindo o primeiro, nega a realidade e se recusa a aceitar qualquer limitação.

O lobo solitário terrorista, da perspectiva do “O Homens dos Lobos” freudiano, seria o indivíduo cujo “pai ideal” faltante se apresenta enquanto “mundo ideal ausente”. Nesse ínterim, orbita em torno desse mundo ideal alienado sem no entanto alcançá-lo, tal é a estrutura da pulsão. Se, ao contrário, atingisse a sua meta, isto é, o centro da órbita onde esse objeto idealizado foi colocado por ele mesmo, teria a frustrante visão de que tal mundo –assim como o pai ideal- não existe. Para evitar essa sobrefrustração, a velha sensação de castração lhe convence do contrário, e assim o lobo solitário permanece na órbita pulsional.

Então, o “Solus Lupus”, egoicamente, divide-se em dois: um dos quais, aceitando a falta insanável e renunciando ao desejo frustrado, foge da inexistência desse mundo idealizado; enquanto o outro, negando a realidade e se recusando a limitar o seu desejo, segue obsessivamente na sua busca. Ao mesmo tempo nega e afirma o mundo ideal. Só mesmo a forma pulsional para resolver esse problema: orbitar em torno do mundo ideal faltante, tanto para assumir centrifugamente a sua ausência, quanto para ainda mantê-lo centripetamente no seu horizonte de possibilidade. A tensão é grande. Só que a tentação de seguir buscando o objeto impossível é maior do que a resolução de abandoná-lo.

Lacan diz algo importante acerca da pulsão: o objeto que jaz no centro da meta, para ele o “petit objet a”, é desde sempre algo a nunca ser alcançado. Com efeito, o objetivo pulsional primordial nunca foi alcançá-lo, e isso porque o gozo da pulsão é tão somente a busca, não aquilo que é buscado. Compreender essa paradoxal dinâmica é fundamental para entender o lobo solitário. Decerto ele sabe que, no fundo, o terror que promove é tudo menos a realização do mundo que idealizou. Mas como o “petit objet a” do lobo solitário, qual seja, o mundo ideal não é para ser alcançado, apenas buscado, o mundo real piorado que o seu ato terrorista produz acaba sendo espécie de altar para o seu mundo ideal impossível

A violência e a morte que o lobo solitário traz ao mundo real, com efeito, é a tentativa de convencer todos à sua volta de que a busca obsessiva da qual ele não consegue se ver livre é mais que necessária. Sua solidão quer aprovação coletiva, todavia, mediante um convencimento absolutamente reprovável. A contundência de seus atos, sem dúvida, só reforça a ideia de que um mundo melhor precisa ser construído. Só que ele, vítima da pulsão, antes de todos já sabe que tal mundo não existe, que é só um fantasma: o negativo de sua presente e insuportável sensação de ter sido castrado do mundo que idealizou solitariamente.

Para Freud, “O Homem dos Lobos” seria o “Édipo invertido”, isto é, aquele que, em vez de matar o pai e casar com a mãe, acabou desejando o pai, todavia sob o preço de se colocar no lugar da mãe. E para se ver livre, tanto desse desejo homossexual pelo pai, que ele crê não terá espaço na realidade, quanto da identificação com a mãe, que por seu turno estimula aquele desejo, o Édipo invertido se esconde atrás de um fetiche/máscara cujo objetivo é ocultar dele próprio a frustrante irrealização de sua dimensão sexual. Por trás do semblante viril com que “O Homem dos Lobos” segue vida adentro, no entanto, jaz a triste expressão da distância dele em relação ao seu mais profundo desejo sexual, desde sempre negado.

Seria demais, contudo, investigar aqui a possível homossexualidade do lobo solitário. Basta que tenhamos em mente o seguinte: a frustração diante da impossibilidade do seu grande desejo, nesse caso, o mundo ideal; a angústia de permanecer em lugar que não o seu, que no entanto estimula aquele desejo; e sobretudo o mascaramento disso tudo mediante uma virilidade radical que pode ser bem representada pela sua adesão insólita ao terror. Esse semblante terrorista pretende mostrar duas coisas: de um lado, que o mundo real é insuportável, e, de outro, a patológica insistência no mundo ideal. O fetiche do lobo solitário terrorista, portanto, é a destruição pública e violenta do mundo real para com isso dar realidade ao seu mundo idealizado.

Seja “O Homem dos lobos” freudiano, seja o lobo solitário terrorista, ambos causam mal aos outros porque, primeiramente, causaram mal a si mesmos: ao perceberem suas frustrações -experiência fundamental porque humana, demasiado humana-, em vez de compreendê-las, no entanto, desvalorizam-se imediata e cruelmente. Nesse microambiente desconfortável, lançam perguntas a si mesmos e ao mundo, todavia, fugindo das primeiras e investindo radicalmente nas segundas. Egoísmo e covardia digladiam-se dentro deles. Mal insuportável cuja saída é uma sintomática sobrevalorização individual que tanto os convença de que ainda podem conquistar o que lhes falta, como também os dispense das suas muitas e não respondidas questões.

Por certo que a belicosidade destrutiva do Homem dos Lobos freudiano é bem menor que a do lobo solitário terrorista. E isso porque objetos que o primeiro elege como responsáveis por suas frustrações são mais concretos e tangíveis: sua sexualidade, seu corpo, sua profissão, sua família, etc. Já os do segundo são assaz abstratos, e por isso mesmo, dificilmente alcançáveis: a humanidade, a sociedade, o Estado, o capitalismo, e por aí vai. Contra estes, cuja medida obviamente escapa a qualquer indivíduo, pois só começam a ser dimensionáveis a partir da perspectiva de uma coletividade, o lobo solitário só pode agir desmedidamente. Nesse sentido, e talvez somente nesse, alistar-se ao terror do Estado Islâmico seria mais promissor do que do que investir insolitamente no terror.

Porém, terror algum será capaz de fazer do mundo um lugar melhor. Como então tratar desse mal? Não é uma opção colocar o Estado Islâmico no divã. Todavia, assim como “O Homem dos Lobos” deve aceitar a sua homossexualidade para então se ver livre da asfixiante pulsão que mascara a sua  frustração; e assim como o homem na idade do lobo deve parar de perder tempo com o que até então não fez, mas compreender que há, de um lado, coisas que jamais realizará, e, de outro, realizações possíveis que ele bem gostaria de fazer; assim também o lobo solitário deve aceitar a sua irremediável limitação individual diante dos grandes problemas mundiais e dos desmedidos desafios que impõe a si mesmo.

Em outras palavras, o lobo solitário precisa mais que tudo rever a sua meta, redimensioná-la à modéstia do indivíduo que é. Participando de uma organização terrorista, ele seria apenas menos patético, porém, igualmente patológico, monstruoso e condenável. Sem dizer que não estaria reduzindo o problema do mundo, mas, ao contrário, radicalizando-o brutalmente. A modéstia que seria bom o lobo solitário adquirir é a consciência de que a saída para o problema que lhe afeta é tão somente política, e não despótica, como a sua impotência solitária mascarada de potência terrorista sopra no seu ouvido. E é muito mais fácil um déspota se convencer disso do que um Estado despótico.

A psicologia diz que a “Idade do Lobo” pode ser uma crise importante na vida de alguém, uma vez que envolve tomadas de consciência próprias do humano, tais como das rígidas imposições sociais; dos limites próprios da vida; da desmedida dos desejos individuais; e sobretudo da necessidade de se produzir um futuro com mais liberdade e oportunidade de realização. Da mesma forma, para o que aqui eu chamo de “A Idade do Lobo Solitário”, ou seja, o momento crísico e individual no qual alguém cogita ser um terrorista insólito, pode também ser positivo, porém, se, e apenas se, for o átimo no qual esse indivíduo finalmente toma consciência, digamos assim, do mal da sociedade a ser combatido sem trégua, não solitária e barbaramente, mas coletiva, política e civilizadamente.

Ora, não é alienígena para ninguém aquela vontade de, como se diz, “chutar o balde”, isto é, explodir o patrão capitalista, jogar os homofóbicos na fogueira, metralhar os racistas, socar os machistas etc. Decerto que sempre nos depararemos com o semibárbaro que se esconde sob a nossa civilidade. Porém, civilização é superar as nossas resistentes barbáries sem replicá-las. É nesse sentido que até mesmo o lobo solitário terrorista, porque também está com um pé na civilização e outro na barbárie, tem a oportunidade de saltar o lodo bárbaro que vê diante de si para quiçá alçar um patamar mais elevado de civilidade. Afinal, se o próprio da humanidade foi ter dado esse salto, essa mesma experiência, ainda que particular e solitariamente, pode fazer o mesmo com terrorista.

E o leviatã hobbesiano, que fez do “homem lobo do homem” o “cidadão amigo do cidadão”, é talvez a maior encarnação da civilização. Barbárie alguma pode oferecer produto melhor. Se alguns discordam disso, trata-se, novamente, apenas de uma combinação confusa de psicopatologia, ignorância, frustração pessoal e informações impróprias. O lobo solitário, se tomasse consciência disso, perceberia que é mais fácil desfazer essa sua confusão e, com calma, tratar as suas mazelas pessoais, do que, antes, sair solitária e desesperadamente tentando mudar o mundo. Afinal, coagir os outros à mudança para não precisar mudar nada em si mesmo, além de ser despótico, é injusto é absolutamente reprovável.

Esse ensaio sobre os lobos mais simbólicos do mundo, contudo, ficaria incompleto se não falássemos do Lobo Mau de “A Chapeuzinho Vermelho”. Nas palavras do seu autor, o francês Charles Perraut, “o Lobo é um tipo com uma disposição receptiva – sem rosnado, sem ódio, sem raiva, mas dócil, prestativo e gentil, seguindo as empregadas jovens nas ruas, até mesmo em suas casas. Ai de quem não sabe que esses lobos gentis são de todas as criaturas as mais perigosas!” A moral perraultiana da estória é trazida aqui para refletirmos sobre muitos dos depoimentos de parentes e amigos de lobos solitários terroristas. Em suma, geralmente ouve-se daqueles que estes são pessoas boas, trabalhadoras, divertidas, amigáveis, amáveis até.

É perturbador confrontar tal dimensão, digamos assim, civilizada dos lobos solitários com a barbárie que promovem. A solução, obviamente, não é evitar aqueles que se aproximam receptivamente, como disse Perrault, “sem rosnado, sem ódio, sem raiva, mas dócil, prestativo e gentil” só porque podem ser “criaturas as mais perigosas”. Isso seria se privar da civilização ela mesma. Talvez a moral desse ensaio queira apenas concluir que o lobo solitário, bastardo de um mal muito maior e anterior a ele, é apenas uma pessoa como qualquer outra, como eu e você, com suas humanas frustrações, desejos e limitações, que, entretanto, em determinado momento patológico, erra o passo e se atola no lodo da barbárie, que, de certa forma, está sempre logo abaixo da porcelana da civilização.

Porém, qual gelo fino, essa civilidade de onde nos aterrorizamos com os lobos solitários e os criticamos, assim como aconteceu com eles, pode ruir sob os nossos pés a qualquer momento. Então, enquanto estamos no privilegiado belvedere civilizado, seria bom que nos empenhássemos na construção um mundo melhor, oxalá capaz de dar vida ao clássico lema anarquista “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”, pois só mesmo um ambiente assim dispensará qualquer pertinência ao terrorismo. Obviamente, um dos primeiros e mais evidentes inimigos comuns contra o qual deveríamos nos insurgir é a besta capitalista. Agora, atuando contra ela, porventura não dirão que somos terroristas? Tênue é a fronteira que separa qualquer um que busque um mundo melhor do lobo solitário!

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Um comentário sobre “Homem lobo solitário do Homem

  1. O homem não é o lobo do homem (Hobbes) nem um bom selvagem (Rousseau). O homem é um organismo influenciado pelo ambiente ao redor e que, por sua vez, também age sobre o ambiente que o rodeia (Espinosa).

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