Segurança vs. Liberdade em tempos de terrorismo

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Diante do avanço dos atentados terroristas worldwide, a velha busca humana por segurança cresce mais do que nunca. Passo tupiniquim dessa empresa, as novas e mais rígidas normas nos aeroportos brasileiros, há 18 dias do início das olimpíadas, passam a exigir nos voos domésticos a mesma vistoria de segurança que nos internacionais. Com isso acredita-se que estaremos mais seguros com relação aos terroristas. Não, contudo, sem pagarmos um alto preço. Além da taxa de embarque das mais caras do mundo, agora também é cobrado compulsoriamente dos passageiros mais tempo. E se, como dizem, tempo é dinheiro, o terror é realmente um negócio bastante lucrativo.

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) declarou, todavia, que “esses procedimentos têm como único objetivo zelar pela segurança de todos os passageiros e seus familiares no transporte aéreo brasileiro”. Paradoxal, no entanto, é perceber que, quanto mais normas e procedimentos de segurança são instituídos e aplicados nos quatro cantos e quase 44 mil aeroportos do mundo, mais os atos terroristas são presentes e destruidores. A França e os EUA são os exemplos mais dramáticos dessa desastrada homeopatia preventiva do medo do terror.

Será mesmo que a busca por segurança tem por consequência inevitável abrir espaço para o seu outro, a insegurança? Se, conforme analisou o sociólogo francês Robert Castel, “nós vivemos em sociedades que sem dúvida estão entre as mais seguras que já existiram”, porém, como percebeu outro sociólogo, o polaco Zigmunt Bauman, “esse ‘nós’ sente-se mais inseguro, ameaçado e amedrontado; mais inclinado ao pânico que nunca”, então a resposta é um angusto e alarmante sim.

Deveríamos então abandonar a ideia de segurança para então nos vermos livres da insegurança? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Basta que não sejamos demasiado idealistas em relação à segurança que devemos buscar. E porventura não é essa a advertência de Bauman ao dizer-nos que “a aguda e crônica experiência da insegurança é um efeito colateral da convicção de que é possível obter uma segurança completa”? Que completude seria essa senão o mais ilusório idealismo?

Não estamos decerto em condições de abandonar tal céu ideal, onde a segurança mente que pode reinar pura e absoluta, para aterrissarmos definitivamente no chão do real, no qual segurança e insegurança digladiam-se sempiterna e dialeticamente. Cegueira voluntaria ao que já anteviu Bauman, que “o processo da barbárie para a civilização não é uma conquista definitiva, mas uma permanente luta cotidiana”. Insegurança e segurança, outrossim, é bom que saibamos que não podem existir separadamente ou uma excluir a outra, mas que subsistem em constante e presente relação.

Porém, pelo jeito, é o oposto disso que gostaríamos de ver. Prova disso foi a resposta da opinião pública ao que disse o primeiro ministro francês Manuel Valls depois do atentado terrorista em Nice, qual seja, que “a França terá de aprender a conviver com o terrorismo”. Mutatis mutandis, que a segurança terá de se habituar à insegurança, e, mais dramaticamente ainda, que a civilização terá de se acostumar com o seu outro, a barbárie. Mas isso, a começar pelos franceses, parece absurdo!

Diante dessa recusa, sobredoses do mesmo e fracassado remédio: mais excepcionalidade ao terrorismo, mais investimento em segurança, mais apologia à civilização, cujos sobre-efeitos colaterais e viciosos, contudo, são a banalização do terror, o crescimento da sensação de insegurança e o cada vez mais forte grito da barbárie sempre que sufocada. Antídotos que, na verdade, funcionam como venenos, pois nas suas promessas de trazer “segurança completa”, no fim das contas acabam tornando atraentes válvulas de escape, como por exemplo a xenofobia, que estimulam colateralmente a insegurança da qual gostaríamos de nos ver livres.

Só que esse “irremédio”, que torna irremediável a presença daquilo que ele pretende eliminar, é espécie de elixir da juventude ao monstro chamado Indústria do Medo, cujos muitos braços/mercadorias vão desde cercas eletrificadas para residências à massiva produção bélica mundial. Como bem disse Bauman, “o ‘capital do medo’ pode ser transformado em qualquer tipo de lucro político ou comercial”. Ah, e não nos esqueçamos de que as já altíssimas taxas de embarque dos aeroportos brasileiros, com suas novas e “promissoras” normas de segurança, irão se elevar mais ainda, pois tal é a fome da besta industriosa do medo.

Se, como Bauman afirmou, “o medo em si é o pior e mais penoso sofrimento”, o medo do terrorismo do qual padecemos atualmente é o sofrimento com a veste do terror. E diante de tal mal, parece que não temos outra escapatória a não ser consumir hipocondriacamente doses cavalares e constantes dos remédios venenosos da Indústria do Medo. Só que o efeito deles não é o paraíso da tranquilidade e da segurança, mas, no melhor dos casos, o colateral limbo do tédio -como o que doravante sentiremos nas filas de embarque de cada viagem doméstica-, e, no pior deles, o inferno da insegurança crônica.

Fechar fronteiras nacionais ou recrudescer penosamente a vigilância nos aeroportos, por exemplo, enquanto promessas de segurança frente ao terrorismo; cujas realizações, todavia, são sempre e cada vez mais adiadas para que nesse meio tempo infindável se lucre bastante com a insegurança generalizada; tais promissões de forma alguma resolvem aquilo em torno de que sociólogos e sociedades de todos os tempos orbitaram sem, no entanto, até hoje, encontrarem um centro de gravidade ideal: a equação perfeita entre segurança e liberdade.

Com efeito, a insegurança, produto do medo, cobra caro por seu outro, a segurança. E é a nossa liberdade o que hipotecamos em troca de proteção. A tendência a retirar-se dos espaços públicos para refugiar-se em ilhas de protegidas, diz Bauman, rouba-nos a possibilidade de vivermos com o outro, com a diferença. Só que desse modo nos alienamos da possibilidade de diálogo e de pacto justamente com quem porventura pode ser uma ameaça. Então, resta-nos apenas um(ns) outro(s) ameaçador(es) a uma proximidade angustiantemente muda, cuja transposição, não obstante, só é possível por meio do ruído ensurdecedor do terror.

Porém, relembra-nos Bauman, “somos feitos apenas de diferenças… E não importam quais sejam essas diferenças, o que as determina é a natureza das fronteiras que traçamos. Cada fronteira cria suas diferenças”. O Brexit grã-bretão foi a demarcação de uma Europa inteira, quiçá um mundo de outros, tão potencialmente ameaçadores quanto atualmente indesejados. Explodir os aeroportos brasileiros agora não é só projeto utópico de terroristas fundamentalistas, mas também desejo distópico de centenas de pessoas entediadas pelas horas de espera e indignadas pelo tanto de seus tempos que terão de ceder em nome da segurança.

A irracionalidade da barbárie terrorista não é outra que a da civilização aterrorizada. Antes, é a mesma desmedida de um mundo que vive entre fechar-se em fronteiras cada vez mais justas e intransponíveis, por um lado, e abrir-se para a globalização, por outro. Esquizofrenia social sempiterna, a até então não equacionada relação entre segurança e liberdade de forma alguma encontra equilíbrio na redução do acesso à países e aeroportos. Mas, como vimos antes, a irresolução dessa questão é a manutenção e a potencialização do medo generalizado com o qual o capitalismo engorda destemidamente.

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