A nudez da nudez

O homem não é nu. Entretanto, quando veste o animal que subsiste inquieto em sua pele – e isso maximamente no sexo – apenas está nu. O inverso disso é o animal cuja nudez natural de forma alguma faz dele algo outro, pois, de acordo com Derrida, “o próprio dos animais, e aquilo que os distingue em última instância dos homens, é estarem nus sem o saber”.

Algo muito próprio do homem, qual seja, a sabedoria, parece ter papel fundamental da invenção da nudez no cerne da natureza desde sempre nua. Para o homem, excluído ele mesmo, tudo mais deve estar nu, exposto em sua verdade, sendo a ciência o eficiente costume humano para desnudar absolutamente o corpo do universo.

assim como os animais, Adão e Eva eram nus sem o saber. Até que souberam demais. Uma vez sábios, tinham tudo a esconder. Sintomaticamente, cobriram seus corpos, as únicas coisas que restavam serem cobertos quando tudo mais estava revelado. Da mesma forma, Caim, quando matou Abel, envergonhou-se irremediavelmente, e fugiu para esconder sobremaneira seu ser assassino então desnudado. Para esse fratricida, nem o linho esconderia a sua animalidade exposta. Ainda nos mitos, a Arca de Noé foi o que senão a épica tentativa humana de vestir a natureza – e os animais – contra ela mesma?

Há nudez apenas no pensamento, não na natureza. E como o pensamento é algo humano, só há nudez humana. Entretanto, o que há, para nós, nessa nudez exclusiva, que demanda constante cobertura? Seria a nudez vergonhosa por natureza? “Vergonha de que?”, pergunta-nos Derrida; “Vergonha de estar nu como um animal”, responde o filósofo.

A nudez do animal é seu nome, sobrenome e sobretudo o seu ser. Já para o homem, nome e o sobrenome são as primeiras vestimentas com as quais o seu ser naturalmente despido é definitivamente encoberto. Essa primeira fantasia nominal, por sua vez, é customizada a partir dos andrajos da cultura, e, uma vez em tais hábitos abstratos, as demais vestes concretas são apenas efêmeros disfarces com que o homem finge não ser “da” natureza.

Entretanto, figurinada a nossa existência natural sufoca. Precisamos, por conseguinte, expressá-la, deixá-la respirar, desesperadamente. Para isso inventamos filosofia, arte, consumismo, a fim de que possamos ser sem sermos exatamente aquilo que, por natureza, somos, isto é, absolutamente nus.

O homem é o único animal que inventou uma vestimenta para esconder o seu sexo; o único que inventou uma cultura para esconder de si a sua vestimenta; o único que inventou a moda para vestir sazonalmente a sua cultura. A humanidade converteu o desconforto com a sua nudez em vitimização em relação à moda, fingindo assim que se veste simplesmente por haver o que vestir. Contudo, esconde de si mesmo que a humanidade mesma é desde sempre nua.

Alain Badiou diz que “jamais há nudez no teatro, tampouco, mas trajes obrigatórios, a nudez sendo ela própria um traje, e dos mais vistosos”. Podemos concluir, então, a partir das palavras do filósofo, a veste do humano, assim como o figurino do ator, é a fantasia com a qual o homem melhor se despe do imponente traje com o qual a natureza primordialmente o vestiu: seu corpo irremediavelmente nu. Doravante, “é necessário uma psique, um espelho que o reflita nu dos pés a cabeça”, alerta-nos Derrida.

Os animais não estão nus porque eles são nus sem o saber, mas nós, em troca, estamos nus porque o sabemos. E diante deste saber, fazenda alguma dá conta de tamanha sabedoria. Derrida condicionou a vontade de vestir-se a “um sentimento de pudor ligado ao [fato de] estar em pé”, à ser ereto. E… a ereção estrutural do macaco-homem desembocou em outra: a ereção do sexo do homem-macaco: a intumescência espontânea de sua natureza selvagem.

Enquanto o ventre do bicho que somos esteve voltado para o chão, os olhos e o sexo de um indivíduo não se enquadravam, ao mesmo tempo, no olhar de um outro indivíduo. Porém, uma vez em pé, ambos passaram a estar disponíveis aos olhos – e também aos sexos – dos outros. E a folha-de-videira tornou-se, ainda que miticamente, o primeiro hábito e o primeiro símbolo da nudez da nudez.

Verdade, opinião e comentário de Facebook

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Se, na realidade, muitas vezes é difícil para nós deixarmos de confundir verdade e opinião, imagina nas redes sociais virtuais, mais especificamente no Facebook, onde opiniões se empoleiram umas sobre as outras, relacionando-se entre si, cada vez mais distantes das pretensas verdades das postagens sob as quais opinam.

Acriticamente, partimos do pressuposto de que nossas opiniões atinam aos fatos, à verdades que carecem do nosso parecer para serem verdades de fato. Contudo, no Facebook é fácil perceber que muitas opiniões são dadas sem sequer levarem em conta fatos ou verdades alguns, mas somente outras opiniões.

A pecha entre verdade e opinião é bastante antiga, tem a idade da Filosofia aliás. Só que hoje, com a facilitada e banalizada intercomunicação virtual, temos um complicador novo, isto é, uma nova forma de nos relacionarmos com os fatos que os aliena tanto da verdade quanto da mera opinião. Qual seja: o comentários de Facebook.

Longe de convencerem de que atentam à verdade, e sequer de que são opiniões pertinentes, muitos dos comentários que lemos abaixo das publicações na mais popular das redes sociais, especialmente nas postagens que falam da política brasileira, dão a ver uma nova e bastante confusa forma de opinião que, para o bem da opinião, nem deve ser chamado assim.

O filósofo pré-socrático Parmênides de Eléia dizia que opinião é apenas uma ideia confusa acerca da realidade. Se é assim, os comentários de Facebook outra coisa não são que a confusão de uma confusão. Como estabelecer então, para o bem da opinião, uma distância entre opinião propriamente dita e comentário de Facebook, assim como, há 2500 anos, Parmênides distanciou verdade e opinião?

Para Platão, a verdade era assunto exclusivo da filosofia, e as opiniões, da sofística. Os sofistas, por suas vezes, contra-argumentavam que só havia opinião. Para os mestres do discurso, aquilo que os filósofos chamavam de verdade era apenas uma grande e potente opinião convencionada sócio-historicamente. Entretanto, a verdade platônico-filosófica venceu a batalha lá mesmo na Hélade antiga, reinando por milênios sobre as opiniões sofísticas.

Fazendo uma analogia da querela platônica-sofística com a atual realidade facebookiana, é como se os filósofos possuidores da verdade fossem, por exemplo, uma Folha de São Paulo ou um El País, cujas publicações se pretendem traduções da mais pura verdade. Já os sofistas, que eram da opinião de que só existia opinião mesmo, seriam os nossos comentadores de Facebook que acham que não precisam se fixar em verdade primeira alguma, apenas opinar indiscriminadamente.

A analogia, entretanto, falha no sentido de que os “sofistas atuais”, isto é, os comentadores de Facebook vão mais longe que os seus ancestrais gregos. A confusa inovação, hoje, está em que o objetivo principal não é ter uma opinião –inevitavelmente confusa, como diria Parmênides- sobre a realidade, mas justamente sobre as opiniões confusas que os outros “sofistas facebookianos” têm dessa realidade. O que importa mesmo é ter opinião sobre as demais opiniões. Dane-se a verdade.

Se, como disse Parmênides, a opinião é mesmo apenas uma ideia confusa acerca da realidade, o Facebook é o espaço excelente de sobreconfusão que distancia opinião e verdade como Parmênides e Platão juntos sequer poderiam imaginar. Por isso os comentários do Facebook não devem ser tomados por opinião de forma alguma, mas por algo muito mais confuso.

Tomemos os comentários de Facebook que se seguem de postagens sobre, digamos, a atual frente do governo federal brasileiro contra o Zika Vírus. Em vez de opinarem sobre as estratégias usadas para eliminar o Aedes Aegypti, se são eficazes ou não, precipitadas ou tardias, o que se vê são centenas de pessoas aproveitando o ensejo para falar da operação Lava Jato, do impeachment de Dilma, do helicóptero do Aécio, e por aí vai.

Em resposta a esses confusos comentários -que na verdade não comentam aquilo que deveriam comentar, afinal, o fato é sobre saúde pública-, outras centenas de pessoas -outrossim confusamente, isto é, sequer fazendo referência ao assunto primeiro- defendem, por exemplo, a Dilma ou governo do PT. Então, no meio dessa confusão generalizada, surgem outros comentários, contrários aos petistas de plantão, bravejando “Intervenção Militar Já”. E a verdade sobre o problema Zika Vírus, a opinião de cada um sobre a tática governamental no sentido de tentar ajudar a resolver o problema, onde ficou mesmo?

Ainda no mesmo exemplo, muitos dos confusos comentadores que, em vez opinarem sobre saúde pública pedem intervenção militar -embora muitos deles sejam acéfalos a ponto de realmente crerem que a ditadura é a melhor coisa para eles mesmos- sabem que, na verdade, pedir pelo fim da democracia é uma solução muito pior do que o problema que confusamente querem resolver.

No entanto, confundem deliberadamente aquilo que eles mesmos têm por verdade -que a democracia é melhor- em resposta às confusões de outros comentadores facebookianos, e assim por diante, restando claro que as opiniões de todos, desde o princípio, não visavam atinar à realidade, isto é, à ação do governo contra o Zika, tampouco à verdade, ou seja, as doenças que esse vírus traz à população, mas tão somente às opiniões confusas uns dos outros. A relação entre verdade e opinião, no Facebook, é uma confusa relações entre opiniões confusas.

A diferença entre verdade e opinião, tão obscura para os usuários do Facebook, para o filósofo alemão Immanuel Kant era claríssima. Para dele, a verdade era coisa exclusiva da ciência, sobretudo da matemática. Inclusive as verdades filosóficas outra coisa não eram que opiniões produzidas por uma razão metafísica que não sabia criticar a si mesma. Kant, nivelou sofistas e filósofos, e bem abaixo da verdade científica.

Fazendo mais uma analogia com o Facebook, agora a partir da crítica kantiana, não podemos tomar nem as postagens da Folha de São Paulo e do El Paí (só para não sairmos dos exemplos usados), que se colocam como verdadeiras! O que temos no universo facebookiano -mas infelizmente nõa no nele- desde o princípio são meras opiniões, que geram opiniões, que por suas vezes geram outras opiniões, e assim por diante: um universo de verdadeiras confusões!

Poderíamos até concluir que o Facebook é o apogeu da sofística. Não obstante, mesmo confundidos pelo universo confuso de Zuckergerg, ainda resiste a ideia de que existe uma verdade sobre os fatos em relação aos quais temos as nossas sobreconfusas opiniões. Só que hoje, com o Facebook, além de decepcionarmos Kant profundamente, envergonharíamos inclusive os próprios sofistas para quem tudo era opinião.

Escandalizaríamos sobretudo Parmênides. Afinal, se, como pensava o filósofo pré-socrático, a opinião é aquilo que confusamente achamos que é a realidade, com o Facebook a opinião gerou um duplo só seu, porém absolutamente mais corrompido e distanciado da verdade do que nunca, qual seja: aquilo que confusamente achamos do que os outros confusamente acham que é a realidade”. Em outras palavras: os comentários de Facebook.

Igualdade social, ceticismo e “fossa-cética”.

Os céticos, ao contrário dos niilistas, creem que há “a verdade”, porém, que é impossível para o homem alcançá-la. Sendo assim, seja lá o que for “a verdade”, o cético é aquele que, de antemão, coloca-se absolutamente separado dela. E se a verdade, por um feliz capricho social, for a igualdade entre as pessoas? Um cético, obviamente, diria que nunca a alcançaremos. Entretanto, afrouxando essa vertical exigência cética, não seria possível pelo menos nos aproximarmos horizontalmente da igualdade social?

O PT, reduzindo a histórica desigualdade social no Brasil, aproximou-nos bastante dessa pretensa verdade. Como ser cético diante disso? Há quem diga que outros partidos políticos que rondam o poder, e que no menos golpista dos casos podem democraticamente retomá-lo, fariam o mesmo, ou até mais. Entretanto, a nossa realidade parlamentar esfrega na cara do povo que, em matéria de igualdade social, tais partidos só tocam em “verdades menores”, isto é, verdades úteis apenas para menos pessoas, ou o que é pior, para a velha minoria historicamente privilegiada: a elite brasileira. Como nos prevenir dessas verdades menores? Como tratá-las?

Acreditar no PT, todavia, não significa ser dogmático a ponto de crer ele é um partido perfeito, ideal. Tal quimera não existe, nunca existiu, nem nunca existirá. Se os partidos políticos são feitos por pessoas – e agora, mais do que nunca, por empresas! -, e não há uma pessoa sequer – muito menos uma empresa – que seja perfeita e ideal, deduz-se que… Agora, como a realidade é o anverso concreto dessa abstração que é a idealidade, as opções políticas mais realistas para tentarmos um país melhor para todos, infelizmente ou não, são o PT, o PSDB e o PMDB. Há outras siglas, é claro, mas elas, contudo, tão cedo não terão vez nessa luta de gigantes.

Então, em qual das opções factíveis investir? Como é a destruição de privilégios elitistas “na” construção de uma maior igualdade entre as pessoas o mais universal dos bens que se pode imaginar, temos que o PT foi o partido que mais fez isso na história do nosso país. O PMDB oligárquico de Sarney e Cunha e o PSDB aristocrático de Alckmin e Aécio, coitados, apenas reforçam a virtuosa dianteira petista – ainda que o PT, a exemplo de todos os demais partidos, não seja imune aos vícios da corrupção e à necessidade de superação de suas próprias contradições. É importante não esquecer: aquilo contra o que protestam as histéricas panelas brasileiras deve tilintar revolucionariamente nos ouvidos de todos os nossos partidos políticos!

Por definição, o cético é aquele que não consegue ter certeza a respeito da verdade, todavia porque assume que é incapaz de compreender o real. Agora, mesmo que nos digam que não podemos compreender “o real”, apostaríamos em que senão que a melhor de todas as verdade imagináveis é a igualdade entre as pessoas? Embora tal aposta tenha sido histórica e aristocraticamente desestimulada, ela é a única que partilha o bilhete premiado com todos os jogadores, indistintamente. Desse modo, é melhor ser anticético em relação ao PT, pois somente ele tornou um tanto mais real a velha utopia da igualdade social.

E é por que “antisséptico” se refere a tudo o que inibe a proliferação de bactérias ou germes, que proponho aqui – ainda que estimulado por um trocadilho – a postura “anticética” em relação ao PT que, mais do que os outros, acreditou na melhor verdade de todas: a igualdade social, independentemente de suas contas bancárias e sobrenomes. Seguindo na analogia, se “fossa séptica” é uma unidade para o tratamento primário de esgoto, e se o esgoto social brasileiro é justamente a nossa elite histórica, logo…

Proponho, então, que todos aqueles que não acreditam na igualdade social – melhor dizendo: não querem que ela seja uma verdade – sejam jogados numa “fossa-cética” para serem “tratados” dessa estratégica incapacidade de crer que a igualdade social é uma verdade a que podemos bravamente chegar. E, como o PT mostrou concretamente na última década, alcançável. Mesmo que o niilista mais radical comprove que não há verdade alguma, e que a igualdade social é só mais uma ficção, ainda assim podemos construir as “nossas verdades”. E tanto melhor se elas forem melhores para todos, não apenas para poucos. Não importa se a igualdade social é uma verdade “de verdade”, mas, com certeza, é a ficção que a maioria das pessoas nunca tentará desmentir.

Natureza, morte de Deus e Capitalismo.

Da perspectiva da Natureza, enquanto os homens eram servos obedientes à Deus, seguindo à risca os Seus mandamentos, ela, a Natureza, era mais preservada do que hoje em dia, quando é no capitalismo – e no seu fantástico paraíso tecnológico – que acreditamos piamente. Ao ignorar os Pecados Capitais, nos alienamos apenas dos “pecados”, mas, infelizmente, não do “Capital”… Com ajuda da Ciência Moderna e de sua filha predileta, a tecnologia, o capitalismo desferiu o golpe fatal contra Deus, e, com a arena universal limpa de um “zelador’ transcendente, explorou e destruiu sistematicamente a Natureza. Entretanto, é urgente uma reunião de condomínio na Terra antes que ela seja totalmente destruída pelo seu profano síndico atual, o Capital.

Onde está a ecologia inerente à velha ficção chamada “Deus” que perdemos ao escrever a nova ficção chamada “Modernidade”? Sim, porque a “Moderna Morte de Deus” em outra coisa não resultou senão na morte da ideia de que a Natureza é o que há de divino. A vida simples outrora ditada por Deus direcionava colateralmente os homens a uma relação mais harmoniosa com a Natureza. Com Deus vivo e lá em cima nós, aqui em baixo, éramos mais ecológicos. Sem Ele, entretanto, e com o Capitalismo no seu lugar, ecologia passou a ser apenas mais um objeto-mercadoria inalcançável, senão para que seja compulsivamente consumida e descartada, conforme a cartilha do capital.

Entretanto, o contraponto que poderíamos chamar de divino em relação ao Capeta-capitalismo que destrói perversamente a Natureza só pode ser a Ecologia, uma vez que ela é a única razão que ainda se sustenta contra a imperiosa destruição capitalista da Natureza. O problema dessa nova deidade ecológica, todavia, é que quando no Mármore Ardente do Capital parece tão transcendente quanto o velho Deus que, frisemos, seria bom ela substituir. Afinal, no mundo em que vivemos, que melhor ópio do povo, como um dia Deus foi, que a ecologia?

É Slavoj Žižek que entende que a Ecologia hoje assume a autoridade inquestionável outrora encarnada em Deus, impondo-nos limites inexpugnáveis às nossas ações e nos convencendo da nossa finitude. Com efeito, não seguir a razão ecológica – ou o que é o mesmo, a razão! – é o que nos condena ao inferno (aquecimento global, desertificação das florestas, falta de água etc.). Se, antes, a ideia de Deus de certa forma limitava a destruição da Natureza por nós, hoje “a Ecologia funciona como ideologia no momento em que é evocada como um novo limite”, diz Žižek. Com efeito, é somente ela que nos avisa, o tempo todo, do pecado insustentável da nossa vida consumista-hedonista que só se sacia consumindo descontroladamente a Natureza.

E se, de fato, é bom e racional que a Ecologia seja o nosso novo Deus, é justamente por conta do mar de pecadores antiecológicos perdidos no mundo. Diante do Diabo Capitalista e de sua catástrofe ecológica infernal o maior pecado, largamente cometido aliás, é encobrirmos o Mal justamente com o falso Bem com o qual próprio o Mal nos engana (as nossas desejadas mercadorias!). Ou, como aponta Žižek, o nosso pecado ecológico engendra “até inclusive a vontade direta de ignorância”. Isso porque, conforme o ambientalista Ed Ayres, “o padrão geral de comportamento entre as sociedades humanas ameaçadas é tornar-se mais tacanha, em vez de mais focada na crise, à medida que desmoronam.”

Se há um paraíso, ele é e sempre foi a Natureza, desde muito antes da invenção de Deus por nós. Todavia, a histeria da modernidade nos fez esquecer de que o “Capetal” – perdoem-me o inevitável trocadilho – só reina roubando incessante e perversamente “da” Natureza. Em troca, se queremos ver o Deus Ecológico reinar e engrandecer “a” Natureza, devemos seguir o conselho de Žižek: “tratar a Terra com respeito, como algo fundamentalmente sagrado, algo que não deve ser de todo revelado, que deve permanecer para sempre um Mistério, uma força que deveríamos aprender a confiar, não dominar.”

Para isso, contudo, o luxurioso casamento entre o Capitalismo e a Tecnologia – cuja prole obscena é o mundo de mercadorias que nos aliena justamente da obscenidade dos seus pais prolíficos – deve ser desfeito. Melhor dizendo: “desdivinizado”; “dessacralizado”; reificado a ponto de restar claro que tal casal é a origem do Mal que profana a Natureza. Só não haverá Mal algum em termos matado o histórico Deus cristão se mantivermos intacta a sacralidade da Natureza, que, aliás, é bem mais antiga do que Ele. Eterna até, diz-nos Spinoza, para quem a eternidade, mas também a perfeição, são a própria Natureza.

Entretanto, as “religiosidades” estrategicamente laicas do capitalismo e da tecnologia ou pregam que nada é sagrado, “tudo deve ser descoberto,devassado, profanado!”, ou, o que é muito pior, afirmam mentirosamente que sagrados são exclusivamente eles dois. Diante de vis mandamentos, somos servos do Mal, estamos condenados ao horror de um futuro infernal em pleno paraíso terrestre, o qual, aliás, destruímos em nome desse Deus Mal. As profanações do capitalismo e da tecnologia juntos nos fazem esquecer da maior – e talvez a única! – utilidade do sagrado, qual seja, parafraseando o poeta Rainer Maria Rilke, que “o Sagrado é o último véu que cobre o horror profano”.

#somostodosMadameBovary

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Madame Bovary, personagem do livro “O Romance dos Romances”, de Gustave Flaubert, escandalizou a sociedade de 1850 ao encarnar literariamente o “pathos” da modernidade, devolvendo cruamente aos seus leitores o indesejado sintoma psicológico produzido pela própria modernidade: a histeria. Nós, pós-modernos, não nos escandalizaríamos mais com uma Madama Bovary, não exatamente pelo fato de a histeria ter sido erradicada da nossa contemporaneidade, mas, ao contrário, porque hoje em dia ela é assaz democratizada. Pelo jeito não somos tão pós-modernos assim! Na verdade, ainda somos absolutamente modernos Absolutamente Madames Bovary.

No livro de Flaubert, Emma casou-se com Charles Bovary na esperança da felicidade burguesa-romântica que a sua época vendia como sendo a “verdadeira felicidade”. Porém, seu marido era um médico entediante e simplório. Então, em pouco tempo, ela já estava aborrecida e infeliz por perceber que a tal felicidade sonhada nunca viria, ou o que é pior, sequer existia. A vida interiorana de Emma e de seu esposo só piorava as coisas, principalmente por mantê-la alienada da roda capitalista-hedonista que já alegrava as capitais do mundo, resolvendo histericamente toda sorte de insatisfações individuais. Isso, porém, até um mascate oportunista abrir-lhe o universo das mercadorias refinadas vindas da iluminada Paris e do exótico Oriente.

Na primeira vez que o mascate ofereceu a Emma as caras sedas javanesas e as revistas de moda parisienses, ela, ingenuamente, disse que não podia comprá-las, alegando que o seu esposo não era rico. Aí o capitalismo, sem papas na língua, finalmente se apresentou mediante as palavras do mascate: “você pode ficar com tudo isso, mademoiselle, à crédito”. Ela ainda não tinha a menor ideia do que “à crédito” significava. Não obstante, entendeu rapidinho, sobretudo amou esse modo “a perder de vista” de amenizar a sua angústia pessoal que justamente queria perder de vista. Doravante, a suspensão do seu tédio, ainda que inadvertidamente paliativa, passou a ter o alto preço do que ela podia consumir à crédito.

A insatisfeita pequeno-burguesa, seduzida pelo capitalismo e pelas ilusões das revistas de moda de sua época, fez o mesmo que nós fazemos hoje em dia, seduzidos que somos pelo nosso (mesmo) capitalismo e pelas nossas (outras) modas: sucumbiu diante dos insustentáveis horizontes expandidos oferecidos ao Sujeito Moderno – assim como nós sucumbimos permissivamente aos ilimitados horizontes que a nossa pós-modernidade nos vende. E tanto faz se esse “nós” é burguês ou não, pois, atualmente, até os mais pobres guardam dentro de si um pequeno-burguês histérico, uma vez que todos somos alvos já alcançados e totalmente seduzidos pelo capitalismo e suas modas.

Porém, como o Sujeito Moderno é um saco sem fundo -tal é a histeria-, Miss Bovary não permaneceu feliz por muito tempo com as muitas mercadorias que comprava. Mal sabia ela que as benesses capitalistas nunca visaram a felicidade dos seus consumidores. Então, para dar conta da sua insistente infelicidade que o consumo à crédito sozinho não podia mais remediar, Emma passou a se envolver em relações amorosas-sexuais extraconjugais. Por um átimo, ela parecia ter encontrado a fórmula Moderna da felicidade: consumo&perversão. Ah! Mais um item fundamental: a mentira. Escondia sistematicamente de seu marido tanto os seus extravagantes gastos quanto, e principalmente!, os seus amantes.

Entretanto, como os amantes de Emma também eram Sujeitos Modernos, tampouco eles permaneceriam muito tempo satisfeitos com ela, ou com qualquer coisa que fosse. Nesse meio tempo, a conta que Emma há muito fazia com o mascate teve de ser irremediavelmente paga. Só que nem todos os bens dela e do marido saldavam a enorme dívida que ela havia contraído nos últimos anos. Procurando seus amantes agora também pelo dinheiro que lhe faltava, eles a rejeitaram terminantemente. Novamente sozinha com a sua velha infelicidade, Emma não suportou a situação. Desesperada, bebeu um veneno do boticário do marido-médico, correu para o meio da floresta, e morreu, deixando para trás o Mundo Moderno que sequer o Sujeito Moderno conseguia suportar.

Quão diferentes somos de Madame Bovary? Muito pouco, certamente, visto que só encontramos alívio para o insaciável vórtice pós-moderno no qual estamos imersos nas mentiras do capitalismo, no hedonismo consumista, na perversão sexual e, quando nenhum destes funciona, drogas venenosas. Mas por que Emma e nós precisamos de tudo isso simplesmente para não sermos infelizes? Ora, porque o Sujeito que nasceu na modernidade, e que cresce pujante na pós-modernidade, só faz mentir às pessoas que elas devem, a qualquer preço, ser mais do que são; que a realidade precisa ser mais do que é. Não que na antiguidade as pessoas e a própria realidade não parecessem faltosas. Porém, o advento da modernidade produziu mercadorias e perversões suficientes para estimular infinitamente essa falta fundamental que o ser humano enxerga no real.

#somostodosMadameBovary porque nunca estamos satisfeitos com a realidade ordinária que nos circunda, sobretudo por crermos piamente que a solução para a nossa insatisfação crônica deve sempre vir de fora, custar caro, ser bela, produzir orgasmos constantes e/ou múltiplos ou, na irrealização destes, matar-nos de vez. Emma morreu vítima de sua Belle Époque, mas segue presente na “notre époque postmoderne” nomeando o sintoma moderno por excelência. A psicologia se inspirou em Miss Bovary para cunhar um termo que falasse da insatisfação crônica de um ser humano, do conflito entre suas ilusões e aspirações, e da realidade insuportável que resulta desse embate: “bovarismo”.

Emma Bovary acreditou na ilusão de sua época que mentia que todo Sujeito deve e pode ser mais feliz do que realmente é. Melhor dizendo: tão feliz quanto o capitalismo e as revistas de moda são capazes de mentir. Os nossos capitalismo e modas outrossim nos convencem de uma felicidade sempre maior do que a que experimentamos ordinariamente. Então, compramos à crédito, trepamos constantemente e nos envenenamos alegremente apenas para fazer jus a tal ideal, que, entretanto, está sempre distante de nós alguns cifrões, orgasmos e doses de veneno. Isso que desde a modernidade chamamos “felicidade” é, na verdade, um mito, pois só os mitos nunca têm lugar na realidade. Não é à toa que o bovarismo é caracterizado como uma forma de mitomania. Desse modo, #somostodosMadameBovary porque insistimos no mito feliz que o capitalismo e a modernidade nos fizeram crer que é a realidade.

PT: o Judeu do monstro político brasileiro.

Se é pela corrupção política ou pela crise econômica que alguns acham que o PT deve sofrer um impeachment – palavra que atualmente corre solta em boca de Matilde midiática, mas que mascara estrategicamente a gravidade que é a deposição de um presidente da república – é porque tratam esse partido político da mesma forma que os alemães trataram os judeus no holocausto nazista, ou seja: trazendo à tona características universalmente indesejadas, e, por um curto-circuito ideológico, afirmar que o PT – ou os judeus – é a causa dessas características.

A irracionalidade do antipetismo decreta uma correspondência entre características gerais e históricas da política brasileira (a corrupção, a luta desmedida pela permanência no poder, a vulnerabilidade econômica etc.) e características hipotéticas de um suposto “caráter petista” (os petistas são corruptos, lutam desmedidamente pelo poder, fragilizaram a economia do país etc.), para chegar à ilógica conclusão de que o PT é a causa definitiva dessas características indesejadas e perturbadoras em nossa sociedade.

Obviamente, afirmar de um petista corrupto que ele é corrupto não faz de alguém um antipetista. O verdadeiro antipetista, em vez disso, diz que fulano de tal é corrupto “porque” é petista. Como a corrupção no Brasil não é, nem nunca foi característica exclusiva do PT, a ilógica lógica antipetista prega que há na essência do PT “alguma coisa que queremos depor imediatamente” que faz com que haja corrupção, manipulação e crises econômicas no Brasil.

O antipetismo, portanto, introduz uma pseudocausa misteriosa que faz do PT o local do surgimento e da permanência da corrupção. A partir desse despautério, o PT é identificado como fonte de todos os nossos problemas. O amargo preço disso, contudo, é que toda a corrupção que preexistiu ao PT, e que existe pujante a despeito dele, é colateralmente alienada das demais siglas partidárias. Só assim mesmo para um PSDB da vida convencer alguém de que luta contra a corrupção sistêmica. Essa realmente é muito boa!

A injustiça verdadeira, seja a dos antipetistas contra o PT, seja a dos alemães nazistas contra os judeus, é começar colocando os nomes “PT” e “judeu” entre fatos universais indesejados, tais como a corrupção e a crise econômica, e, em seguida, achar que esses mesmos fatos são produzidos exclusivamente pelo PT ou pelos judeus. Uma vez que se é vítima dessa irracionalidade, parece lógico bater histericamente panela para depor uma presidenta petista, e, no caso nazista, exterminar mais de seis milhões de judeus.

Para quê? Ora, em terras tupiniquins, para que um PSDB, por exemplo, possa seguir plenamente corrupto sem, no entanto, parecer vestir o estigma da corrupção injustamente gasto apenas contra o PT. E em terras nazistas, para que a monstruosidade de Hitler mentisse alguma espécie de esforço evolutivo; para que o mal absoluto reluzisse algum bem estratégico; para que o capital burguês parecesse mais limpo apenas porque estava “limpo” de determinada etnia histórica.

Agora, assim como a ignominia nazista se revela plenamente quando assumimos que o mal não reside no judaísmo, muito embora alguns judeus sejam pervertidos e corruptos, também o antipetismo não se sustenta pelo fato de alguns petistas serem corruptos. O antipetismo não só é absolutamente injusto com os muitos petistas honestos (a própria Dilma, contra quem nenhum crime foi provado), como também, e principalmente!, é permissivo em relação à corrupção histórica no Brasil, mal que nunca se deu ao luxo de se restringir a uma única sigla partidária. O antipetismo, embora nas manchetes midiáticas pareça revolucionário, é tão reacionário quanto o fascismo de Hitler, e, historicamente, pode ser tão vergonhoso quanto ele.

Admirável Mundo Povo

“AME O POVO. FODA-SE A PÁTRIA”, assim mesmo, em histérica caixa-alta, dizia uma postagem no Facebook, no dia da pátria, sete de setembro. Acima e abaixo do “textículo”, duas imagens, uma dos Black Bloc de 2103, outra dos Coxinhas de 2015, ambos ateando fogo à bandeira brasileira. Fações aparentemente tão antagônicas de uma mesma sociedade protestando de forma idêntica, com efeito, chama atenção. Serão mesmo tão opostos os Black Bloc e os Coxinhas, ou, hoje em dia, a oposição é tão antagônica em si mesma que, para ser, precisa se emparelhar justamente àqueles em relação aos quais deveria ser e agir de modo oposto?

Porém, o que parece escapar tanto aos radicais mascarados quanto aos de cara limpa – tão limpa que nem um cisco de vergonha na cara lhes resta -, é a ideia de que a pátria “se fodendo” o seu povo subsista. Ora, “povo” é justamente o que as pessoas são quando há uma pátria. Afora ela, as pessoas são apenas multidão. Portanto, é ilógico mandar a pátria “se foder” e ainda assim querer ser povo. Se a frase infame pelo menos dissesse “AME A MULTIDÃO”, histericamente ou não, seria igualmente radical, contudo, coerente.

Creio que “PÁTRIA”, na frase, pretendia significar, radicalmente, “O Estado”, cujo conceito assaz abstrato – pelo menos para quem está histérico em relação a ele – não funciona de forma tão efetiva, afetiva e concreta. Por definição, o Estado é a razão abstrata daquilo que a pátria é afeto concreto. Pátria, por conseguinte, entrou na frase como um golpe retórico baixo, senão para pegar os leitores pelo coração, a parte mais vulnerável de todos nós. Ainda assim, persiste a contradição em querer que exista um “povo” sem que haja um pátria ou um Estado.

Se é a inexistência do Estado o que os dois grupos de radicais querem, espero que peçam minimamente pelo anarquismo. Sim, pois somente a anarquia pode unir as pessoas – não mais em forma de povo, obviamente, mas enquanto multidão absolutamente livre – sem ser através de um Estado vertical. Os Black Bloc certamente não teriam nada a objetar quanto a isso, muito pelo contrário. Entretanto, para os Coxinhas, a anarquia que resta da combustão da sua bandeira pátria não só é mais contraditória, quanto declaradamente indesejada. Se estes já não suportam a ideia de socialismo, menos ainda a de comunismo, imagine a de anarquia! No entanto, isso é a melhor coisa que ambos ganham ao mandar a pátria – portanto o Estado – “se foder”.

Agora, o que significa essa ideia-desejo comum de partes tão antagônicas da nossa sociedade de ser um povo sem pátria? Bem, ou 1) não mais ser povo de um Estado que lhe parece absurdo, ou, radicalmente, 2) ser um povo tão absurdo quanto essa sua pátria lhe parece. Sim, pois nada mais coerente do que um povo incoerente a uma pátria outrossim incoerente. A opção 2 pelo menos é lógica, ainda que radicalmente lógica, beirando a irracionalidade. Entretanto, somente os radicalismos dos Black Bloc e dos Coxinhas mesmo para surfarem no limite da razão social e bradarem discursos tão absurdos quando esse que afirma o fim da pátria e a permanência do povo.

Se os nossos radicais pudessem incendiar a própria pátria, e não só a sua bandeira, e se dessa combustão não restasse alguma mínima organização anárquica que desse forma a essa multidão então auto expatriada, sob as inevitáveis cinzas pátrias eles veriam senão o crítico território pré-Estado hobbesiano cuja Lei única rima com a velha frase do dramaturgo romano Plauto, “Homo homini lúpus”, posteriormente popularizada pelo filósofo político Thomas Hobbes na conhecida máxima “O homem é o lobo do homem”. Aposto que, nesse nível, sequer os Black Bloc estariam satisfeitos, quiçá os Coxinhas.

Agora, se contra Plauto e Hobbes, o que os radicais brasileiros, sejam os de 2103, sejam os de 2015, desejam é mesmo aquele estado de natureza de antes do Estado Civil, querem senão a barbárie do olho por olho, dente por dente que, entretanto, expõe todos à vulnerabilidade da morte injusta e violenta com a qual Hobbes justifica a necessidade de um Estado Civil que a evite de todas as formas. Para este filósofo, é justamente o medo da morte violenta e sem punição que faz com que a multidão firme entre si o contrato social que institui o Estado Civil, onde todos são proibidos de matarem-se uns aos outros, ou, se o fizerem, pagam o preço da justiça.

Se é isso que os nossos “Neros” apátridas realmente querem, eles são muito mais radicais do que se poderia imaginar. Selvagens saudosos? Todavia, talvez a virtude deles esteja precisamente em evidenciar, ao modo de uma encarnação sintomática, e da forma mais contraditória à civilização, a barbárie a que a própria civilização pode levar os seus indivíduos. Em outras palavras, esses que queimam a pátria e ainda assim insistem em permanecer povo expressam senão o limite disso que chamamos de pátria, ou de Estado. Nesse ponto, esse radicalismo é uma forma de saúde, ou pelo menos o primeiro sintoma de que o corpo está gravemente doente.

Para mim, é como se o subtexto da postagem facebookiana em questão fosse: você, PÁTRIA, que nos criou, e sem a qual não podemos ser o que somos, isto é, POVO, não está mais à altura da sua criatura. Queimamos-te sim em praça pública para vermos se te comportas como a Fênix, e se de tuas cinzas renasce uma pátria que faça jus ao povo que você inevitavelmente cria. Um renascimento-povo do renascimento-pátria. Sendo assim, por mais que seja uma aberração uma multidão imaginar que possa ser povo sem uma pátria afetiva e sem um Estado racional que faça a conversão da selvageria em civilização, tal imaginação tem ao menos virtude de nos lembrar de que a “criatura povo” pode pretender não ser mais escrava do seu “criador pátria”.

É como se Frankenstein o monstro se autonomizasse a tal ponto que, colocando Frankenstein o médico na fogueira, impedisse irremediavelmente a produção de novos “Frankenstein” monstros. Sim, a criatura pode se voltar contra o criador. Se não de forma civilizada e lógica, pelo menos por meio de radicalismos paradoxais. Ainda não consigo pensar um povo sem pátria, porém, estes que simbolicamente incendiaram a pátria e ainda assim acreditam que são mais povo que nunca aventam a possibilidade, ou pelo menos o desejo de um “povo” poder ser muito mais do que aquilo que a pátria faz de uma multidão. Questionar radicalmente as razões e os afetos que fazem da multidão um povo talvez seja a bárbara civilidade desse Admirável Mundo Povo.

Um tête-à-tête entre a Economia e a Política

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-Economia? É você mesma? Que milagre te ver assim, em carne e osso! Quer dizer… hoje em dia, mais osso do que carne, não é mesmo?

-Sim, sou eu. Mas, por favor, Política, fale baixo meu nome. Não quero ser reconhecida em público.

-Ué, Economia, você está com vergonha? Já sei! É por que você está em crise…

-Não é isso, sua intrigueira. É que eu não posso ser reconhecida pelas pessoas.

-Como assim, Economia? Você está metida na vida de todo mundo, da ventura à ruína delas. As pessoas estão carecas de te conhecer.

-É verdade, Política, elas me conhecem muito bem, mas não euzinha toda. Somente aquela parte minha que as toca, como as suas economias pessoais concretas, entende? Agora, se encontram com o meu lado abstrato, universal, dá problema.

-Explica isso melhor para mim, Economia.

-Lembra que você disse que estava surpresa em me ver “em carne e osso”?

-Sim, Economia, mas eu estava brincando…

-Ahan, Política, sei… De qualquer forma, vou usar a sua “brincadeira” como metáfora para te explicar as minhas duas caras. Pois então, é como se a minha personalidade concreta, aquela que as pessoas conhecem muito bem, fosse minha carne, que está ora mais gorda, ora mais magra, como você mesma falou. Já a minha personalidade abstrata, aquela que não diz respeito a ninguém em particular, é como se fosse os meus ossos. Melhor dizendo, o meu esqueleto, a estrutura a partir da qual a minha carne pode faltar ou abundar, dependendo dos movimentos do mercado, das variáveis climáticas, etc.

-Ah, Economia, estou entendo. Tenho de confessar que sei muito bem o que é sofrer de síndrome de dupla personalidade!

-No seu caso, Política, devemos falar de síndrome de múltiplas personalidades, não?

-Ha ha ha! É isso mesmo, Economia! Eu tenho de ter tantas caras quantos são os cidadãos que represento. Nossa, isso dá um cansaço! No final do mandato estou acabada! Sem dizer que todo mundo fica achando que eu sou falsa, que só me preocupo comigo mesma. E para convencer meus eleitores novamente, preciso de muito dinheiro privado nas veias para, nas minhas campanhas eleitorais, convencê-los de que posso representá-los como eles precisam.

-A diferença entre nós duas, Política, é que todos eles me acham verdadeira demais. Cruelmente verdadeira.

-Ah, então é por isso que você não gosta ser reconhecida em público, Economia?

-Não exatamente, Política. Não tem problema algum as pessoas encontrarem com a minha carne concreta, nas suas vidas, nas suas dificuldades cotidianas, nem com o meu esqueleto abstrato, seja nos telejornais, seja nos relatórios dos meus especialistas, os economistas. Separadamente, eu convenço e envolvo as pessoas sem maiores problemas, sigo economizando todo mundo. Agora, aqueles que me encontram “em carne E osso”, ah!, esses piram!

-Por que isso, Economia?

-Ah, Política, por que, em geral, as pessoas acham que o meu esqueleto abstrato tem de ser o cabide das carnes delas, de suas economias pessoais, que na verdade são minhas carnes e minha economias particulares, mas que por ser a parte minha que elas podem tocar, isto é, economizar ou não, acham que é delas. Só que se enganam. Na verdade, devo confessar, eu as engano… Sabe, fico constrangida em dizer que o que realmente importa é o meu esqueleto abstrato, que ele é a minha verdadeira estrutura, e não as minhas pelancas, essas contingências que os cidadãos conseguem tocar.

-Nossa! E como você faz para que o povo não descubra a sua verdadeira essência, Economia?

-Você está se fazendo de burra, Política, ou é burra mesmo?

-Calma, Economia, não precisa ser grosseira. Eu só queria saber como você faz para o povo não perceber que você, “A Economia”, não está nem aí para eles…

-Ora, Política, sua dissimulada… Vai dizer que você não sabe que para ninguém desconfiar dos meus segredos e contradições eu ponho você a trabalhar para mim?

-Sem essa, Economia! Eu, trabalho para o povo, só para ele. Sou a representante legítima dele aliás.

-Sim, Política, você até trabalha para o povo quando não está envolvida com seus próprios interesses. Porém, para convencê-lo de que eu, a Economia, funciono em função deles. Mentira que eu, sozinha, confesso, jamais conseguiria contar de forma tão convincente. Entretanto, sem euzinha aqui, não haveria necessidade alguma de você, Política.

-Essa é boa! Desde quando, Economia?

-Acho que você é burra mesmo, Política… Desde a Grécia Antiga, sua tonta! Muito antes de você sequer existir eu já estruturava a vida das pessoas. Talvez você não tenha se dado conta porque naquela época eu me chamava “oikonomos”, isto é, administração doméstica, e então…

-Oico o quê?

-Oikonomos, sua estúpida. Então, Política, como eu ia dizendo, foi só por conta das minhas dificuldades domésticas que os gregos da época começaram a fazer política. Por minha causa inventaram a “pólis”, isto é, a cidade, e chamaram a si mesmo de “polités”, ou seja, políticos.

-Quer dizer, Economia, que eu surgi para resolver os teus problemas domésticos?

-Exatamente! E até hoje, 2500 anos depois, segue sujando as mãos por mim, Política parceira. E é assim porque você é muito boa com as palavras, cria discursos maravilhosos, engana todo mundo com eles. O problema, Politica, é que no fim das contas você acaba acreditando nas próprias mentiras e se esquecendo de que, na verdade, você só veio ao mundo para costurar as minhas carnes concretas ao meu esqueleto abstrato com a sua emaranhada linha retórica.

-Então, Economia, Lenin estava falando sério quando disse que, embora tudo seja decidido na luta política, o que me deixava muito feliz e segura de mim, toda luta política é determinada, por você, a Economia?

-Bravo, Política. Prometo que não te chamarei mais de burra. Você finalmente parece ter entendido a hierarquia que nos separa. Isso está bem claro para você ou quer que eu desenhe?

-Não, Economia, não precisa desenhar. Você é melhor fazendo gráficos e planilhas de excell…

-Tampouco você sabe desenhar, não é mesmo, Política? Seu talento é com as palavras. Aliás, foi justamente por causa delas que eu te botei a remendar as minhas partes antagônicas, para que eu pareça sempre absoluta, e assim poder lucrar melhor às custas das pessoas.

-Nós não valemos nada, Economia. Não existimos sem fazer os outros de idiotas. Isso me lembra de quando você…

-Agora chega de gastar teu verbo comigo, Política, pois, como você mesma disse, eu estou em crise. E quando eu tenho problemas é você que deve trabalhar. Então, vá discursar para o povo que assim eu saio mais rápido do buraco. E da próxima vez que você encontrar comigo toda, por favor, seja discreta. Melhor: troque de calçada, pois se o povo nos ver juntas demais vão desconfiar da nossa estreita relação, e aí já viu, né, é ruim para mim. Todavia, tanto pior para você, não é amiga?

O Europeu-hegeliano e a Populaça Imigrante

-Que novidade é essa? O que você faz aqui, Populaça Imigrante, dentro das minhas muralhas felizes?

-O Europeu-hegeliano me chamou de quê? Pergunta o Imigrante clandestino.

-De po-pu-la-ça. O nome que há muito dei para gente como você, excesso humano produzido pelo meu Estado moderno, gente para a qual não há lugar no meu mundo civilizado, Muito embora, é claro, a civilização do meu mundo não se dê sem a estratégica barbárie exportada para o mundo de vocês – Explica o Europeu.

-Deixe-me ver se entendi – interpela o imigrante. -Eu sou aquele que não tem lugar dentro do seu rico mundo, mas também aquele sem o qual o seu mundo não é rico?

-É por aí, Populaça clandestina, pois não é a minha riqueza isolada, mas o contraste dela com a tua miséria que faz de mim rico – confessa o Europeu.

-Se é assim, deixe-me entrar, pois se a minha pobreza estiver bem próxima de você, parecerás mais rico do que se eu estiver lá no meu distante submundo – propõe o Imigrante.

-Não é tão simples assim, Populaça. A minha riqueza é muito exigente, egoísta até.

-Ah, mas de que serve a tua riqueza se ela desaparece ao lado dos miseráveis? – Provoca o Imigrante.

-Não é que eu não seja rico suficiente para cuidar de você – perde a paciência o hegeliano. – O problema é que eu sou rico demais, e, como você e eu sabemos, quanto maior a riqueza, menos se sabe o que fazer com a pobreza.

-É, de fato, disso eu já sabia – completa o Imigrante, fitando gravemente os olhos do Europeu. – O meu problema é justamente esse. Você está tão rico que nada mais faz em relação a enorme pobreza que gera, no caso, a minha, né… Por isso eu estou aqui! Para que você e a sua riqueza sujem as mãos com a insuportável miséria que não conseguem deixar de produzir. Você tem que reconhecer a sua responsabilidade na minha desventura.

-Ah! Então o que você quer, Populaça Imigrante, é que eu reconheça que sou a causa da sua miséria? Quer dizer que o seu problema não é a miserável condição material com a qual você desde sempre esteve acostumado, mas, em vez disso, esse desejo subjetivo de ser reconhecido enquanto empobrecido por mim?

-Gente europeia rica tem a mania de abstrair tudo mesmo – diz o Imigrante. – O meu problema são as duas coisas, mané. Ó aí o burguesinho achando que a minha miséria concreta é menos sofrível do que a miséria de reconhecimento abstrato que ele pode me dar…

-Desculpe-me – interrompe o Europeu-hegeliano -, mas eu tinha consciência de que a pobreza objetiva não era suficiente para gerar você, Populaça. Achei que você só aparecia quando essa pobreza fosse subjetivada, vivenciada como injustiça radical.

-É, mas enquanto o senhor fica achando que somos o que somos apenas por questões subjetivas, a nossa pobreza objetiva segue firme e forte, e insuportável!

-Tá – rebate o Europeu -, mas não é culpa minha que, quando uma sociedade enriquece, a pobreza tome a forma de uma injustiça cometida pela riqueza. Por aqui, costumamos dizer que injusto é alguém querer ser rico, ou até mesmo reconhecido sem trabalhar arduamente para isso.

-Sempre trabalhamos, senhor – responde o Imigrante. –O negócio é que lá onde vivíamos o trabalho ou não existe, ou, quando existe, não compra nem reconhecimento nem comida. Além do mais, pelo que sabemos, aqui tem gente tão rica que nem precisa trabalhar, como os artistas contemporâneos, os especuladores financeiros, os grandes herdeiros e tal. Sendo assim, se é injusto ser reconhecido sem ser por meio de trabalho árduo, como o senhor diz, a injustiça é coisa dessa terra aqui. Vai vendo…

-Olha, Populaça, vou ser sincero com você. Eu não estou preparado para ver as minhas contradições com elas assim tão perto de mim, vivendo junto comigo. Enquanto você permanecia lá no submundo miserável de onde nunca deveria ter saído, nós lidávamos muito bem com as nossas contradições, ou o que é o mesmo, com a tua miséria. Escrevíamos livros, fazíamos documentários, ou seja, teorizávamos. E, como costumo dizer, se a teoria não se encaixa nos fatos, tanto pior para os fatos.

-Ha, ha, ha! É por isso mesmo que eu vim para cá, seu escroto, para que, pelo menos “teoricamente”, sejamos felizes juntos – debocha o Imigrante.

-Populaça, desculpe-me, mas a história do mundo não é um teatro da felicidade – adverte o Europeu. –A felicidade só acontece quando esquecemos das contradições, ou quando elas estão tão longe que podemos fazer de conta que não existem. Agora, com vocês aqui, fica muito difícil ser feliz.

-Olha, senhor, se eu não me tornar feliz aqui, a coisa não muda para mim não, fica elas por elas…

-Então – contra-argumenta o Europeu -, se tanto faz você ser infeliz aqui ou lá onde nasceu, porque não permanece infeliz lá?

-Vou te dizer por que, bobalhão – engrandece-se o Imigrante Clandestino. –Por que a felicidade teatral do seu mundo é muito mais triste e real para mim se eu ficar lá no meu submundinho, custeando-a à distância. Aí é muito pior. Agora, mesmo que aqui eu não seja feliz como você, pelo menos a minha tristeza miserável talvez seja um pouco menor. Sem falar que comigo aqui você não terá para quem exportar as suas tristeza e miséria proletárias produzidas colateralmente pelas suas riqueza e felicidade burguesas.

-Mas, Populaça, olhe a “big picture”. Você aqui não será mais feliz nem rico do que sempre foi. Ao contrário, essa sua tristeza inerente pode inclusive arruinar a única felicidade e riqueza que existem, que, no caso, são as minhas. Como alguém como você, cujo status social oscila entre o de vítima carente de assistência humanitária e o de terrorista que deve ser contido, pode fazer alguém feliz? Não percebe que, na verdade, você é uma ameaça às minhas perenes felicidade e riqueza?

-Ah, desculpe-me, senhor, a sua felicidade e a sua riqueza não são ameaçadas por mim não. Eu sou apenas um lembrete, só que agora insistentemente presente, de que elas são extremamente frágeis e insustentáveis em si. Não sou eu quem as ameaça, mas você mesmo, Europeu, com essa sua essência imperialista e egoísta.

-Ok, eu sei muito bem que é o meu próprio estilo de vida que me ameaça, mas, como falei, sempre coloquei os meus problemas vivendo bem longe de mim. Então, alienado deles, pude inclusive fingir que me importava com você, Populaça estrangeira. Quando ficava muito chocado com a tua miséria, enviava os meus humanitaristas, distribuía gratuitamente o excedente da minha indústria farmacêutica e até alguns Direitos Humanos Universais que não me faziam falta – explica o hegeliano. –Afinal, é assim que eu sempre fui. Esse é o meu velho jeito, não te lembra dele?

-Mas saiba, senhor, que o novo surge justamente a partir do velho. E eu sou a novidade impertinente que aparece repentinamente nesse seu confortável e velho teatro burguês inerte! – Provoca o Imigrante. –Eu, Imigrante, ou como o senhor quiser me chamar, seja de Populaça, seja de “a nova crise da humanidade”, apareci justamente por que o senhor não vem mudando esse seu jeito insustentável de ser. Entretanto, eu sou essa mesma insustentabilidade, antes continentalmente alienada, agora clandestinamente imanente, apresentada em sua mais nova forma nova: a de refugiado humano contemporâneo! Acostume-se, pois eu sou a novidade crítica e verdadeira que veio acabar com essa sua velharia harmoniosa e falsa.

-Populaça, você está coberta de razão. Mas é que eu estou desabituado a considerar outras razões que não a minha própria. Faz tanto tempo que você não bate assim à minha porta… Conhece aquele ditado: “longe dos olhos, longe do coração”? Pois então… Agora, uma vez que você está aqui para ficar, dê-me tempo até eu saber o que fazer com você, ou, como você mesmo diz, comigo mesmo enquanto produtor desse problema único que somos nós dois juntos – disse o Europeu, rendendo-se à pressão da Populaça Imigrante.

-Ah, quer dizer que agora o senhor começa a se preocupar comigo – provoca o Imigrante. –Engraçado, eu tenho o mesmo valor que tinha quando você não me queria ou sequer se lembrava de mim. Mas só agora, comigo no seu pé, o senhor me trata diferente. Ainda bem que eu me arrisquei para chegar até aqui, hein!

-Não é nada disso, Populaça. Mesmo que demore para que eu entenda objetivamente que a sua miséria é causada pela minha riqueza, no exato momento eu estou subjetivamente comovido pela sua miséria. Por enquanto te ajudarei sob o pretexto de que somos irmãos, afinal, não é isso que todos somos todos aos olhos de Deus e da opinião pública? – Despista o Europeu. – Vamos botar um ponto final nessa história?

-Calma, senhor! Primeiro precisamos deixar bem claro que você não me quer aqui, Populaça clandestina, por mim mesma, porque sou a mesma que você não queria antes. Não se esqueça de que o senhor me quer por outra coisa, por algo que não sou eu!

-Mas que coisa seria essa, Populaça?

-Ah, Europeu-hegeliano de uma figa, você não desconfia de nada?

-Deixe-me ver – pensa o Europeu por vários instantes -, por que eu… sou rico, inteligente, privilegiado?

-Sem essa, mané – irrompe a Populaça. É que você, Europeu, é hegeliano demais, é viciado em colocar um ponto final nas histórias em geral, mesmo que teus “finais felizes” se deem apenas depois dessas suas longas dialéticas humanitárias paliativas e aristocráticas. Se liga: a minha presença aqui é uma contradição concreta que não será sintetizada numa historinha abstrata para você dormir em paz. Enquanto eu estiver aqui, é por que a nossa história não chegou ao fim que você tanto deseja. Ao contrário, essa história está bem em seu insuportável meio, mesmo que você não goste sequer de ouvi-la, muito menos eu de vivê-la.

Imigrantes Clandestinos na Imigração Capitalista

-Quem são vocês? – perguntou o Senhor Capitalismo a milhares de pessoas empoleiradas em uma casca de noz clandestina que boiava na parte mais profunda do Mar que separa os mundos humanos.

-Somos Imigrantes fugindo da guerra e da miséria – disseram eles, amedrontados.

-E para onde vocês pensam que vão? – indagou o Capitalismo.

-Para o Primeiro Mundo – disseram eles timidamente -, o lugar onde a vida é melhor!

-E quem disse que vocês podem zanzar pelo mundo, assim, na hora que lhes dá na telha? – insiste o Capitalismo.

-O próprio mundo, ora bolas. A gente nunca teve internet, sabe, mas mesmo assim ouvimos que o mundo agora é globalizado. Então, achamos que seria natural migrar. Poderíamos até dizer que as migrações sempre foram naturais à humanidade. Entretanto, como sequer estudamos, nunca aprendemos isso – responderam os Imigrantes.

-É, vejo que vocês estão por fora do que é globalização… Mas eu vou explicar. Na verdade, o que é globalizado, minha gente, sou eu. Somente eu posso atravessar todos os mares do mundo sem ser barrado. Sem mais, almoço um “paiseco” latino-americano subdesenvolvido, faço a digestão nos EUA, tomo a Inglaterra no chá das cinco, janto Paris, e, se me parecer mais lucrativo, madrugo nas terras de vocês raspando as migalhas que ainda lhes resta. Isso é globalização, nenéns! – desdenha o capitalismo.

-Ah! Disso nós já sabemos – disseram os pobres coitados. -Mas também sabemos que hoje em dia qualquer pessoa pode viajar pelo mundo. Tá certo que não nessa casca de noz aqui, mas de avião, transatlântico, carros esportivos…

-Hahahaha! – Riu o capitalismo. –Vocês acham que basta ser “pessoa” para poder viajar livremente pelo mundo? Digam-me: sem o quê, exatamente, elas não poderiam deixar os buracos de onde partem e para onde voltam, hein?

-Dinheiro? – perguntaram eles, inseguros.

-Exatamente! – Respondeu o Senhor, seguro de si. – É só por causa do dinheiro, melhor dizendo, do capital, que os viajantes são aceitos. Se gastarem bastante em passagens aéreas, hotéis, restaurantes, turismo sexual, por exemplo, é que podem viajar o quanto quiserem. Agora, sem lenço nem documento, como vocês, não, né!

-Mas Senhor Capitalismo, nós estamos indo para o primeiro mundo justamente para nos capitalizarmos, para podermos viajar na sua primeira classe, hospedarmo-nos nos seus hotéis, comermos decentemente nos seus restaurantes… e também aquilo que o Senhor disse por último também, afinal, também somos gente, né…

-Vejam bem, – o Capitalismo os adverte -, é somente a partir de determinada quantia de money que alguém pode ser considerado “gente”. Com um patrimônio um pouco maior esse alguém até pode comprar os Direitos Humanos Universais. Mas de bolsos completamente vazios, desculpem-me, sem essa de “também somos gente”.

-O Senhor não escutou o que dissemos? Estamos migrando justamente para trabalharmos e juntarmos essas quantias mínimas de dinheiro para assim comprarmos a nossa humanidade! – Disseram eles, começando a perder a paciência.

-Vocês são muito tolos mesmo – diz o Capitalismo, interrompendo os Imigrantes. –Onde vocês ouviram essa besteira de que é através do trabalho que se ganha dinheiro? Essa é boa! Olha, vou falar um vez só, viu, escutem bem: o trabalho é o modo através do qual EU ganho dinheiro. Vocês, reles mortais, e tanto faz se forem africanos subnutridos ou norte-americanos obesos, enquanto trabalham, só fazem me enriquecer. Portanto, esqueçam essa história de irem para o Primeiro Mundo para lá serem “gente”. Vocês, de um jeito ou de outro, terminarão mais miseráveis do que já são. Sem dizer que a miséria de vocês já é bastante lucrativa para mim com vocês no submundo onde nasceram.

-É justamente por isso que estamos indo embora de lá – gritou um dos Imigrantes -, porque quando o Senhor vai lá lucrar com a gente, o nosso muito pouco se transforma em absolutamente nada! Agora, se estivermos ganhando um salário de fome nível Primeiro Mundo, podemos ser melhor explorados pelo Senhor e, quem sabe, com um trocado ou outro que reste, comprarmos alguns Direitos Humanos. Não todos, obviamente, pois sabemos que a humanidade total é coisa de rico.

-Hum… – balbucia o Capitalismo, coçando o seu cavanhaque burguês ao analisar a proposta do lumpemproletário Imigrante. Aproveitando o inesperado silêncio do Capitalismo, os demais Imigrantes suplicam:

-Isso mesmo, seu Capitalismo, deixe a gente seguir viajem, por favor! Faremos qualquer coisa. Juramos que trabalharemos feito escravos seus; pagaremos os altos preços de suas capitais; nos esconderemos em favelas, bem longe dos seus centros gentrificados urbanos; não usaremos os seus hospitais e escolas. Deixa a gente tentar te enriquecer mais um pouquinho, vai…

-Isso começa a cheirar bem – diz o Capitalismo, baixando um pouco a guarda. -Agora vocês estão falando a minha língua! Mas, esperem! Não basta um subemprego e uma vida miserável. Se a gente não pensar muito bem aonde a miséria de vocês é mais lucrativa, vocês acabam me desequilibrando todo. Deixe-me pensar bem para onde eu mando vocês.

-Ué – diz outro Imigrante -, mas o Senhor não contou que está em todos os lugares, que é a globalização em pessoa? Que diferença faz então se a gente for para um lugar ou para outro? Deixe-nos pelo escolher para onde.

-Nã, nã, nã, nã, nã! – falou verticalmente o Capitalismo. Deixe de ser impertinente, menino. Se não, afundo essa casquinha de noz aí de vocês, hein?

-Não, Senhor Capitalismo! Não nos mate, por favor! – gritaram em coro os milhares de Imigrantes. –Tudo bem – disseram alguns deles -, a gente aceita que o Senhor nos leve para onde achar mais adequado. Mas, por misericórdia, não nos faça voltar para casa.

-Ah bom! Assim é melhor – disse o Capitalismo, já pensando qual seria o melhor destino para a cambada de imigrantes clandestinos. Prossegue:

-Não sei se vocês sabem, mas nos países mais ricos do mundo a tecnologia tirou todos os verdadeiros seres humanos das minhas mais desumanas tarefas. A Alemanha, por exemplo, é tão rica que as pessoas não precisam nem mais procriar. A população desse nobre país está encolhendo, o que é um problema sério para mim…

-É para lá que queremos ir então! – Interpelam os Imigrantes.

-Combinado – disse o Capitalismo. -Deixe-me contatar as forças humanitárias para que elas venham com os meus barcos superpotentes, devidamente uniformizadas, e resgatem vocês dessa casca de noz ridícula, antes que vocês se afoguem. Do contrário, vai parecer que sou cruel. Sabe que não precisa muito para os comunistas falarem mal de mim, né

-Isso, tire-nos rápido daqui, Senhor! Por favor.

-Calma, gentalha. Preciso repercutir o problema de vocês antes. Tenho uma voraz mídia sensacionalista que precisa divulgar a miséria de vocês, para lucrar bastante com ela antes de vocês caírem novamente no esquecimento do mundo, e antes que eu siga lucrando com vocês até as suas mortes – pede calmamente o Capitalismo.

-Não, Senhor Capitalismo, nós já estamos expostos demais, não faça troça internacional com a gente – suplicam os Imigrantes.

-Vem cá, vocês não entendem que sem o problema de vocês ser bem banalizado as pessoas do Primeiro Mundo não se sentirão superiores a vocês, privilegiadas a ponto de poderem consumir burguesamente a prática do humanitarismo? Se esquecem de que quando um rico ajuda um pobre, ajudar senão a si mesmo? É que esses burgueses são muito românticos… Veem alguém miserável e já ficam sofrendo só em imaginar o que seria a miséria. Ademais, ser humanitário de vez em quando faz com que os ricos se sintam ricos justamente naquilo em que são absolutamente pobres, isto é, em humanidade. Tá! Vai dizer que vocês acharam que algum rico ia ajudar vocês para que VOCÊS fossem felizes? Façam-me o favor…

-É que estamos com sede, com fome, com sono – explicam os Imigrantes. -Não podemos esperar o mundo ler jornais e rolar os seus feeds de notícias do Facebook até que se torne natural aceitar Imigrantes desesperados dispostos a serem explorados.

-Ui, Ui… Vocês já não estavam com fome, sede, e já suficientemente miseráveis antes? – Pergunta jocosamente o Capitalismo. -Que história é essa de achar isso estranho justamente agora? Eu Hein. Se fosse pela miséria “natural” de vocês eu e burguesada geral já teríamos ido no fim do mundo de onde vocês brotaram para buscá-los.

-E por que não fizeram isso até agora? – perguntam os esfomeados.

-É que… – titubeia o Capitalismo, procurando a melhor maneira de dizer o pior. Todavia, sem conseguir, diz do seu jeito mesmo: -Miséria pouca é bobagem!

-Ah! – exclamam em coro os Imigrantes. Pode crê! Miséria pouca é bobagem. Se a gente for mais miserável do que já somos obviamente as coisas podem ir mais rápido!

-Ignorantes espertos vocês, hein! – completa o Senhor impiedoso.

-Gente, gente! – Gritam os imigrantes uns aos outros. –Vamos pular, uns de nós, no mar e morrer. Assim as notícias correm mais rápido, e mais rápido quem restar chega ao Primeiro Mundo!

-Isso! – diz o Capitalismo. -Se a metade de vocês morrer a outra metade chega mais rápido ao meu destino! Mas, claro, a pressa é de vocês.

-Já sei! – Exclama um dos Imigrantes lá do fundo da casca de noz. –Falta-nos um símbolo universal com o qual o mundo não resista e não demore em nos ajudar.

-Mas nós já estamos morrendo, idiota – diz um Imigrante ao se lançar ao mar. -O que mais podemos fazer?

-É que a morte anda tão banalizada hoje em dia – responde o primeiro -, que precisamos de uma morte que fique bem na foto, abaixo da manchete internacional que somos.

-Estou gostando disso – disse-lhes o Capitalismo. –Posso dar uma sugestão? Afinal, sou um ótimo publicitário…

-Claro, Senhor, ajude-nos!

-Um bebê! – Diz o Capitalismo, como se imaginasse um comercial de TV. – Um bebê imigrante clandestino morto, levado pelas marés, chegando a uma praia europeia, em pleno verão… Voilá! Tenho certeza que com algo assim nós sensibilizamos a insensibilidade do mundo.

-Mas… – dizem os pobres Imigrantes, olhando-se uns nos olhos dos outros, aturdidos com a proposta absurda feita pelo Capitalismo -, ninguém merece isso, nem mesmo os burguesinhos…

-Não interessa! – impõe o Capitalismo.

-Não! Isso nós não aceitamos – dizem os Imigrantes. – Nossos bebês já são maltratados demais pelo Senhor. Poupe pelo menos os nossos bebês!

-Calem a boca vocês que restam vivos e me deem esse bebê aqui – ordena o Capitalismo.

-Não! Não! Não! Tenha piedade de nós! – Pedem os coitados

-Piedade? Vocês não estão trocando os deuses, hein? Piedade é coisa que se pede para o pai ausente daquele hippie crucificado. Como é mesmo o nome dele?

Enquanto os Imigrantes pensavam qual deus seria piedoso para com eles já era tarde demais. O bebê que o Capitalismo escolheu para ser o símbolo de mais recente crise humana já boiava, inanimado, seguindo em direção à uma praia turca.

E não é que o Capitalismo estava certo? Dias depois, a imagem da pobre criança estava na capa dos jornais de todo o mundo, sensibilizando até as almas burguesas mais egoístas, levando-as a terem vontade de consumir a nova mercadoria da moda, qual seja, o humanitarismo para com os Imigrantes Clandestinos. Humanidade paliativa!