A forca e a gravata

A forca e a gravata são feitas para serem usadas em torno do pescoço das pessoas, e, ademais, simbolizam poder. As semelhança entre elas, contudo, não vão muito longe. Todavia, ao contrário do que vulgarmente se pensa, a forca oferece uma espécie de liberdade que a gravata só faz furtar. Cabe explicar, então, de que modo a forca que dá fim a alguns sujeitos é preferível à gravata que potencializa outros.

Original e institucionalmente, a forca era um instrumento de execução usado em cerimônias públicas, nas quais os príncipes, enforcando àqueles que infringiam as suas Leis, mostravam ao restante dos seus súditos o alto preço da impertinência social. Já a gravata, que deriva do francês “cravate”, nome dado aos mercenários croatas que traziam o acessório do oriente aos burgueses parisienses, era usada – e ainda é – como objeto de distinção social.

A corda que enforcava devia ter determinada espessura e comprimento para que o condenado fosse executado de forma rápida e limpa. Se muito fina e comprida, o condenado, ao cair do cadafalso, era decapitado, e o seu sangue lambuzava o estratégico palco dos príncipes punidores. Em contrapartida, se grossa e curta demais, a morte seria lenta. Porém, nessa situação, conforme relatos, o enforcado liberaria fezes e urina devido à perda gradual do controle sobre os esfíncteres, configurando, desse modo, uma “morte suja”, escatologia que reduziria a semidivindade principesca.

A gravata, por sua vez, também deve ter determinada espessura e comprimento, pois só assim garante que o seu usuário comunique eficientemente a distinção social desejada, outrossim de forma rápida e limpa. Se curta ou comprida demais, o engravatado outra coisa não denotará senão mau gosto, inadequação e ignorância. Ou seja, o efeito contrário a que o acessório se propõe. Ora, assim como a forca errada maculava a pretensa superioridade dos príncipes, a gravata errada também macula a dos engravatados.

Do ponto de vista do pescoço, a forca aponta para cima, para o céu, enquanto a gravata, para baixo, e, dialeticamente, para o inferno. Temos aí uma diferença bastante instigante e subversiva, pois aqueles que morrem na forca são puxados em direção ao éden, ao passo que aqueles que vivem em gravatas tendem pendularmente para o sentido contrário, qual seja, para o hades.

Simbolicamente, a forca descola&desloca o enforcado da terra em direção ao paraíso, e, paradoxalmente, coloca-o mais próximo do céu do que o príncipe. A gravata, em troca, outra coisa não faz senão atar&enterrar os seus usuários no lodo infernal da desigualdade entre as pessoas. Outrossim paradoxalmente, o engravatado está enforcado pela distinção social que ele mesmo atou em torno do seu próprio pescoço.

Ora, o mesmo enforcamento que colocava um condenado numa extremidade da forca, na outra, simbolicamente, tinha a mão punitiva de um príncipe em plena manutenção de sua superioridade, cujo preço, contudo, era o de estar condenado a punir todos aqueles que desafiassem a hierarquia encimada por ninguém menos que ele. Já o engravatamento, que numa ponta da gravata mente que uma pessoa comum é uma espécie de príncipe, na outra, carrega o peso morto de todos aqueles que jazem desqualificados em função dessa mentira.

O enforcado, entretanto, no ato do seu enforcamento, liberta-se do mundo das hierarquias, enquanto o engravatado, no ato do seu engravatamento, aprisiona-se a este mundo hierárquico. Com efeito, conta-nos Foulcault em Vigiar e Punir, os condenados à morte encontravam, no mesmo cadafalso que os matava, o palco no qual desfrutavam de um liberdade negada inclusive aos príncipes, pois, no derradeiro, o condenado podia xingar não só o príncipe que o punia, mas inclusive a Deus, coisa que príncipe algum podia fazer.

O engravatado, em contrapartida, ao enrolar em torno do seu pescoço a corda que faz dele um ser pretensamente superior, compromete com isso a sua própria liberdade, pois, doravante, é preciso manter tal distinção, e a qualquer custo, dado que ela é antinatural, isto é, insustentável. Assim como os príncipes, o engravatado deve vigiar e punir todos aqueles que ousem se equiparar a ele. Do contrário, a igualdade entre as pessoas se manifestará verdadeiramente, e ele será, a contragosto, apenas igual aos demais.

Sendo assim, a forca é mais libertária do que a gravata. Tal liberdade, obviamente, é mundanamente efêmera, mas, como é o meu objetivo apontar, paradisiacamente eterna. Já a gravata, que mente uma espécie de liberdade ao mentir uma pretensa superioridade, é, verdadeiramente, uma prisão, e que, ademais, perdura pelo tempo em que o pretenso superior estiver enforcado por ela.

Se a nossa imaginação for capaz de fazer da gravata e da forca uma única e mesma coisa, teremos, em uma ponta, os enforcados, paradisiacamente livres, enforcando, na outra, os engravatados justamente com a pretensa superioridade que mundanamente os aprisionam. Portanto, a forca do engravatado é a sua superioridade mentirosa, cujo preço, entretanto, é a gravata do enforcado, a verdade eterna dessa mentira.

Dante, um reacionário.

Dante Alighieri, considerado o maior poeta italiano, por volta de 1300 inaugurou oficialmente o Dolce Stil nuovo (doce estilo novo), isto é, um novo movimento poético que se contrapunha ao tradicional estilo trovadoresco. Desse ponto de vista, o ilustre escritor foi um revolucionário. Porém, das leituras de A Divina Comédia e da Monarquia, a impressão que tive foi a de que Dante foi um reacionário a reintroduzir velhos valores ao seu novo tempo.

Em A Divina Comédia, sua obra mais conhecida, Dante inventou o inferno. Durante os mil anos de cristianismo que antecederam o autor, as almas que desejassem ir para o céu deveriam, obviamente, evitar cometer qualquer um dos sete pecados capitais. Entretanto, para quem pecasse, não havia uma ideia clara do que lhe aconteceria, ou para onde iria. Na ausência de um contraponto ao paraíso desejado permanecia aberta uma opção não infernal aos pecadores. Ora, o Império Cristão não podia aceitar tal liberdade!

Então, descrevendo detalhada&sadicamente o seu inferno, Dante ofereceu às pessoas uma ideia muito precisa, contudo insuportável, daquilo que aconteceria elas caso pecassem Doravante, o cristianismo pôde encurralar mais eficientemente as pessoas no seu plano absoluto. Nesse sentido, Dante foi reacionário por munir o milenar sistema de dominação – a Igreja Católica – com novas armas que ameaçavam eternamente aqueles que não seguissem a sua Lei.

Já na sua Monarquia, Dante, apresentou ao feudalismo tardio, que subterranea&secretamente gestava o capitalismo e o Estado burguês moderno, uma ode aos ancestrais valores do Império Romano. Ou seja, novamente, o autor propunha que as forças e as configurações do passado eram mais adequadas ao presente do que as do próprio presente. Ora, a uma Florença que rascunhava o futuro, a velha figura de um imperador absoluto era um convite ao retrocesso.

Principalmente aos imperadores de que Dante desejava ser súdito o seu Inferno deveria ser o totem insuportável a guiá-los pelo estreito caminho da virtude. Embora o autor tenha afastado Deus do comando do reino mundano, o que dava poder absoluto aos monarcas, o reino divino, cujo imperador eterno é Deus, estaria sempre no fim daquele para julgá-los. Diferente dos imperadores romanos anteriores à palavra divina, os novos, para Dante, estariam tão sujeitos às desgraças do inferno quanto qualquer pessoa caso não seguissem a palavra dEle.

Entretanto, a meu ver, o ícone do reacionarismo dantiano jaz na sua poesia amorosa, na qual o autor, valendo-se do seu estilo nuovo, coloca-se diante de sua amada, Beatrice Portinari, como um servo diante de sua senhora. Ora, em um mundo no qual o feudalismo apresentava as suas primeiras e irrecuperáveis rachaduras, o fato de o autor não só repopularizar a relação de suserania e vassalagem que a Sua Florença desconstruía florescentemente, mas também introduzí-la nas relações privadas e afetivas, é o quê senão uma barreira à evolução?

Em suma, Dante Alighieri é reacionário por trabalhar no sentido de as pessoas seguirem servas de Deus, dos monarcas, e, o que é mais absurdo, daqueles iguais a elas a quem amam. O fantasma que as obrigava a tal servidão era o seu epopeico inferno, composto de tantos círculos insuportáveis quantos fossem os tipos de pecados cometidos. Aos súditos, um círculo para cada pecado capital. Porém, no pior de todos, o último círculo do inferno, que é absolutamente gelado, o diabo, de três cabeças e aprisionado da cintura para baixo num lago congelado, mastigaria eternamente os imperadores hereges.

Como não tachar de reacionário alguém que coloca no portão do seu inferno a frase: deixe para trás toda esperança os que aqui entrarem? Roubar a esperança das almas que trilharam caminhos alternativos à palavra de Deus, todavia aqui no reino mundano, é a reação de Dante à revolução histórica assistida por ninguém menos que ele, na qual esse seu Deus imperador onisciente via o seu império ser subjugado pelo o império burguês, o incontestável&infernal vitorioso histórico.

Feminista machista

Conversando sobre feminismo com uma mulher feminista, ouvi dela que eu, pelo fato de ser homem, não poderia falar da condição da mulher e do feminismo. Então, perguntei se ela realmente achava que havia coisas das quais somente as mulheres sabiam, mas não os homens. Pois, se assim fosse, ela teria de admitir, junto com isso, que há coisas das quais somente os homens sabem e têm direito de tratar. Entretanto, não é justamente esse fantasma que mente que algumas coisas são assuntos exclusivos de homens, e que outras são assuntos apenas de mulher, o inimigo contra o qual ela, uma feminista, deveria estar lutando?

Em vez de considerar a contradição que estava me propondo, e então assumir que o feminismo não deveria ser um latifúndio monocultor exclusivo das mulheres, a feminista com que eu dialogava sustentou que, embora os homens discorram sobre o feminismo, as opiniões deles deveriam estar subordinadas às das mulheres. Lembrei-me imediatamente de um conhecido meu, assaz machista aliás, que certa vez disse: “mulher até pode discutir futebol comigo e com meus amigos, mas somos nós [os homens] que entendemos do assunto”. Perguntei se era algo do gênero o que ela estava querendo em relação ao feminismo.

Ela bradou! Ofendeu-me até, dizendo que eu não sabia o que estava falando, que deveria me calar. A infeliz postura dela estabeleceu entre nós uma verticalidade bastante machista, porém, desta vez, com ela no lugar do machão dono da verdade, e eu, do meu lado, representando a mulher que nada sabe direito e que, por isso, deveria calar. A única virtude da atuação viciosa dessa feminista radical foi relembrar-me da “torturabília” com que muitos homens, historicamente, trataram as mulheres. Apenas nesse ponto eu sou grato a ela. Entretanto, em todos os outros, ela repetia o erro sexista contra o qual dizia lutar.

A história do feminismo pode ser dividida em três “ondas”: a primeira, no final do século XIX ; a segunda, na década de 1960; e a terceira, inciada nos anos 1990 e que segue em crista no presente momento. O primeiro feminismo, infelizmente, figurou às suas contemporâneas mais como uma excentricidade da já excêntrica Belle Époque do que uma realidade concreta e cotidiana em substituição à histórica sujeição da mulher ao homem. O feminismo dos anos 1960, entretanto, foi mais surfado. As mulheres banhadas por esta onda, sem embargo, passaram a se separar dos seus maridos, a trabalhar fora, a estudar livremente e a reconectar os seus desejos às suas práticas ordinárias.

Já as feministas da presente onda, herdeiras das conquistas das suas antecessoras, e usuárias da maior igualdade em relação aos homens em, no mínimo, trinta séculos de História – sem com isso dizer que hoje há uma igualdade satisfatória entre homens e mulheres – estas feministas são mais belicosas no trato com os homens do que as do passado. Em vez de seguir na luta pela igualdade, a única universalmente válida, as presentes feministas, em especial aquela que rebaixou as minhas opiniões pelo fato de eu ser homem, parecem tentar inverter a imprópria hierarquia histórica entre homens e mulheres, como se agora fossem elas a fonte da verdade.

Contra estas feministas eu lanço a pergunta: aderir ao movimento feminista significa ser agraciado necessariamente pela verdade? Ou, ao contrário, as feministas e as suas convicções seriam tão passíveis de erros quanto os machistas e as suas? Se alguma feminista sustentar que as mulheres detêm alguma verdade negada aos homens, estará apenas sendo fundamentalista, isto é, pretendendo fazer dos seus dogmas particulares a verdade universal, coisa bem machista inclusive. É exatamente disso que não precisamos mais! Quanto mais não seja, porque essa é a triste hierarquia legada pelo passado, verticalidade que sempre subjugou, não só as mulheres, mas também os negros, os gays, e todos aqueles oprimidos pelos valores socioculturais dominantes.

A socióloga Vanessa Sander apontou que as mulheres negras, por exemplo, se sentem invisíveis dentro dos discursos feministas, pois as reivindicações pautadas pela categoria “mulher”, que se pretendem universais, na verdade, atendem apenas aos anseios das mulheres brancas. Sander relembra que as feministas brancas, quando batalhavam para a trabalhar fora, sequer consideraram as mulheres negras, que sempre trabalharam fora, desde o passado escravocrata. Em relação aos transexuais e travestis acontece o mesmo. As feministas mais radicais também são contrárias à participação, no movimento feminista, de quaisquer pessoas que não nasceram com vagina.

Burramente, como se fossem machos reacionários, estas feministas radicais pretendem manter a condição sexual natural dos indivíduo enquanto a chancela às suas interações sociais futuras. Se ter uma vagina é a condição para ser feminista, então abre-se aí um mundo inteiro de coisas e atividades que pessoas que têm essa genitália devem estar condicionadas, coisa que feminista alguma deve aceitar. Para não serem tão limitadas, estas fundamentalistas deveriam considerar, como colocou Sander, que o termo “mulher” denota experiências universais, e não apenas experiências de quem nasceu com uma buceta. Ou, porventura, a jornalista Rachel Sheherazade seria mais apropriada ao feminismo do que a cartunista e chargista Laerte Coutinho, que recentemente assumiu a sua identificação com sexo feminino?

Se as mulheres precisam do feminismo para lutar contra o machismo que historicamente as oprime, outrossim os homens precisam do feminismo para libertarem-se da opressão que o próprio machismo, sintomaticamente, também imputa a eles. Afinal, quando um homem nasce em uma conjuntura machista, também ele é obrigado a encarnar um papel universal predeterminado que dificilmente concorda com os seus desejos particulares e sempre dinâmicos. O machismo, portanto, é um inimigo contra o qual homens e mulheres devem lutar. Muito melhor se essa luta for conjunta, pois quanto mais forte e numeroso o exército, mais facilmente se vence a batalha.

Desse modo, quando aquela feminista com quem eu conversava disse que eu, por ser homem – por não ter nascido com uma vagina -, não poderia falar de feminismo e da condição da mulher, estava, com efeito, dispensando contingente à sua própria batalha, que, no caso, é a mesma que a minha, isto é, a busca pela liberdade definitiva do falocentrismo histórico. Entretanto, diferente dela, eu não acredito que devemos instituir um “vulvacentrismo” no seu lugar, pois seria trocar seis por meia-dúzia. A mim, parece muita tolice, ou talvez fruto uma histeria colateral, essa recusa das feministas radicais em sustentarem as suas identidades femininas precisamente em meio à diversidade absoluta em relação à qual, aliás, elas querem igualdade.

Inteligência, ao contrário, seria receber quaisquer pessoas e opiniões que encorpem a luta e a discussão das mulheres contra o machismo. Eu, mesmo não tendo uma buceta, acredito e apologizo que a posse de uma não deve significar subjugação social, cultural, econômica, política alguma. Não obstante, depois de ter a minha opinião masculina acerca do feminismo reduzida pela visão feminina e fundamentalista sobre o feminismo da minha interlocutora radical, a minha batalha pessoal contra o machismo se desdobrou em duas. De um lado, sigo lutando para que homens e mulheres estejam em pé de igualdade, mas, de outro, encampo a batalha na qual a minha vitória é ser bem-vindo, mesmo sem possuir uma vagina, no front feminista contra o machismo.

Restou claro que a feminista radical que tentou me calar com a sua verdade não quer que eu, ser despossuído de buceta, lute ao seu lado, ou sequer tenha direito à voz. Essa sua posição particular, entretanto, outra coisa não é senão um machismo às avessas, que eu, aliás, repudio, pois dizer que certas verdades só são acessíveis às mulheres apenas substitui o pênis do falocentrismo pela vagina. Sim, a vagina pode ser falocêntrica desde que Freud esclareceu a independência entre o falo e o pênis: falo é uma condição de poder, homens e mulheres podem usufruir dele, enquanto o pênis é apenas o órgão sexual dos homens.

Para a virtude do feminismo, portanto, aliados deveriam ser todos aqueles que têm capacidade para se colocarem, nem que seja reflexivamente, no lugar das mulheres. Desse modo, qualquer histeria fálica de mulheres dogmáticas&fundamentalistas, que recusam abraçar os “desvaginados” que solidariamente abraçam a causa das mulheres, deve ser tão condenada e combatida quanto o machismo. Afinal, é machista aquela feminista que, ao aderir ao seu “ismo”, acredita que aderiu automaticamente à verdade. Em contrapartida, é verdadeiramente feminista aquela mulher, homem, travesti, transexual, gay, seja lá quem for, que crê que a igualdade entre homens e mulheres não deve ser construída a partir da contraditória construção de diferenças entre eles.

Artesão e cliente

Como eu sou um artesão, está na essência do meu trabalho considerar diretamente as necessidades dos meus clientes, sejam eles diretores de teatro, coreógrafos de dança, colecionadores de Barbie, ou conhecidos que encomendam de mim coisas de que precisam. Todos dizem, a mim, pessoalmente, o que querem. Eu, do meu lado, ouço o que eles dizem, porém, mais do que captar o que as suas palavras-pedidos tentam explicar, devo encontrar nos seus olhos aquilo que eles querem, mas que suas palavras não conseguem dizer.

Obviamente, uma máquina de Coca-Cola não poder fazer isso, afinal, ela foi programada justamente para não reinterpretar nada além do preciso botão que o seu cliente apertou. Imagine uma máquina dessas decidindo se é Coca Zero o que o cliente precisa ou se sua massa corporal justifica uma Coca “normal”! O artesão, ao contrário, pode fazer isso, isto é, acrescentar algo de humano e de inédito à relação do seu cliente com aquilo de que ele consome.

Quando compramos nossas coisas em lojas, decerto isso nos satisfaz. Porém, as mesmas forças que aqui nos levam às compras, logo ali, obrigam-nos a descartar aquilo que acabamos de comprar. A satisfação desse tipo de consumo, portanto, é criticamente efêmera. Dessa relação, com efeito, somos escravos, todavia ideologicamente iludidos de que somos os senhores da relação. Ilusão oriunda do fato de os escravos nunca olharem nos olhos do verdadeiro senhor enquanto olham para as mercadorias da C&A ou da Coca-Cola.

Agora, quando uma pessoa encomenda de outra, por exemplo, uma roupa, eis uma relação produção-consumo na qual ninguém é escravo nem senhor. Isso suspende virtuosamente o vicioso ciclo capitalista que insiste em fazer do consumo o motor da necessidade. A relação com o artesão coloca em perspectiva não somente o claro e central ponto-de-fuga do consumidor, isto é, o prazer que ele espera do consumo, mas, principalmente, o ponto-de-vista desse consumidor, pleno de desejos – que, entretanto, extrapolam a capacidade de qualquer roupa ou coisa em saciá-los.

Um colega meu soube que eu costurava. Então, encomendou-me uma bolsa. Por um lado, porque precisava, e, por outro, segundo suas palavras, porque preferia dar o dinheiro que essa sua necessidade lhe dispôs a investir a uma pessoa do seu círculo, e não a uma marca internacional&impessoal qualquer. Talvez por ser de outra área de atuação que não a minha, ele, que é músico, não sabia falar de tecidos, de tipos de costura, de aviamentos, ou seja, das concretudes do que ele queria. Em vez disso, dava-me, com suas palavras e mãos, um desenho abstrato, assaz subjetivo, entretanto, daquilo que atenderia a sua necessidade objetiva.

Vi que não era o caso de “brifar” com ele as especificações técnicas da materialidade envolvida no seu pedido. Isso era tarefa da minha arte(sanato). Estava mais nos seus olhos do que em suas palavras aquilo que ele queria. Alguns dias depois, com a sua bolsa em mãos, também dos seus olhos vieram uma gratificação melhor do que o dinheiro que eu recebi por ela. Seu olhar, além de misturar gratidão e satisfação, também era a expressão de uma pequena, porém possível, alforria em relação ao sistema de consumo que, por insistir ser a única opção, nos escraviza.

Trabalhando dessa forma, isto é, diretamente para alguém, reencontro sistematicamente o meu lema preferido, qual seja, o comunista: “de cada qual segundo a própria capacidade, a cada qual conforme a sua própria necessidade”. Do lado do meu cliente, a sua necessidade particular concreta e a sua capacidade de explicá-la. Do meu lado, a necessidade de compreender a particularidade do seu desejo, de acordo, é claro, com a minha capacidade para atendê-lo, quiçá superá-lo. Uma vez que todos nós temos necessidades e capacidades particulares, é apenas com os olhos nos olhos que duas pessoas podem compartilhar as suas sem que uma esteja acima da outra.

Outra subversão impertinentemente mantida viva por alguns artesãos e os seus clientes é a redução do consumo. O destino fatal de qualquer coisa comprada em uma loja é ser substituída por outra de acordo com os ditames do mercado. Afinal, aquilo que compramos, mas que não foi feito especialmente para nós, por não suprir desejo particular algum, não encontra espaço de permanência nas nossas vidas.

Agora, quando temos, por exemplo, uma camisa feita especialmente para nós, nascida de algum desejo nosso e materializada de acordo com as nossas medidas – de corpo, de valor etc. -, substituí-la por algum novo lançamento da moda perde qualquer sentido. Uma bolsa, uma calça, um sapato ou um móvel, desde que feitos de acordo com as nossas necessidades particulares, com efeito nos acompanharão, senão por toda a vida, pelo menos por muitos anos, em saudável detrimento à obsolescência programada da moda consumista-escravizadora.

Infelizmente, o mundo será uma senzala do capital enquanto as máquinas de Coca-Cola e as lojas da C&A produzirem as muitas coisas de que necessitamos para viver. Entretanto, antes de propor que a relação artesão-cliente é solução para esse problema, é preciso ser dito que tal relação é anterior ao capitalismo. Aliás, foi contra esse tipo de organização econômica particular e pessoal que o capitalismo inventou a economia globalizada e impessoal. Sendo assim, a virtuose artesanal não deve ser vista como solução ao capitalismo, mas, ao contrário, este é que deve ser visto como o vício que impede a virtude daquela.

De qualquer forma, comprar pronto aquilo que desejamos, independente de quem o produza e de que necessidades tenham sido levadas em conta nessa produção, outra coisa não faz senão nos manter escravos do capital, o senhor do consumo sistemático. Entretanto, embora eu, no mais das vezes, seja um desses escravizados, quando produzo uma bolsa, uma calça, um móvel ou um cenário para alguém, sinto-me produtor não só de realidades materiais, mas de realidades ideais, nas quais, aliás, eu e o meu cliente somos os senhores, virtuosamente sem escravos.

Eu enquanto Blissett

Apesar de ter lançado vários livros, dentre eles Guerrilha Psíquica, e também assinado várias intervenções performáticas “worldwide”, Luther Blissett não é uma pessoa. É, generosamente, um espaço, vazio e universal, no qual qualquer um de nós pode atuar aquilo que, sob os nossos nomes batismais, não encontra espaço de atuação. Toda aparição de Blissett é a aparição de alguém qualquer. Porém, tudo o que alguém qualquer quer que apareça quando aparece em forma de Luther Blissett é aquilo que não aparece enquanto o si$tema funciona conforme o e$perado.

A primeira aparição de Blissett foi na Bolonha de 1994, assinando a notícia de que muitos animais haviam sido esquartejados e suas partes espalhadas pelos parques da cidade. A imediata repercussão da mídia deixou os italianos em polvorosa. Porém, um dia depois, esclarecido que nenhum animal havia sido morto, restou tácito que a mídia sabia muito mais ser sensacionalista do que verídica. Verdade alguma revelaria tal realidade; pessoa determinada nenhuma tornaria as ‘desnotícias’ da mídia em uma notícia tão palpável. Luther Blissett nessa causa!

Inspirado por essa tática de guerrilha psíquica, em 2002 a pessoa qualquer que eu sou foi Luther Blissett. Na época, eu era um estudante de arquitetura revoltado com os ditames do mercado imobiliário que, impertinente, constrangiam-me desde o início da minha formação. “Não, você não pode projetar um prédio dessa forma pois o mercado nunca o pagará”, diziam-me os meus professores, representando o si$tema em sala de aula. De nada adiantava eu contra argumentar dizendo, por exemplo, que era justamente a faculdade o lugar para se experimentar aquilo que no mercado de trabalho não encontraria parceiro$. Eu estava condenado a aprender aquilo que a mais vil das medidas, isto é, o capital, precisava que eu aprende$$e.

Então, secretamente, no meio de uma madrugada gélida do Sul, montei uma instalação no Departamento Acadêmico da Arquitetura da UFRGS. Em um monolito imitando um bloco de concreto, crucifiquei, numa cruz de sangue, uma galinha depenada devidamente identificada por um crachá que dizia: L. Blissett CREA n° 171 (CREA é o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura). Do ventre do animal dilacerado escorria sangue e caiam vísceras – simbolicamente, as mesmas que eu sentia arrancadas de mim, diariamente, nas aula que me tornavam um arquiteto devidamente si$tematizado. Deixei o local ainda na escuridão, sem que ninguém me visse, para retornar à paisana horas depois para às aulas.

Na minha ausência estratégica, quando os alunos abriram o D.A. e se depararam com a instalação, pelo fato de não saberem do que se tratava, nem como aquela coisa havia aparecido ali, não sabiam o que fazer nem como reagir. Restou-lhes polemizar acerca daquilo que não compreendiam. Quando, às 9hs da manhã, eu retornei à faculdade, aproximei-me do burburinho que se formou em volta da galinha arquiteta estripada, e um colega, muito indignado, disse, não só a mim, mas a quem estava perto dele: “eu acho um absurdo alguém querer se expressar e não assumir o que faz”. Outro disse: “eu não acredito em manifestação sem assinatura real”.

Como ninguém sabia que era eu o autor da obra, eu nada precisava dizer em minha defesa. Em troca, pude dar espaço para eles darem vazão às suas críticas ao até então não criticado nem imaginado por eles; expressões que sem um intervenção como aquela ficariam escondidas inclusive deles mesmos. Se a instalação tivesse sido anunciada previamente, lançada num verni$$age si$tematizado, e assinada por alguém que se responsabilizasse por ela, os meus colegas poderiam apenas gostar ou não do que viam, mas não se sentiriam comprometidos a esclarecer a eles mesmos o que viam e o que sentiam. Como a bola estava com ninguém mais além deles, as suas contribuições, de certa forma, eram as muitas assinaturas da obra.

Uma hora depois, decidiram tirar a galinha, pois alguns alunos estavam enjoando como cheiro. Deixaram, contudo, a estrutura ensanguentada e o crachá. Seria a carne morta a mais angustiante crítica? Pelo jeito sim. A minha instalação contra a arquitetura escravizada pelo mercado imobiliário, que tinha justamente na galinha crucificada no concreto a sua expressão mais pungente, findou sem a galinha, ou seja, sem o escravo da relação de escravidão. Em pé e à mostra, apenas o concreto e o crachá arquitetônicos, isto é, apenas os escravizadores.

O anonimato lutherblissettiano não só me permitiu atuar mais livremente, como também apreciar as opiniões dos meus colegas, sem filtro algum, em relação àquela atuação. Agora, se eu tivesse assinado a obra, conforme muitos deles queriam, jamais teria conhecido o que eles realmente pensaram dela, mas apenas aquilo de sistemático que todos tinham a oferecer, como ocorre com tudo aquilo que vemos a partir dos nossos olhos batizados com os nossos nomes.

Quais foram as minhas conclusões? Ora, primeiramente, que as pessoas não gostam de lidar com algo cuja autoria elas não podem atribuir a alguém. A ideia de Deus, aliás, é a prova máxima disso, pois não basta a natureza existir por si só, tem de ser obra de um criador determinado. Em segundo lugar, que ficar intrigado com alguma coisa que ao mesmo tempo causa repulsa – a carne morta e em putrefação – é angustiante para a maioria. Porém, tirando isso, o resto é suportável – o concreto ensanguentado e o crachá de nº 171.

Entretanto, em terceiro lugar, comprovei que a ação-putrefação e$tratégica do mercado imobiliário dentro da universidade que tanto me angustiava não era compartilhada pelos meus colegas. Em vez disso, eles faziam consigo mesmos aquilo que fizeram com a minha galinha dilacerada, isto é, suprimiam os seus próprios dilaceramentos acadêmicos para que o concreto e a carteirinha de arquitetos deles pudesse seguir expostos no hall nobre da arquitetura.

Obviamente, eu não mudei o mundo nem os meus colegas. Nesse sentido, Luther Blissett parece deixar a desejar. Todavia, por outro lado, somente através desse famoso anonimato eu pude expressar, da forma como me vinha, o modo como eu sentia a realidade ao meu redor. Nesse outro sentido, Blissett não só dá o que desejar, como também é a forma psiquicamente guerrilheira para fazer das nossas impressões balas impertinentes&inimagináveis contra os nosso inimigos, mesmo quando eles estão vencendo a batalha.

Há tempos eu não apareço como Luther Blissett, entretanto, nunca deixei de sê-lo, pois ser Luther Blissett é saber que algo inimaginável&incompreensível precisa ser feito sempre que houver um psiquismo sem livre espaço para se expressar. Contra o latifúndio do si$tema que só cria espaço para a sua própria expressão, guerrilha psíquica! Luther Blissett, eternamente.