“Cidadãos em branco” e o impeachment

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Ilustração: Rafael Silva

Dado que cidadania é a participação ativa de um indivíduo na vida e no Governo que tem em comum com os demais, eleger representantes políticos, isto é, votar, é condição para se ser cidadão. No Brasil essa participação é obrigatória inclusive. Muitos brasileiros, entretanto, por opção política votam em branco. Esses, digamos assim, “cidadãos em branco” argumentam, por exemplo, que o sistema eleitoral é uma farsa, um jogo de cartas marcadas, da qual, portanto, melhor é não participar.

Quando criticados, dizem de pronto que se mais da metade das pessoas fizessem como eles, isto é, votassem em branco, uma eleição seria seria cancelada. Acreditam que assim os políticos seriam confrontados com a insatisfação popular e, mais ainda, com seus próprios desgovernos.

A anulação de uma eleição devido a uma maioria de votos brancos, por um lado, não existe, é apenas um boato. Por outro, há formas mais efetivas de demonstrar descontentamento aos políticos do que deixar que menos pessoas os escolham. Sem dizer que é muita ingenuidade esperar que mais da metade dos eleitores abram mão desse direito que constitui não só a cidadania, mas também a própria democracia na qual vivemos.

Mais ainda, o voto em branco, por mais que se tergiverse, nada pode contra os votos efetivos dados aos candidatos que não se quer ver eleitos. Muito pelo contrário, deixam os demais eleitores sozinhos na decisão do futuro que, com efeito, será comum a todos. E, por fim, votar em branco é um “tiro no pé”, pois de forma alguma dispensa os “eleitores em branco” de estarem sujeitos aos resultados das eleições.

Dito isso, os “eleitores em branco”, por coerência, não deveriam se importar nem com os representantes efetivamente escolhidos, nem com a performance deles no poder. Um voto em branco é uma mensagem em branco que não tem como ser preenchida posteriormente. Todavia, não é isso o que acontece.

O mais recente exemplo da incoerência que os “cidadãos em branco” cometem pôde ser visto em seguida da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff dia 17 de abril de 2016. Depois de 367 deputados federais votarem a favor do impeachment com discursos e justificativas absurdas e vergonhosas, muitos dos que votaram em branco na eleição deles, em 2014, criticaram-nos, e, o que é pior, aos que os elegeram.

Aqui é preciso colocar que no Brasil foram mais de 10 milhões de votos em branco em 2014. Só no Rio de Janeiro foram 1.701.650 votos para ninguém. Considerando-se que Jair Bolsonaro recebeu 464.572 votos, Clarissa Garotinho 335.061, Eduardo Cunha 232.708, Felipe Bornier 105.517, só para citar os que mais precisavam não ter sido eleitos, os “cidadãos em branco” e seus votos imprestáveis poderiam sim ter feito uma gigante diferença. E a certeza é matemática!

A tática dos “cidadãos em branco, portanto, foi um “tiro no pé”, mas não só no deles. Também no de milhões de “cidadãos válidos” e lúcidos que usaram seus preciosos votos para eleger Jeans Willys, Chicos Alencares e Jandiras Feghalis que na mesma vergonhosa sessão do impeachment foram um farol de esperança ética e política na escuridão em meio ao mar de lama comandado por Cunha.

De modo que a péssima qualidade da Câmara do Deputados que a todos envergonhou em abril de 2016 também é responsabilidade dos que se abstiveram de escolher deputados federais decentes em 2014. E a péssima qualidade dos deputados que foram eleitos porque dez milhões de votos foram desperdiçados se refletiu diretamente na péssima qualidade dos discursos pró-impeachment e no absurdo antidemocrático que foi a abertura impeachment de Dilma.

Para aqueles que votaram válida e inteligentemente nas eleições de 2014, mas que estão tendo seus votos impeachmados juntamente com o impeachment de Dilma, os “cidadãos em branco” devem ser os alvos de crítica preferenciais. Mais do que os que votaram em Bolsonaros e Cunhas da vida até, pois são justamente os que poderiam ter contribuído para uma Câmara dos Deputados mais representativa, mas que nada fizeram além de reclamar, primeiro, que não havia candidatos a altura de suas expectativas nas eleições passadas, e, agora, dos que foram eleitos e que votaram antidemocraticamente na sessão do impeachment.

Oxalá Jaires Bolsonaros e Eduardos Cunhas da vida, eleitos e empoderados por quem vota, possam convencer os “cidadãos em branco” de que mais produtivo do que seus inúteis votos brancos é não ter a preguiça de escolher, se não ótimos representantes, que nem sempre há, pelo menos os menos piores. Espero que a revoltante sessão do impeachment tenha podido convencer os “cidadãos em branco” dessa necessidade, pois diante da miséria representativa que todos vimos na sessão mais longa e polêmica da história da Câmara dos deputados o menos pior é o novo melhor. Se é que, politicamente, não foi sempre assim.

 

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