Consumir o consumismo que nos consome

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iPhones, férias no Caribe, internet de alta velocidade, dúzias de cervejas, é quase impossível não sermos consumidos por tais mercadorias, concupiscentemente tornadas ícones materiais da idealizada realização pessoal. Porém, como nos disse Érico Veríssimo, “o objetivo do consumidor não é possuir coisas, mas consumir cada vez mais e mais a fim de, com isso, compensar o seu vácuo interior, a sua passividade, a sua solidão, o seu tédio e a sua ansiedade”. O tempo e o vento do consumismo nos conclamam convincentemente a tapar o “intapável” buraco humano que somos, mesmo que nessa empresa impossível sejamos consumidos pelo consumismo que consumimos.

E consumindo concupiscentemente, nos alienamos tanto do nosso vazio intrínseco, quanto do fato de que somos consumidos pelo que consumimos.  Acreditamos cegamente que, aqui, uma ou duas mercadoriazinhas à mais darão cabo do nosso tédio, e, ali, que somos somente nós que as consumimos. Realmente, essas são mentiras muito bem contadas, e, ademais, muito bem acreditadas. O capitalismo e Noam Chomsky sabem muito bem que “não se pode controlar o povo pela força, mas se pode distraí-lo com consumismo”. Quem nos distrai: o capitalismo. Qual seu método: o consumismo. E os distraídos, quem são? Ah, estes dispensam apresentação.

Para entender melhor o teatro capitalista que nos distrai do fato de que o consumismo que consumimos nos consome, vale lembrar que “consumir”, derivado do Latim “consumere”, quer dizer destruir, desgastar, desaparecer, sumir. Aqui podemos ver que, consumindo, outra coisa não construímos que um mundo de destruição. Isso fica ainda mais claro quando compreendemos que o sufixo “ismo”, que, indica sistematização, aderido à palavra consumo com uma força histórica tremenda, faz do nosso modus vivendi um sistema de destruição, de desgaste, de desaparecimento. Escaparíamos nós, consumidores, desse aniquilamento consumista?

O consumo, obviamente, não foi inventado pelo capitalismo. Na verdade, é intrínseco à vida, que, de acordo com Nietzsche, é um processo contínuo de destruição (consumo) e criação. A sistematização do consumo, porém, não encontrou melhor expressão do que no universo do capital, a ponto de hoje ser um absurdo negar que capitalismo e consumismo sejam absolutamente consubstanciais. Millôr Fernandes fala bem mais poeticamente da relação desses dois monstros: “quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo”. Não é demais ressaltar que a gestalt poética dessa máxima está precisamente no apelido mui próprio dado ao capitalismo.

O objetivo do casal mais insaciável e prolífico da história econômica mundial não é que as suas muitas filhas-mercadorias desapareçam definitivamente. As mercadorias que consumimos constantemente, embora feitas para serem sistematicamente sumidas por nós, renascem sempiternamente das cinzas, feito Fênix mítica. A destruição envolvida no conceito de consumo, portanto, não as visa centralmente. Tampouco o fim do capitalismo está em foco no desaparecimento das mercadorias, muito pelo contrário aliás. Quem são, então, os sujeitos destruídos nessa conjuntura que, de um lado, conta com a nossa concupiscência, e, de outro, com a ganância capitalista? Há muito a Torá nos diz que “a ganância insaciável é um dos tristes fenômenos que apressam a autodestruição do homem”.

Sim, somos nós, consumidores, que somos consumidos, melhor dizendo, destruídos pelo que consumimos. Não exatamente como queria Leon Tolstoi, que dizia que “para se viver com honra, é preciso consumir-se, perturbar-se, lutar, errar, recomeçar do início, novamente recomeçar e lutar e perder e ganhar eternamente”. A frase do escritor russo é fraca, quiçá utópica, diante de um capitalismo que, sistematicamente, recomeça a sua luta desonrosa para ganhar e ganhar e ganhar, ad aeternum. Quantas gerações não foram consumidas do mapa desde o surgimento do capitalismo senão para que hoje ele estivesse mais vivo e mais  vivo que nunca? E quantas ainda não serão desgastadas em função do ganhar-ou-ganhar capitalista?

Como, entretanto, evitar sermos destruídos pelo capitalismo, ou o que é o mesmo, consumidos pelo consumismo que consumimos? A fórmula de Abraham Lincoln, qual seja, “a melhor forma de destruir seu inimigo é converter-lhe em seu amigo”, poderia ser de alguma ajuda aqui? Para tal, precisaríamos pressupor, como os liberais mais ingênuos, que capitalismo e consumismo podem de fato ser amigos nossos. Agora, isso não seria confiar demais em alguma mão invisível, mais ainda, mágica? Permaneçamos por enquanto com os pés no chão no qual está escrito com o nosso próprio sangue que aquele que nos destrói para construir-se não é nem tem como ser propriamente nosso amigo.

Para ser amigável conosco, o capitalismo precisaria consumir outra coisa que não a nós, seus consumidores. Para tanto, teria de consumir a si mesmo, uma vez que o consumo é a sua essência inalienável. Não obstante, há alguma indicação de que essa ficção possa ser realizável, e ainda assim ser chamada de capitalista? Ou o ato subsequente da longeva ópera humana, no qual o protagonista econômico será mais amigável, já não tem um nome próprio: socialismo? Portanto, desculpe-me Lincoln, essa balela de amizade com o capitalismo está fora de questão.

Desse modo, as opções que nos restam são: ou sermos indiferentes em relação ao capitalismo, e, como em um lugar queria Marx, deixá-lo sucumbir diante de suas próprias contradições; ou, em troca, inimizá-lo radicalmente, e, como em outro lugar também queria Marx, derrotá-lo rápida e violentamente. Agora, se o objetivo principal é findar com o consumo de vidas pelo consumismo capitalista, temos todavia de considerar que lutar contra esse monstro em ambos os casos consumirão milhares de vidas. No primeiro, ao longo do tempo em que o capitalismo se contradirá até sucumbir, e, no segundo, na própria revolução rápida e violenta, haja visto que a besta capitalista é tão ou mais rápida e violenta, sem dizer belicosa até os dentes.

Resta ainda uma terceira via, trilhada por aqueles que acreditam que deixarem-se ser consumidos pelo capitalismo, conforme o próprio capitalismo quer, é uma forma subversiva de fazer com que ele chegue mais rapidamente à sua contradição derradeira. Estes são chamados de aceleracionistas. No entanto, do ponto de vista do capital, no que diferem os consumidores concupiscentes e os aceleracionistas? A fera econômica há de preferir estes últimos inclusive. Para entender o desserviço do aceleracionismo, façamos uma analogia: se o inimigo fosse, digamos, a destruição da natureza pelo homem, o aceleracionista seria aquele que se juntaria aos destruidores dela para, não havendo mais natureza a ser destruída, a destruição enfim cessasse. De que adiantaria tal luta?

O aceleracionista responderia contrariado que a virtude de sua ideologia em relação ao vício concupiscente está em que ser consumido para mais rapidamente destruir daquilo que o destrói é muito mais produtivo e honroso do que ser sumido enquanto se está distraído pelos encantos mentirosos do inimigo. Realmente, há aí uma vantagem, que, no entanto, só não é absoluta porque mais virtuoso é aquele que, sem se permitir ser corrompido, mesmo que subversivamente, rápida e violentamente tenta dar cabo do algoz-mor, ainda que seja o primeiro a ser destruído por ele.

A solução para o problema de sermos consumidos pelo consumismo que consumimos certamente não virá do consumista concupiscente, pois seu consumo não só o aliena de sua própria destruição, como também da destrutividade própria do consumismo. Provavelmente o consumista aceleracionista também não dará conta da questão, pois, embora engajando a sua própria e inevitável destruição na destruição futura do inimigo, enquanto age só fortalece este último. Só o revolucionário ainda mantém alguma possibilidade de vitória em seu horizonte. Duas, aliás. A primeira, na sua morte rápida e violenta em resposta à sua outrossim rápida e violenta ofensiva contra o capital, uma vez que, morto, não mais será consumido pelo consumismo que tenta consumi-lo. Aqui, morrer, é como matar um soldado do inimigo. Já a segunda, mais desejada e substancial vitória está no êxito da revolução que dará cabo do capitalismo.

A conclusão não poderia nem deveria ser outra. Para quebrar o círculo, que para nós é vicioso, mas para o capitalismo é absolutamente virtuoso, que a frase outrossim circular ser consumido pelo consumismo que consumimos expressa, a concupiscência é incompetente. Tampouco o aceleracionista mais empenhado no extermínio do capitalismo demonstra bom rendimento, uma vez que sua estratégia só fortalece o inimigo naquilo que ele quer ser fortalecido. Só mesmo o revolucionário tem a vitória em sua ação, pois só ele sabe, assim como o kamikaze, que a sua eventual morte não significa derrota se algo do inimigo morrer com ele. E também que ser consumido, destruído, derrotado, é sê-lo pelo inimigo, não por sua própria e deliberada ação. Por isso, ‘consumir o consumismo que nos destrói’, para o revolucionário, de outra forma não é lido senão: “destruir a destruição que nos destrói’.

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Emoções, rótulos e Facebook

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Curtir não basta! O Facebook, ao lançar cinco novos botões para expressar emoções além do “curtir”, está dizendo que mais importante do que curtirmos o que vemos nos nossos “feeds” de notícia é deixarmos claro que há emoções por trás dessas curtidas. E, de acordo com a miséria emocional que os novos botões nos oferecem, se é alegria, graça, surpresa, tristeza ou indignação. Se porventura nos emocionarmos para além destes parcos rótulos, a solução é nos jogarmos no abismo dos comentários que, por algum capricho de Zuckerberg, ainda resiste abaixo dos novos botões.

A opção “comentar” sempre foi o espaço facebookiano adequado para, discursivamente, expressarmos não só as nossas “emoções”, mas principalmente as nossas opiniões a respeito das postagem que vemos. Só que comentar parece desafiador demais para a geração twitter que só se sente segura dentro de 140 caracteres. Então, eis os novos emoticons do Facebook para dar mais espaço à pobreza discursiva já bastante tácita nos comentários da rede social mais famosa do mundo.

Não que a nossa geração já não estivesse se valendo massivamente da paralinguística dos emoticons, inclusive e paradoxalmente no espaço linguístico reservado aos comentários. Isso, porém, desde sempre se mostrou insuficiente, visto que um “smiley” sozinho, como se diz, nunca fez verão. E para driblar os limites da miséria expressiva de um singelo emoticon, a estratégia vinha sendo enfileirar vários deles, por exemplo, um “smiley sorrindo”, três “aplausos”, dois “sois”, dois “smiley piscando” e quatro “corações” para se dizer algo.

O problema é que essas aventurosas sequências de ícones emotivos deixam os seus “leitores” como que diante de hieróglifos que, certamente, nunca traduzirão adequadamente o que seus autores pensaram ou sentiram. Aqui, todavia, é preciso perguntar se a dificuldade em desvendar o que uma “frase” composta de emoticons quer comunicar não é a mesma dificuldade de comunicação de quem se expressa através dela. Algo do tipo: “eu realmente não sei como dizer o que penso e sinto, então, vou me expressar de modo que ninguém tenha como saber exatamente disso”.

Questão complicada, a aventura emoticon para alguns linguistas mais otimistas e conectados significa espécie de expansão dos limites de nossa linguagem. Para outros, ao contrário, quer dizer apenas que, “emoticonicamente”, estamos regredido à primitiva linguagem que outrora garatujávamos no “mural” das nossas cavernas. Para estes pessimistas e apocalípticos, a sequência composta por ícones de cinco “homens”, três “smiley sorrindo”, duas “letras”, uma “caverna” e cinco “neandertais” será a forma com que futuramente escreveremos –no Facebook?- a seguinte história:  “a humanidade, depois que começou a usar emoticons no lugar das palavras, regrediu aos seus primórdios”.

O Facebook, ao instrumentalizar a conversão da miríade afetiva humana em ícones e rótulos, impõe-nos uma nova etiqueta rede-social que não deve ser desconsiderada. Etiqueta, oriunda do francês “étiquette”, era o rótulo que se colocava em envelopes em que se guardavam processos judiciais para indicar, do lado de fora, algo que estava do lado de dentro. Filosoficamente falando: uma aparência que apenas indica uma essência. Entretanto, não nos enganemos, o rótulo aparente não é nem tem como ser o conteúdo essente.

O preço do ícone emocional, ou o que é o mesmo, do emoticon, portanto, é a impossibilidade de traduzir a essência das nossas emoções, ou seja, nós mesmos. Aqui, não só as palavras protestam, mas, sumamente, a poesia, que melhor do que qualquer outra expressão humana comunica sublimemente a forma e a intensidade do que sentimos.

Somos bastante evoluídos para usarmos os emoticons do Facebook sem com isso deixarmos as nossas palavras nem a nós mesmos para trás? Talvez sim, mas somente se não nos esquecermos de que a cada vez mais disponibilizada superficialidade icônica dos emoticons outra coisa não faz que nos alienar da profundidade e da complexidade emotiva que pretendemos expressar através deles.

Trump. Politicamente incorreto ou despoticamente correto?

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Donald Trump é politicamente incorreto? Ou dizer isso dele seria um elogio que ele sequer merece? O filósofo Slavoj Žižek, no texto “Trump e o retorno do politicamente incorreto”, usa o patético bilionário candidato à candidato à presidência dos EUA para exemplificar a “tendência de aviltamento de nossa vida pública”. Realmente, ninguém melhor –ou pior- do que Trump para, publicamente, fazer com que os aviltamentos envolvidos no racismo, na xenofobia e no machismo, só para citar alguns, tomem novo fôlego e ameacem a sociedade americana e, por consequência, espreitem o resto do mundo. Para Žižek, no entanto, os “estouros vulgares” de Trump servem apenas para “mascarar a incontornável ordinariedade de seu programa”. Só que a vulgaridade explosiva de Trump não para por aí.

O problema do texto de Žižek é dizer que Trump é politicamente incorreto, pois isso pressupõe que o bilionário de fato age politicamente, para só então, a posteriori, sua atuação política poder ser considerada incorreta. Ao assumirmos peremptoriamente que Trump é politicamente incorreto podemos estar nos alienando de uma verdade muito mais profunda e radical, qual seja, que Trump não age politicamente, muito embora esteja agindo na ágora política. Para não sermos enganados pelos jargões de efeito, é melhor esclarecer a diferença entre agir politicamente e agir não-politicamente, ou o que é o mesmo, despoticamente.

Aqui é preciso lembrar, todavia com a ajuda de outro filósofo, Baruch Spinoza, que na natureza não há certo nem errado, bem nem mal, mas só coisas e ações que em si mesmas são somente verdadeiras porque reais, e que certo e errado, bom e ruim, são apenas atribuições posteriores, dadas de acordo com os valores de cada um. Essa lembrança spinozana deve servir para esclarecer-nos de que a ação não-política não é má nem errada por natureza, assim como o acerto ou o bem não estão necessariamente presentes na ação política.

É fundamental também lembrarmos que a política foi uma invenção grega do século VI a.C. alternativa às relações despóticas entre os homens. O homem político, isto é, o “polites”, era aquele que não mais resolvia os seus problemas valendo-se da força bruta. O “polites”, isto é, o político substitui o “despotes”, ou seja o déspota. Discurso no lugar de violência, ou, em outras palavras, civilidade no lugar de barbárie, eis o movimento que fez surgir a política na antiguidade mediterrânea. Infelizmente, aqueles virtuosos políticos gregos não deixaram de ser viciosamente despóticos na esfera doméstica, com seus escravos ou com os estrangeiros, coisa que, infelizmente, tampouco a nossa contemporaneidade conseguiu transformar em passado.

Para a pergunta que Žižek, no seu texto, coloca na boca dos politicamente incorretos, qual seja, “mas por que falar de educação, polidez e modos em público hoje, num momento em que estaríamos diante de problemas muito mais urgentes e ‘reais’?”, os gregos antigos já tinham a resposta certa que o filósofo contemporâneo faz parecer ser nova e sua, qual seja: “bem, porque os modos importam sim – em situações tensas, são uma questão de vida ou morte, uma linha tênue que separa a barbárie da civilização”. Agora, se a polidez e os bons modos são sempre necessários à civilização, é porque as suas ausências são sempiterna e resistentemente presentes: é porque não conseguimos deixar de ser bárbaros, despóticos e grosseiros que precisamos tanto exercitar civilidade, política e polidez. É uma questão de vida ou morte!, dizem-nos os políticos antigos e o filósofo contemporâneo.

A relembrança da gênese da política deve ajudar na recolocação da pergunta: Trump age politicamente –para então poder fazê-lo de modo incorreto? Agora podemos responder com mais propriedade se ele age politicamente, ou, em troca, apenas age despoticamente. Entretanto, no caso de ser genuinamente despótico, faz sentido perguntar se tal despotismo é correta ou incorreto? Ou, antes, quando um déspota age incorretamente, isto é, da perspectiva do despotismo não é absolutamente despótico, e a sua natureza bruta deixa de se impor sobre os demais, não estaria ele automaticamente sendo político? Os gregos pré-políticos não teriam sido déspotas incompetentes pelo fato de terem começado a resolver as suas diferenças mediante o verbo e não mais por meio da violência? Se sim, bendita incompetência!

Trump, mediante os seus racismo, xenofobia e machismo outra coisa não faz que agir violentamente e sem polidez alguma contra hispânicos, negros, muçulmanos, gays e mulheres. Não é o caso, portanto, de dizer que o bilionário americano é politicamente incorreto, visto que sequer é político, mas totalmente despótico. É de sua grande e brutal força econômica e midiática que ele se vale para tentar impor, despótica e verticalmente, os seus anacrônicos valores individuais sobre os valores que, contemporânea e horizontalmente, a sociedade americana –mas não só ela- tenta construir para si mesma.

Desculpe-me, Žižek, mas Donald Trump é politicamente incorreto apenas metaforicamente, pois, literalmente, é absolutamente despótico. Melhor dizendo, corretamente despótico ao forçar seus propósitos pessoais contra uma sociedade inteira, ignorando deliberadamente os contradiscursos mais racionais. Chamar Trump de politicamente incorreto é impróprio em se tratando de alguém que sequer consegue ser político. Na verdade, ele é um déspota corretíssimo que, hoje, usucapia o parlatório político para, ao contrário dos gregos “politikos”, afirmar a violência, a estupidez e a miséria retórica no lugar da civilidade, da polidez e da virtude do diálogo político.

Panelas, vergonha alheia e Spinoza

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Da minha janela para a avenida Nossa Senhora de Copacabana, assisti a mais um estridente “panelaço” contra o atual governo, contra o Partido dos Trabalhadores e, como não podia deixar de ser, contra o ex-presidente Lula. Na noite de 23 de fevereiro de 2016, novamente, os elementos predominantes do maravilhoso cenário da Princesinha do Mar eram os patéticos e histéricos cidadãos que faziam do ruido de suas panelas os seus melhores discursos políticos. Diante de tamanha miséria retórica, pensei sentir vergonha alheia de todos eles.

No entanto, não podia ser vergonha o que me passava, afinal, este é um sentimento que nos afeta por reprovarmos algo que nós mesmos fazemos. Ou ainda, segundo o filósofo Baruch Spinoza, “a vergonha é uma tristeza acompanhada da ideia de alguma ação nossa que imaginamos ser desaprovada pelos outros”. Sendo assim, se a ação da qual eu parecia estar me envergonhando, embora alheiamente, não era produzida por mim, nem a minha reflexão silenciosa parecia ser desaprovada pelos outros, vergonha é o que eu não deveria sentir.

Na verdade, o que eu sentia era uma espécie de orgulho -orgulho próprio!- por descrer piamente que bater em uma panela pudesse resolver, em qualquer instância, seja a atual crise brasileira, seja ainda  patologias históricas, tais como a mui antiga e democratizada corrupção política tupiniquin e os vis movimentos de uma economia completamente refém do capitalismo global.

Por que então essa vergonha alheia pareceu me afetar? Como foi a partir da minha janela física que cheguei a essa questão, para esclarecê-la é conveniente debruçar-me sobre uma janela metafísica. E se a vergonha é um afeto, a metafísica de Spinoza, o filósofo dos afetos, é a melhor janela para eu ver à distância a minha vergonha alheia, que, no entanto, tilintava silenciosamente um forte orgulho próprio por eu não ser um reles paneleiro político. Para raciocinar melhor, eu deveria me afastar dessa vergonha intrusa, pois, como diz o filósofo, “a vergonha é uma espécie de tristeza, não diz respeito ao uso da razão”.

Spinoza afirma que a vergonha, embora não seja uma virtude, é boa à medida que indica um desejo de viver lealmente. A minha pretensa vergonha alheia, portanto, era apenas o sinal de que eu desejava ser mais leal ao meu país do que aqueles desavergonhados que batiam panelas. Da minha perspectiva, lealdade seria protestar, argumentativa e racionalmente, em um diálogo político civilizado e maduro, sem o qual não um Brasil melhor não será construído.

A minha maior lealdade cidadã em relação aos histéricos paneleiros pode se justificar no que diz Spinoza: “quem sente vergonha é mais perfeito do que o desavergonhado, pois este não tem qualquer desejo de viver lealmente”. Entretanto, se, como coloca o filósofo, “o pudor é o medo da vergonha”, a vergonha alheia que eu inicialmente senti pelos tilintadores de plantão, na verdade, era meu pudor de não ser desleal ao meu país. Não era orgulho, portanto, o sentimento que barrou a minha vergonha alheia, mas pudor! Era esse o afeto que eu tilintava reflexivamente da minha janela silenciosa .

Sem dizer que aderir à vergonha alheia seria um tremendo desserviço político. Em primeiro lugar, porque é aquele age vergonhosamente que deve se envergonhar dos seus atos. E em segundo lugar, porque sentir vergonha pelos atos de outrem dispensá-lo de ser afetado por aquilo de que ele mais precisa para ser um pouco mais virtuoso. Com efeito, quem sente vergonha no lugar de alguém age, gratuita e espontaneamente, como um “personal-vergonha” dele, enquanto ele, tendo esse afeto, digamos, terceirizado, pode até sentir-se orgulhoso de si, o que é um absurdo -muito embora aqueles que deixavam a avenida Nossa Senhora de Copacabana mais ruidosa do que já é evidenciassem um inacreditável orgulho próprio.

Sinceramente, o que eu mais desejei durante o panelaço foi que os paneleiros histéricos pudessem se confrontar com suas vergonhosas manifestações políticas. Agora, mesmo que eles não se envergonhem disso, sequer se entristeçam com a pobreza de suas estratégias políticas pessoais, pois caso o fizessem certamente se tornariam cidadãos mais leais ao seu país, a melhor coisa que eu tenho a fazer é pensar como Spinoza, ou seja, nunca esquecer de que “a vergonha é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa interior”, nunca causada por outra pessoa. Eles não podem e não devem me causar vergonha, mesmo que alheia.

Não foi nem felicidade nem orgulho o sentimento que os tilintadores de Copacabana me causaram sob a máscara da vergonha alheia, mas, em troca, pudor. Pudor de não agir como eles!  E se tal pudor, causado por mim mesmo, causava-me espécie de orgulho e felicidade próprios, esses sentimentos eram a minha própria glória, pois, conforme Spinoza, “a glória é a alegria acompanhada da ideia de uma causa interior”, ou seja, causada por quem a sente.

Se, como diz o filósofo dos afetos, “a vergonha é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa interior”, e provém do fato de alguém se julgar reprovado pelos outros, a minha glória, melhor dizendo, o meu silencioso pudor em não ser desleal ao meu país, diante do monótono e ineficiente ruído de centenas de panelas, era o mais virtuoso protesto que eu poderia fazer.

Entretanto, ainda que a minha silenciosa virtude não conduza os paneleiros histéricos à vergonha nem à tristeza, que, do meu ponto de vista, é o que eles deveriam sentir por suas barulhentas deslealdades cidadãs -e que, se sentissem, mostrariam a intenção de serem um tanto mais leais ao Brasil-, pelo menos de me sentir envergonhado por eles eu me sinto dispensado! Sou alheio a histeria deles. Essa é a minha glória. Glória cidadã.

O patrimônio da humanidade, a barbárie e a civilização.

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Assistimos indignados, das críticas torres envidraçadas da nossa pressuposta civilidade, ao Estado Islâmico destruir patrimônios arqueológicos da humanidade, como por exemplo as antiquíssimas estruturas arquitetônicas da cidade síria de Palmira. Nós, ocidentais, que quase tudo destruímos do nosso patrimônio arqueológico e arquitetônico, para no lugar dele construirmos as nossas metrópoles modernas, do topo do nosso belvedere civilizado só conseguimos ver a barbárie daqueles lá longe. Já a nossa, que está bem próxima, fazemos de conta que não vemos.

O que provoca essa nossa hipermetropia? Em outras palavras, por que a mesma coisa, se “produzida” por aqueles fundamentalistas é chamada de barbárie, e se produzida por nós, é desenvolvimento? Ontem mesmo, caminhando pelo centro histórico do Rio de Janeiro, dito tombado, recoloquei-me essa pergunta ao ver, incrédulo, a demolição de dois palacetes que há mais de trezentos anos faziam a beleza patrimonial arquitetônica e cultural da esquina da Rua do Rosário com a avenida Primeiro de Março, bem em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil.

Ao lado do que ainda restava dos antigos edifícios, já dava para ver as fundações apressadas do que provavelmente serão mais dois arranha-céus comerciais antipáticos e revestidos de vidros espelhados que outra coisa refletirão senão a civilização seguir barbarizando o patrimônio carioca que ainda resta. Só que esse patrimônio carioca que vai sendo barbarizado também é dos brasileiros e, sumamente, da humanidade. Porém, os prédios novos que em pouco tempo jazerão impávidos no coração Rio antigo refletirão mentirosamente apenas a ideia de desenvolvimento.

Agora, se em um ano o Estado Islâmico continuar destruindo as arquiteturas antigas do mundo árabe – o que é bem provável, afinal, “assim caminha a humanidade” -, os executivos das torres pós-modernas que estarão no lugar das arquiteturas destruídas da Rua do Rosário dirão daqueles: são uns bárbaros, destroem o patrimônio da humanidade! Entretanto, nem precisaríamos destas duas novas torres tupiniquins críticas para que a “jihad” desenvolvimentista do “Estado da Guanabara” fosse tão abjeta quanto a jihad fundamentalista do Estado Islâmico.

Basta lembrar de Pereira Passos, que, apelidado de “bota-abaixo”, barbarizou o Rio antigo dos 1900 para, no seu lugar, edificar o belo Rio de Janeiro da Belle Époque, imitando o Barão Haussmann que, cinquenta anos antes de Passos, fez o mesmo com a Paris medieval, da qual era prefeito. Todavia, de tais bárbaros é dito que fizeram “cirurgias urbanas”. E por esse corpos plastificados, como Paris e Rio exemplificam muito bem, temos inclusive adoração cega, praticamente fundamentalista.

Outro exemplo histórico da barbárie carioca contra o patrimônio da humanidade, cometido pelo sucessor de Pereira Passos,  foi o “desmonte” do Morro do Castelo, que se situava bem no centro do Rio de Janeiro, que abrigava não só fortalezas coloniais de valor histórico inestimável, que foram “desmontadas” com o morro, como também um panteão imaterial de religiosidades negras mal vistas e malquistas pela “civilização” da época, outrossim colocadas por terra.

A histórica destruição de patrimônios nas terras cariocas, que sege firme até hoje com o “desmonte” dos dois palacetes da Rua do Rosário, entretanto, parece não recebe críticas tão radicais quanto as que despejamos contra os radicais islamitas. Por quê?

Ora, criticamos radicalmente e sem pestanejar o Estado Islâmico pela destruição do patrimônio da humanidade para que sejam eles, e apenas eles, os bárbaros destruidores do patrimônio humano. Agindo desse modo, de um lado, podemos seguir destruindo o patrimônio da humanidade que ainda existe no nosso quintal, e, de outro, nos alienamos eficientemente do triste fato de que o “patrimônio” humano mais perene é mesmo a destruição de seu próprio patrimônio, seja em Palmira, seja em São Sebastião do Rio de Janeiro.

O mais irônico de tudo é que quando queremos civilizadamente preservar algum patrimônio arquitetônico ou cultural da nossa incontrolável barbárie, usamos a expressão “tombar”. Embora “tombar” signifique “preservar”, essa palavras não deixa de remeter a “fazer cair”, a “botar-abaixo”. Talvez usemos a palavra “tombar” para, própria e civilizadamente, dizer a nós mesmos que queremos preservar os nosso patrimônios, mas, comezinnha e barbaramente, para não nos esquecermos de que nós também somos radicalmente destrutivos em se tratando de patrimônio da humanidade.

Boicote tupiniquim à transexualidade

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Que um filme que conta a história da primeira transexual da história seja proibido de ser exibido em um país do mundo árabe em plenos anos 2016 não é um absurdo inimaginável. Afinal, o fundamentalismo religioso, bem como os demais, funciona irracionalmente. Por isso o filme A garota dinamarquesa, dirigido por Tom Hooper, que narra a história real do pintor dinamarquês Einar Wegener, que em 1930 se tornou Lili Elbe, foi proibido no Catar, emirado do Oriente Médio no qual até os partidos políticos são proibidos.

Agora, que o mesmo filme –e a mesma questão, a transexualidade- sofra igual boicote no Brasil, um país pretensamente laico e democrático, isso é de surpreender. Melhor dizendo: decepcionar. Todavia, é exatamente isso o que está acontecendo nas paragens tupiniquins, com redes de cinema se recusando a exibi-lo. Na capital de Santa Catarina, por exemplo, o filme só entrará em cartaz por conta da insistente mobilizações de grupos que defendem a diversidade. Que razões poderiam estar levando a terra do carnaval, na qual nunca foi pecado algum alguém ‘de dia ser Maria, de noite ser João’, a uma postura irracional como essa?

Em primeiro lugar, devemos considerar a maior presença do fundamentalismo religioso evangélico na política brasileira dos últimos anos. Irônico é que esse movimento retrógrado tenha ocorrido justamente a partir das primeiras eleições depois do libertário junho de 2013 brasileiro, dentre cujas múltiplas insatisfações estava o repúdio ao recentemente eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, o pastor evangélico Marcos Feliciano que, entre outros absurdos, buscava impedir que gays pudessem se casar, adotar crianças e formar famílias. Imaginemos o que diria Feliciano sobre a transexualidade!

Porém, em segundo e imediato lugar, o boicote à Garota dinamarquesa diz mais do que somente do fundamentalismo religioso. Temos de considerar fortemente o fundamentalismo sociocultural que, inclusive nos lares mais laicos ainda faz com que a questão da transexualidade deva ser enterrada antes mesmo de ser assistida. Por que alguns donos de cinemas brasileiros estariam se negando a exibir o filme que fala da transexualidade de Lili se todos sabemos que a película de Hooper já podia ser baixada pela internet antes mesmo de estar nas salas de cinema, e que, futuramente, estará nas locadoras e no NetFlix para ser visto “on demand”?

Para o fundamentalismo sociocultural, a questão da transexualidade, ainda que vista e inclusive vivida na profundidade privada, de modo algum deve exibida publicamente. Assim como o fundamentalismo pagão da Roma antiga levou os cristão que queriam cultuar o seu Deus ao interior cavernoso das ermas montanhas da Capadócia, o fundamentalismo contemporâneo parece querer levar aqueles que querem “cultuar” a transexualidade, isto é, atribuir espaço e dignidade cultural a ela, ao interior de suas cavernas particulares. Novamente, e infelizmente, não é de espantar, pois se à homossexualidade o melhor espaço que o fundamentalismo pôde oferecer foi o anonimato do “armário”, à transexualidade outro lugar não iriam querer proporcionar

Se ao menos o filme A garota dinamarquesa contasse a história de um homossexual enrustido que, em determinado momento de sua vida, quisesse ser mulher, o mundo do preconceito teria categorias de entendimento prontas e engessadas para assisti-lo e, não menos, para condená-lo, como faz com a homossexualidade em geral. No entanto, o desafio que o filme traz à reflexão fundamentalista -se é que isso não é o maior paradoxo- é o fato de um homem, Einar Wegener, casado com uma mulher, apaixonado por ela, e perfeitamente encontrado na sua identidade de gênero masculina, de repente, descobrir em si uma identidade de gênero diversa e latente, diante da qual nada pôde senão deixá-la se manifestar através da identidade feminina de Lili. Mais ainda, em nome do objeto mais caro à humanidade: a própria felicidade.

Tivesse Einar sido um “viado” enrustido a sua vida inteira, como muitos dos fundamentalistas religiosos e culturais o são sub-repticiamente, e então quisesse “sair do armário” já vestido com roupa e corpo de mulher, o fundamentalismo sequer precisaria refletir. Faria apenas o seu melhor, isto é, vomitaria os seus preconceitos contra a felicidade e a liberdade alheia. Entretanto, como assistiriam a história de Einar-Lili sem se depararem com o insondável continente do qual a natureza humana é habitante cativa? Se qualquer um, a qualquer momento, pode descobrir que é outro por dentro, mais ainda, um outro que é objeto de forte discriminação e preconceito, é melhor que tal natureza humana não seja exibida publicamente, pensam os fundamentalistas.

A ferida fundamentalista que o boicote ao filme A Garota dinamarquesa evidencia remete à terceira ferida narcísica da humanidade, qual seja, a descoberta do inconsciente, por Freud –a primeira: a terra não é o centro do universo, aberta por Copérnico; a segunda: o homem é uma evolução do macaco, e não criado tal qual por Deus, aclarada por Darwin. Com efeito, a consideração do inconsciente humano é a assunção de um universo pessoal dentro de cujas fronteiras as regras e leis do universo dito “consciente” nada podem a não ser serem transcendentemente afetadas e definidas por aquele. E não foi diante do império do seu inconsciente que Einar teve de se ajoelhar para aceitar a existência real de Lili?

Desse modo, embora sejam condenáveis as proibições das exibições públicas tanto de A garota dinamarquesa quanto da questão da transexualidade em si, ambos os despautérios podem ser compreendidos quando consideramos o modo fundamentalista e preconceituoso mediante o qual a humanidade caminhou até aqui para não se deparar com a complexidade de sua própria natureza. O boicote à exibição pública do filme de Hooper outra coisa não é que a tentativa fundamentalista desesperada de esconder o fato de que ser humano é ser constantemente ferido pela ruína de fundamentos que, até ruírem, parecem absolutamente certos e imutáveis.

Que a jihad religiosa do radical Catar resista terminantemente em aceitar que seus fundamentos absolutos são apenas curativos culturais paliativos que escondem as feridas abertas da humanidade em vez de tratá-las, compreendemos muito bem; a condenamos até. Agora, que no Brasil, parafraseando Tim Maia, valha tudo, valha o que vier, valha o que quiser, mas não valha que a transexualidade tenha lugar público e digno, desculpem-me, isso só faz com que o fundamentalismo tupiniquim seja o mesmo que o catariano, apenas usando uma outra fantasia. Vale tudo? Não! Não vale, aqui, chamar aqueles de bárbaros radicais e, ali, agir como eles.

Mais ainda, as garotas e os garotos Trans, sejam eles dinamarqueses, catarianos ou brasileiros, estão aí para não deixar a “fera ferida” do império Cis se esquecer de que até um dos mais sólidos fundamentos humanos, qual seja, que a identidade sexual de uma pessoa deve ser determinada pelo sexo  biológico, não vale absolutamente. Por isso o boicote ao filme de Hopper é um absurdo, pois aliena a humanidade de uma de suas expressões cada vez mais tácitas:  ser de um identidade sexual diversa daquela que ou Deus ou a natureza “quiseram”. Não é de surpreender que o Catar se recuse a exibir essa humanidade. Porém, é de decepcionar profundamente que o Brasil, que, dizem, tem o povo mais amável do mundo, seja tão odiável com quem em um dia é Maria, mas, em outro, descobre-se João, ou vice-versa.

A barbárie e a medida da nossa indignação

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Foto: PCO – Presídio de Pedrinhas, Maranhão.

Ao lermos a notícia primeiramente divulgada pela agência curda “Arab News”, mas rapidamente replicada por jornais de todo o mundo, de que no dia 18 de fevereiro de 2016 o adolescente Ayham Hussein, de 15 anos, foi decapitado em praça pública por jihadistas do Estado Islâmico, simplesmente por ouvir música Pop ocidental, quão indignados ficamos ou achamos que devemos ficar? Muito, diremos nós. Afinal, no nosso ocidente laico&liberal jovem algum é decapitado em praça pública por con$umir música Pop. Somos civilizados, ora bolas, bem diferentes daqueles bárbaros radicais. Por isso não temos dúvida de que devemos devemos ficar absolutamente indignados com o que aconteceu a Ayham. Entretanto, seria essa a justa medida para a nossa indignação em relação à barbárie cometida contra Ayham?

O problema dos sentimentos, posturas ou crenças absolutos é que inviabilizam sobremaneira a reflexão, ou seja, o virtuoso uso razão. Se em Filosofia “absoluto” é definido como realidade suprema e fundamental, independente de todas as demais, qualquer filósofo nos dirá que se a nossa indignação a respeito do destino que o E.I. deu a Ayham é absoluta, ela não é menos radical que a indignação absoluta dos jihadistas em relação ao gosto do adolescente por música Pop ocidental. O vício do radicalismo jihadista parece ser muito claro para nós. Agora, o vício do nosso radicalismo, a partir do qual criticamos aquele, é igualmente claro?

Ora, se é só pelo fato de os membros do E.I. seguirem fundamentos absolutos que eles são criticados por nós, ocidentais, enquanto os criticarmos absolutamente, do topo dos nossos caros fundamentos laicos&liberais, desculpem-me, merecemos a mesma crítica, gostemos ou não dessa consequência. Isso porque a nossa indignação absoluta nos impede de pensarmos a questão reflexivamente. O absoluto não reflete. Em que iria refletir-se se só há ele? A recusa dialética que toda ideia absoluta envolve, no caso da morte de Ayham, rouba-nos, por exemplo, a possibilidade de perguntarmo-nos se além da compaixão pelo adolescente árabe fã de música Pop a nossa indignação absoluta diz mais coisa, e o quê.

Uma vez que absoluto também é definido como a quintessência da abstração, a essência e o termo da generalização, a nossa repulsa absoluta ao que concretamente aconteceu a Ayham, primeiramente, é uma forma de nos alienarmos justamente do indivíduo concreto Ayham, para, em seguida, mediante essa abstração, colocarmos no lugar dele qualquer adolescente que possa ser decapitado pelos mesmos motivos, senão para, em terceiro e último lugar, imaginarmos os nossos filhos, irmãos, netos, sobrinhos, e até nós mesmos, sendo decapitados pela barbárie fundamentalista dos outros.

A sordidez desse movimento, que não é fácil de aceitar, é análoga à análise que  Slavoj Zizek fez acerca da assistência humanitária que os países ricos dão aos miseráveis do terceiro mundo. Para o filósofo, tal humanitarismo nunca serviu para realmente ajudar o terceiro mundo, mas para que os próprios países ricos possam desfrutar de igual assistência no caso de futuramente precisarem. Se, como esclarece Zizek, o desejado altruísmo é mesmo apenas a melhor máscara para o indesejado egoísmo humano, a nossa indignação absoluta com a barbárie cometida contra Ayham desconsidera o próprio Ayham senão para endereçar a nossa indignação a nós mesmo, mais especificamente, ao nosso desejo de não sermos decapitados radicalmente pelo que gostamos ou acreditamos. Tal assunção é radical!

A indignação absoluta a respeito do que o E.I. fez com Ayham nos submete a uma espécie de cegueira que, entre outras coisas, faz com que esqueçamos, por exemplo, de que muitos dos nossos jovens, principalmente os que não seguem à risca o “playlist” ocidental, sofrem um tipo de violência que, embora não os decapite espetacularmente, impede-os subterraneamente de viverem as suas vidas, de modo tão irremediável como se suas cabeças tivesse sido arrancadas. Estou falando obviamente do mui ocidentalizado “bullying”, que, como nossas agências de notícia cada vez mais divulgam, leva muitos adolescente a darem cabo de suas próprias vidas, não em praça pública, mas na solidão insuportável de suas sensações de inadequação em relação ao mundo que, por violência externa, foram levadas a sentir.

Condenar absolutamente os jihadistas do E.I pelas bárbaras decapitações que promovem nos seus domínios, faz também com que nos esqueçamos de que no nosso próprio quintal brasilis acontecem decapitações tão ou mais bárbaras que aquelas. O que em 2014 se deu quase que sistematicamente no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, mas que ainda hoje acontece, seja lá mesmo, seja em outros presídios brasileiros, isto é, presos decapitando presos e usando suas cabeças como moeda em troca de celas menos lotadas, de alimentos não apodrecidos, até de fornecimento de maconha, tal barbárie, digamos assim, doméstica, não deveria ficar de fora das nossas reflexões sobre a barbárie e as decapitações do E.I. No entanto, a nossa indignação absoluta com aqueles bárbaros outra coisa não faz que nos alienar das nossas.

A nossa reflexão, todavia, não será realista se, para finalmente considerarmos as nossas barbaridades tupiniquins, tomarmos alguns do presos de Pedrinhas como os radicais bárbaros absolutos, e os decapitados enquanto vítimas absolutas. Pelo menos no caso maranhense, todos os presos eram vítimas de uma barbárie muito mais radical: o sistêmico descaso do governo daquele estado com seus cidadãos em função da manutenção de seu podre poder. E na barbaridade de Pedrinhas, ainda que sem sujar as mãos com o sangue dos presos, o bárbaro-mor era ninguém menos que Roseana Sarney, princesa da oligarquia peemedebista maranhense que, desde 1966, é encabeçada por seu pai, José.

A barbárie que Pedrinhas evidenciou, que até hoje pode ser vista pelo Youtube, e da qual nos esquecemos ao nos indignarmos absolutamente com a barbárie do E.I., pode ser ainda mais bárbara que a dos jihadistas radicais. E isso porque o governo do PMDB tocado por Roseana, que criou as condições concretas para aquelas decapitações, esconde a sua barbárie justamente no fato de ter sido eleito democraticamente, mentira todavia tornada real por conta do poderio midiático do clã Sarney, proprietário de seis afiliadas da TV Globo, de emissoras de rádio e de vários jornais. Ainda que disfarçadas, as decapitações que se seguiram do “jihadismo” oligárquico dos Sarney são tão equivalentes às que se seguem do jihadismo do E.I que ambas têm lugar indiferenciado no Youtube. Basta digitar duas palavras e, voilà, barbáries árabes ou brasileiras!

A “jihad” dos nossos Sarneys, essa histórica cruzada familiar cujo objetivo nunca foi outro senão manter o Maranhão como curral exclusivo de seus fundamentos supremos, e que, para tal, inclusive dezenas de cabeças tiveram de rolar, é mais bárbara que a jihad do E.I. no sentido de que é estrategicamente dissimulada. A barbárie do E.I. tem ao menos a virtude de não esconder de ninguém que é absolutamente tirânica. Já a maranhense, de José e Roseana, se vale do moderno vício oligárquico de se disfarçar com a toga branca da democracia. Porém, para que ambas as barbáries sejam condenadas -pois é isso que merecem!-, a estrangeira não deve monopolizar absolutamente a nossa indignação. Temos de sujar as mão, melhor dizendo, as nossas ideias com no mínimo a barbárie que rola solta no nosso quintal, ainda que a um maranhão de distância de nós.

Do contrário, se a nossa indignação com a barbárie do E.I. for absoluta, isto é, se for suprema e independente de todas as demais, outra coisa não faz que dispensar os nossos bárbaros domésticos de receberem a mesma e merecida crítica, o que pode fazer com que inclusive sejam eleitos democraticamente outras vezes. Além do que, a nossa indignação absoluta com o que aconteceu com Ayham, trazendo à nossa revolta a quintessência da abstração, aliena-nos inclusive da barbárie concreta dos jihadistas muçulmanos. Absolutamente indignados com as decapitações do E.I. findamos, de um lado, com uma revolta abstrata contra os jihadistas muçulmanos, e, de outro, com uma alienação concreta em relação à barbárie brasileira que, consequentemente, só favorece os nossos “jihadistas” pátrios.

Então, ao lermos sobre a triste morte de Ayham, a justa medida para a nossa indignação deve estar entre a apatia total -que, infelizmente, é quase generalizada-, e a indignação absoluta –que, não menos felizmente, é como as pessoas que se permitem ser atravessadas pela questão imediatamente se sentem. O que deve ficar claro é que tanto não dar bola para o que aconteceu com Ayham, quanto achar que o triste fim do adolescente é a pior coisa do mundo, outra coisa não é que agir como um bárbaro que deliberadamente deixa de ver a complexidade da realidade. E o que se deixa de ver, seja com a cegueira apática, seja com indignação absoluta, é justamente que a barbárie não é coisa somente de muçulmanos radicais, que cabeças que falam português também são decepadas por motivos radicalmente vis.

Não é só além-mar que estão os bárbaros contra os quais devemos nos indignar. As dezenas de presos decapitados em Pedrinhas pela barbárie maranhense estão aí –na nossa história, no Youtube- para não deixar os brasileiros se esquecerem disso. Mesmo que a barbárie além-mar nos aliene espetacular e absolutamente da barbárie tupiniquim, pelo menos o Maranhão, que, ironicamente, em Tupi, significa “mar grande”, ainda é o oceano-totem bárbaro suficientemente concreto para nos sacar da abstração a que nos submetemos ao nos indignarmos absolutamente com a barbárie jihadista do Estado Islâmico.

Bernie Sanders, o Al Gore da vez?

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Será o discurso ascendente do democrata Bernie Sanders, candidato à candidato às próximas eleições presidenciais americanas, “An inconvenient truth”, isto é, “Uma verdade inconveniente”, nome do documentário sobre alterações climáticas vencedor do Oscar de 2007, estrelado pelo também democrata Al Gore, que, em 2000, foi escolhido pela maioria da população na disputa presidencial, mas que, por conta da obscura estrutura eleitoral daquele país –em bom português: maracutaia- não foi eleito? Sim e não. A plataforma de Sanders, assim como a de Gore, é inconveniente aos interesses imperialistas. Aos anseios populares, entretanto, é absolutamente conveniente.

Entretanto, assim como Gore, cujo ativismo ecológico imporia limites crescentes ao voraz capitalismo americano, mas que, por isso mesmo, foi deposto peremptoriamente de sua vitória, não estará Sanders outrossim condenado à derrota, ainda que angarie a maioria dos votos populares, uma vez que seus ativismo político-econômico de espectro socialista ameaça com análoga intensidade as ambições capitalistas? Não nos esqueçamos de que Sanders, em 1981 quando eleito prefeito de Burlington, cidade do pequeno Estado de Vermont, foi chamado pelos jornais de “O primeiro prefeito socialista da América”.

Seja em 1981, seja em 2016, Sanders não faz questão alguma de se descolar desse rótulo socialista, muito embora sua plataforma seja tipicamente social-democrata. Além do mais, atualmente dividindo palanques com figuras como Donald Trump e Hillary Clinton, Sanders surfa na sua fama socialista a ponto de fazer as vezes de o Robin Hood norte-americano. No entanto, essa poderosa e revolucionária característica pode ser o seu maior calcanhar de Aquiles. Afinal, em se tratando da presidência da maior potência econômica do planeta, nada que seja verdadeiramente inconveniente aos ditames do capital, como por exemplo a frase de Sanders na sua vitória na primária de New Hampshire, qual seja, “o governo pertence ao povo, não a um punhado de bilionários”, é conveniente, a não ser em forma de utopia.

Porém, como os votos dos americanos a Gore em 2000 e as intenções de voto à Sanders em 2016 deixam bem claro, utopias são fundamentais! Embora o significado comezinho de utopia aponte para fantasia, devaneio, ilusão -o que não lhe atribui potencial revolucionário algum-, desde o século XVI, quando Thomas Moore juntou os termos gregos “Ou” (não) e “Topos” (lugar), utopia passou a dizer “em lugar nenhum”. Por isso, o que é utópico não é necessariamente inexistente, fantasioso, ilusório, mas pode ser também algo real, factível, que, entretanto, só não encontrou ainda lugar para ser. A utopia ecológica de Gore, infelizmente, não deixou de ser uma ilusão até hoje, como a marcha da destruição da natureza deixa bem claro. Já a utopia socialista de Sanders ainda é fiel à definição de Moore, e, quem sabe, pode encontrar lugar no mundo. Aliás, já não está encontrando?

Ora, se o real da política norte-americana –mas não só o dela- é o lugar de doações empresariais milionárias às campanhas políticas, a recusa à essa vil fonte atuada por Sanders, que só aceita doações de cidadãos, e no valor máximo de US$ 3, outra coisa não é que uma utopia que encontrou lugar para existir. Outras propostas de Sanders, que a princípio soam utópicas, mas que, oxalá, podem encontrar lugar na realidade, são: resgatar a democracia das mãos dos milionárias e lobistas; aumentar impostos para os mais ricos; fazer Wall Street bancar o ensino gratuito nas universidades públicas; quebrar os grandes bancos em instituições menores; criar imposto à especulação financeira; instituir um sistema público universal e gratuito de saúde; legalizar imigrantes; combater o preconceito e a discriminação às mulheres, aos negros e às pessoas LGBT; só para citar algumas ideias que, para o $istema, é melhor que sejam utopias no sentido corriqueiro do termo.

Entretanto, ainda que a utopia de Sanders pareça um devaneio, é exatamente ela que a população americana mais está querendo que encontre lugar de existência. Nessa onda utópica, Sanders catalisa como nenhum outro candidato a insatisfação popular, dando novo fôlego à velha luta pelos direitos civis que brilhou nos anos 1960, mas que hoje está tão ofuscada, obesa e sedentária quanto o capitalismo precisa que ela esteja. Para animar essa apatia cética, Sanders tenta fazer um novo movimento de massa com o povo americano para produzir uma revolução política que dê cabo da $órdida $ituação que $itua centralmente os interesses capitalistas e que $itia perifericamente os interesses populares.

Agora, não deverá nos surpreender se Sanders tiver a maioria dos votos populares e ainda assim não assumir a presidência dos EUA, uma vez que, como Gore exemplifica melhor que ninguém, a escolha do presidente dos Estados Unidos, na verdade, se dá nas secretas reuniões dos colegiados eleitorais americanos, que outra coisa não devem ser que “lounges” absolutamente gentrificados nos quais petrolíferas e bancos privados decidem verticalmente o que e quem é mais conveniente para eles. Assim como ativismo ecológico de Gore não era conveniente para os peixe$ grande$ de 2000, o ativismo social de Sanders não deve ser menos inconveniente para os lobo$ voraze$ de 2016. Há 16 anos, a virtude ecológica de Gore “foi deposta” pelo vício bélico-imperialista de Bush filho, o idiota. E hoje, a virtude socialista de Sanders sucumbirá diante do vício xenófobo-liberal de Trump, o palhaço?

Foi porque Al Gore tinha em mãos a mais pura verdade –a necessidade da preservação da natureza a despeito dos interesses econômicos- que ele foi considerado absolutamente inconveniente pelo $istema de há década e meia. O fato de não ter sido empossado apesar da maioria de votos populares é a prova cabal e antiecológica disso. Sanders, por sua vez, e a sua popularíssima verdade social-democrata, são outrossim inconvenientes ao $istema, cuja sordidez nos leva a crer inclusive que se o atual Robin Hood americano findar realmente com a faixa presidencial no peito, é porque ele não é tão verdadeiro nem tão Robin Hood assim. Se Bernie Sanders, em troca, findar como Gore, isto é, nas próprias palavras de Gore, como o “ex-futuro presidente dos Estados Unidos da América”, então teremos certeza de que ele “era” absolutamente verdadeiro e conveniente.

 

Pensando fracamente a transexualidade infantil

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Em 28 de janeiro de 2016, a justiça brasileira, pela primeira vez, determinou a mudança de nome e de gênero de Luiza, de 9 anos, antes chamada de Leandro. A menina Luiza se sentia “aprisionada” no corpo do menino Leandro e, com a compreensão de seus pais e a autorização da justiça, pôde se libertar. A metáfora da prisão é bastante usada por transexuais para expressarem o que sentem a respeito de seus corpos biológicos. Como, entretanto, pensar a questão da transexualidade, ainda mais a infantil, sem ficar circunscrito no insistente fundamento que diz que o sexo biológico de uma pessoa é e deve ser mais determinante do que o sexo psicológico? E uma vez em ruínas tal fundamento, como e o que pensar sobre a transexualidade?

Questão delicada, a transexualidade, por um lado, é oprimida pelos fundamentalismos biológico, social e religioso de uns, e, por outro, sequer pensada pelo medo de errar ou pelo ceticismo de outros. Um caminho intermediário para pensarmos a transexualidade entre o radicalismo e a apatia é o “pensamento fraco” desenvolvido pelo filósofo italiano Gianni Vattimo: uma atitude contemporânea que aceita o “erro” do pensamento, senão porque, para o filósofo, é a noção de verdade que se deve adequar à dimensão humana, e não o contrário. De característica libertadora, o pensamento fraco se sustenta na ideia de que pensar é estar ciente de que nossos pensamentos são apenas meios, sujeitos ao erro, e não fins certos e absolutos. Ou seja, para Vattimo, o pensar não deve almejar findar como novos fundamentos, mas ser mobilidade cognitiva ativa a nos afastar constantemente do fundamentalismo.

Pensando fracamente acerca da transexualidade, portanto, não corremos o risco de “aprisionar” os transexuais com os nossos pensados, pois a ideia é que o pensamento, e a própria filosofia, o seu meio excelente, tragam ideias novas que nos libertem. E no caso da transexualidade, a nós e aos transexuais dos resistentes preconceitos. Partamos então, fraca e cuidadosamente, senão para o transcendermos, do fundamento que diz que transexual é todo indivíduo cuja identidade de gênero difere da designada no seu nascimento pelo seu sexo biológico.

No caso de Luiza, seus pais, inicialmente, não sabiam o que pensar sobre a transexualidade de Leandro. Então, procuraram ajuda com um pastor evangélico, cuja prescrição, não é de surpreender, foi a de reprimir ao máximo a conduta da criança enquanto ela estivesse acordada, e, enquanto dormisse, proferir orações ao pé do ouvido dela, pois assim “expulsariam o demônio de seu corpo”. Fundamentalismo radicalíssimo! Porém, depois de alguns meses de “tratamento religioso”, a feminilidade do garoto só fazia acentuar, e, colateralmente, nas palavras do pai do até então Leandro, “de repente, tínhamos ali um filho em depressão, agressivo, piorando na escola”.

Diante da ineficácia dos verticais fundamentos religiosos, os pais de Luiza encontraram no documentário americano Meu Eu Secreto uma explicação mais horizontal sobre a questão da transexualidade infantil. Doravante, dentro de casa, Leandro podia ser Luiza, andar de calcinha e vestido, brincar de boneca, etc. Entretanto, na rua e na escola, Luiza deveria ser Leandro. A problemática e esquizofrênica dupla personalidade a que os pais sujeitavam o filho-filha, todavia na tentativa de encontrar uma solução para o problema, chegou no limite quando, no dia em que um amigo da família visitou-os sem avisar, viram Luiza se esconder amedrontada atrás de uma churrasqueira até que o amigo fosse embora. Deram-se conta de que estavam criando um problema a mais para o filho, e não ajudando-o a libertar-se do que já tinha.

Então, os pais de Leandro procuraram o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, cujo diagnóstico apontou que “a personalidade da criança, seu comportamento e aparência remetem, imprescindivelmente, ao gênero oposto de que biologicamente possui, conforme se pode observar em todas as avaliações psicológicas”, e que, portanto, para a saúde do garoto, era recomendado que Leandro fosse Luiza dali para frente. O pai de Luiza, sargento aposentado do Exército, vibrou de emoção. A mãe declarou: “a felicidade é muito grande, já imagino quando ela for arrumar emprego ou casar vai ser tudo mais fácil”.

A transexualidade, quando experienciada por uma criança, exige mais do nosso pensar, uma vez que a certeza de um adulto sobre a inadequação de seu corpo biológico em respeito à sua realidade psicológica é bem mais compreensível. Isso fica claro no filme A Garota Dinamarquesa, que conta a história do primeiro transexual da história, Lili Elbe, antes Einar Wegener, um homem casado e tranquilo com sua identidade de gênero masculina que, aos poucos e diante da audiência, explica sensivelmente a sua transição transexual. Já a transexualidade infantil é mais difícil de ser compreendida, uma vez que a incipiente sexualidade das crianças nos deixa como que sem a metade da história.

Porém, em relação à transexualidade, seja em adultos, seja em crianças, pensemos, como Vattimo, isto é, fracamente, pois enquanto pensarmos fortemente, como materialistas ou religiosos ferrenhos, se os transexuais apenas submetem ou não o real às suas idealidades, ou ainda se afirmam ou não que a natureza ou Deus “erraram” com eles, apenas deixamos de entender a profundidade da questão transexual que os atravessa. A complexidade da questão fica mais clara quando Einar, de A Garota Dinamarquesa, perguntado por um amigo se, ao se submeter à até então inédita cirurgia de mudança de sexo para se tornar Lili, estaria corrigindo um erro da natureza. Então, Einar responde: “a natureza já acertou comigo, fez-me mulher por dentro. Agora é só tirar o disfarce masculino que esconde Lili”.

Aqui, contudo, o nosso pensamento fraco precisa perguntar se o fato de a primeira transexual da história não ver erro algum no fato de ela, mulher, ter nascido no corpo de um homem, mais ainda, dizer que a natureza acertou em tê-la feito mulher com um corpo-disfarce masculino, não é apenas um malabarismo de ideias no sentido de se alienar da complexidade da questão. Outrossim fracamente, o nosso pensamento deve considerar que Einar-Lili, com seu modo peculiar de encarar a própria condição, faleceu um dia depois de realizada a sua cirurgia transex. Dividida em duas complexas etapas, a mudança de sexo aventurada na Dresden da década de 1920 exigia alguns meses de recuperação entre a remoção do órgão masculino e a construção do órgão feminino. Einar, já sem pênis, e apressado para ter uma vagina e ser definitivamente Lili, porém, fez malabarismo com as prescrições médicas, encurtando o prazo estabelecido, o que acabou lhe custando a vida. Lili, apressada, infelizmente, existiu por um único dia. O filme, entrementes, faz-nos achar que esse único dia valeu a pena.

Malabarismo ideal ou não, o nosso pensamento fraco sobre a transexualidade de Luiza deve se curvar compreensivamente diante da força do pensamento dela, qual seja: “agora, não vou ter mais problemas nas chamadas na escola. Às vezes me chamavam pelo nome masculino, no postinho de saúde e nas viagens, e era sempre era aquele zum zum zum quando olhavam para mim e para o meu documento. Eu me sentia muito mal, mas agora isso vai mudar.” Todavia, pensar fracamente sobre a transexualidade de Luiza não é calar diante da realidade que doravante se imporá; não é deixar de pensar no que o ato de mudar de nome e de gênero traz à vida da própria Luiza. O pensamento fraco, antes, deve pensar no sentido de compreender como se dará a realidade da nova menina a longo de sua vida, afinal, a questão principal não terminou na decisão judicial que fez de Leandro Luiza.

Para a menina que agora ela é ser uma mulher, terá de se submeter sistematicamente à medicamentos e hormônios que, de um lado, impeçam que na puberdade a sua natureza masculina aflore, e, de outro, no restante da vida, incentivem a natureza feminina que seu corpo biológico sozinho não expressará. Sem esquecer ainda a cirurgia de mudança de sexo na qual o caminho que ela a partir de hoje trilha provavelmente desembocará. Outra coisa importante, o seu atual desejo de, no futuro, ter filhos, não se dará conforme quem nasce com corpo de mulher, mas terá, necessariamente, de se deparar com a questão da adoção. Em suma, o atual pensamento de Luiza, diante do qual nenhum pensamento deve ter mais força, qual seja: “agora me sinto uma menina inteira”, terá de, no entanto, mais hora menos hora, encarar o forte desafio de ser “uma mulher inteira”, tarefa bem mais árdua, pois, para além do bem e do mal, Luiza outra coisa não desafiará senão a sua natureza biológica.

São justamente questões como estas que o pensamento fraco deve trazer à tona e manter na arena de pensamento, tanto na da menina, quanto na dos pais dela, quanto ainda na da sociedade como um todo. Longe de querer destruir niilisticamente a presente vitória transexual de Luiza, pensar fracamente outra coisa não é que, através do pensamento, dar completude a essa vitória, não deixando nada de fora, compreendendo não só a delícia, mas também a dor que qualquer ato comporta. Do contrário, se à Luiza for colocado que a partir de agora todos os problemas referentes à sua sexualidade e à sua escolha de gênero estão resolvidos, esse pensamento outra coisa não é que uma mentira de forte pretensão fundamentalista.

Valendo-me do erro que o pensamento fraco vattimiano comporta no sentido de que as verdades se adequem à dimensão humana, arrisco-me a pensar a atitude dos pais de Luiza a partir da minha experiência pessoal. Pois bem, eu sou um homem adulto e homossexual. Na minha infância, porém, só vivia a minha homossexualidade imaginando-me menina, afinal, só assim estaria conforme os desígnios de Deus e da minha família. Assim eu pensava, obviamente, por conta dos tacanhos referenciais que meus pais haviam me fornecido. Não obstante, adolescendo, e, mais ainda, tornando-me adulto, isto é, conhecendo o mundo para além dos estreitos limites que até então me continham, percebi que eu não precisava ser mulher para me realizar sexualmente. No meu caso, sem libertar-me da minha masculinidade, libertei-me do que tolhia a minha homossexualidade e da ideia de que só sendo uma menina eu poderia realizá-la.

Sem querer impor meus fundamentos à questão transexual de Luiza, meu pensamento fraco precisa perguntar -todavia aceitando a crítica de ser forte demais, fundamentalista até- se o fato de os pais de Leandro terem solicitamente viabilizado a vinda de Luiza ao mundo não foi o modo de eles deixarem de lidar com a homossexualidade do filho. Assim como, vulgar e preconceituosamente, tem-se que a bissexualidade é “menos grave” que a homossexualidade, é preciso perguntar fracamente se a transexualidade latente de Luiza não foi a solução para a incapacidade dos pais de lidarem com a homossexualidade manifesta de Leandro. Seja no caso de Luiza, seja no caso de qualquer outra criança que a princípio esteja expressando um gênero que não o seu biológico, é preciso investigar se a transexualidade é uma realidade legítima e imperiosa ou se, antes, é apenas um modo transitório-acessório de se viver uma homossexualidade que ainda não encontra via de expressão.

Não podemos deixar de trazer Freud à discussão. Para o pai da psicanálise, o que toda criança deseja, mais que tudo precisa, é de limites, pois é muito angustiante para elas não saberem o que não podem fazer. Então, tentando tudo o que podem, conhecem, através da reprovação ou aprovação de seus pais, o que realmente podem e não podem no mundo. Esse conhecimento funciona como uma espécie de alívio: regras! Caso não as conheça na infância, o adulto as buscará, não mais nos seus pais, mas no mundo, até que alguém lhe diga o que ele pode e o que não pode. Sendo assim, no caso de a transexualidade de Luiza se enquadrar nessa “testagem” que, para Freud, é intrínseca à infância, seus pais não atenderam o desejo de Leandro de conhecer certos limites. Claro, o nosso pensamento fraco deve tratar com igualdade dialética a possibilidade de a transexualidade de Luiza nada ter a ver com busca por limites, mas ao contrário, por liberdade. Nesse caso, seus pais lhe deram o que ela mais precisava.

Mais uma coisa a respeito da qual o nosso pensamento fraco não deve se calar: a concessão, às crianças, dessa dimensão assaz moderna chamada Sujeito: um universo pessoal em cujo centro, feito um Sol-Deus-todo-poderoso, jaz o Eu e a sua miríade de desejos. Como vários historiadores apontam, no passado, as crianças não eram consideradas Sujeitos. Antes, deveriam viver à sombra dos exemplos dos Sujeitos-pais, até que um dia, já adultos e Sujeitos, pudessem decidir os rumos de suas vidas. Hoje em dia, porém, parece que as crianças são mais Sujeitos que os adultos. Para muitos pais, é como se um universo inteiro fosse solapar sempre que seus filhos são contrariados ou se deparam com alguma limitação ou frustração. Os pais contemporâneos, contudo, se esquecem de que, para seus filhos, e até para eles mesmos, enfrentar circunstâncias adversas sempre foi mais um virtuoso aprendizado do que o fim do mundo.

Então, a última pergunta que meu pensamento fraco lança aos pais de Luiza é a seguinte: qual seria o problema de terem deixado Leandro conviver mais demoradamente com suas inquietantes questões particulares, todavia amando-o e ouvindo-o, em vez de, ainda na infância, época em que, como disse Freud, mais se quer conhecer limites do que transgredi-los, terem resolvido a questão excluindo o problemático Leandro da jogada? Porventura arruinariam a vida do filho caso tivessem explicado que ele-ela era menino E menina ao mesmo tempo; que nenhuma das duas condições estava errada ou precisava ser corrigida com pressa, já na infância? Uma vez Luiza, não está Leandro praticamente alienado de vivenciar a questão crucial que é só sua, que nem seus pais nem a sociedade na qual Luiza pensará por ela? Se estas minhas perguntas parecem descabidas, fortes demais para o pensamento fraco a que me propus, é por que parto da minha homossexualidade, que, na infância, levou-me a desejar ser menina, ideia que, entretanto, com o tempo mostrou-se mais uma fuga do problema do que seu atravessamento. Aqui, no entanto, meu pensamento fraco se autocritica: a diferença entre Luiza e eu é que ela é transexual, eu, homossexual.

Não há dúvida de que pais e sociedade aceitarem e se curvarem diante do fato de a sexualidade psicológica de um indivíduo, até mesmo a de uma criança, não ser conforme a sua sexualidade biológica é uma evolução imensa. Que a biologia deva imperar é apenas um problemático e insustentável fundamento. Agora, que a dimensão psicológica não deva ser questionada, mantida na arena de pensamento, são outros quinhentos. E para dialogar com ela, sem tolhimento nem desrespeito, o pensamento fraco de Gianni Vattimo é o melhor método, uma vez que aceita estar errado, e, ademais, não visa destruir nem substituir as coisas acerca das quais pensa, mas, ao contrário, busca compreendê-las. Só assim o pensamento pode fazer com que seus objetos sejam tudo o que são. Sobre a transexualidade em geral, e especialmente sobre a infantil, mais virtuoso que, de um lado, o fundamentalismo radical, e, de outro, o ceticismo apático, o pensamento fraco!

O tal do próximo e o nosso egoísmo

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“Ame o teu próximo como a ti mesmo”, disse Mateus. Todavia, quem é esse próximo? Apesar da abstração com qual os objetos da Bíblia estão envolvidos, o “amor” e o “próximo” de que fala a Escritura são coisas bem concretas. Do “amor” não temos dúvida, uma vez que amamos inclusive coisas odiáveis, como o dinheiro, por exemplo. Já a respeito do tal “próximo” não temos tanta certeza de quem ele é. Ao lermos a passagem bíblica resta a ideia de que esse próximo é um ser tão transcendente quanto Deus, afastado de nós por um universo inteiro. Porém, imanentemente, devemos entender que esse próximo é, como o significado da palavra diz, quem está próximo de nós.

Porém, de que forma amar o próximo como a si mesmo em um mundo no qual estamos, sete bilhões de pessoas, demasiadamente próximos uns dos outros? Antes, temos capacidade para amar, ou somente para desejar coisas para nós mesmos, como o dinheiro, todavia chamando indevidamente o nosso egoísmo hedonista de amor? Ou, ainda que tenhamos uma ideia adequada de amor, não conseguimos amar o próximo como a nós mesmos simplesmente porque não amamos a nós mesmos? Seria a nossa indiferença em relação ao próximo o cumprimento estrito do preceito de Mateus?

Pois bem, como, acima, a abstração bíblica foi criticada, eis um exemplo concreto. Eu estava caminhando pela movimentada Av. N. Sra. De Copacabana quando vi um homem muito velho, negro, imundo, com um pé bastante machucado, sentado no chão molhado da chuva e esticando a mão às pessoas que passavam, pedindo alguma coisa, a qual, nem as pessoas nem eu queríamos saber o que era. Três quarteirões depois, porém, eu não conseguia deixar de pensar naquele pobre senhor. Havia em mim vontade de ajudá-lo. Todavia, pensei eu, o que eu poderia fazer?

Na minha cabeça, ele precisava de, no mínimo, um prato de comida, um copo de café, um banho, roupas limpas, remédio para o seu pé machucado, uma casa até. Agora, como eu, sozinho, poderia resolver todos os problemas dele? Todavia, a ideia de que a felicidade toda dele dependia da minha ajuda só fez com que eu me alienasse da possibilidade de tentar ajudá-lo. Por isso eu, a exemplo das demais pessoas, fiz de conta que ele não estava ali. Mesmo assim, algo em mim que eu ainda não quero nomear fez-me dar meia volta e ir até ele para perguntar o que ele estava precisando.

Qual não foi a minha surpresa ao ouvi-lo dizer que queria apenas ajuda para levantar. Simples assim! Então, sem pestanejar, desvencilhei-me do imediato nojo que socialmente fui ensinados a ter de quem não toma banho e mora na rua e passei meus braços sob os dele para colocá-lo em pé. Ele sorriu, agradeceu e, apoiando-se num cabo de vassoura que fazias as vezes de bengala, seguiu seu rumo. Do mundo de necessidades que eu a priori achei que aquele senhor tinha, ideia todavia errada que só fez com que eu o ignorasse da primeira, aquele meu próximo estava apenas precisando levantar.

O “próximo”, que na Bíblia sempre me pareceu tão abstrato, mostrou-se absolutamente concreto e cognoscível. Além de estar fisicamente próximo –estar diante de mim e viver no mesmo bairro que eu-, o que já deveria ser suficiente para eu me importar com ele, quiçá amá-lo, o fato de eu não conseguir tirá-lo da cabeça alguns quarteirões depois deixou claro também quão metafisicamente próximo aquele próximo estava de mim. Então, dando-me conta dessa dupla proximidade, não foi nada difícil amá-lo como a mim mesmo, pois, caso eu quisesse apenas levantar e não pudesse, o amor de alguém por mim seria nada outro que uma ajuda para levantar-me.

Assim como aconteceu comigo, será que “amar o próximo como a si mesmo” só se concretiza mediante uma espécie de egoísmo? É para sermos amados pelos outros como eles amam a si mesmos que devemos amá-los como a nós mesmos? O nosso próximo só será amável na medida em que, do nosso lado, formos amados por ele enquanto o próximo dele? Agora, se não fôssemos intrinsecamente egoístas, se amássemos uns aos outros espontânea e naturalmente, Mateus precisaria ter cunhado o seu preceito?

Ora, se a natureza dotou-nos de amor próprio, e também do seu exagero, qual seja, o egoísmo, não é porque ela errou, mas porque não existiríamos sem esses afetos. Porém, se fôssemos absolutamente egoístas, desejando a ruína dos outros para que toda a natureza fosse só nossa, valeria a pena existir nessa satisfeita e abastada solidão? Obviamente não, pois a felicidade dos outros também constitui a nossa, assim como a nossa, a dos outros. Então, sem deixar de sermos egoístas, o que, creio eu, é impossível fora da ficção bíblica, esse afeto demasiado humano claramente reconhecido como amor próprio tem escondido em si a receita do amor ao próximo.

Aqui reencontramos o “pharmakon” grego, conceito que diz que a diferença entre veneno e remédio está na dose. Se o egoísmo nos aliena de amar o próximo, é porque sua dose está errada, e então é venenoso. Se, em troca, é capaz de levar-nos a tal amor, sua dose está certa, e aí nosso egoísmo é remédio. Como disse o filósofo Spinoza, nada há na natureza que, em si, seja bom ou mau. Somos nós que fazemos com que as coisas e os afetos recebam esses predicados. A prova está em que as mesmas coisas são boas para uns e más para outros. Sendo assim, tampouco do egoísmo e do amor pode ser dito que são bons ou maus em si mesmos. Antes, suas bondades ou maldades são aquilo que fazemos deles.

Desse modo, se o bem e o mal são produções exclusivas humanas, todavia a partir de coisas e afetos que existem natureza, mas que, nela, não são nem boas nem más, cabe a nós sermos demiurgos virtuosos e fazermos com que as nossas coisas e os nossos afetos, como, por exemplo, o egoísmo e a sua cria mais famosa, qual seja, a alienação acerca das carências dos nossos próximos, possam ser bons para nós, e não apenas maus.

Sumamente, não precisamos de um Deus para dar o que nos falta, como se o bem e a virtude jazessem nalgum céu árduo de alcançar. Basta um de nós, todavia apelidado de apóstolo, para lembrar-nos de que o amor próprio pode e deve ser convertido em amor ao próximo. Isso porque temos em nós todo o amor de que nós e os outros precisamos. Da mesma forma -e isso é mais difícil de entender- temos todos o egoísmo de que também precisamos, seja para seguirmos existindo diante do egoísmo dos outros, seja para sermos amados egoisticamente pelo amor próprio dos outros, uma vez que, como disse o Poeta, “é impossível ser feliz sozinho”. Ou seja, a nossa felicidade precisa da felicidade do nosso próximo.

Deuses foliões antiecológicos

Deuses foliões antiecológicos 2Ó natureza, abre alas que eu quero passar! Esse samba maldito é insustentavelmente audível quando vemos que no Rio de Janeiro, durante os dias de carnaval, os foliões jogaram 800 toneladas de lixo no chão. Só em Copacabana, cuja fantasia de carnaval deixa de ser a de Princesinha para ser a de Lixeirinha do Mar, foram 33t. Na marquês de Sapucaí, palco do maior e mais belo espetáculo carnavalesco do planeta, 136t. E para não dizer que só o carnaval do Rio é vilão ambiental, Salvador jogou chão 1000t! Isso, claro, sem computar as muitas mais toneladas de lixo produzidas e descartadas corretamente, mas que, somadas ao descarte incorreto, são jogadas “in natura”, isto é, no “chão da natureza, visto que no Rio mais de 99% do lixo tem esse vil destino.

Infelizmente, a alegria dos foliões, mas a de todos nós também, não há dúvida, é muito mais importante que a da natureza! Não é de espantar, afinal, qual alegria do sujeito contemporâneo que não cobra preços altíssimos do meio-ambiente? Porém, algumas dúzia de latinhas de cerveja (jogadas no chão depois do último gole) e de beijos na boca (deixados para trás depois de beijados) são suficientes para alienar os foliões da insustentabilidade de suas próprias folias. Ainda mais com a questionável eficiência da Companhia de lixo urbano carioca, a CONLURB, que diariamente entrega a cidade limpinha novamente, ao preço, todavia, de jogar ineficientemente tudo o que limpa eficientemente em aterros sanitários à céu aberto. Com tal estrutura, por que os foliões haveriam de se deparar com suas próprias insustentabilidades?

Agora, diante do Antropoceno, ou seja, a alteração -e por que não dizer destruição- da natureza pelo homem,  até quando poderemos seguir alegres e foliões, seja nos cada vez mais porcos blocos de carnaval, seja nos monstros-blocos urbanos nos quais vivemos, seja ainda no maravilhoso “bloco de vida” que é a natureza? As previsões são as piores possíveis, e isso, paradoxalmente, é bem conhecido por todos, tanto pelos que se preocupam com insustentabilidade dos hábitos humanos, quanto pelos que se alienam “foliescamente” desse problema que, no entanto, é uma tristeza para todos. Que alegria justifica o risco de tamanha tristeza?

Para não ficarmos mudos diante dessa pergunta, e não voltarmos às cervejas e aos beijos na boca que facilmente nos alienam da difícil questão, à pergunta: que alegria eventual e insustentável nossa justifica a tristeza maior, isto é, a destruição da natureza, que pode ser permanente?, é preciso contrapor outra, qual seja: que tristeza permanente em nós, humanos, justifica uma alegria eventual e insustentável do ponto de vista da natureza, o ser sem o qual nós não somos? Em outras palavras, que insatisfação humana é essa que só consegue satisfazer-se entristecendo, melhor dizendo, destruindo a natureza?

Em outro lugar (laboratoriofilosofico.wordpress.com/2016/01/31/deus-a-ideia-ecologica), tratei da sustentabilidade a que os rígidos preceitos de Deus submetiam os homens na época em que, de acordo com Nietzsche, Ele ainda estava vivo. Porém, desde a modernidade, ou seja, depois que Deus morreu, a preocupação com a natureza também foi para o cemitério. Hoje em dia, mais do que nunca, Deus somos todos e cada um de nós, com nossos desejos insustentáveis, porém imperiosos, que sem cerimônia alguma fazem da natureza o cada vez menos verde tapete de acesso às nossas satisfações pretensamente divinais.

Todos os foliões que, vestindo as mais variadas fantasias, jogaram seus lixos no chão, de outra coisa não estavam fantasiados que de Deus, cada um deles, fazendo da natureza a sua avenida carnavalesca. Via de diversão imunda essa a dos alegres deuses humanos, não? Não obstante, os alegres humanos fantasiados de Deus-todo-poderoso-senhor-da-natureza deveriam conhecer a verdadeira “fantasia” de Deus, que, segundo o filósofo Baruch Spinoza, é “Deus sive natura”, isto é, Deus, ou seja, a natureza.

Se nós, humanos, agimos e queremos agir como se fôssemos Deus em pessoa, cujos desejos devem ser todos atendidos, deveríamos saber, antes de tudo, que a verdadeira “fantasia” dEle, a mais espetacular e maravilhosa de todas aliás, é aquela que engrandece, e não a que destrói a natureza. Conseguiremos acertar o figurino de Senhores do universo antes do baile de carnaval derradeiro, que, de acordo com as previsões, está agendado para não muito longe? Ou, antes, a única fantasia de Deus que sabemos vestir é a que traz estampada um descarado e (de)cadente verso, todavia parafraseado de Nelson cavaquinho: tire a natureza do caminho, que eu quero passar com a minha dor?

Machismo folião

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Carnaval é só alegria! Isso, porém, é verdadeiro apenas abstratamente, pois concretamente, como o carnaval de rua carioca -mas não só este- tem deixado bem claro é também lugar de desrespeito, assédio sexual e machismo. Impressiona, em pleno 2106, o número de mulheres que são sitiadas pelo “desejo folião” de alguns homens. Algumas delas, por recusarem um simples beijo, são achincalhadas; outras, pior ainda, agredidas fisicamente, deixando a folia com um olho roxo, como várias fotos-redes-sociais têm mostrado –e, concretamente, uma amiga pessoal. Em relação a isso, duas perguntas não podem deixar de serem feitas. Que querem estes homens regredindo os pouquíssimos passos que os homens em geral deram no sentido da igualdade, liberdade e dignidade das mulheres? E também, que querem as mulheres prestigiando uma festividade que não lhes garante o devido prestígio?

A lamentável impostura dos machistas-de-bloco-de-carnaval não deveria impressionar quando vemos que, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto Data Popular em janeiro de 2016, 61% dos homens afirmam que uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada e, mais grave ainda, 49% disseram que bloco de Carnaval não é lugar para “mulher direita”. Pelo jeito, também não é lugar para “homem direito”, pois, por mais desnecessário e patético que seja definir “direito”, seja para homem, seja para mulher, assédio e agressão física não deveriam estar na definição de nenhum dos dois. A fálica insistência masculina na expressão-cabresto “mulher direita”, entretanto, parece apenas querer dispensar os próprios homens que a usam de, eles sim, agirem “direito”.

Embora o machismo não se restrinja apenas ao carnaval, na folia carnavalesca ele é escancarado. Por quê?

Segundo historiadores, o carnaval como o conhecemos surgiu no século XI com a invenção da Semana Santa pela Igreja Católica. Como a Igreja ditava padrões éticos e morais muito rígidos, as bacanais e saturnálias eram proibidas, principalmente durante os quarenta dias que antecediam a morte e a ressurreição de Cristo. Então, nos últimos dias antes da abstinente Quaresma, as pessoas aproveitavam para fazerem tudo a que “tinham direito”. O Carnaval, portanto, desde seu início comportou a tensão entre os prazeres da carne e a salvação da alma. Evento paradoxal, o carnaval é marcado, por um lado, pelo “adeus à carne” que o próprio nome em latim “carnis levale” denota, uma vez que “levale” significa privação, e, por outro, pelos prazeres da carne, atinentes a outra expressão latina que também compete no termo “carnaval”, qual seja, “carnis valles”, com “valles” significando prazeres.

Diante dos rígidos ditames do Deus Cristão, o carnaval era a oportunidade de as pessoas agirem livremente, como se ainda fossem pagãs, cultuando, ainda que por poucos dias, os seus demônios particulares. Não é à toa que Momo, o rei da festa, entregava a chave da cidade à Satanás, senão para que este reinasse, por parcos dias, sobre as pessoas –hoje em dia, ironicamente, Momo a entrega ao prefeito da cidade! Nas palavras de Mateus, “Satanás é tão astuto que traz para todas as culturas e povos um modo de ser adorado”. E o maior evento desse seu “modo” é o Carnaval! Porém, para não permitir que o mundo se tornasse um inferno sempiterno, no último dia antes da Quaresma, diz-nos o santo, Jesus ordenou: “Retira-te, Satanás”. A astúcia da Igreja esteve em, uma vez Deus não ter poder para aniquilar o demônio, ter “agendando”, anualmente, um curto reinado-recreio a Satanás, senão para que nessa estreita agenda o mal, regozijando-se, gastasse sua energia, de modo que, no restante do ano, Satanás vivesse uma ininterrupta quarta-feira de cinzas ressacosa.

Separados mil anos da Cristã origem carnavalesca, ademais por uma Modernidade na qual, avisou-nos Nietzsche, Deus morreu, deuses e demônios, melhor dizendo, a tensão entre bem e mal, não obstante, segue vivíssima dentro de nós. Quem, atualmente, em sua sã consciência, não concorda que o machismo é um mal, e sua superação, um bem absolutamente elevado? Todavia, os nossos machistas-de-bloco-de-carnaval, que ao longo do ano agem -ou no mínimo se sentem obrigados a agir– como se as mulheres não devessem ser sujeitadas a eles, mas que “no bloco” fazem justamente o contrário, estes fazem como os antigos cristãos que, inescapavelmente sujeitados ao bem divino, aproveitavam o átimo pagão anual para cultuar o mal que resistentemente jazia neles.

Entretanto, para não se deparar com o seu próprio mal, no nosso caso, o seu machismo assedioso, o machista-de-bloco sustenta, de um lado, a existência de uma coisa chamada “mulher direita”, e, de outro, que “bloco de carnaval não é lugar de mulher direita”, para, por fim, concluir, num silogismo absurdo, que aquelas mulheres que ele encontra nos blocos não são “direitas”, e que, portanto, não precisa respeitá-las. Essa estratégica ilogicidade visa justamente abrir, ainda que efemeramente, ao modo da festa pagã Cristã, um espaço onde o machão não precise deixar de ser machista, onde a voz de sua carne possa e deva falar mais alto que a da razão e a das mulheres, uma vez que no restante do ano ele certamente não gozará de tamanha, todavia indevida liberdade.

Então, às perguntas iniciais, quais sejam: ‘que querem estes homens regredindo nos pouquíssimos passos que os homens em geral deram no sentido da igualdade, liberdade e dignidade das mulheres?’, e, ‘que querem as mulheres prestigiando uma festividade que não lhes garante o devido prestígio?’, as respostas são as seguintes: os machistas-de-bloco-de-carnaval, na verdade, querem dizer que, embora aceitem superficialmente a igualdade entre eles e as mulheres, subterraneamente, seus demônios lhe dizem o contrário. São estranhamente sinceros e corajosos no carnaval, porém, mentirosos e covardes o resto do ano. Já as mulheres que, longe de deverem deixar de “brincar o carnaval” para não serem desrespeitadas, levam suas igualdades e dignidades para a avenida e lá são desrespeitadas, achincalhadas, arroxadas, estas mulheres, lá, outra coisa não devem querer senão o respeito que ainda não têm.

Assim como os homens –e os machistas odeiam enxergar isso-, as mulheres são muito corajosas, e deixam isso bem claro inclusive ao não se privarem do carnaval apesar dos riscos que correm. A coragem carnavalesca delas, entretanto, é absolutamente superior, pois, diante da coragem maléfica dos machistas-de-bloco, a coragem delas outra coisa não sustenta que o bem, que, para nós, é a liberdade de ir e vir, de beijar ou não beijar e, sobretudo, a dignidade de uma natureza não violenta que não soca olho alguém por conta de um beijo negado. Embora o maniqueísmo Cristão entre bem e mal esteja desacreditado, pois desde a modernidade sabemos que bem e mal não existem na natureza senão relativamente, em relação ao machismo o mal ainda não deve deixar de ser identificado, e, em relação a igualdade entre homens e mulheres, o bem ainda é seu melhor predicado.

Um brinde à filosofia de botequim

Filosofia significa, literalmente, amor (philia) à sabedoria (sofia). Ao contrário do que os doutores, pós-doutores e pós-pós-doutores tentam nos convencer, “filósofos nunca foram sábios, são apenas perguntadores, provocadores dispostos à aventura do conhecimento”, relembra-nos a filósofa Marcia Tiburi. Então, por mais que a filosofia, desde a modernidade, seja refém da Academia, esse não é e não deve ser o seu único lugar. Entretanto, quando alguém alheio à Torre de Marfim Acadêmica ama o conhecimento, pergunta-o, provoca-o, ou seja, filosofa, muitos dizem que se trata apenas de vã filosofia, ou o que é mais pejorativo ainda, filosofia de botequim. Por que tamanho preconceito?
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Desqualificar filosofias alternativas, “botequinescas”, é querer fazer desaparecer que “a filosofia era em seu início mais que um desejo de saber: ela existia como circunstância do “estar junto” de homens (pessoas) que compartilhavam o mesmo ideal da contemplação”, diz Tiburi. Ora, Sócrates filosofava ao vivo, junto de outros homens, caminhando, bebendo vinho, olhando a paisagem… Vivendo e filosofando! Afinal, aponta Tiburi, “o mundo e a vida são para nós o que podemos conhecer”. Na verdade, foi com Platão que a filosofia passou a ser uma solitária conversa da alma consigo mesma.
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Sócrates, ao contrário de Platão e de todos os que vieram depois, nunca escreveu uma linha do que filosofou. Era no diálogo com os outros que sua filosofia nascia, não para morrer no esquecimento, obviamente, visto que seu pensamento vive até hoje. Os acadêmicos, todavia, retrucarão seguros de si: se não fosse Platão ter escrito sobre a filosofia socrática não teríamos conhecimento dela! Contra estes, nas palavras de Tiburi, para o próprio Sócrates “a escrita era mera documentação, mera história, não filosofia. A filosofia não era algo que se realizava pelo texto”.
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Com efeito, conta-nos Tiburi, foi o “endeusamento” do livro pela tradição cristã medieval que deixou de herança para a tradição filosófica o texto escrito como lugar da verdade. Entretanto, a crença de que a filosofia devia ser escrita filosófica, além de levar à separação entre filosofia e realidade, separou também a filosofia de si mesma ao separá-la de seu modo primordial. Como se isso não bastasse, a modernidade filosófica, enquanto filosofia estritamente textual, acadêmica, finalizou burguesamente a cisão entre intelectuais e proletários, tão oportuna àqueles e tão desfavorável a estes.
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E não adianta dizer que os intelectuais tem grande conhecimento e que os proletários não, pois, de acordo com Tiburi, “filosofia é a liberdade do pensar; e que pensar começa com o pensar em nada”. Nietzsche mesmo, em pleno século XIX, dizia que filosofia outra coisa não era senão autoconfissão. E todos temos muito a confessar, seja na Academia, seja no botequim! Todavia, a Academia, por meio de sua filosofia exclusivista, quer mesmo esconder que qualquer um pode fazer a pergunta fundamental, qual seja, nas palavras de Tiburi: “a quem sirvo enquanto não acordo para o meu próprio potencial hermenêutico, ou seja, para a minha habilidade em interpretar o que há; em outras palavras, o que posso pensar e dizer sobre algo?”; sobre o mundo?; sobre a vida?
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Porém, onde podem filosofar os proletários, os bêbados, os leigos? Na Academia-bunker da “Intelligentsia”? Nas doze horas dentro da fábrica ou nas poucas horas em que dormem exaustos da fábrica? Obviamente não. A oportunidade de os “comuns” perguntarem-se e provocarem-se uns aos outros em função de um conhecimento que lhes falta, mas ao qual amam, é enquanto caminham juntos da cama ao posto de trabalho, quando fazem suas refeições juntos ou quando bebem em volta de uma mesa de bar nas suas parcas horas livres. É em circunstâncias banais como estas, na verdade, que vive o “o que é?” desacademicizado, que, no entanto, só não é considerado filosofia pela intelectualidade porque esta ainda deseja preservar a sua vã superioridade.
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Academia X fábrica, Academia X botequim, ou seja, Academia X vida enquanto manutenção da desigualdade social. No entanto, também desigualdade da filosofia em relação a ela mesma, pois, desqualificando as “filosofias de botequim”, a intelectualidade apenas nubla a universalidade da própria filosofia. Portanto, à moderna, acadêmica e burguesa filosofia que, com Descartes, nasce do “penso, logo existo” deve ser contraposta a sempiterna, leiga e sem classe filosofia que precisa de um único axioma para filosofar, qual seja, nas palavras de Márcia Tiburi: “Penso, logo penso”. Afinal de contas, diz a filósofa, “a filosofia é algo ‘em comum’ desde os seus primórdios”. Brindemos e filosofemos ao mesmo tempo! E que melhor lugar que o botequim para tal?