A miserável saída de cena do PMDB

1458951082096.jpg

O presentíssimo espetáculo político brasileiro, ao contrário do que as telas de TV golpistas mentem, não terá um final feliz com um golpe, mesmo que “branco”, isto é, político-jurídico. Em primeiro lugar, porque o que teremos em seguida será algo que atenderá ainda menos pelo nome de democracia, e, em segundo, porque a “morte” em cena aberta dos seus protagonistas, quais sejam, Dilma Rousseff e o PT, apenas deixará o palco livre para atores muito menos virtuosos e muito mais descompromissados com o bem-estar da plateia-povo-brasileira, tais como, Michel Temer e Eduardo Cunha, do PMDB.

Entretanto, não é outro o triste “working process” que o PMDB está produzindo para reestrear centralmente na Broadway política tupiniquim. Tão triste que nem um dos seus maiores roteiristas teve coragem de estar presente na cena-ensaio na qual o partido anunciou que estava abandonando o governo. Temer foi  o charlatão-mor que, de um lado, articulou diretamente o abandono do Planalto para chegar enviesadamente à presidência, mas que, de outro, não compareceu ao ato do abandono para não escancarar o fato de que, na verdade, quer nada mais nada menos que a presidência da república, enviesadamente mesmo.

Porém, à plateia que permanece atenta, não é difícil observar o que quer o espetáculo peemedebista com os gritos de “Fora PT”  e “Brasil pra frente, Temer presidente” que ecoaram rapidamente na sessão de três minutos realizada na Câmara dos Deputados, dia 29 de abril de 2016, na qual o partido, por aclamação, decidiu abandonar o governo Dilma. Tampouco as palavras de Eliseu Padilha, quais sejam, “temos de ter o partido fora da base do Governo para nos tornarmos um player em 2018” afastam a certeza de que não é o distante 2018 que visa o PMDB, mas esse mesmo 2016 crísico&agonístico.

E o patrocínio intensivo e apressado do PMDB a esse ato crísico&agonístico da “ópera brasilis” outra coisa não busca senão nublar o que disse o líder do PSOL, Ivan Valente, que “não podemos aceitar um impeachment sem argumentos jurídicos da forma como está ocorrendo”. Isso porque, embora o processo de impeachment exista na legislação brasileira, ele não foi concebido para funcionar como arma política. Nas palavras da própria Dilma: “nós estamos discutindo impeachment concreto sem crime de responsabilidade. E impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”.

A declaração da controversa Marina Silva em relação ao desembarque do PMDB do governo tem ao menos a pertinência de relembrar-nos de que o PMDB é o mesmo partido de sempre, que decide romper com o Governo sem dar satisfação à sociedade nem pedir desculpas por ter sido um dos responsáveis pela atual crise. A política em cima do muro de Marina é virtuosa ao menos em sustentar que o PMDB quer apenas “se descolar da crise política e reinventar-se como solução. Continua o mesmo e velho PMDB tentando renascer das cinzas da fogueira que ele ajudou a atear”.

Não obstante, o tiro já saiu pela culatra peemedebista. A ordem do partido para que todos os cargos públicos, inclusive os ministérios da Ciências e Tecnologia, Aviação Civil, Minas e Energia, Agricultura, Saúde e Portos, sejam entregues não foi, nem tem como ser cumprida. Os seis ministros peemedebistas estão dispostos a continuar em seus respectivos cargos no governo de Dilma. Sem dizer que Temer, o articulador do desembarque, não desembarcou nem desembarcará de sua vice-presidência tacitamente acessória.

E para que as contradições peemedebistas não parem por aí, basta dizer que 24 horas depois do espetacular teatro de três minutos do PMDB, o senador Roberto Requião, do mesmo partido!, disse que Temer, na verdade, estava aplicando um golpe no próprio PMDB, pois, segundo o senador, não havia quórum para deliberar a saída do governo Dilma. Sugeriu ainda que era “só conferir nos vídeos”. Talvez por isso tenham escolhido nada claro sistema de aclamação, onde não se apura voto a voto a decisão da maioria. Um grito basta para fazer “democracia” para esse partido.

O PMDB, portanto, está aplicando um duplo golpe: o primeiro, na democracia que outrora ajudou a construir, e o segundo, em si mesmo, rachando-se em peemedebistas que concordam e peemedebistas que discordam do próprio PMDB. Dilma, a protagonista do primeiro golpe, acaba se beneficiando com o segundo. Rousseff, em vez de renunciar, como quer desesperadamente o PMDB, se aferra ainda mais às suas obrigações. Como ela não fez questão de esconder, não renuncia, “não desembarca” em hipótese alguma.

Dilma cancelou inclusive a sua viagem para os Estados Unidos na próxima quinta-feira para não passar temporariamente o comando do país ao seu vice, mentirosamente desembarcado, Temer. Como deixar seu objeto mais precioso, isto é, a nação que governa, nas mãos de um “companheiro” tão vil e tão pouco democrático?

E o tiro que já saiu pela culatra peemedebista findará como um legítimo tiro no pé se, como falou Marco Aurélio Mello, ministro do STF, não houver fato jurídico que respalde o processo de impedimento da presidenta Dilma, pois, nesse caso, “esse processo não se enquadra em figurino legal e transparece como golpe”. O problema, entretanto, é que esse tiro no pé atinge o povo brasileiro, visto que uma das estratégias golpistas é fazer com que a economia nacional, que afeta a todos, acompanhe os mesmos acordes sombrios da crise política que conta com a colaboração espetacular do PMDB.

O conselho de Mello, de que “agora precisamos aguardar o funcionamento das instituições … precisamos nessa hora de temperança”, parece não fazer parte do contemporâneo ideário peemedebista, que em parcos três minutos, e por razões que nem mesmo dentro do próprio partido encontram eco universal, saiu da cena que ocupa há trinta anos. Cena esta aliás que só está tão desagradável por conta da “coadjuvância” do próprio PMDB.

E agora o partido, esquecendo-se estrategicamente de sua velha e cada vez menos crível fala democrática, covardemente acusa a parceira de cena, Dilma, de ter errado a sua. Mas ela, como bem disse, jamais desembarcará deliberadamente da complexa e nem sempre agradável ópera histórica que no momento protagoniza, qual seja, o governo do Brasil. Bem diferente do PMDB…

Que “nós” para o futuro?

futuro.jpg

Em vez de passiva&alienadamente perguntarmos “que futuro nós precisamos?”, a questão deveria ser colocada de forma mais ativa&responsável: que “nós” precisamos ser presentemente para que tenhamos o futuro de que precisamos? Quanto mais não seja, porque a qualidade do futuro será a qualidade do seu passado, isto é, disso que agora é presente.

A radical questão ecológica que a contemporaneidade enfrenta seja talvez a que mais indique que a preocupação com o futuro não engendra a preocupação com o presente. Se engendrasse, veríamos que a nossa preocupação como futuro é a nossa não preocupação presente com a poluição e a devastação da natureza que produzimos indiscriminadamente.

E como esse “nós” presente não consegue preservar o planeta para o seu próprio futuro, exige que o futuro faça isso por ele. Esse ponto-de-vista, entretanto, emoldura apenas alienação. E, no centro da “Big Picture” da natureza, um ponto-de-fuga-buraco-negro-humano, que suga não só as retas paralelas, mas a natureza toda e o próprio presente caótico para si, e futuro adentro. Nesse futuro, no entanto, outra coisa não estará presente que a nossa insustentabilidade atual.

A ciência, com o seu imenso poder para modificar o mundo, que deveria produzir senão vida e sustentabilidade, tem mais êxito em destruir a natureza em em mensurar em enésimo grau essa destruição do que em evitar com todas as suas forças a catástrofe ecológica. Cientistas antiecológicos esses da nossa História! Sintomático é o fato de cada vez mais pessoas estarem sendo cientistas, doutores, pós-pós-doutores.

Se lembrarmos que a ciência nasceu na modernidade com o lema, assaz burguês aliás, de espremer a natureza para fin$ humano$, e compararmos com o quadro ecológico atual, no qual a natureza posa pálida&espremida depois de parcos séculos escravizada pelo devir científiuco, a produção de mais cientistas só aponta um futuro ainda mais preocupante.

Entretanto, que tipo de cientistas e de doutores precisamos nos preocupar em produzir hoje para nos ocuparmos verdadeira e eficientemente do futuro? De cientistas especializadíssimos cujas produções, entretanto, atendam melhor a uma ou duas megacorporações capitalistas do que à natureza e ao futuro comum?

Não! Isso já era. Precisamos de super intelectuais competentes o suficiente para produzirem, nas suas lidas diárias, sustentabilidade à insustentabilidade que todos produzimos, inclusive à da própria ciência. Produzir “cientificamente” apenas o veneno, mas não o antídoto, desculpe-me, faz da ciência a maior burrice. Ciência deveria ser a não produção de venenos, para que não fosse necessário antídoto algum.

Realmente, nós não podemos ter qualquer tranquilidade em relação ao futuro enquanto não tivermos uma intelectualidade ativa&inventiva no sentido de reconstruir a harmonia perdida entre o homem e a natureza, espremida, no entanto, por essa mesa intelectualidade ativa&inventiva.

Que os números da física dos multiversos se materializem em mais natureza. Que os “papers” dos doutores pelo menos resultem em mais lixo reciclado. E que em vez de nos perguntarmos como o futuro deverá ser para que “nós” não precisemos deixar de ser como somos atualmente, isto é, absolutamente insustentáveis, nos ocupemos com aquilo do nosso presente que causa a preocupação com o futuro, qual seja, esse “nós” presente e insustentável!

Ora, o futuro outra coisa não será além de outras e novas relações que não as de agora. Porém, os objetos das relações futuras são produzidas antes de serem relacionados, ou seja, agora. Se for uma natureza degradada um dos objetos que o presente legará ao futuro, é com esta degradação que todas as partes da natureza, desde as bactérias, os animais, os homens, e inclusive os cientistas, estarão relacionadas e se relacionando.

Agora, se a herança do presente ao futuro imediato for a consciência de que para o homem existir ele deve espremer não a natureza, mas aquilo que, nele mesmo, leva-o a espremê-la, os próximos tempos antes do futuro que tanto nos preocupa poderão ser mais promissores e livres de preocupação. Portanto, plenos de vida. Para tanto, um “nós” melhor, e imediatamente!

Filosofia e palhaçada

socrates.jpg

Da filosofia, na sua séria investigação do real, não se espera que brinque em serviço. Por isso, antes de qualquer coisa, a palhaçada é descartada enquanto uma das faces da realidade. Agora, e se a face do real não se fechar sem a máscara de um palhaço, não estariam os filósofos fechando os olhos justamente para aquilo que mais querem enxergar? Como então experimentar a dimensão palhaça da filosofia sem, contudo, ela deixar de ser o que é, ou seja, amor à sabedoria? Ou só será possível amar a sapiência seriamente?

Aqui, os filósofos de plantão devem estar se perguntando sobre a definição de palhaçada, obviamente. Pois bem, segundo Renato Ferracini, o palhaço é aquele que não interpreta; simplesmente é a sua própria ingenuidade patológica em ato. Portanto, é absolutamente verdadeiro. Temos aqui a primeira coincidência do objeto do palhaço e o da filosofia: a verdade!. A palhaçada, portanto, reconecta o indivíduo com a verdade subcutânea que culturalmente somos levados a esconder, a fingir que não existe em nós. Ou seja: a nossa patologia inerente.

Sócrates, por exemplo, foi uma espécie de palhaço. Ora, o filósofo grego começava perguntando aos seus interlocutores – supostos sabidos – coisas de que não sabia. Porém, sistematicamente refutava as respostas que recebia até deixar claro que ninguém sabia do que ele também não sabia. Quando Sócrates iniciava seus diálogos, tinha-se um ignorante (um palhaço), o próprio Sócrates, e um sabido (sofista) qualquer. Porém, quando terminava, eram dois os ignorantes; dois os palhaços! Não seria a maiêutica socrática também a técnica de parir palhaços?

A palhaçada da filosofia socrática veio ao mundo por uma aventura dialógica. Entre outras coisas, um diálogo é a relação de dois “pathos”. E a patologia que desses encontros decorre só não é considerada uma das verdadeiras expressões do real caso lhe seja negada tal dimensão. Contudo, o palhaço é justamente aquele que revela, ademais graciosamente, a patologia que vem ao mundo senão a partir da existência humana. Prova: não vemos palhaçada nos demais animais, somente em nós mesmos.

Diógenes, o cínico, uma espécie de sábio-bufão que habitava um barril na aristocrata e cosmopolita Atenas, quando perguntado por Alexandre, o Grande, o que mais gostaria de receber dele, disse-lhe: “quero de volta aquilo que tu não podes me dar”. Na verdade, pediu para que Alexandre saísse da frente do sol que antes lhe banhava gratuitamente. Ora, fazer troça do homem mais poderoso do mundo e não ser morto, escravizado, mas, pelo contrário, ter sua sabedoria reconhecida, não é para simples filósofos, mas somente para aqueles que também são grandes palhaços.

Bufonesco também foi o bigodudo Nietzsche. O Filósofo restaurou não só a dimensão trágica da filosofia como também relembrou a todos a esquecida e inalienável esfera dionisíaca da vida. Vale ressaltar que Dionísio, ao contrário do equilibrado Apolo, representa justamente a desmedida, ou seja, o “pathos”. E Nietzsche se esforçou em filosofar zaratustronescamente, em dançar com o seu martelo niilista em torno dos rígidos fundamentos morais, religiosos, culturais de sua época como um Clown Augusto. Por isso, talvez, desde lá seja um dos filósofos mais populares.

Contemporaneamente, Slavoj Žižek é considerado o grande clown da filosofia. Seu muitos cacoetes e tiques nervosos, sua fala duplamente enrolada – de um lado a língua eslovena, de outro, a língua presa -, sem falar da sua predileção por ideologias desacreditadas, anedotas démodés e filmes de quinta categoria a partir dos quais filosofa, tudo isso saca Žižek desse lugar demasiadamente sério, e por que não dizer apolíneo, que se espera que os filósofos habitem exclusivamente. O filósofo, entretanto, defende-se: “chamam-me de clown para não levarem a sério a minha filosofia”.

Não está justamente nessa resposta de Žižek o lado negro da questão entre filosofia e palhaçada? Melhor dizendo: não seria precisamente quando um filósofo ou uma filosofia revelam algo demasiado sintomático e problemático, e por isso mesmo insuportável, seja da condição humana, seja da realidade mesma, que decidimos não levá-los mais tão a sério? Ora, um palhaço não é perigoso. Dele podemos rir despreocupadamente, pois o filtro da palhaçada transforma as profundidades mais angustiantes da existência em superfícies cômicas, inofensivas.

Porém, o lado iluminado da relação entre filosofia e palhaçada brilha quando um filósofo sabe da impossibilidade de se alienar totalmente da patologia inerente à existência humana, e, por conta disso, não confia somente na sua pretensa seriedade, na sua monocórdica retidão. Novamente: Sócrates e a sua suma sabedoria: “só sei que nada sei”; o cínico Diógenes, que, com o império aos seus pés, pede somente pelo sol que sempre teve; Nietzsche, o sábio que criticou a modernidade como ninguém, mas que, entretanto, terminou a vida completamente dominado pela demência; e, por fim, Žižek, para quem a verdade é nervosa e se revela justamente através das ficções da realidade.

A seriedade, na filosofia, funciona como as viseiras colocadas ao lado dos olhos dos cavalos de tração, para que, em vez de olharem tudo o que tem para ser visto, foquem somente naquilo que “querem” que eles vejam. A seriedade, portanto, deve dispensar a visão periférica. A palhaçada, ao contrário, é a arte de evidenciar justamente os detalhes excêntricos e patológicos que resistem em se harmonizar nos centros dos quadros mais pretensiosos. Aliada à filosofia, isto é, ao amor à sabedoria, a palhaçada outra coisa não faz senão dar a ser amado tudo o que até então não é objeto de amor justamente porque não é visto.

Esquerdas brazukas

esquerdas.jpg

Quando se afirma que um partido político não é “mais” de esquerda, de onde exatamente é proferida essa crítica? Do mesmo chão material e contraditório a partir do qual esse tal partido atuou e atua, ou, em vez disso, do topo de algum ideal abstrato que não muito valentemente preestabelece o que é e o que deve ser “a esquerda”, independente das contingencias da realidade?

No primeiro caso, a crítica é pertinente pois não exige do criticado conhecimento nem performance alguns que já não sejam conhecidos nem tenham sido “performados” por quem critica. No segundo caso, entretanto, a crítica é vazia porque solicita do criticado conhecimento e performance que quem o crítica ou não exigiu de si, ou não teve oportunidade de conhecer nem “performar” antes de criticar.

Muitos são os “esquerdistas” que sustentam que “o PT não é mais um partido de esquerda”. Assim falam pois pensam que os governos de Lula e Dilma foram demasiadamente permissivos com o liberalismo econômico, que não investiram na construção de uma consciência de classe àqueles que dão nome ao partido, quais sejam, os trabalhadores, e que não conseguiram escapar ilesos do mar de lama da corrupção brasileira.

Quem critica o PT do belvedere teórico de Marx e Engels ou de algum parlatório moralista não tem papas na língua para afirmar que o PT não é “mais” um partido de esquerda. Agora, quem acha que a prática vale mais que a teoria, certamente terá dificuldade em sustentar que o PT deixou de ser de esquerda ao considerar a aventura igualitária inédita que este partido trouxe e ainda está tentando trazer ao Brasil.

Considerando-se, por exemplo, a exclusão do Brasil do mapa mundial da fome, o revolucionário acesso ao ensino superior desde que o ENEM foi instituído, a energia elétrica e a água potável que finalmente chegaram aos confins do historicamente desassistido nordeste brasileiro, e, recentemente, a lei que aumenta o imposto sobre ganhos de capital, sancionada em 18 de abril pela presidenta Dilma Rousseff, de que lado da régua política esquerda-direita o PT deve ser locado?

Mesmo levando-se à risca a teoria marxista, do PT ainda não pode ser dito que não é “mais” de esquerda. Se, por um lado, o Partido dos Trabalhadores não realizou a revolução rápida e violenta que lemos no Manifesto Comunista, por outro, a revolução lenta e histórica que pode ser lida n’O Capital ainda mantém o PT dentro do necessário horizonte revolucionário.

A revolução rápida e violenta, que muitos consideram “a” utopia do sistema marxista, tem o vício de não contar com as contradições do inimigo para dar cabo dele. Pretende pulá-las. Entretanto, ao não serem levadas em conta, o revolucionário tampouco leva em conta as suas próprias contradições, que, estas sim, devem ser conhecidas e superadas antes de se atacar as do adversário.

Já a revolução histórica, que trabalha árdua e ininterruptamente sobre e contra as contradições do inimigo, que, não obstante, pode ser acusada de “reformista”, essa tem ao menos a virtude de poder conhecer as suas próprias contradições nesse processo, de reformá-las, melhor dizendo, superá-las, paralelamente ao conhecimento e à superação das contradições do inimigo.

E se a abertura liberal do PT nos seus três governos e meio, o não investimento imediato numa consciência de classe total, até mesmo a vulnerabilidade à corrupção, forem justamente as contradições desse jovem partido que, primeiro, devem ser conhecidas, não teoricamente, mas na prática concreta, para só então poderem ser verdadeiramente superadas?

Um partido de esquerda deve nascer pronto e nunca dispor do direito de evoluir? Não é isso que estão exigindo do PT?

O Partido Comunista Brasileiro, com efeito, é o que mais pode criticar a “não esquerdice” do PT. No entanto, o forte e íntegro idealismo do PCB nem de perto produziu as mudanças materiais concretas que o seu alvo de crítica implantou. É muito fácil permanecer íntegro longe da realidade. Bem mais difícil, corajoso, e por que não dizer verdadeiramente revolucionário é construir essa integridade com as mãos sujas do sujo barro da realidade.

Da segurança de um ideal de esquerda é fácil dizer que o PT não é “mais” um partido de esquerda. Agora, e se o verdadeiro esquerdismo só ganhar sentido a partir do chão material sobre o qual ele é tentado, chão esse que em momento algum está livre de contradições, sejam as da realidade que se deseja revolucionar, sejam ainda as do próprio exercício de um diretiva de esquerda?

O próprio Lula é um exemplo concreto desse esquerdismo material. Entre escapar da miséria nordestina e ser explorado pela indústria metalúrgica paulista, o ex-presidente “analfabeto” elegeu o pragmatismo como via revolucionária. Se tivesse se aferrado apenas a ideias revolucionários anacrônicos e eurocêntricos provavelmente não teria tirado tantos milhões de pessoas da miséria nem colocado outros milhões na universidade pública, coisas que nenhum idealista de esquerda fez no lugar dele.

Idealismos à parte, Lula e o seu PT são as forças de esquerda mais efetivas da história do nosso país, apesar da intimidade que tiveram –e ainda têm- com o liberalismo, da consciência de classe trabalhadora até aqui não investida como prega a cartilha marxista, e da corruptividade com a qual se veem envolvidos uma vez imersos na não menos corrupta estrutura política que faz a história do Brasil.

E se a verdadeira revolução for nada além de processo histórico de tentativas e erros em busca de um futuro menos errático?

Portanto, se é de um ideal de esquerda que muitos insistem que o PT não é “mais” um partido de esquerda, essa crítica, digamos assim, platônica, que acha que a mudança material concreta realizada pelo PT no Brasil deveria ter se dado de outra forma, esses críticos deveriam, em primeiro lugar, experimentar o gosto amargo que é conduzir um país cercado de velhas oligarquias. Em segundo lugar, realizar uma mudança material tão ou mais efetiva que a que o PT construiu. Só assim teriam o direito de dizer que o PT é “menos” de esquerda do que eles.

Utopias e distopias tupiniquins, de 2013 à 2016

imagens-protesto6.jpg

No calor utópico do junho de 2013 tupiniquim, a multidão das ruas tinha uma agridoce certeza de que produzia o começo de uma mudança ético-política virtuosa na sociedade brasileira. Porém, a vitória dos 20 centavos nas tarifas de ônibus, a promessa de reforma política arrancada de Dilma em cadeia nacional, os gritos-desabafos coletivos contra o fundamentalismo religioso de Marco Feliciano e os seus e contra a perniciosidade midiática da Rede Globo e afins, não tardaram, em 2016, a se transformarem em passagens de ônibus ainda mais caras, em um parlamento mais à direita e mais fundamentalista do que se poderia imaginar, e no agigantamento antidemocrático e claramente vingativo da Rede Globo.

O que em 2013 era uma promissora utopia para aqueles manifestantes, em 2016 revelou-se a mais indigesta distopia, ou seja, um lugar mais opressivo do que se esperava e, mais importante, do que se queria. Hoje, não é difícil enxergar que até a democracia e a justiça estão perdendo os seus “topos”, isto é, os seus lugares na terra brasilis. Já aqueles para quem as demandas de 2013 e os seus espetaculares “vândalos” eram augúrios distópicos, 2016, de certa forma, é uma utopia quase realizada.

Três anos depois do junho de 2013, é difícil não concluir que foi ingenuidade das “flores” da chamada primavera brasileira acharem que cutucar a velha onça oligárquica com a vara curta das insatisfações populares não traria uma mordida muito mais violenta da fera do que as incontáveis bombas de gás lacrimogênio semeadas pelas polícias nos asfaltos urbanos e do que a desclassificação peremptória do movimento pela mídia tradicional em nome dos famigerados “cidadãos de bem”.

A isenção de impostos para tempos religiosos aprovada pelo senado em 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo sancionada por Dilma um dia depois, a inacreditável permanência de Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados apesar de seus crimes, a absurda presença do criminoso internacional Paulo Maluf na comissão de impeachment contra Dilma, a vigorosa ópera golpista da Rede Globo, tudo isso só reforça, por um lado, a face distópica oculta da utopia dos manifestantes de 2013, e, por outro lado, o potencial utópico da distopia que 2013 representou para a direita radical e fundamentalista.

Para reforçar ainda mais essa ideia, não precisamos nem justificá-la nas respostas transcendentes e opressivas das estruturas política, jurídica, econômica e midiática que os manifestantes de 2013 estão recebendo agora. Basta considerar a imanente contra-resposta outrossim popular que ocupa as ruas do Brasil desde 2015, com verde, amarelo, panelas, ódio, homofobia e odes à Bolsonaro. Sem dizer do inacreditável clamor por intervenção militar, monarquia e impeachment, e todos para já!

Agora, do ponto de vista dos ideias de 2013, seria possível sustentar uma nova utopia a partir da nossa tácita e atual ágora distópica? Claro que sim, visto que nada melhor que o vislumbre de uma distopia para que seja gerado novos e melhores horizontes a serem alcançados, construídos. A utopia mais necessária no momento seria uma que apontasse para um futuro no qual a tendência fascista, fundamentalista e opressora que 2013 recebeu como resposta de 2016 fosse seguida de uma contra-resposta democrática, laica e libertária. Algo como um novo 2013 depois de 2016.

Tal pretensão utópica porventura seria atópica, isto é, sem lugar na realidade, ou ainda podemos confiar em alguma dialética político-histórica, que aponte não para o fim da história, mas para o seu eterno prosseguimento? Há os que defendem que não há tal dialética, que o real não responde velhas perguntas, que apenas segue tagarelando, descontrolada e surdamente, do presente e para o próprio presente.

Porém, o antagonismo quase que perfeito entre, por exemplo, o radicalismo dos black bloc e o dos “coxinhas” é assaz intrigante. É difícil sustentar que estes ignoram aqueles, que apenas dialogam consigo mesmos e com o absoluto presente. Mais ainda, que a força que hoje a direita experimenta, mais elitista e antidemocrática do que até mesmo ela seria capaz de imaginar ser capaz há três anos, não replica a força social e democrática que a esquerda demonstrou no Brasil nos últimos treze anos e, espetacularmente, nas manifestações de 2013.

Negar a dialética histórica é pertinente até onde a sua consideração indiscriminada faz com que a voz do presente seja asfixiada pelos ecos do passado e pelos sussurros do futuro. Todavia, se não há o mínimo diálogo entre o que se diz agora e o que foi dito antes, e se essa dialógica por sua vez não resulta em uma espécie de “deixa” para os “bifes” futuros, as utopias não existiriam. Mas… não há nada numa utopia que impeça a sua existência. Essa impossibilidade existencial é chamada atopia. Utopias são coisas que não existem, porém, ainda.

Além do mais, “utopizar” que algo como 2013 possa ou deva se seguir de 2016 não quer dizer que o fim último da sociedade brasileira seja um sempiterno estado democrático, laico e livre, por mais que seja isso que muitos de nós deseja. Antes, aponta para o absurdo que é imaginar que um estado fascista, fundamentalista e opressor preencha essa finalidade. E mais, que entre eles não dialoguem também os “cinquenta tons de cinza” que os distanciam.

Pode ser que a resposta antagônica ao poderoso e antidemocrático discurso que ocupa o proscênio do teatro político brasileiro tenha de esperar mais tempo do que os mais otimistas “utopizam”. Não obstante, é justamente a presença ostensiva de um vil discurso fascista, golpista e antidemocrático, aqui, que, ali, estimula um contradiscurso mais virtuoso; que por sua vez provoca um novo contradiscurso vilão que impertinentemente busca equilibrar tamanha virtude; e assim por diante.

O primaveril 2013 e o invernal 2016, ao contrário do que queriam aqueles e do que querem estes, não tem como serem hipostáticos. O verde e amarelo fascista de 2016 -utópico para os coxinhas e distópico para os black bloc- sucedeu o vermelho e o preto libertário de 2013 -utópico para os black bloc e distópico para os coxinhas. O que sucederá 2016 outrossim será utópico para uns e distópico para outros, tem jeito não.

O topos brasilis também se desenrola no tenso diálogo entre estes dois personagens-horizontes: utopia e distopia. Quanto mais não seja, porque em menos de uma semana esse tête-à-tête pôde ser visto nas ruas brasileiras: a multidão que ocupou as ruas no dia 13 de março, para quem a atual democracia é distópica, e o fascismo, utópico, outra coisa não fez que dar uma inevitável deixa para outra multidão ocupar as mesmas ruas, cinco dias depois. Para estes, entretanto, o fascismo é que é distópico, e a democracia, porque aparentemente atópica, deseperadamente utópica.

Por que duvidar do prosseguimento e da radicalização desse diálogo entre os que querem “Brasis” tão diferentes? O plurívoco março de 2016 não deve deixar dúvida a respeito dos futuros que são tentados para o Brasil nesse presente crísico: um horizontal-democrático e outro vertical-oligárquico. E a discussão só é tão presente e vigorosa porque seus componentes dialéticos são irredutíveis: para a utopia democrática de 2013, a oligarquia é distópica; e para a utopia oligárquica de 2016, é a democracia que é distópica.

Como não está escrito em nenhum céu platônico que a democracia é a regra para a sociedade brasileira, pois isso é apenas letra –tomara que não morta- do livro que essa mesma sociedade escreveu para si, e à qual chama de Constituição, é do diálogo entre as presentes forças que resultará não a norma não para o futuro eterno, mas, digamos assim, os indícios para os “presentes” tupiniquins imediatamente subsequentes. A democracia é uma construção, porém frágil e instável, pelo menos muito mais vulnerável que os velhos bunkers da oligarquia.

Agora, quaisquer virtudes de 2013 somente terão “topos” em 2016 e no futuro próximo se não houver a vitória absoluta da antidemocracia que vemos garatujada em 2016. Por isso a insistência nas utopias de 2013 é mais que necessário ao resumo midiático-fascista da ópera que 2016 tenta fazer. Insistir virtuosamente nisso, entretanto, é saber que a luta é composta. Há “lutas” dentro da luta: a da utopia de 2013 versus sua própria distopia, aclarada 2016, contra a luta da distopia de 2013 a favor de sua própria utopia, quase dona do “topos brasilis” em 2016.

Os que querem algo da utopia de 2013 tendo lugar no presente, quiçá no futuro, antes de gastarem toda munição contra com a distopia que receberam de 2016, devem se ocupar com a distopia que seus próprios ideias tinham escondidos em si, lá em 2013, que não foram apreciados devidamente por conta do calor e da emergência daquelas manifestações juninas. Só assim, ciente de suas próprias contradições, é que a energia ética e democrática de 2103 poderá apontar devidamente as contradições de 2016 e ter algum rendimento contra a antiética e a antidemocracia que busca ocupar o topo do agora.

Dilma Rousseff, grampeada e prostituída

dilma-triste1.jpg

Injustamente chamada nas ruas de quenga, regionalismo nordestino que significa prostituta, por manifestantes pró-impeachment que, entre outras coisas, pedem por justiça, e outrossim injustamente grampeada pela pretensa justiça do juiz de primeira instância Sérgio Moro, que, ao que tudo indica, também quer depô-la, a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, parece, está sofrendo injustiças por todos os lados. Entretanto, quando é um juiz que age injustamente em nome da justiça, como saber se os ataques à Dilma são justos ou injusto?

Aos que a chamaram de prostituta, coisa que sabidamente ela não é, a presidenta teve a nobreza democrática de dizer que todos os seus cidadãos têm o direito de se manifestarem livremente. Já a respeito de ter sido grampeada por Moro, e, o que é gravíssimo em se tratando de uma líder de estado, conteúdos de conversas telefônicas suas terem sido divulgadas publicamente a partir da arbitrariedade do juiz, Dilma dispensa a nobreza e se aguerri à justiça, tanto para investigar a responsabilidade dessas ações criminosamente inconstitucionais, quanto para puni-los.

Agora, por que Dilma solicita a mesma justiça brasileira que, ao grampeá-la inconstitucionalmente, foi tacitamente injusta com ela? Dizer que “presidente do Brasil, presidente de qualquer país democrático do mundo não pode ser grampeado. Em muitos países do mundo, quem grampear um presidente, vai preso”, como ela fez em dois discursos recentes, nos dias 17 e 18 de março, por acaso não é assumir publicamente que não há justiça no Brasil, uma vez que ela de fato foi grampeada e que até aqui ninguém foi preso por isso, e, pelo andar da carruagem tupiniquim, ninguém será?

Não só Dilma, mas todos nós que concordamos que houve injustiça com ela talvez devamos rever o nosso conceito de justiça, pois pelo jeito nossa teoria não está correspondendo à prática. O filósofo Baruch Spinoza, no seu Tratado Político, nos diz que cada cidadão, por não estar sob a jurisdição de si próprio, mas do estado, não tem direito algum de decidir o que é justo e o que é injusto, uma vez que determinar essas coisas é poder do estado. Dilma, eu, você, e Moro, individualmente, portanto, não podemos dizer o que é justo e o que não é.

Para dificultar ainda mais a definição de tais objetos, Spinoza explica que na natureza não há essas coisas chamadas justiça e injustiça, mas só no estado, de forma que a existência deste é a própria existência daquelas. Porém, se o estado são os seus cidadãos, justiça e injustiça devem ser o que, para eles, elas são. Como então sair desse círculo que, por um lado, impõe que cada cidadão não tem o direito de hipostasiar o que é justo e injusto, e, por outro, diz que são os próprios cidadãos que, ao constituírem o estado, constituem automaticamente o que é justiça e injustiça?

Onde justiça e injustiça, no Brasil, estão pretensamente hipostasiadas é na Constituição. Entretanto, não foi em nome da justiça que seu suposto guardião de primeira instância, Sergio Moro, rasgou a Constituição e grampeou Dilma? Para não deixar a questão sobre o que é justo e injusto somente entre os indivíduos Moro e Dilma, devemos considerar que milhões de brasileiros acham que o juiz foi justo, e outros milhões, injusto. Quem tem razão?

Afora o que consta claramente na nossa constituição, ou seja, que ninguém, nem mesmo Moro pode grampear a líder soberana, temos a sabedoria ético-política de Spinoza a nos lembrar que “usurpa um estado o súdito que, por seu exclusivo arbítrio … lança mão de algum assunto público, mesmo que creia que aquilo que tentou fazer seria o melhor”. Temos aqui a nossa Constituição e a filosofia spinozana dizendo que o juiz Moro, ao arbitrariamente usurpar o estado, foi injusto não só com Dilma, mas também com todos os cidadãos brasileiros.

No entanto, por ele não estar preso, e, mais ainda, estar sendo defendido ferrenhamente por milhões de concidadãos, nossa Constituição e o nosso filósofo parecem falar de uma quimera. Só que em Spinoza encontramos uma razão para a ação de Moro e os muitos que acham que ele age justamente, pois o filósofo diz também que “as leis pelas quais a multidão transfere o seu direito para um só conselho ou para um só homem devem, sem dúvida, ser violadas quando interessa o bem comum violá-las”.

Em uma democracia, o bem comum é o que o bem é para maioria. Moro e os seus por acaso são essa maioria para rasgarem a Constituição em nome do que para eles é o bem comum? Um sufrágio popular, nesse momento, responderia inquestionavelmente quem é e o que pensa a maioria, e consequentemente, o que é justiça e injustiça para esse caso. Todavia, vivemos em uma democracia demasiadamente representativa, e assuntos como este ficam a cargo exclusivo ou dos nossos representantes eleitos, ou, mais alienados de nós ainda, sob a cátedra daqueles escolhidos por nossos representantes.

Se não temos como ter certeza democrática se a maioria efetiva dos cidadãos acha que o grampo de Mouro contra a presidenta é justo ou injusto, uma vez que a Constituição parece não estar fazendo a menor diferença, essa querela, como estamos vendo diariamente, está se resolvendo por via de uma guerra de forças alheia à Lei, portanto, ao estado. Na falta de uma medida democrática concreta que legitime ou reforme a letra aparentemente morta da nossa Constituição, resta mesmo a guerra de uns contra outros. Não é à toa que Spinoza disse que a virtude do estado democrático serve muito bem na paz, mas não na guerra.

E a guerra tupiniquim que se desenrola alheia à democracia é entre Moro e os que concordam com ele, uma vez que não querem ser cidadãos inertes em um estado, que, para eles, está sendo usurpado por Dilma, e a própria Dilma e os que concordam com ela, que, por suas vezes, não querem ser cidadãos usurpados por aqueles. Dilma e os seus tem a seu favor a legalidade democrática, embora, como estamos vendo, ela nada esteja valendo no momento. Já Moro e os seus, declarando guerra aberta, dispensam-se automaticamente da democracia.

O que temos então é a guerra do estado presente, porém agonizante porque divididíssimo, que compreende Dilma, Moro e todos os brasileiros, contrários e favoráveis a ela, com o “estado” que Moro e a sua corja querem fazer do Brasil. A vantagem destes fica evidente quando atentarmos ao que coloca Spinoza, qual seja, que um estado corre sempre mais perigos por causa dos cidadãos que dos inimigos externos, pois o estado de Dilma, apesar de ter a Constituição do seu lado, é muito mais frágil porque, nele, seus inimigos são também cidadãos.

Já o “estado” que Moro tenta instituir –não obstante, como se trata de uma iniciativa da direita é mais coerente dizermos reinstituir-, esse “estado” não tem inimigos internos. É ilegal, sem dúvida, porém puríussimo na sua ilegalidade. O pior de tudo é que cada vez mais, ilegalmente e com a ajuda do estratégico espetáculo da mídia golpista, sequestra os cidadãos do estado que Dilma representa e quer seguir representando. Infelizmente, estamos muito próximos de ver inclusive Dilma se tornar cidadã -todavia ingrata- do “estado” que Moro representa.

Entretanto, se nos afastarmos um pouco que seja da presente polêmica envolvendo a possibilidade de Dilma ser impedida ou não, e considerarmos que desde que reeleita há quase dois anos ela não consegue governar, dada a constante ofensiva da oposição, não fica difícil enxergar que, na realidade, ela já está impedida a muito tempo. Como disse Spinoza, “tem um outro sob seu poder quem o detém amarrado, ou quem lhe tirou as armas e os meios de se defender” .O que se desenrola entre ela e Moro, portanto, é só uma das paralelas retóricas espetaculares que, aos poucos e a posteriori, vão contando aos brasileiros o que já aconteceu de fato.

O crescente isolamento em que Dilma se encontra, produzido pela voraz oposição que tem em Moro a régua de sua Lei, faz com que ela sirva cada vez menos ao estado que ela mesmo quer representar, pois, citando Spinoza: “um rei sozinho … não pode saber o que é útil ao estado”. Nesse vazio deixado por Dilma, Moro cresce, aparece e é ovacionado nas ruas por milhões de brasileiros. Entrementes, ainda conforme Spinoza, “as condecorações e outros incentivos à virtude são sinais de servidão, mais do que de liberdade”.

Os servos que aplaudem Moro e batem panela contra Dilma acreditam piamente que com essa performance receberão como recompensa um estado novo, livre daquilo que não gostam no estado que Dilma, com muito esforço, vem tentando representar. Esquecem-se, todavia, de que esse seu “estado prometido” já é corrompido desde a semente. Talvez devessem considerar o que diz Spinoza, que “quando se depõe um monarca não se faz uma mudança de estado, mas só de tirano”. Mas disso parecem não querer saber.

Dilma, por sua vez, cada vez mais vulnerável na sua presidência, acaba tendo de se vender paulatinamente aos interesses da oposição. Nesse movimento, ela acaba parecendo, ainda que metaforicamente, a prostituta de que a própria oposição a chama nas ruas. Cada vez mais frágil, precisa se expor publicamente explicando até as conversas privadas que teve ao telefone, que foram grampeadas e liberadas à imprensa por Moro, como se o grampo ilegal do juiz de primeira instância estivesse lhe perseguindo em todas as demais instâncias de sua vida política. Dilma Rousseff está grampeada e prostituída por aqueles que não a querem como presidenta. Historicamente, isso findará sendo considerado justo ou injusto?

O index Petralha de Constantino

constantino-abre.jpg

Em pleno século XXI, o liberalíssimo Rodrigo Constantino, um economista e colunista brasileiro, publicou no seu blog uma lista com 767 nomes de artistas e intelectuais brasileiros que devem ser boicotados, pois, segundo o próprio Constantino, “querem transformar o Brasil numa Venezuela, num Cubão”. O blogueiro coxíssimo outra coisa não faz que ressuscitar as práticas medievo-católica e moderno-nazistas que impunham aos seus seguidores o que e quem eles não podiam ler, ver, fazer, ou seja, conhecer. Do contrário, excomunhão, fogueira, fuzilamento ou câmara de gás.

Pelo menos até aqui, Constantino não tem tanto poder, e isso graças ao que resta de democracia no Brasil. No entanto, mesmo assim ele não tem “papas no blog” ao vociferar: “Boicote nos vagabundos, gente! Sem dó nem piedade … Não comprem nada deles! Não leiam suas colunas! Não frequentem seus shows e peças. É boicote geral a petralha!”.

Ao contrário do que gostaria de fazer parecer, Constantino não tem o privilégio de ter inventado o “ódio coxista” ao PT e à esquerda. Não criou a fogueira das vaidades liberal anti-petista que pretende carbonizar a democracia para que de suas cinzas renasça o velho paraíso oligarco-aristocrata, lar-doce-lar da elite. Sua demiurgia miserável apenas atiça esse fogo antidemocrático com livros e espetáculos artísticos que, para a aridez de sua patológica ideologia, devem ser realmente infernais

Entretanto, para quem sabe que em uma democracia o único index a ser seguido para que não se seja súdito de alguma ditadura ideológica é o “index sui”, ou seja, o índice de si mesmo, a abjeta (re)iniciativa do outrossim abjeto blogueiro liberal acaba sendo -perdoem-me a redundância- o mais indicado indício do que se deve consumir para não se ser tão abjeto quanto o próprio Constantino. É como dizer para uma criança: “não faça isso”; e, pronto, não temos dúvida do que a criança fará na primeira oportunidade.

Na história asfixiante dos index restritivos há uma passagem que, para mim, é muito simbólica, atentada contra o “filósofo dos afetos”, o ibero-holandês-judeu Baruch Spinoza, cujo controverso nome, para alguns, significa “bendita esperança”. É muito sintomático que, com esse nome, e, mais ainda, com seus imanentes objetos filosóficos, quais sejam, os afetos, Spinoza tenha sido excomungado pela Igreja Católica, pela comunidade judaica e proibidíssimo de ser lido em todas as universidades europeias no século XVII.

Para não nos esquecermos de que Rodrigo Constantino apenas dá novo fôlego à velha asfixia ideológica das grandes religiões monoteístas, todavia com uma miséria discursiva que envergonharia os escrivães medievais, vale a pena ler a publicação que indexou Spinoza na lista de autores malditos publicada pela Sinagoga de Amsterdã em 1656, intitulada “Maldito seja Baruch de Espinosa”:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa… Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa… Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele.”

Depois disso, foi necessário mais de um século para que voltasse a ser permitido ler a obra do filósofo que, doravante, inspirou as filosofias de Diderot, Hegel, Marx, Nietzsche, Bergson, e muitos outros mais, inclusive a minha, assumidamente incipiente, que, de qualquer forma, para desgosto meu, não foi indexada por Constantino.

A “decisão dos anjos e o julgamento dos santos” de excomungar, expulsar, execrar e maldizer Spinoza, não obstante, coloca inevitavelmente a seguinte questão: qual a potência da filosofia desse judeu para que tenha sido tão proibida? Assim como a criança é mais curiosa justamente com a parte da vida que os adultos lhe proíbem, qualquer um que seja verdadeiramente amante do saber, ou seja, filósofo, mais que tudo deseja saber “a parte do saber” que lhe tentam furtar.

Nesse sentido, indexações restritivas como as da Igreja Católica e da comunidade judaica são, como se diz, um tiro no pé. O idiota do Constantino, que tem toda a História disponível para ser lida no mesmo terminal de computador no qual escreveu o seu natimorto index, teve oportunidade de saber que tentar impedir o acesso a determinado conhecimento ou produção humana apenas os marcam espetacular e distintivamente para que, na primeira oportunidade, eles sejam lidos, assistidos, consumidos, e ademais, com muito mais voracidade.

No entanto, a falta de sagacidade de Constantino é apenas o index de sua própria patologia intelectual, que só aumenta à medida que a sua longa lista de obras a serem boicotadas e autores a serem amaldiçoados cresce. Para concluir, duas perguntas interligadas e uma única resposta. Será que o coxinha leu todos livros e artigos e assistiu a todos os espetáculos dos 767 intelectuais e artistas que indexou restritivamente, uma vez que isso é o mínimo que se espera de um crítico, ainda mais um tão radical? Em caso afirmativo, como ainda conseguiu escrever tamanha abjeção? Resposta: quando alguém quer proibir os outros de “lerem” o mundo livremente, é porque esse alguém já não é livre, e o que é pior, já não sabe ler o mundo.

A elite sabe ser povo?

INTERVENÇAO-MILITAR-JÁ-MANIFESTAÇÃO-15-MARÇO.jpg

Pelo quinto dia seguido vejo da minha janela, doze andares acima da avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, passeatas com centenas de cidadãos usando verde, amarelo, panelas e indignação, gritando histericamente “impeachment já” à presidente Dilma Rousseff, “fora PT”, “intervenção militar já”, e, o que para mim é mais grave, mais ainda que a intervenção militar, “Bolsonaro para presidente!” Abstraindo a discordância que tenho em relação a tais demandas, uma coisa eu não consigo deixar de achar lindo: o povo unido em função de uma causa comum. Minha aprovação, entretanto, para por aí, pois um olhar um pouco mais demorado mostra que não se trata exatamente de povo, mas de elite.

O que mais anda me intrigando nessa gente manifestante majoritariamente branca e abastada que finge ser povo debaixo da minha janela é se eles terão capacidade para aceitar não terem as suas demandas atendidas, como tantos professores, garis, caminhoneiros, servidores públicos, etc., que há muito mais tempo saem às ruas, igualmente unidos e com clamores bem mais dignos, mas que, no mais das vezes, voltam para casa de mãos vazias e pernas e línguas exaustas. A minha dúvida, na verdade, é se a elite sabe ser povo até o fim, ou, antes, só finge sê-lo, porém, secretamente, permanece a pequena leviatã mimada de sempre.

Todavia, pela alienação que vejo neles, como por exemplo: pedir democraticamente por uma intervenção militar que automaticamente cessaria a liberdade deles para pedirem qualquer coisa; bater panela feito idiotas em vez de ouvir o discurso do “inimigo”; chamar qualquer pessoa de roupa vermelha que cruze o caminho deles de puta ou vagabundo; tirar fotos com moradores de rua para mentirem nas redes sociais que nunca houve divisão na sociedade brasileira; por tudo isso é bem capaz que eles estejam pensando que basta sair às ruas, fazer alguma cena de efeito ou um ruído mais alto que o do trânsito para se conseguir o que se quer.

Será que a elite sabe que participar política e ativamente da construção de um país não é como entrar em um shopping center com um cartão de crédito no bolso e sair de lá com as mercadorias que se deseja? Sabe ela que não pode mandar em um presidente da república da mesma forma como mandam em suas empregadas (eletro)domésticas? Ou, como se vê nas praças mais gentrificadas onde a elite se agrupa e manifesta seus anseios antidemocráticos, sabe somente estourar algumas Moët & Chandon entre um vômito retórico e um tilintar de Le Creuset?

E quando dizem: “Fora PT! Queremos a nossa democracia de volta”, porventura acham que a democracia um dia pertenceu só a eles, e que os mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Dilma mais ela os tiranizam deliberadamente? Consegue a elite compreender que só há democracia de verdade enquanto aqueles que elegeram um representante tiverem o direito serem governados por ele, e que a própria elite, por sua vez, tem o dever de respeitar essa decisão majoritária, gostando ou não dela? Ou será que é preciso fazer um “power point” explicando o que é democracia para que a elite entenda o que é o governo da maioria?

Agora, falando sério, quando a elite pede a “democracia de volta”, outra coisa não está querendo que o regime político que constitui a sua essência, isto é, a velha e intransponível oligarquia, ou seja, “o governo de poucos”. Este regime exclusivista sim sempre foi deles. Ah, elite carente! Não obstante, o paradoxo de sua demanda pretensamente democrática logo se revela: quer a oligarquia de volta, todavia chamando-a de democracia, mas é justamente a democracia pela qual clama que tira o espaço de sua velha e exclusiva oligarquia. Só batendo panelas mesmo para que essa confusão faça algum sentido para eles.

E para piorar ainda mais a mixórdia de suas ideias e de suas manifestações públicas, a elite, sem se dar conta de que é apenas uma oligarquia carente, age como uma aristocracia injustiçada, cujo algoz é a verdadeira democracia, que, para a própria elite, parece tirania. Asfixiados pelo governo da maioria, e querendo esquecer o fato de que é apenas a minoria vencida democraticamente, a elite tupiniquim mente para si mesma que é melhor do que os que a venceram, e que a aristocracia, ou seja, “o governo dos melhores”, é democracia.

Uma vez reclamando por “sua democracia” roubada -na verdade gritando desesperadamente por sua oligarquia perdida- a elite se sente tiranizada justamente pela verdadeira democracia que, essencialmente, não dá espaço nem à sua verdadeira oligarquia, nem à sua pretensa aristocracia. Então, “impeachmados” por suas próprias contradições, a elite pede por um tirano, por um ditador militar, que em sua pessoa simbolizará radicalmente a exclusividade da oligarquia e da aristocracia juntas. A cereja do bolo seria se pedissem que o tirano ditador fosse o próprio Bolsonaro.

Talvez pelo fato de a elite tupiniquim perceber que a vertical oligarquia de que sente tanta falta não mais terá espaço na horizontalidade democrática que, esta sim, acolhe melhor a maioria do povo brasileiro, é que esta minoria historicamente acostumada com privilégios esteja agindo de forma tão radical e, no extremo, pedindo por um tirano. É como se dissesse: se eu não posso ter a minha oligarquia travestida de democracia de volta, a maioria também não terá a sua verdadeira democracia; seremos todos carentes do que mais precisamos; todos súditos igualmente desapoderados. Só assim, sem que haja desigualdade alguma entre ela e o restante dos indivíduos, e sem que haja também democracia, é que a elite sabe ser povo.

Companheirismo intempestivo

images-cms-image-000360257.jpg

Não subestimemos a força e a virtude intempestivas do companheirismo entre militantes de esquerda. Principalmente entre um homem que escapou da fome nordestina justamente na exploração da indústria metalúrgica paulista e uma mulher que foi torturada por ter lutado contra a ditadura militar antes de se tornar economista, e que, além de tudo, têm em comum a presidência da República Federativa do Brasil.

Tal companheirismo é para poucos! Tão raro que fácil de ser imediatamente criticado. Ainda mais pela direita, para quem o companheirismo de esquerda sempre foi a maior ameaça. Por isso, nesse momento no qual o companheirismo político entre Lula e Dilma é oficial novamente, cabe pensar se a crítica que recebe não é só a velha estratégia da direita de enfraquecer a esquerda, ou o que sobrou dela na “brasilândia”.

Para milhões de brasileiros e para direita golpista, Lula ministro no atual governo Dilma não visa interesse algum do Brasil, mas apenas evitar que ele seja preso pela investigação da Lava Jato. Tal lógica não deve ser desconsiderada, afinal, é típico do ser humano –e não só dos petistas- fazer esse tipo de coisa. Já para outros milhões de brasileiros e para a presidenta Dilma, Lula se junta ao governo para ajudar o país nas dificuldades que enfrenta, que não são poucas aliás. A lógica dela também faz sentido, uma vez que Lula é um gigante na política, com uma obra concreta internacionalmente reconhecida. Quem em sua são consciência sócio igualitária não gostaria de ter um Lula trabalhando consigo em um momento crísico?

Porém, o senador ex-peessedebista e atual líder do PV, Alvaro Dias, fez questão de ser absolutamente monológico ao afirmar à Globo News que “com a nomeação de Lula como ministro a presidente Dilma renunciou”, concluindo peremptoriamente que “não há outra leitura possível”. Não obstante, um passo além do discurso estrategicamente alienante do senador vira-casaca, podemos ler o fato de outra forma. Do contrário, a realidade terá sido determinada por um oligarca investigado por R$ 37 milhões em propina da Petrobras. Portanto, sanidade e lisura mental é contrariar Dias e, sim, fazermos outras leituras da realidade.

Sobre a afirmação de que Lula aceitou o ministério somente para escapar das investigações da Lava Jato comandadas por Sérgio Moro, isso não quer dizer que o ex-presidente tenha se livrado de ser investigado, muito menos que tenha assumido algum crime. Seu novo cargo apenas transfere a investigação sobre ele para outra instância jurídica. Como declarou a presidente Dilma, incrédula com as especulações da oposição, achar que isso é ruim é dizer que um juiz de primeira instância é melhor e mais competente que a suprema instância legislativa do país, o STF, o que, obviamente, é um absurdo. “É uma inversão de hierarquia”, conclui a presidenta.

Ademais, uma boa leitura da realidade não pode deixar de considerar a possibilidade de que Moro esteja de fato sendo o braço com força legal da direita golpista e corrupta. Se isso porventura for verdade, o que não é impossível em se tratando de Brasil, uma vez que o simples folhear de um livro de história mostra que a direita sempre usou a justiça para cometer suas injustiças, Lula outra coisa não fez que encontrar um meio de escapar dessa resistente estrutura produtora de injustiça para ser julgado, pasmem, com justiça, e não por um juiz possivelmente comprado pela oposição.

Outra coisa sobre a qual devemos fazer mais leituras do que a única que Alvaro Dias nos impõe é a previsão de que Lula, na equipe de governo, não contribuirá para a resolução das crises política, pela qual o seu partido e a sua companheira Dilma passam, e econômica, pela qual passa o Brasil inteiro. Ora, é preciso uma dose elevadíssima ou de ignorância, ou de má vontade para desconsiderar que Lula é um gênio político, talvez o maior da nossa história, que em oito anos de governo demonstrou sobejamente que sabe enfrentar situações adversas e vencê-las sem deixar de fora, como se diz, o lado mais fraco da corda, o que é realmente revolucionário.

Ter diminuído a histórica desigualdade social do Brasil, “marolado” o tsunami mundial de 2008 e instituído o ENEM, a mais democrática e revolucionária forma de acesso ao ensino superior, são só alguns exemplos do que este metalúrgico e ex-presidente foi capaz de realizar pela nação. Portanto, declarar que Lula nada tem a ajudar na crísica conjuntura brasileira só pode ser discurso estrategicamente profético da oposição golpista que não suporta alguém mais competente do que ela. Melhor dizendo, alguém realmente competente. Já para quem é capaz de observar a realidade para além dos espetáculos da Rede Globo, como deixar de ler que Lula na equipe do governo pode sim ser uma grande oportunidade para se sanar alguns dos graves problemas tupiniquins?

Quem, como Dias, acha que a entrada de Lula no governo é o fim de Dilma realmente não sabe porque, na esquerda, as pessoas se chamam de companheiros. O próprio Dias não foi companheiro do seu ex-partido, o PSDB, ao fugir para o PV para tentar ser presidente ele mesmo. É obvio que a direita inteira queria que Dilma e Lula não fossem companheiros um do outro, que ela, de um lado, deixasse ele ser investigado injustamente pelo juiz curitibano que mais parece agir como pau-mandado do PSDB e da Globo, e, por outro, que Lula deixasse o governo de Dilma ser destruído pela oposição sem nada fazer. Mas não! Lula e Dilma mantém viva a força do companheirismo político mesmo nas situações mais adversas.

E ao contrário do que prega o pessimismo travestido de realismo produzido pelos políticos golpistas e divulgado maciçamente pela mídia não menos golpista que infelizmente já contaminou milhões de brasileiros, nesse companheirismo intempestivo de Lula e Dilma não está contido necessariamente o fim do governo Dilma, da justiça, da democracia nem a derrocada econômica do Brasil. Pode até ser que eles não consigam resolver as atuais crises, que as agravem mais ainda até. Para saber disso, entretanto, temos de esperar para ver. Agora, sustentar, no presente, que eles não conseguirão, desculpe-me, é apenas fazer como a Mãe Diná, ou seja, pretender prever o futuro, coisa que, sabemos, ninguém pode.

Sobre a insistência de Dilma em não renunciar, podemos ler no Manifesto Comunista de Engels e Marx que para um revolucionário não existe essa de esperar pela tomada do poder ou de aguardar o momento oportuno para tal. O radicalismo dessa ideia se desfaz quando se entende que quanto antes o poder estiver nas mãos dos que querem governar para a maioria, tanto melhor. Mesmo que o revolucionário não tenha condições de realizar imediata e idealmente seu nobre objetivo, é melhor que a sociedade já seja governada por ele do que por aqueles que se preocupam somente consigo mesmos e com a manutenção de suas desiguais superioridades.

Por isso essa ideia que corre solta em boca de Matilde midiática e golpista, qual seja, que Dilma deve renunciar por causa das adversidades políticas e econômicas pelas quais país passa, nunca ecoará em uma militante de esquerda como a nossa atual presidenta. Dilma deixou isso bem claro aos jornalistas: “olhem bem para mim e vejam que eu não tenho cara de quem vai renunciar”. Muita gente que bate panela contra ela não dá bola, mas Dilma não se esquece de que se for deposta o Brasil volta todinho para os oligarcas do PMDB, abutres políticos dos quais foi muito difícil tomar um pouco do poder que seja. Apesar das adversidades, Dilma não esconde de ninguém que não tem dúvida de que seu governo ainda é o melhor para o Brasil, ainda que não seja ideal, pois mais distante da perfeição estariam governos de PMDBs e PSDBs da vida.

E no momento mais crítico, quando os partidos golpistas da oposição se utilizam não só da mídia, mas também da justiça e da economia brasileiras, mobilizando milhões de ignorantes úteis para que saiam às ruas vestidos de verde e amarelo e panelas para defenderem o golpe e a desigualdade social de que a direita sempre precisou para ser quem é, por que é absurdo Dilma buscar a ajuda de um velho e competentíssimo companheiro de luta? E Lula, quando percebe que a investigação de Moro sobre ele não tem nada a ver com justiça, mas com o plano golpista da direita, iria procurar companheirismo em quem senão na sua velha e burocrata companheira Dilma?

Por mais que seja dito que quase nada resta de esquerda no PT, quiçá no Brasil, o companheirismo intempestivo de Dilma e Lula tem ao menos a virtude de manter alguma coisa da esquerda viva. Não sem muita, mas muita crítica. Todavia, alguém da esquerda ser criticado, ainda mais pela direita, é algo tão normal quanto chover para baixo. Da minha perspectiva esquerdista, ainda acredito que o companheirismo de Lula e Dilma renderá bons frutos, e novamente, pois basta reler a história recente do Brasil para saber que estes dois formam um grande time. Claro, Alvaro Dias não recomenda tal leitura. Porém, ele é de direita, não é companheiro de ninguém além dele mesmo.

Aceito a crítica de que a minha visão sobre a virtude do companheirismo político entre Lula e Dilma é utópica. Com efeito, a coragem dos dois em não esconder tal companheirismo, mais ainda, em restaurá-lo publicamente na hora que para muitos seria a mais inapropriada, mantém acesa em mim a fé nas estratégias da esquerda, principalmente nesse momento no qual a vigorosa fogueira das vaidades da direita ofusca a sempiterna, porém frágil, chama revolucionária da esquerda. Se sou utópico por ainda pensar assim é porque utopia não é atopia nem distopia, pelo menos até que o tempo prove o contrário. Aos companheiros Lula e Dilma, no presente, boa ventura!

Socialistas ainda utópicos?

socialismo 01

Por que ainda causa surpresa em muitos que se consideram de esquerda ver a atual “jihad” da direita brasileira no sentido de reconquistar o Leviatã tupiniquim a qualquer preço, inclusive ao custo altíssimo da democracia? Está certo que as ações e os discursos da direita brasilis desde a última disputa presidencial de 2014 estão de espantar. Ética, política, jurídica e economicamente eles realmente estão “botando para quebrar”. E quebrando justamente o Brasil menos desigual aventurado desde a eleição democrática de Lula, há treze anos.

Entretanto, é ingenuidade se surpreender com tal movimento da direita, pois é exatamente isso que ela sempre fez, seja no Brasil, seja em qualquer outro lugar. A esquerda, por sua vez, também não está sofrendo nenhum ataque novo. Desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que há desigualdade social entre as pessoas, há os que querem reduzi-la, quiçá eliminá-la -e destes é dito que são de esquerda. E há também os que querem ou produzir, ou radicalizar, ou simplesmente manter a desigualdade social, e a qualquer custo – e destes é dito que são de direita.

Então, por que o espanto em ver mais do mesmo, isto é, mais do jogo sujo da direita, não só contra a esquerda, mas contra qualquer um que deseje a igualdade social? A falta de ética, escrúpulos e justiça da direita, como pudemos ver na gigantesca manifestação contra o governo PT ocorrida em 13 de março de 2016, deveria nos surpreender? O que esperávamos? Que em determinado momento -e justamente agora- a direita deixaria de ser o que sempre foi, que pensaria como a esquerda, ou, no mínimo, não se importaria mais com a construção da igualdade social no Brasil? Que utopia é essa?

Antes de Engels e Marx criarem o socialismo científico, cujo escopo era o de compreender a real dinâmica do capitalismo e, principalmente, as suas contradições, por meio das quais aliás esse sistema econômico produtor de desigualdade sucumbiria, pensadores da “Primavera dos Povos” de 1848, tais como Saint-Simon, Fourier, Owen e Proudhon, sustentavam que o socialismo teria lugar certo no mundo, de forma pacífica, e, ademais, por meio da boa vontade da burguesia. Estes foram chamados por aqueles de socialista utópicos.

Não estaríamos nós, socialistas tupiniquins contemporâneos, sendo tão utópicos quanto os do século XIX por acharmos que há algo de impróprio na “jihad” da direita brasileira, na sua tentativa de tirar do poder o que resta da esquerda? Pela indignação de muitos “brazucas” de esquerda diante das ações da direita, parece que sim. Agora, por que é utopia em crer que a direita tomaria alguma consciência e deixaria de seguir produzindo e mantendo a mui antiga desigualdade que a faz ser quem sempre foi?

É preciso salientar todavia que utopia não é algo que não existe e que não tem como existir. O que não existe porque não tem como existir é atópico, sem “topos”, sem lugar. Utópico, na verdade, é o que não existe apenas por motivos circunstanciais, mas que pode vir a ser, pois não há nada de absurdo que impeça a sua existência. O feudalismo era utópico enquanto as sociedades humanas eram estruturadas pela escravidão da antiguidade assim como o capitalismo era nada além de uma utopia durante a longeva vida do feudalismo. Porém, como a história não nos deixa ignorar, todas estas utopias encontraram horizonte para ser, e foram.

Embora o socialismo utópico tenha sido muito criticado por idealizar a realidade, ou, em outras palavras, por realizar apenas ideias, essa crítica se esquece de que habitar uma utopia é flertar, dentro da realidade presente -uma vez que é impossível abandoná-la-, com ideias que podem, e até mesmo devem ter lugar dentro dessa realidade. Dizer apenas que os socialistas utópicos partiam do ideal ao real, portanto, é só metade da história, pois, por outro lado, é por causa do real concreto que ideias outras acerca dele surgem entre os homens e, historicamente, viram realidade.

Ideal mesmo seria se tivéssemos em comum com os socialistas utópicos apenas a defesa da igualdade entre as pessoas e a crença de que a propriedade privada é a origem de toda a desigualdade. Entretanto, na prática, todos os que estamos surpresos com as jogadas da direita brasileira temos em comum com aqueles socialistas anteriores à Marx a utopia de que a direita e o seu voraz capitalismo gerador de desigualdade, em algum momento, por alguma sã razão e espontaneamente, darão espaço à esquerda e ao seu socialismo produtor de igualdade.

Por isso, mesmo que a utopia não seja uma patologia intelectual, seria muito saudável e produtivo que os muitos esquerdistas que até aqui seguem surpresos com a barbárie da direita brasileira contra o projeto sócio igualitário nacional se colocassem deliberadamente sob a crítica de Engels e Marx aos socialistas utópicos, qual seja, que o modelo socialista deles não tinha como ser implementado porque que não atentava para as conexões reais entre proletariado e burguesia.

Aceitar tal crítica pode fazer com que vejamos de modo mais realista as conexões entre esquerda e direita, para assim compreendermos que o que ocorre hoje no Brasil não é um erro crasso da realidade, mas a realidade ela mesma, nua e crua, sem nada para ser desacreditado, mas tudo compreendido. Enxergar as estratégias da direita com naturalidade é manter-se mais próximo da revolução, pois a revolução só é necessária por conta do sempiterno modus operandi da direita.

A revolução, ou seja, a vitória da esquerda, não é nem nunca foi a ausência da direita nem alguma permissão, educação ou consciência dela no sentido de a esquerda colocar seu programa em prática. A revolução, com efeito, é a vitória da esquerda sobre a direita presentíssima, e ademais contraríssima a qualquer projeto de igualdade social. Esse é o real da dimensão política de que não devemos nos esquecer para que a utopia da igualdade tenha lugar no mundo. Não se espantar com quaisquer práticas da direita, normalizá-las dentro da realidade, talvez seja o primeiro passo histórico e material para converter a utopia socialista em realidade.

Não se chocar com quaisquer movimentos da direita, como por exemplo a arquitetura e os discursos da manifestação contra o PT do dia 13 de março é fortalecer-se, pois a direita e suas estratégias são muito menos os entraves à revolução do que os parceiros dialéticos da esquerda, insuportáveis e irredutíveis, porém, necessários não só à construção da ideia de revolução, como, principalmente, os que a justificam.

Ao contrário dos socialistas utópicos, Marx e Engels não se preocuparam em pensar como seria uma sociedade ideal. Ocuparam-se, em primeiro lugar, com compreender a dinâmica do capitalismo, estudando a fundo suas origens e, mais importante, suas contradições. Da mesma forma, os companheiros de esquerda não devem perder tempo imaginando que a direita deva parar de agir desigualmente, mas, em troca, conhecer proximamente sua dinâmica, reificá-la, e, mais importante, compreender suas contradições, pois é baseado nelas que a verdadeira revolução se fará.

Ao contrário do que se pode pensar, não é a bondade ou a verdade da esquerda que faz com que a revolução seja necessária, mas a ruindade e a mentira da própria direita. Surpreender-se com os estratagemas da direita é negar-lhes o devido lugar na realidade, é idealizá-la, e, consequentemente, enfraquecer o motivo pelo qual ela deve ser superada. Espantar-se com a vilania do inimigo é ocupar-se com um outro inimigo, todavia imaginário, e, o pior de tudo, desocupar-se do inimigo real, que em nenhum momento vê erro algum em seus próprios atos nem nos de que quem quer que seja.

Se a direita está vencendo no Brasil, a virtude desse processo de vitória talvez esteja no fato de ela não se surpreender nem se espantar com as tentativas da esquerda. Com efeito, odeia mais que tudo qualquer projeto igualitário. Porém, de forma alguma os toma como errados, pois para a direita não há certo nem errado. Para ela, há somente a manutenção do seu projeto de criar e manter uma vertical desigualdade social, sem a qual aliás não há topo privilegiado a ser conquistado e mantido por ninguém menos que ela.

A direita não desacredita nem se espanta com a horizontalidade socialista. Apenas não a quer. Por isso luta sem limites contra ela, não se importando inclusive em ser antiética, injusta e antidemocrática. Sua força vem da crença de que nada há para se espantar com as estratégias da esquerda. Já a esquerda, mantendo essa dimensão pretensamente utópica na qual, por exemplo, a tentativa da direita de depor uma presidenta até aqui lisa figura como um absurdo, apenas distancia-se do real, e, consequentemente, enfraquece-se.

Uma vez que utopia é apenas o que ainda não tem lugar na realidade, mas que pode ter, pode ser considerada utópica, ou seja, realizável, a ideia de que a direita não mais jogue baixo em função dos seus objetivos históricos? Se sim, infelizmente, a revolução terá de esperar, pelo menos até tal utopia se mostrar impossível. Afinal, é somente porque a direita nunca agirá dessa forma que a esquerda e a revolução são necessárias.

No caso atual do Brasil, a cada vez mais presente derrota da esquerda está em ela ainda esperar que partidos políticos e instituições direito-oligarcas tais como o PSDB, o PMDB, o Democratas e a Rege Globo ajam ética e democraticamente. Isso, porém, não é utopia, mas tolice. Já a vitória em curso da direita tupiniquim decorre de ela não se surpreender nem com os ideias da esquerda, nem tampouco com as suas próprias vilanias. Para ela, tudo é normal, tudo é obvio, inclusive o jogo absolutamente baixo. Portanto, na utopia socialista da esquerda, para que seja efetivamente realizável, deve constar que nada há para se espantar com as ações da direita. Em relação a elas, apenas a revolução, pragmaticamente.

Ágora paradoxal

arton2466

Em 13 de março de 2016, mais uma vez, foi rasgado no coração da democracia brasileira  um espaço pretensamente político arquitetado por corruptos, pasmem, contra a corrupção. Os arquitetos desse domingo paradoxal não são outros que partidos políticos atolados em ilícitos até o pescoço e a Rede Globo, gigante da mídia e reconhecida filha da ditadura que, entre outros desserviços sociais, até o final desse mesmo domingo estava devendo 1 bilhão de reais em impostos aos cofres públicos.

E para que o evento fosse mais paradoxal ainda, ele teve lugar nas avenidas mais gentrificadas do país. E, detalhe, o uniforme oficial era a camiseta verde e amarela da CBF, outra organização comprovadamente criminosa. Traje de gala da ignorância! Arquitetura da corrupção com uniforme da corrupção: que bem poderia resultar dessa abjeta manifestação coletiva?

Como os corruptos que arquitetaram a manifestação anticorrupção são justamente aqueles que produzem e mantém a corrupção no Brasil, o grande evento dominical estava fadado ao fracasso antes mesmo de começar. Porém, só não foi um fracasso porque o real fim da corrupção nunca esteve entre seus objetivos. Antes, o que a multidão de ignorantes úteis e bem manipulados produzia era um espaço onde o despotismo político pudesse respirar eventualmente, sufocado que está nestes últimos doze anos nos quais o Brasil se aventurou a ser socialmente mais justo.

Cidadãos reunidos em espaço público, com a intenção, ainda que torpe, de produzir um Estado melhor, leva-nos diretamente ao conceito grego de ágora: o espaço público por excelência, no qual não só os cidadãos se reuniam, mas, principalmente, onde cultura, economia e política se entrecruzavam dialogicamente em vista do bem geral. Os manifestantes desse 13 de março tentaram, mas será que conseguiram fazer de sua manipulada reunião pública dominical uma ágora de verdade?

Para o bem do antigo conceito grego, fundamental àquela democracia, e não menos para a virtude do futuro democrático brasileiro, temos de dizer gravemente que não. Ora, se os manifestantes desse domingo queriam, entre outros absurdos, a deposição de uma presidenta democraticamente eleita, contra quem, até aqui, não há crime algum comprovado, a reunião deles, e o espaço paradoxal que criaram, de forma alguma merece ser chamado de ágora.

Para cidadãos que prezam a democracia, não porque este sistema de governo seja essencialmente ideal, mas, como dizia Aristóteles, pois, pragmaticamente, é o menos pior de todos, o espaço político que os manifestantes desse domingo criaram certamente causou pavor. Com efeito, a intenção agorística golpista não se privou de mais uma vez gerar espécie de agorafobia nas mentes verdadeiramente democráticas.

Só que, na verdade, são os próprios manifestantes golpistas que sofrem de agorafobia crônica, pois são eles que não suportam, na ágora política brasileira, o livre devir democrático. E para resolverem apressadamente tal patologia própria, querem acabar com o espaço público, acabando com democracia que o produz. Sem uma verdadeira democracia, o espaço que era para ser público passa a ser somente deles, seus velhos e históricos possuidores.

Analogicamente, é como se a única solução para o medo do outro fosse o assassínio desse outro, e não a tentativa civilizada de diálogo com ele na construção de um espaço melhor para ambos. Solução irracional que, se tem um sítio específico, é a própria barbárie, mas de forma alguma a ágora, que há 2500 anos é o lugar excelente para a civilidade e para a democracia.

A agorafobia golpista precisa não de uma ágora, mas de uma praça de guerra, ou melhor, de uma trincheira belicosa, tão estreita e restrita que só caibam nela os 10% da população que detêm 90% da riqueza do país, e onde de forma algum possa ter lugar os 50% de brasileiros que têm de se satisfazer com apenas 2% da riqueza nacional. Para tal, a arquitetura da desigualdade, construindo impertinentemente, na horizontalidade da ágora política brasileira, a mais indesejada verticalidade antidemocrática.

Barbárie paradoxalmente travestida de civilidade. Vil espetáculo público no qual os atores, todos fantasiados de verde e amarelo e ódio, outra coisa não eram que marionetes úteis, realizando com esmero o roteiro golpista arquitetado por partidos políticos e por veículos de comunicação absolutamente corrompidos e corrompedores. Ágora paradoxal cujo objetivo é destruir a democracia.

#Jesuismachiste

Estudo-sobre-Machismo-1.jpg

No Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem a elas é assumir que #Jesuismachiste. Assim mesmo, antecedido por uma hashtag, para parecer que não sou só eu quem está dizendo, e em francês, para deixar transparecer a minha vergonha em assumir o meu próprio machismo em bom português. Porém, sem salamaleques, a verdade é uma só: eu sou machista.

Ainda que dentre os cinquenta tons de cinza do machismo eu, aqui, pense que o meu não seja o mais saturado, ainda assim ele matiza negativamente, melhor dizendo, obscurece a horizontalidade que, ali, creio dever haver entre homens e mulheres. Mesmo que eu não seja um machista radical, não é fácil assumir esse ranço. Mais difícil ainda é impedi-lo de rançar intempestivamente.

Antes de assumir deslavadamente o meu machismo, muito o neguei. Não sei quantas vezes ouvi de mulheres mais próximas, que se sentiam a vontade comigo e, sobretudo, que queriam apontar o meu vício sexista, para quiçá permanecerem amigas e próximas, que eu era machista. Porém, de uma coisa tenho certeza: o mesmo número de vezes eu recusei essa determinação.

Sentia-me incompreendido pelas mulheres; achava que elas viam, como se diz, cabelo em ovo; que estavam exagerando. Todavia, todas essas minhas ideias outra coisa não eram que o meu machismo na sua melhor forma, resistente, projetando covardemente a minha incapacidade de assumi-lo na incapacidade das mulheres de perceberem que eu não era machista. Vã ginástica mental.

A única coisa de que não podem me acusar é ter nascido machista, pois esse é um mal que aprendi aos poucos, em casa, na rua, na escola; observando como se davam as relações entre os meus pais, avós, tios, vizinhos, professores. Ou seja, com o mundo.

Durante a minha infância, eu sequer podia imaginar que o jeito com que os “meus homens” tratavam as “minhas mulheres”, e também o jeito que elas aceitavam ser tratadas por eles, se chamava machismo. Para mim, era simplesmente a vida, o jeito como as coisas eram, e, pior de tudo, como deveriam ser. Não que eu deixasse de perceber que a vida das mulheres era mais miserável que a dos homens. Porém, ninguém me dizia que isso estava errado, muito pelo contrário.

Da minha avó paterna, Hercília, que apanhava do seu esposo e meu avô, Betão, eu ouvi muitas vezes: “Rafa, agradece a Deus que tu nasceu homem”. Já da irmã dela, Carmem, cujo marido, Milton, a destratava na frente de quem quer que fosse, eu ouvia: “não tem nada pior do que ser mulher”. E do meu pai, que nunca cozinhou um ovo nem lavou uma cueca sua, e isso porque minha mãe fazia tudo para ele, eu escutava que “a melhor coisa do mundo é ser homem”. Eis o meu lar-escola-mundo machista.

Como ninguém escolhe o sexo com que nasce, para a criança que eu era as mulheres eram vítimas acidentais da vida. O meu machismo germinal dizia apenas que elas eram dignas de pena, pois imaginar que o lugar da mulher pudesse ser outro era como querer que a vida fosse outra coisa que não a vida como ela era. Somente bem mais tarde fui conhecer essa coisa chamada construto social que ensina que a vida já foi outra, e que, portanto, sempre pode ser outra.

Antes disso, porém, comiseração era o sentimento mais solidário que eu tinha pelas “mulheres da minha vida” na aparentemente inalienável submissão delas em relação aos homens. No entanto, é importante reconhecer, tal sentimento já era machismo, ainda que disfarçado de espécie de altruísmo.

Mais tarde, na assunção da minha bissexualidade, na adolescência, o machismo latente que eu trazia da infância se disfarçou novamente. Pensava eu que, pelo fato de o meu lugar não ser o do macho padrão, o machismo não poderia ter lugar em mim, e que, automaticamente, eu era capaz tratar as mulheres com igualdade. Ledo engano! O meu machismo fez trincheira no centro da minha sexualidade excêntrica.

Há alguns meses, deparei-me solitariamente com o meu próprio machismo. E de uma autoacusação é impossível se escusar. Aconteceu que eu fiquei com uma garota que fumou vários baseados ao longo da noite em que estivemos juntos. Isso me desagradou. Até aí tudo bem, desagrado meu é problema só meu. O problema, porém, esteve no que eu silenciosamente pensei: “eu não gosto de mulheres que fumam muita maconha”.

Nunca me desagradaram os homens com quem eu fiquei que fumavam tanta ou mais maconha que a garota em questão. Entretanto, pelo fato de ser uma mulher, machistamente juntei algo de que eu não gosto com as mulheres somente. O meu machismo ficou inegavelmente desnudado nesse trato distinto.

Então, como que afetado de um arrependimento histérico, eu queria dizer para todas as mulheres que já haviam me acusado de machismo que elas estavam certas o tempo todo, como se fosse possível me redimir do meu ranço machista tão rápida e facilmente. Porém, assim como o alcoolista não se livra do seu vício apenas por assumir que é alcoolista, eu não deixei de ser machista somente por reconhecer esse meu vício.

Como eu não posso repercorrer a minha história para assumir in loco o meu machismo e assim sanar a desigualdade que eu até então ajudei a construir entre homens e mulheres, creio que assumir que sou machista sempre que assim me acusarem é o primeiro passo para criar um locus pessoal um tanto menos contaminado pelo machismo com o qual eu não me envergonhe tanto.

O segundo passo é jogar no lixo toda a dimensão homem-mulher que o mundo fez parecer normal desde a minha infância. Mais ainda, não permitir que esse lixo cultural feda novamente em mim, na minha cotidianidade direta com as mulheres, e mais importante, no meu silêncio permissivo diante de homens que agem machistamente e que não são acusados de machismo com a mesma naturalidade com que demonstram-no.

O terceiro passo, qual seja, realmente não ser machista, no entanto, é o mais difícil. Devo confessar que não sei como fazer isso sozinho. Não confio em mim mesmo para tal empresa. Tampouco creio que a maior parte do mundo tenha essa capacidade. Devo admitir também que temo ser recontaminado pelo machismo da mesma forma que sou reconquistado intempestivamente pelo meu sotaque gaúcho sempre que volto ao Sul.

Em quem confiar? Em primeiro lugar, nas mulheres, na pertinência de suas demandas igualitárias, nos seus apontamentos sobre onde e quando há machismo, pois eu mesmo não tenho tamanho discernimento. Em segundo lugar, nos poucos homens que não aceitam que seja mantida ou estabelecida alguma diferença entre homens e mulheres.

E, em terceiro lugar, devo investir no meu desejo de ser como estes poucos homens que conseguem não ser machistas nesse mundo ainda demasiadamente machista. Só assim eu posso contribuir, um pouco que seja, para que haja mais homens como estes no mundo: sendo um deles. Alistar-me no lado não-machista da força é mais do que me tornar um homem melhor: é ser verdadeiramente um homem, ou seja, apenas um homem; nada melhor, nada pior, nada mais, nada menos que uma mulher.

Embora eu não confie no mundo de até então para tamanho desafio, tenho muita fé no mundo que começa a partir daqui, não comigo, obviamente, visto que eu sou tão velho e machista como a história da humanidade, mas com a juventude atual que, diferente de todas as outras, consegue colocar a vilania machista no banco dos réus sempre que ela irrompe no mundo.

Diferente de mim, que na infância e adolescência não enxergava machismo nas relações entre homens e mulheres, e que por isso mesmo reproduzia estas relações machistas sem perceber, hoje em dia, desde cedo, as pessoas já estão sabendo que há machismo sim, como e quão indesejável ele é, e, sobretudo, como indicar que não mais seja.

Os velhos fundamentos devem ceder. Primeiramente, aquele que diz que os mais jovens devem escutar os mais velhos, pois, em relação à superação do machismo, é o passado que têm de escutar, calado, atento e envergonhado, a vigorosa voz do presente que, como nenhuma outra, sabe argumentar virtuosamente contra a histórica desigualdade entre os sexos.

A juventude atual forja as melhores ferramentas para a desconstrução das diferenças construídas entre homens e mulheres. Sã demiurgia contemporânea cujo primeiro e mais eficaz instrumento é a naturalização da acusação: “você está sendo machista”, algo indizível no velho mundo. Conseguindo fazer com que qualquer diálogo não se cale, mas prossiga a partir de tal acusação, os  mais jovens lançam o papo reto que o mundo precisa ter consigo mesmo para não mais ser machista.

“Agua mole, em pedra dura, tanto bate até que fura”. De tanto ouvir dessa nova geração, com uma naturalidade nova e assaz comprometedora, que eu sou machista, não pude mais sustentar a mentira que fez história em mim, qual seja, que eu não sou machista. Entretanto, agradeço que eles tenham insistido virtuosamente o meu vício contra mim mesmo, afinal, como eles viram melhor que todos os que me viram antes, #jesuismachiste.

Prêt-à-Porter jornalístico

wallpaper-1571357.jpg

Jornais, telenoticiários e feeds de notícias das redes sociais diariamente inundam-nos com uma infinidade de fatos noticiados. Ora, dirão os conectados, isso é bom para manter-nos informados sobre o que pode interferir diretamente nas nossas vidas. Além do que, em um mundo assaz globalizado e hiperconectado, o simples e inofensivo bater de asas de uma borboleta na Coréia do Norte deve causar sim um tsunami na intimidade de um lar carioca. Por isso todos os fatos findam igualmente importantes, sendo ofertados e consumidos 24 horas por dia, indiscriminadamente.

Sem fatos, entretanto, existiria apenas o caos harmonioso da Natureza em sua miríade infinita de movimentos perfeitamente relacionados. A Natureza, porém, produz somente a si mesma, e não fatos. Estes, são mercadorias exclusivamente humanas, demasiado humanas. Portanto, em um fato qualquer subjaz a ideia de que ele foi feito, e, sobretudo, com determinada finalidade.

Fato também significa roupa, vestimenta; o que diz muito bem da fantasia com que o homem veste a nudez dos acontecimentos da Natureza, para que ela, doravante, se ofereça a nós como uma diva de ópera burguesa, fácil de ser compreendida. Isso porque não sabemos o que fazer com as coisas enquanto não as fazemos nós mesmos. Então, produzimos não o real ele mesmo, mas versões mundanas suas: fatos. Uma vez feita tal “tradução”, tudo passa a pertencer ao mundo, podendo, portanto, ser pensável, tratável, manuseável, e inclusive comercializável. Os fatos estão para nós, humanos, assim como a Natureza está para si mesma.

É em função do mundo que os fatos devem ser massivamente produzidos e consumidos. E o jornalismo é essa linha de montagem apressada que cose costumes imediatos a todos os acontecimentos que se apresentam na cronologia do mundo. A ciência é mais cautelosa; a Filosofia, mais paciente. O jornalismo, por sua vez, laborando sobre o pântano do real, sem dar, como se diz, tempo ao tempo, cria latifúndios imediatos que se pretendem seguros e secos de dúvidas. Todavia, essa empresa é contrária à alforria do real em tantas unidades factuais quantos são os homens que percebem esse real. O jornalismo faz do real a sua coleção de fatos noticiados que outra coisa não fazem senão outorgar diariamente um real só seu.

Um recente exemplo disso é o que foi noticiado no dia 3 de março de 2016 a partir de uma suposta delação premiada dada por Delcídio do Amaral, senador brasileiro preso, libertado, mas ainda investigado pela Polícia Federal, na qual era citado o ex-presidente Lula como recebedor de privilégios indevidos. A Rede Globo, esquecendo-se intencionalmente de que tal delação sequer poderia ser verdadeira, renoticiou o “fato” como se verdade fosse. Uma jornalista da Globo chegou ao extremo de dizer, ao vivo, que mesmo que fosse desmentido que Delcídio tivesse feito a tal delação, o que eles, os jornalistas, estavam dizendo, já estava dito, e que era impossível voltar atrás.

Como assim? Porventura não é instituir algo como uma demiurgia da mentira noticiar como fato algo que sequer poderia ter ocorrido? Se tivessem provas de que Delcídio acusou Lula, o fato estaria dado, e só aí poderia ser noticiado. Mas não foi isso que ocorreu. A possibilidade de o senador criminoso ter feito uma delação era o “fato” concreto do jornalismo da emissora golpista. Agora, se houve um fato real no dia 3 de março, este fato foi a Rede Globo ter resolvido, mais uma vez, tornar suposições em fatos reais. Algo como vestir a realidade com trajes apropriados para determinado baile. No caso, o baile da direita golpista que quer fora do salão principal qualquer força contrária.

Só que é bom não esquecer, não só o jornalismo produz fatos, mas também cada ser humano, a partir daquilo que lhe acontece ao redor. Os fatos produzidos pelas pessoas, individualmente, ao passo em que se deparam com o real, têm as seguintes virtudes: valem todos a mesma coisa; podem se refutar mutuamente; e existem uns independente dos outros. Já os fatos jornalísticos têm o impetuoso vício de querer se imporem, vertical e imediatamente, às nossas factuações individuais; de antecedê-las; de torná-las inclusive desnecessárias. Mediante a histeria do jornal, o mundo não chega a nós senão histericamente.

Entretanto, o que seria do mundo se a produção dos fatos que o constituem aguardasse pacientemente até que cada um de nós se deparasse com aquilo que os gera, sem pressa, em vez de virem todos ao nosso encontro pela via de mão única do jornalismo? Teríamos, com sorte, sete bilhões de fatos sobre cada mesmo acontecimento, todavia desconectados, porém, não por muito tempo, pois mesmo que o real não passasse pelo jornal, de onde angaria as suas primeiras fantasias, ele não tardaria em se travestir ou de ciência ou de Filosofia, porque sem fato, costume, roupa, nós não o reconheceríamos.

Com efeito, a nudez do real nos envergonha e espanta. Então, vestímo-la adequadamente até que ela possa circular, de fato, pelo mundo. O jornalismo, contudo, intromete-se no baile à fantasia da humanidade trazendo consigo um Prêt-à-Porter com o qual veste o real. Porém, devido à sua pressa, nem sempre adequadamente. Enquanto os fatos através dos quais nos relacionamos com o real forem recortados dele por nós mesmos, e por mais ninguém, somos tão livres quanto a Natureza é consigo mesma. Entretanto, se pré-fabricados pelos jornalistas, são espécie de cabresto a nos alienar diariamente da nossa própria capacidade individual de fatiar o real em fatos e de compreendermos essas fatias por nós mesmos.

O homem de nove dedos e seus nove milagres

LULA DEZ DEDEOS PARA DILMA.jpg

No discurso que o ex-presidente Lula fez na sede nacional do Partido dos Trabalhadores em resposta à condução coercitiva da Polícia Federal de Sérgio Mouro em 4 de março de 2016, estavam lá os velhos –mas nem por isso mentirosos- ideais do torneiro mecânico que conseguiu tornar utopias inclusivas, distantes um horizonte, em realidade próxima e concreta para milhões de brasileiros historicamente vitimados pela exclusão social. Há quem concorde e, obviamente, quem discorde disso. Porém, uma das ideias de Lula é muito intrigante: a sua fé nos milagres e, mais ainda, que foram eles que o fizeram.

Isso ficou bem claro no seu último discurso. Primeiro, querendo justificar o fato de ter se tornado um conferencista mundialmente importante, o metalúrgico disse: “As pessoas queriam que o Lula falasse das coisas que foram feitas no Brasil. Que milagre vocês fizeram para aprovar as cotas? Que milagre vocês fizeram para aprovar o PROUNI? Que milagre vocês fizeram para aprovar o FIES? Que milagre vocês fizeram para levar energia à quinze milhões de pobres nesse país? Era isso que as pessoas queriam saber”. Só aqui, quatro milagres, que, no entanto, para o mundo que o convidou a palestrar devem ser apenas práticas absolutamente mundanas, ainda que de grandes efeitos.

Mais adiante na sua fala, o ex-presidente emenda uma outra sequências de fatos que ele classifica milagrosos: “antes dos cinco anos de vida eu escapei de morrer de fome. Esse foi o primeiro milagre da minha vida. O segundo milagre: eu tive um diploma de torneiro mecânico. Aconteceu um terceiro milagre comigo: eu ter tomado consciência política e ter criado um partido. Aconteceu um quarto milagre comigo: meus companheiros me levaram à presidência da república. Aconteceu um quinto milagre comigo: eu fui melhor do que todos eles que governaram esse país”. Na eleição desses outros cinco milagres fica ainda mais claro que a realidade para Lula não se explica por si mesma, mas se finaliza mediante intervenções milagrosas.

Ora, não morrer de fome na infância, tornar-se torneiro mecânico na juventude, criar um partido político na maturidade, ser presidente da república na idade do lobo, e até mesmo ser o melhor de todos na velhice, nada disso deve ser considerado milagre. Importante aqui é perceber que o que para Lula são milagres trata-se apenas de vida, de sua vida, que, como a de todos nós, não precisa da suspensão das leis da natureza ou da realidade para se dar. Muito pelo contrário aliás. É porque não há suspensão do real que ele quase morreu de fome; que foi torneiro mecânico e não engenheiro, que fundou um partido político e foi melhor presidente da república em vez de ter aberto um empresa de sucesso e ter sido um Eike Batista (nas sua melhor fase, obviamente)

Para a filosofia de Baruch Spinoza, um milagre, se fosse possível algo assim, seria a suspensão das leis da natureza por Deus em vista de algum fim que o próprio Deus não havia previsto quando institui as suas leis eternas. Milagres são impossíveis para Spinoza justamente porque com eles Deus afirma que não planejou bem a realidade. Em outras palavras, se em algum momento Deus precisou suspender alguma Lei sua para que um nordestino pobre não morresse de fome, pudesse se tornar metalúrgico, fundar um partido político e ser o melhor presidente de um país latino-americano, é porque, antes, ele devia ter instituído que os nordestinos pobres devem morrer de fome, não podem sem metalúrgicos, não devem fundar partidos políticos nem serem presidentes da república, muito menos o melhor de todos. Aqui fica claro que a ideia de milagre é absurda.

Então, por que Lula insiste tanto na existência e na interferência de milagres em sua vida uma vez que, de fato, quem criou e sustenta Leis que impedem os desfavorecidas como ele de se realizarem na vida não pode ter sido Deus, mas os próprios homens? Se Deus não errou, porque alteraria a sua “constituição”? E se o erro é somente humano, porque Ele teria de suspender as suas regras eternas? Para que um homem ou outro fosse dispensado do real? Deus porventura seria bom privilegiando milagrosamente apenas alguns de seus filhos enquanto outros sucumbem sem escapatória das vicissitudes da realidade?

Milagres, portanto, além de fazerem de Deus um ser injusto e de dizerem que Ele é um péssimo arquiteto, ainda fazem com que Ele pareça humano, demasiado humano, isto é, um ser incompetente que no meio do caminho descobre que falhou e que precisa corrigir seus erros. Só que, no caso dEle, milagrosamente. Antes, o que até poderíamos chamar de milagroso -mesmo que Spinoza diga que não se trata disso – é o fato de todos os seres compartilharem indiscriminadamente da obra divina que, para o filósofo, é a natureza, pois só isso mostraria que Deus não errou ao conceber a realidade nem que prefere umas criaturas suas a outras por via de milagres.

Todavia, não é o fato de Deus ter distribuído igualitariamente alguma coisa aos homens que Lula chama de milagre. Antes, o metalúrgico toma por milagroso o fato de ter escapado da desigualdade que ele mesmo vê na realidade. Apesar de, com isso, Lula dizer que Deus errou até a hora de ser milagroso com ele -e com pessoas como ele-, esse absurdo manifesto esconde uma percepção latente bastante verdadeira: a realidade humana é desigual por natureza. Só isso explica o fato de alguém não morrer de fome, tornar-se um profissional, ascender politicamente e realizar uma grande obra ser considerado milagre.

Entretanto, é precisamente nessa crença que Lula tem nos milagres que reside a sua mais pragmática percepção da realidade: ela é desigual sim; privilegia uns em detrimento de outros; e que só revolucionando-a radicalmente é que se realiza a utopia da igualdade. O crente diria que se trata de reconstruir a igualdade natural arruinada pelo homem. Porém, para o proletário nordestino que virou o maior presidente do Brasil, trata-se mais de produzir laboriosamente a igualdade que, para ele, nunca existiu no mundo, mas que deve existir.

Embora esteja sempre com a palavra milagre na boca, não pode ser dito que Lula é crente, pois não crê que Deus tenha feito o mundo perfeito, muito pelo contrário. Antes, o Deus de Lula deixou um mundo de coisas a serem feitas. Que Deus é esse? O que o metalúrgico chama de milagre, na verdade, é a superação humana dentro do mundo humano, sem intervenção divina alguma. Mais ainda, Lula acredita que a realidade precisa dele, de Lula, para se tornar um pouco mais perfeita, um pouco menos desigual.

Complexo de Deus? Um pouco, mas quem nunca? Sem dúvida, Lula é uma espécie de Deus para muitos brasileiros com os quais até então só era compartilhado desigualdade. Para estes, quando as coisas começam a ir bem, só pode ser milagre mesmo, tamanha a dificuldade que experimentam em suas vidas. Isso, entretanto, é mais velho do que Lula. Quem não lembra que no início dos anos 1970 a bonança econômica oriunda do petróleo foi chamada de Milagre Brasileiro?

Em um país tão desigual como o Brasil, um passo no sentido da igualdade social parece uma dádiva tão grande que poucos creem que isso possa se dar por intervenção humana apenas. Antes, é preciso de um Deus boníssimo e milagroso para que a dura realidade não siga ordinariamente desigual. Daí a construção de uma espécie de silogismo popular que, erroneamente, conclui que Lula é um Deus: Deus é brasileiro e só quer um mundo perfeito; Lula é brasileiro e só quer um mundo perfeito. Portanto, Lula é Deus.

O problema é se o próprio Lula acredita nessa ilógica. Os milagres com que o ex-presidente se diz constantemente agraciado não dizem exatamente isso, embora sugiram que ele está mais próximo de Deus do que todos os nordestinos que morreram de fome na infância, todos os homens que não conseguiram se profissionalizar, e todos os políticos brasileiros que não conseguiram ser o melhor presidente do Brasil. Agora, se houvesse mesmo um Deus extremamente bom e justo, ele confirmaria isso? Obviamente que não.

Portanto, o único jeito de Lula acreditar em Deus e não fazer dEle um ser incompetente e injusto, que vai resolvendo Suas incompetência e injustiça aos poucos por meio de milagres, é acreditar que ele mesmo, Lula, é Deus. Ainda mais tendo sido um garoto humilde do sertão nordestino que, por meio de muito trabalho, mas, segundo ele, por causa de nove milagres, findou como o maior presidente do seu país, compartilhando com milhões de brasileiros a superação das misérias da fome e da exclusão social. Talvez somente a falta de um dedo nas mãos, perdido nesse “processo milagroso”, lembre Lula de que ele não é Deus, pois, se fosse, teria feito um milagrezinho a mais para não tê-lo perdido.

“Esse metalúrgico de merda” e a pirotecnia golpista

lula.jpg

Há muito eu sei que a TV serve mais para fazer boi dormir do que para informar. Por isso, na madrugada do dia quatro de março de 2016, adormeci com a televisão ligada. Só que, na manhã do mesmo dia, fui acordado por uma notícia que sequer o meu inconsciente conseguia acreditar: “o ex-presidente lula foi coagido a depor em Curitiba”. Desperto, acreditei menos ainda nos fatos ao ver que Lula estava sendo coagido em função de uma suposta delação premiada não legitimada dada por Delcídio do Amaral, senador envolvido em escândalos que, estes sim, mereciam prisão. Entretanto, Delcídio há pouco foi liberto e liberado para voltar às suas atividades parlamentares.

Porém, a minha incredulidade máxima foi mesmo com o espetáculo midiático em torno da indevida coação contra Lula. Sem dúvida,  suspeitas sobre quem quer que seja devem ser investigadas e divulgadas pela imprensa, pois disso dependem a democracia e a justiça. Agora, não podemos nos alienar do fato de que a atuação da mídia era um espetáculo à parte, muito particular aliás. Sem medo de errar posso dizer que, para a mídia, tanto fazia a verdade, mas somente a sua própria ficção. O show golpista da Rede Globo em momento nenhum se preocupou em investigar se estava havendo injustiça por parte da justiça brasileira. Isso sim seria uma pauta com dignidade inquestionável.  “Mas não”, disse Lula em resposta, “hoje, quem condena as pessoas são as manchetes. Hoje, amedrontam o poder judiciário. Hoje, amedrontam o ministério público. Hoje, amedrontam os políticos com essa pirotecnia midiática”.

Por isso,  no dia 4, a minha televisão ficou ligada o tempo inteiro, e justamente na Rede Globo, o canal inimigo, pois mais importante que o teor do depoimento coagido de Lula, era não deixar de conhecer um pouco melhor, e ao vivo, o modus operandi  do poder golpista. Há quem diga, todavia: “desligue a TV que a crise acaba”. Eu, porém, creio que, estrategicamente, a maior burrice é se privar da oportunidade de ouvir e de conhecer as táticas do inimigo. Apenas se fortalece o opositor enquanto se presta atenção somente no próprio umbigo. A ciência sobre o umbigo do inimigo é a outra metade do caminho em direção à vitória. Por isso, ainda que ideologicamente insuportável, eu taticamente suportei a Rede Globo e a sua bélica e poderosa pirotecnia golpista.

Minha incredulidade e angústia com o estado de exceção aventurado no Brasil nesse início de março de 2016 eram tamanhas que me senti como se estivesse diante dos fatídicos ataques às torres gêmeas de onze de setembro de 2001. Algo que certamente mudaria o mundo no qual vivo. Só que, para mim, os aviões kamikazes eram pilotados pela rege Globo e o seu rol de revistas dedicadas à oligarquia brasileira, e as torres que precisaram ser derrubadas eram o próprio Lula. A feliz diferença do terrorismo político que fez seu grande dia da terra tupiniquim foi que, aqui, as torres gêmeas puderam se manifestar depois do ataque. No final do dia, o ex-presidente deu um discurso vigoroso aos seus companheiros, à mídia toda, e também aos brasileiros, para deixar bem claro quem são os terroristas, quais são suas táticas, e não menos suas sórdidas ambições.

Sobre a coação assaz antidemocrática que Sérgio Mouro, juiz federal que comanda o julgamento dos crimes da Operação Lava Jato, imputou-lhe, o ex-presidente metalúrgico disse: “antes dele nós já éramos democratas. Antes dele, nós já fazíamos as coisas corretas nesse país. Porque enquanto muitos deles não estavam fazendo nada, nós já estávamos lutando para que nesse país se conquistasse o direito de liberdade de expressão”. Mais adiante, Lula colocou que, “enquanto nenhum destes que foram na minha casa trabalhavam, com onze anos a Marisa (sua esposa) já era empregada doméstica. E eu acho que ela merecia respeito”. E mais: “não há nenhuma explicação para eles terem ido atrás dos meus filhos além do fato de eles serem meus filhos”.

“Mas não”, segue o ex-presidente indignado, “antes mesmo de os advogados saberem que seus clientes serão chamados para depor, a imprensa já sabe”. Por quê? Ora, porque, nas palavras do próprio Lula, “é preciso incriminar o PT, é preciso incriminar o Lula, porque estes caras podem querer continuar no governo. Pois não há outra coisa para incomodá-los a não ser a gente ter trabalhado durante todos esses anos para fazer com que as pessoas do andar de baixo subissem um degrau na perspectiva de chegar no andar de cima”.

Sua indignação disse mais e melhor: “há tempos eu sei que a elite brasileira é muito conservadora. Ela tem complexo de vira-lata e não vai permitir que vocês cresçam. Mas nós crescemos. Chegamos à presidência. E nós provamos que os pobres, que eram a desculpa deles para não fazerem nada nesse país, não são o problema, mas que os pobres viraram a solução desse país”. Prossegue dizendo que os das elites “partem do pressuposto que pobre nasceu para comer em coxo. Mas eu aprendi que não”.

Só que, confessa Lula, “eu me senti prisioneiro hoje de manhã. Prisioneiro”. Uma das perguntas que lula disse ter tido de responder no dia em que “esteve preso” foi sobre os presentes que recebeu ao longo de seus dois mandatos presidenciais estocados no midiatizadíssimo sítio de Atibaia, em São Paulo, que a imprensa diz ser dele, coisa que documento algum há para provar. O maior líder político brasileiro depois de Getúlio Vargas não conseguia crer que a polícia federal e a mídia estivessem “se preocupando porque eu usei a chácara de um amigo”. Porém, como o grande líder é aquele que não perde a espirituosidade nem nas piores situações, foi capaz de fazer troça contra seus inimigos: “eu usei de um amigo porque os inimigos não me oferecem. Bem que a Globo podia me emprestar o tríplex de Parati”, alfineta Lula com um sorriso que se repetiu em todos, tanto nos seus companheiros presentes na sede nacional do partido dos trabalhadores, quanto nos cidadãos que o assistiam pela tv ou internet .

Sobre a coação para esclarecer a origem dos presentes guardados em Atibaia, Lula não teve papas na língua para dizer que “se juntar todos os presidentes desse país desde Floriano Peixoto, eu fui o que mais ganhei presentes. Porque viajei mais, porque trabalhei mais”. O ex-presidente explode contra os ataques seletivos e explosivos que recebe: “isso é puro preconceito, isto é, todo mundo pode, menos essa merda de metalúrgico que um dia resolveu desafiar esses capitães”.

Sobre o vil tratamento que está recebendo, que não é diferente do que o que sempre recebeu dos capitães, Lula disse corajosíssimo: “eles precisam aprender que eu aprendi a andar de cabeça erguida nesse país. Eu aprendi acordando às três horas da manhã para fazer assembleia em porta de fábrica. Eu aprendi fazendo comício em ponto de ônibus. E quero dizer que eu não vou abaixar a cabeça.

Emendando sua fala ás suspeitas sobre seus ganhos com palestras ao redor do mundo, o ex-presidente disse mais altivamente do que nunca: “eu virei um conferencista importante … As pessoas queriam que o Lula falasse das coisas que foram feitas no Brasil. Que milagre vocês fizeram para aprovar as cotas? Que milagre vocês fizeram para aprovar o PROUNI? Que milagre vocês fizeram para levar energia à quinze milhões de pobres nesse país?. Era isso que as pessoas queriam saber”. Eleva-se mais ainda: “e por isso eu me transformei no conferencista mais caro do mundo junto com o Bill Clinton. Aliás, ele foi meu paradigma. Quem é que cobra mais, é o Clinton? Então vai ser igual ao Clinton. Paga quem quiser, contrata quem quiser. Eu não tenho complexo de vira-lata. Eu sei o que eu fiz nesse país”, arremata.

Abrindo seu coração aos companheiros petistas, ele disse com muito orgulho: “antes dos cinco anos de vida eu escapei de morrer de fome (no sertão nordestino, é preciso frisar). Esse foi o primeiro milagre da minha vida. O segundo milagre: eu tive um diploma de torneiro mecânico (o que para a elite pouco deve valer). Aconteceu um terceiro milagre comigo: eu ter tomado consciência política e ter criado um partido (de trabalhadores, contrário aos interesses elitistas). Aconteceu um quarto milagre comigo: meus companheiros me levaram à presidência da república (o que para a elite obviamente sequer poderia ter se dado). Aconteceu um quinto milagre comigo: eu fui melhor do que todos eles que governaram esse país (Samba Lula na cara de seus opositores elitistas)”.

Por isso, segue o “metalúrgico de merda”, “o que aconteceu hoje era o que precisava para o PT levantar a cabeça”. Humilde, disposto ao trabalho e atento à realidade como poucos, Lula declara: “não sei se serei candidato em 2018, não sei. A natureza às vezes é implacável com a gente que ultrapassa os 70. Mas essas coisas que eu faço aumentam a minha tesão de participar das coisas nesse país. Eu percebi agora que nem tudo está acabado como eu pensei que estava… É preciso recomeçar. E portanto nós vamos recomeçar de novo … O que eles fizeram com o ato de hoje foi fazer que, a partir da semana que vem, me convidem que eu estarei disposto a andar esse país”.

Acredito que a frase mui banalizada e desacreditada depois das manifestações de junho de 2013, qual seja, “o gigante acordou”, ainda encontra concretude e invulgaridade justamente em Lula. Por isso ele pôde dizer do topo de suas grandes realizações ao longo de sua governança: “eu quero que vocês saibam que o que me aconteceu hoje, embora tenha me ofendido, embora tenha magoado a minha história (e bate no próprio peito), eu quero dizer: se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo. E a jararaca tá viva como sempre esteve”.

Portanto, não é nem o caso de o gigante ter acordado, pois um verdadeiro gigante nunca dorme! Além do que, gigante é aquele que sabe usar as balas dos inimigos contra eles mesmos. O gigantismo desse “metalúrgico de merda” não surpreenderá se ele usar a tábua de suicídio midiática, colocada na proa golpista da nau brasilis, como trampolim para se catapultar ainda mais alto e com muito mais força contra a histórica força oligárquica que sempre esteve contra ele e que não suporta ter de competir democraticamente pela berlinda política, muito menos com metalúrgicos. Só que Lula fez questão de relembrar que o “metalúrgico de merda” é uma jararaca, e que está mais vivo e com muito mais “tesão” do que nunca.

A minha pulsão petista

bandeira-do-vietna.jpg

Diante dos fatos, por que eu ainda defendo o Partido dos Trabalhadores? A minha resposta imediata é que, desde Lula, o PT transformou o até então abstrato e eleitoreiro discurso político sobre igualdade social em realidade concreta para milhões de desfavorecidos históricos, objeto de extremo valor para  mim.

Entretanto, as ineficientes estratégias tentadas pelo partido diante das crises econômica e política, e, ademais, a corrupção interna que não se rogou de fazer lugar dentro do partido, e que faz dele o mesmo que tantos outros que eu desaprovo veementemente, tudo isso faz a minha defesa querer se calar. 

Agora, se, como disse Søren Kierkegaard, o pensamento objetivo traduz tudo em resultados, mas o  pensamento subjetivo coloca tudo em processo, omitindo o resultado, a minha reprovação em relação ao PT, objetivamente, é baseada nas más performances do atual governo, mas a minha insistente aprovação ao PT se dá por eu, subjetivamente desconsiderar tais resultados, omiti-los, e, em troca, valorizar apenas o processo, ou seja, o “modo” como ele governa.

Qual seria, entretanto, a justa equação entre a minha subjetiva concordância com o modo petista de governar e a minha objetiva discordância em relação aos fracassados resultados do partido?

Ora, quando a realidade vai contra as nossas mais profundas convicções, ou a reprovamos objetivamente, ou, em vez disso, subjetivamente a sublimamos, isto é, seguimos crendo que há uma verdade mais nobre e profunda escondida nos fatos aparentemente vis. Desse modo, eu só sigo defendo o PT porque, sublimando sua adversa realidade, acredito que ainda há nele uma virtude, ainda que oculta, ou o que é pior, golpisticamente ocultada.

A minha relação com o Partido dos Trabalhadores me remete à frase de Jacques Lacan: “amo-te, mas há algo em ti que amo mais do que tu”. Não obstante, o que é essa coisa que eu amo no PT mais do que ele mesmo? Ora, a igualdade social que o partido aventurou no Brasil e a tentativa de reduzir o poder das elites locais, feitos que, objetivamente, ninguém encampou no nosso país de modo mais efetivo.

Entretanto, como sustentar racionalmente esse estranho amor pelo PT diante dos seus atuais fracassos e vulnerabilidade à corrupção? Considerando o que disse Lacan, qual seja, que a pulsão transforma o fracasso em triunfo, meu insistente amor pelo PT é fruto de uma pulsão

E se, ainda conforme o psicanalista, a razão da pulsão não é atingir a sua meta, mas girar compulsivamente em torno dela sem, no entanto, alcançá-la, as minhas fantasias fundamentais, quais sejam, que as elites caiam do cavalo para sempre e que a igualdade social se estabeleça, se em forma de pulsão estão protegidas das vicissitudes da realidade.

Considerando o que disse o filósofo Slavoj Žižek, que “nosso senso de realidade se desintegra no momento que a realidade chega muito perto de nossa fantasia fundamental”, consigo entender que, para o meu sonho igualitário permanecer íntegro, algo da realidade petista deve ser desintegrado, pois, conforme o filósofo, quando sonho e realidade se encontram, um dos dois deve morrer.

Entretanto, Lacan está aí para não me deixar esquecer de que a pulsão é o modo subversivo dos sonhos permanecerem vivos e íntegros dentro da realidade, mais precisamente, em torno dela, girando sem parar, sem nunca tocá-la, pois só assim eles nunca serão desintegrados por ela. A minha permanência pulsional em torno do PT, portanto, é o modo subversivo mediante o qual preservo vivo o meu sonho de igualdade social no Brasil justamente num momento onde tal realização parece mais distante.

Se eu fosse uma máquina, ou seja, absolutamente objetivo, haveria um limite a partir do qual eu deixaria de defender o PT e o abandonaria. Da mesma forma, se eu fosse um animal puramente instintivo haveria outrossim um limite, pois, como disse Žižek, “quando se vê diante de um objeto que está fora de seu alcance, o macaco desiste de alcançá-lo depois de algumas tentativas frustradas e concentra-se em um objeto mais modesto; já o ser humano persiste no esforço e permanece fixado no objeto impossível”.

Então, é por que eu sou algo entre a máquina e a besta, melhor dizendo, porque sou humano demasiado humano que ainda insisto no PT, pois através das realizações concretas ao longo de sua curta história no poder eu permaneço na órbita desse impossível objeto de desejo chamado igualdade social. Ao PT, atualmente, pelo menos a minha pulsão!

À ciência, filosofia.

FILOSOFIA-ESPECIALIZACAO-SEM-FILOSOFIA.jpg

Desde sua vitória sobre os poetas e os sofistas da Grécia antiga, a filosofia atravessou vinte séculos como herdeira legítima e detentora da verdade. Como queria Aristóteles: “A Ciência Primeira”. Porém, a revolução científica iniciada no século XVI deu cabo do longevo reinado da filosofia. Com as publicações de Copérnico, Galileu Galilei, Kepler, Newton, só para citar os mais importantes, as verdades universais que estiveram com os filósofos desde a antiguidade e durante todo o medievo passaram a ser objetos exclusivos dos cientistas modernos.

Sem escapatória, a filosofia teve de aceitar o ultrapassamento da ciência no que tange à posse e, mais importante, à produção das verdades objetivas. Quando Immanuel Kant, na sua Crítica da Razão Pura, expôs os limites da razão metafísica e a larga vantagem das ciências matemáticas, a filosofia sofreu o golpe mortal.

Entretanto, até hoje os filósofos querem sustentar uma outra dimensão do pensamento em relação ao real que não apenas a científica-matemática. Henri Bergson, à sua maneira, traduz muito bem essa pretensão da filosofia: “não haveria lugar para os dois modos de conhecer, filosofia e ciência, se a experiência não se apresentasse a nós sob dois aspectos diferentes”.

O filósofo francês Quentin Meillassoux afirma que a filosofia pós-kantiana é dominada pelo o que ele chama de “correlacionismo”, teoria que diz, grosso modo, que os homens não podem existir sem o mundo, o que é bastante óbvio, mas, o que é mais difícil para a ciência aceitar, que o mundo não pode existir sem os homens. Isso porque o correlacionismo limita qualquer hipóstase, isto é, qualquer substancialização dos objetos do conhecimento, como se eles existissem cognoscíveis fora das nossas mentes e independentes delas, pois não há correlação que seja dada em outro lugar do que em nós. Para o correlacionismo, de forma alguma podemos sair de nós mesmos para descobrir o que há do outro lado da correlação, independentemente de nós, pois um mundo somente tem sentido desde que seja conosco, para-nós.

Mesmo assim, a ciência enuncia verdades que hipostasiam um mundo real independente do homem. Por exemplo, as enunciações científicas acerca da formação do universo e do planeta Terra, acontecimentos que não podem ter se dado exatamente como propõe a ciência justamente porque não se deram ao homem. São ancestrais em relação a ele. Tais enunciados da ciência referentes a eventos ancestrais, do ponto de vista de um correlacionismo estrito, são impossíveis. Ora, como o universo e a Terra se manifestariam das formas determinadas enunciadas pela ciência se toda manifestação pressupõe alguém a quem se manifestar? Eis a encruzilhada que o correlacionismo coloca à ciência.

Com efeito, o mais pretensioso enunciado científico, qual seja, “o universo ‘se formou’ há 13,3 bilhões de anos antes do surgimento do homem”, não será refutado pelos filósofos, pois estes não podem aferir data mais precisa para o evento primordial. Porém, o filósofo pode sustentar que, de fato, o universo conforme diz a ciência, mas, “para a ciência”. Essa é a performance máxima da filosofia contra a ciência atualmente: dizer que há, no mínimo, 2 níveis de sentido em um enunciado como este. Segundo Meillassoux: o sentido imediato, realista, científico; e um sentido mais original, correlacional, filosófico.

O cientista, não obstante, recusa veementemente que haja outro regime de sentido para a compreensão de seus enunciados, sustentados por equações matemáticas, e, por isso, a filosofia terá de ficar de fora da apreciação deles. Porém, é exatamente isso que o filósofo não pode aceitar, pois, do contrário, teria de concordar com coisas que são absurdas para qualquer filosofia pós-crítica, por exemplo, que o Ser não é inerente à sua própria manifestação, isto é, que ele pode ser sem se manifestar; ou, o que é pior, que o pensamento pode pensar um tempo anterior ao homem – sendo que, desde Kant, o tempo é mera representação sensível que reside exclusivamente em nós, homens.

Se o filósofo pode sustentar alguma coisa contra a produção do cientista, é porque a formação do universo, por exemplo, não pode ter se dado conforme está sendo ingenuamente enunciado pela ciência, isto é, não correlativamente a uma consciência. O cientista, todavia, pretende-se mais sofisticado do que o filósofo, avançando sem problemas mediante enunciados “objetivos” desprovidos justamente de objetos pensáveis, uma vez que a abstração matemática é a sua concretude suficiente.

Talvez a pertinência da filosofia contemporânea esteja no apontamento da impossível universalidade das enunciações científicas. Segundo o filósofo contemporâneo Slavoj Žižek, “toda ‘verdade’ tem de ser enunciada para se efetivar, e que o momento (e o lugar) dessa enunciação é sempre contingente”. Para ele, a filosofia está aí para dizer que esse momento contingente não é apenas externo, mas imanente. Nas palavras de Žižek: “a expressão contingente de uma verdade necessária sinaliza a contingência dessa própria verdade necessária.”

Para não negar à filosofia a possibilidade de contribuir com a ventura científica, quiçá corrigi-la, basta lembrar do que Bergon disse: que “filosofar consiste em inverter a direção habitual do trabalho do pensamento. Devemos a essa inversão -inventada pela filosofia- o que foi feito de mais importante inclusive nas ciências. Afinal, o mais poderoso dos métodos de investigação que de que o espírito humano dispõe, a análise infinitesimal, nasceu dessa própria inversão”.

O filósofo é aquele que pode -e talvez o que deve- apontar os absurdos de enunciados científicos que, embora metaforicamente, dizem que certos objetos reais descritos por determinadas equações matemáticas são, digamos, “buracos negros” ou “buracos de minhoca”, pois, como a própria já ciência sabe, tais objetos não são, nem têm como ser “buracos”, nem “negros”, nem “de minhocas. Todavia, a ciência não enuncia suas produções sem se valer dessas miseráveis metáforas. Ás misérias da ciência, portanto, filosofia!

Quem senão o filósofo para desvelar a ingenuidade das metáforas científicas? Quem senão a filosofia para prevenir que as verdades de validade universal produzidas pela ciência não soem como poesia ou sofística? A filosofia, nos seus primórdios, salvou o universal das contingências da poesia e da sofística. Atualmente, tem o dever de fazer o mesmo com as universalidades assaz abstratas da ciência.

Ecologia spinozana

Espiral da Vida.jpg

Diante da extinção de tantas espécies animais em decorrência do antropoceno, isto é, do impacto do homem sobre a natureza, o que pensar de um intelectual que, em um lugar, identifica Deus com a natureza ao dizer Deus sive natura (Deus, ou seja, a natureza), e, em outro, sustenta que “é evidente que a lei que proíbe matar os animais funda-se mais numa vã superstição e numa misericórdia feminil do que na sã razão”, como de fato fez Benedito Spinoza na sua célebre Ética? O grande pensador moderno, mais conhecido como o filósofo dos afetos, não estaria querendo dizer algo como: Homem sive natura?

 

Imediatamente é o que parece, pois pouco importa aqui Spinoza dizer: “não nego, entretanto, que os animais sintam”, se, ali, diz: “nego que não nos seja permitido, por causa disso, atender à nossa conveniência, utilizando-os (os animais) como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil, pois eles não concordam, em natureza, conosco, e seus afetos são diferentes, em natureza, dos afetos humanos”. Quer dizer que pelo fato de não sabermos como os animais sentem nem como são afetados podemos fazer o que quiser com eles? É isso mesmo Spinoza?

 

Entretanto, antes de acusarmos Spinoza de insensibilidade em relação aos animais, e de o chamarmos de antiecológico, é muito importante lembrar que ele foi talvez o filósofo mais mal compreendido de toda a história da filosofia. Foi o primeiro pensador não cristão a ser excomungado pela Igreja Católica e, enquanto judeu, excluidíssimo da comunidade judaica-portuguesa pelo que pensou.

 

Obviamente, o desagrado irremediável que Spinoza causou nas comunidades cristã e judaica se deu muito menos pelo que disse dos animais do que pelo que sua filosofia falou das duas grandes religiões. Não obstante, essa rejeição histórica por parte dos fundamentalismos das duas grandes religiões em relação a Spinoza outra coisa não deve indicar senão que sua filosofia propunha uma horizontalidade racional incompatível com a verticalidade da fé.

 

Portanto, para não sustentarmos fundamentalismos, e não repetirmos a falta de entendimento dos últimos quatro séculos em respeito à filosofia de Spinoza, atravessemos racionalmente o aparente paradoxo entre, de um lado, a afirmação de que Deus é a natureza, e , de outro, a ideia de que alguns dos seres criados por Ele, quais sejam, os animais, possam ser utilizados e tratados por nós, homens, da maneira como melhor nos convém.

 

Ora, se tudo o que Deus sive natura cria é igualmente divino sive natural, todas as criaturas são igualmente “a” natureza e todos devem ter lugar dentro dela. Porém, se, como escreveu Spinoza, o “homem tem mais direito sobre os animais do que estes sobre ele”, o homem parece ter uma posição hierárquica superior dentro da natureza, coisa que, entretanto, somente o próprio homem poderia dizer, mas nunca a própria natureza.

 

Antes, da perspectiva da própria natureza, não seria absurdo concluir que esta criatura sua autointitulada humana que a degrada interna e sistematicamente é a mais baixa e indesejável de todas. Todavia, se Deus sive natura concluísse isso, estaria assumindo automaticamente que errou ao criar o homem. Isso, porém, para o próprio Spinoza seria um absurdo maior ainda, pois Deus sive natura é essencialmente perfeito, nunca erra. Mantenhamos então a ideia de que o homem, por mais que destrua a natureza e mate os animais ao toque de suas necessidades, ainda assim é uma acerto da natureza, sem o qual aliás ela seria menos perfeita do que é.

 

Seria então a natureza sadomasoquista ao criar e manter dentro de si uma criatura que a destrói sistematicamente? Obviamente que não, pois, conforme o próprio Spinoza, não há na essência de nada, muito menos na da natureza, qualquer princípio de autodestruição, mas, pelo contrário, de afirmação, de existência, de vida. Antes, tudo o que há na natureza é a sua perfeição se expressando positiva e necessariamente de infinitas formas.

 

Agora, se, de um lado, o homem e a sua antiecologia sistemática não são erros da natureza, mas acertos dela, e o fato de matarmos outras criaturas como bem entendemos só faz ela, a natureza, ser exatamente o que é, sive perfeita, porém, de outro lado, o próprio homem tem a ideia de que se os animais não fossem mortos por nós a natureza seria ainda mais perfeita, ou o homem não entendeu o que é perfeição para a natureza, ou, antes, seu conceito de perfeição pretende ir mais longe do que o dela.

 

Com Spinoza, no entanto, não é possível afirmar que uma criatura possa ser mais perfeita do que o seu criador, sequer imaginar mais perfeição que a dele. Desse modo, a ideia de que nenhum animal deva ser morto para a satisfação das necessidades humanas é menos perfeita do que a perfeição da própria natureza que criou o homem que extermina animais para se satisfazer. Como, entretanto, de nosso ponto de vista ecológico, aceitar que os animais possam ser mortos por nós e que ainda por cima isso seja a naturalidade, a positividade e a perfeição da própria natureza?

 

Pois bem, para absolver Spinoza do crime da antiecologia, é preciso colocar que, para ele, o simples amor aos animais não faz a natureza ser melhor. Para o filósofo, é amando a natureza como um todo que qualquer perfeição, inclusive o amor aos animais de que estamos falando, surgirá verdadeiramente. Isso fica claro quando, no seu Breve Tratado, o filósofo coloca que “não vamos nos fortalecer em nossa natureza por amar as coisas perecíveis e nos unirmos com elas, pois elas mesmas são débeis”.

 

Ora, os animais são perecíveis. Amá-los por si sós, portanto, é uma fraqueza, uma debilidade. Com efeito, diz Spinoza, “quem se une a coisas perecíveis é realmente muito miserável”. O importante a ser compreendido na frase de Spinoza é que só não há miséria nem debilidade no amor e na união à natureza como um todo, pois só ela não é perecível. Então, amá-la, não por que ela criou esta ou aquela espécie animal, mas porque criou todas as coisas, é a virtude humana de que a natureza precisa para ser o que somente ela pode ser: perfeitíssima.

 

A aparente antiecologia spinozana se desfaz, aliás, torna-se o mais perfeito princípio ecológico quando finalmente compreendemos que o amor que sentimos por este ou aquele animal, por tal ou qual espécie viva, é um amor miserável, pois ama mais uma parte do que o todo que a criou. Para Spinoza, devemos primeiro amar a natureza inteira, muito antes de ela se expressar em animais – plantas, homens, etc.-, pois se a amarmos desse modo, tudo o que dela decorre será amado adequadamente, e, portanto, naturalmente preservado.

 

Spinoza, na verdade, é absolutamente ecológico ao tentar mostrar que enquanto amarmos somente partes da natureza, e não a natureza que as cria e relaciona perfeitamente todas as suas partes, tal amor não salvará nenhuma parte da natureza de ser destruída por nós. O único amor que salva a natureza, e, com a salvação dela, a de todas as suas criaturas, é o amor à própria natureza. Amando-a, não temos como não amarmos todas as suas criaturas igualmente, pois ecologia, em Spinoza, é amor ao todo, e nunca a uma parte ou outra.

 

A polêmica afirmação de Spinoza, qual seja: “nego que não nos seja permitido … atender à nossa conveniência, utilizando-os (os animais) como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil”, deixa de ser antiecológica a partir do momento que, amando a natureza como um todo, é impossível abusarmos de alguma parte sua ou outra. Agora, em troca, se amarmos mais a uma parte do que o todo de que ela é parte, por exemplo, se amarmos mais a nós mesmos que aos animais, ou a estes mais do que às plantas,aí sim não nos parecerá absurdo que umas partes destruam outras convenientemente. Porém,  nesse amor parcial jaz a imperfeição da natureza.

Oscar, Glória e ataraxia.

Gloria.jpg

A postura indiferente e os comentários, digamos assim, apáticos da atriz Glória Pires causaram espécie na transmissão do Oscar 2016 pela Rede Globo. Quem não assistiu à performance de Glória como comentadora da festa do cinema americano ao vivo, certamente pôde conferir os “grandes momentos” dela no rol de memes que se seguiram nas redes sociais. Alguns chamavam-na de perdida, outros de “lesada”, outros ainda sugeriam que ela estava com problemas mentais. Entretanto, por que Glória causou tanto com tão pouco?

Vejamos alguns exemplos do pouco que muito causou. Sobre a canção premiada, “Writing’s on the wall”, do filme 007 contra Spectre, ela disse, nada mais nada menos: “gosto médio”. Quando perguntada sobre qual filme ganharia a estatueta dourada, esquivou-se:” “sou ruim de previsões”. Já a pérola da noite foi a resposta que deu quando solicitada a discorrer sobre a canção que Lady Gaga tinha acabado de apresentar: “não sou capaz de opinar”.

Realmente, é de espantar que, hoje em dia, na era dos quinze minutos de fama preconizada por Andy Warhol, uma estrela da televisão não faça questão de ocupar, absoluta e vaidosamente, o espaço midiático de que dispõe. No entanto, da segurança de sua longeva e reconhecida carreira artística, a atriz pôde confortavelmente mandar um “beijinho no ombro” para o “recreio famoso” warholiano e não abusar do seu espaço de evidência, ocupando-o minimamente.

Não sem pagar um alto preço, contudo. Ainda durante a cerimônia do Oscar, memes debochados já pipocaram nas redes sociais. Alguns ofensivos inclusive. A reação dos telespectadores-internautas foi tamanha e tão imediata que, no dia seguinte, ainda pela manhã, Glória, em um vídeo-resposta, veio se explicar. Muito tranquila, disse: “Gente, fui convidada para comentar o Oscar, aceitei, e como não sou especialista, falei e agi como se estivesse na sala da minha casa, junto de amigos, só isso”.

No entanto, a onda memética que, no melhor dos casos, a acusou de apatia, e, no pior, de doença mental, deixou bem claro a alta expectativa que o público tem das figuras que vê na “telinha”. Tivesse Glória fingido, isto é, encenado uma empolgação que não tinha em relação às perguntas banais que recebia, e, em resposta, outrossim mentirosa e empolgadamente, tivesse devolvido mais banalidades, o público teria ficado satisfeito, pois é isso que as pessoas esperam da TV, ainda que ganhem somente falsidades televisivas de presente.

Porém, algo fugiu do script. Glória Pires foi apenas ela mesma; foi cruamente verdadeira: não encenou uma hollywood movie expert, coisa que assumidamente não é. Ocupou seu lugar de convidada, nada mais. Não encheu os ouvidos dos telespectadores com as banalidades com as quais estão acostumados a ser entretidos, deixando-os, desse modo, com o vazio de suas próprias opiniões -ou falta de opinião- sobre as melhores músicas e filmes concorrentes. Glória, como se diz, não “alugou” ninguém, tampouco a si mesma.

Por que então a massiva reclamação memética contra ela? Será que os telespectadores não vivem sem “micos histéricos” diante de si o tempo todo? Qual a dificuldade em lidarem com a quietude, com a tranquilidade, até mesmo com a apatia dos seus supostos entertainers? A primeira pergunta é respondida com a segunda: porque eles querem sim micos histéricos lhes entretendo ininterruptamente, para assim ficarem absolutamente entretidos e satisfeitos. Já à terceira pergunta, a resposta é mais sutil. Reperguntemo-la: por que a apatia causa tanta espécie?

A apatia (não-pathos), isto é, a ausência de paixão, que também significa tranquilidade de ânimo, era chamada pelos gregos antigos de ataraxia. Em filosofia, ataraxia é a atitude fundamental do cético que não acredita no valor ontológico do conhecimento. Em outras palavras, o ataráxico é aquele que não se perturba pelo fato de a verdade não ser alcançável pela razão humana e, por isso, dispensa-se de discorrer sobre ela.

O cético-mor, qual seja, Pirro de Élis, ciente das limitações da sensibilidade e da racionalidade humanas, foi aquele que, em estado de ataraxia absoluta, encontrou tranquilidade não proferindo mais juízos sobre o que quer que fosse, vivendo completamente calado. Daí chamarmos quem não opina de pirrônico. E não foi uma quase ataraxia que Glória Pires atuou diante de milhões telespectadores ao dizer quase nada sobre a badalada e esperadíssima cerimônia do Oscar? Glória se deu ao luxo de ser pirrônica ao vivo, em cores, e na Globo ao dizer: “não sou capaz de opinar”.

Agora, por que a tranquilidade mental de um entertainer incomoda tanto aos que querem estar entretidos por ele? Ora, porque, hoje em dia, mais do que nunca, espera-se que o entretenimento não seja tranquilo. Se for sossegado demais, é o público que se inquieta. Nunca é demais lembrar que para “acalmar” o populus da Roma Antiga, nada menos que cristãos sendo devorados por leões no espetacular Coliseu. Para a audiência ficar “tranquila”, é o entertainer que deve ser histérico. Porém, como Glória, a suposta entertainer, foi serena, apática (livre de paixão), o público é que explodiu, histérica e patologicamente, contra a pirronice dela. Seus memes outra coisa não queriam vociferar que: entertain us or die, bitch!

Porém, a ataraxia de Glória mandou um “beijinho no ombro” inclusive para a patologia memética voltada contra ela. No seu vídeo-resposta, gravado provavelmente em sua casa, com ela vestindo um pijama, sem usar maquiagem e com os cabelos despenteados, a atriz, que na telinha está sempre “preparada”, disse inclusive que se divertiu muito com os memes que fizeram “para ela”; que os memes são mesmo um “espaço” de criação e de diversão para as pessoas; e que não havia nada de errado com ela durante a transmissão da cerimônia do Oscar. Isso sim é tranquilidade de ânimo! A glória! E o Oscar de melhor ataraxia vai para: Glória Pires!