Forma e conteúdo

Às vezes nenhum conteúdo do mundo se encaixa nas nossas formas de ser, então nos sentimos vazios. Outras tantas, enquanto conteúdo, não encontramos nenhuma forma capaz de nos receber, e aí a sensação é orfandade. Ambos os casos, por conseguinte, geram tristeza. Todavia, para escapar disso ora violentamos o nosso conteúdo amorfo até que ele se encaixe numa forma qualquer, ora pervertemos a nossa própria forma de ser para acomodar nela conteúdos que, no entanto, a ela não se adaptaram espontaneamente.

Em contrapartida, felicidade significa encontrar ou conteúdos que preencham as nossas formas vazias, ou formas possíveis aos nossos conteúdos individuais. Contudo, não há garantia alguma de que o conteúdo permaneça indefinidamente satisfeito sob determinado formato nem que, com o tempo, tal forma continente careça de mais ou de menos matéria. Por isso a felicidade é um evento que dura enquanto conteúdo e forma se embocam adequada e naturalmente.

O problema é que, por um lado, só vivemos os conteúdos conquanto eles se apresentem formalmente, e, por outro, as formas somente se preenchidas por alguma coisa. Pudéssemos nós viver o amorfo ou o vazio, sem angústia, com efeito seríamos gratuitamente felizes. Porém, sem uma forma específica e um conteúdo dado, e sobretudo sem um conluio entre eles, há somente a sensação de falta, portanto, de infelicidade.

Aquele jogo feito com crianças – e também com macacos -, no qual são encaixados objetos de diversos formatos, como quadrados, círculos, estrelas, etc., nos seus respectivos nichos, e que, em caso de êxito, trazem ao jogador incentivo – no caso dos símios, ração -, tal jogo evidencia a nossa obsessão em casar forma e conteúdo. Inversamente, se brincássemos desde cedo de libertar os conteúdos de suas formas e os formatos daquilo que os preenchem, a nossa felicidade saberia ser informal e sem objeto.

Mais feliz é o artista cujos conteúdos e formas brincam de liberdade vida adentro, pois, de um lado, ele não submete inadvertidamente seus inquietos conteúdos à formas pré-fabricadas, ao contrário, as cria – e belamente. De outro, as formas através das quais o artista é não se realizam mediante conteúdos dados, mas inventados, até que as formas de suas obras não careçam mais de substância alguma, e doravante se deem apenas à apreciação, dele mesmo e das outras pessoas.

Entretanto, embora a habilidade do artista em trabalhar criativamente o amorfo e o oco seja uma vantagem em relação àqueles que não inventam formas nem conteúdos para si, isso não significa garantia de felicidade absoluta. A diferença, todavia, é que aqueles contam passivamente com as formas e os conteúdos do mundo para suprirem a volatilidade de seus próprios conteúdos e vacância de suas formas individuais, enquanto que artisticamente essa busca não se afasta do sujeito dessa carência; e se nada é encontrado ele mesmo as produz.

Aqui, contudo, o artista parece com aquele que, na fuga da tristeza, violenta seu conteúdo em benefício de formas quaisquer ou que perverte uma forma existente até que ela receba seu volúvel conteúdo. Entretanto, a virtude artística é aquela na qual o sujeito encaixa os seus conteúdos órfãos de formas na suas próprias formas carentes de conteúdo, e vice-versa, num solipsismo cujo perdão jaz na não perversão do mundo e no acréscimo de uma solução nova e possível às sempiternas histeria das formas vazias e angústia dos conteúdos amorfos.

Claro, não é o caso de somente o artista ser capaz de criar a feliz harmonia entre conteúdo e forma senão que essa paz está aí não para ser encontrada nalgum canto, mas criada por quem a persegue. Um instante de felicidade, portanto, é quando uma forma vaga e um conteúdo disforme pertencentes a um mesmo sujeito se encaram, superam a unidade perdida e finalmente se completam. Fugir desse processo interno e atalhar por formas e conteúdos quaisquer pode muito bem afastar a tristeza, mas com certeza não leva à felicidade.

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Obra de arte paradoxal

O computador que eu usei por sete anos estragou. Sei que é muito tempo de fidelidade a um aparelho tecnológico em plena era da tecnologia, mas a recíproca era verdadeira. Afinal, sete anos de serventia num mundo de obsolescência programada é de tirar o chapéu! Poucas relações pessoais duram tudo isso nos dias de hoje. Mesmo ouvindo de alguns amigos que eu deveria comprar um novo, o fato do velho Vaio seguir funcionando perfeitamente me dizia o contrário.

Na verdade eu adorava estar tirando leite de pedra daquele amontoado de silício. Ora, não foi para me servir que eu o comprei? Portanto, teria sido um mal investimento tê-lo trocado enquanto ele cumpria com sua tarefa. Claro, durante todos estes anos não foi fácil resistir à tentação de substituí-lo, mas o fato de a velha máquina trabalhar tão bem me alienava dessa necessidade. Não precisar comprar um aparelho novo reforçava, por sua vez, o acerto da compra do velho.

Porém, chegou o derradeiro. E como hoje em dia mais vale comprar novo que mandar consertar, substituí a máquina companheira. Antes disso, numa cerimônia de despedida privada, comecei a desmontar o velho Vaio, mas não para repará-lo, afinal, eu só entendo de computador quando ele está funcionando perfeitamente. Na verdade o desmonte foi uma homenagem em forma de autópsia, contudo invertida, na qual eu investigava não a “causa mortis”, mas a longa relação daquela miríade de partes inanimadas com a minha vida.

Ora, durante anos aquelas peças, juntas e funcionais, sustentaram-me: quantos cenários desenhados no Autocad, quantas artes graficadas no Corel Draw e no Photoshop, quantas negociações pelo Gmail! Por outro lado, quando eu não queria trabalhar, a máquina também oferecia muitas opções: filmes no VLC, músicas no Winamp, encontros no Skype, curtidas, comentários e postagens no Facebook – sem falar nas pornografias online… No tempo que aquele computador esteve comigo não houve tempo suficiente para tudo o que era possível fazer nele.

No entanto, de todas as partes do velho Vaio a que mais me prendeu a atenção foi o fino display digital, que livre da moldura plástica parecia mais superficial ainda. Tanta coisa passou luminosamente através daquele vidro! Todavia, a tela de cristal me olhava com uma amnésia completa. Também pudera, nem a minha memória subjetiva, nem a outra, a objetiva de quinhentos Gigabytes estavam ali.

No entanto, o delgado e cego display ainda refletia o meu rosto. Nesse esmaecido jogo de espelho eu podia ver o écran refletido nos meu olhos. Ao menos em imagens reflexivas ainda nos relacionávamos. Porém, um espelho enegrecido era tudo o que ele poderia ser a partir de então. De qualquer forma decidi mantê-lo, não na esperança de que ele brilhe novamente, mas para fazer dessa impossibilidade uma espécie de obra de arte paradoxal: uma tela que não mais mostra o mundo de imagens que outrora mostrou.

A matemática dos anos

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É culpa da matemática que se possa fazer da vida um somatório de anos. Alienados do comprometedor sinal de “+”, os anos vividos seriam nada além da vida ela mesma, una, indivisa, indizível e impossível de ser contada numericamente. Entretanto, uma vez no tempo calendário uma vida é partida em anos. Doravante, só colocada nos escaninhos dos anos aniversariados é que ela parece poder ser parabenizada.

Porém, o que trazemos na memória a título de passado, que aniversaria anualmente, é algo sempre vivo e presente: a totalidade dos acontecimentos de uma vida que nunca deixam de ser. Do contrário, o presente não seria. Embora anacronizado, o passado só é porque insistentemente contemporâneo, porque permanece e ignora o passar do tempo, porque se recusa a ficar para trás.

O passado só é um corpo presente porque nunca sabemos muito bem o que fazer com o presente até que ele seja minimamente passado, porém, no presente. O que nos acontece só consegue nos pertencer na medida em que perde o verniz do agora. Para tal, desatualizamos o atual para que ele possa se acomodar ordenadamente em uma sequência causal que chamamos de as nossas vidas. E a cada ano as nossas vidas comemoram um passado um tanto mais gordo.

Os anos aniversariados são nada mais que a organização temporal daquilo que se amontoa no sempiterno presente, mas que tomado sob uma unidade indivisa é incompreensível, principalmente para o aniversariando. Diante da miríade de fatos que constituem uma vida, muitos deles paradoxais, somente distribuindo-os em muitos e afastados anos é que alguém pode ser parabenizado por ser o que é, uma vez ao ano.

Aquém-sentido

Um sentido determinado se esconde nesse texto, sem o quê ele seria apenas rabiscos enfileirados. Entretanto, começando-se pelas letras, que em si são vazias de sentido, e passando-se às palavras que, embora donas de um sentido só delas, não dizem o que uma frase traz à luz, o objetivo deste texto é dar espaço ao aquém-sentido que, com azar, fará sentido através dessas mesmas letras, palavras e frases.

Se o sentido desse texto se fizesse presente desde o início, estas palavras já teriam se tornado escravas suas. Isso porque o sentido é um Senhor que subjuga a laboriosa mão-se-obra através da qual devém, abstraindo-a, soterrando-a. Ora, depois de esculpido o Davi, o mármore e a talhadeira manuseados por Michelangelo são nada diante a obra-prima.

Por esse motivo é que o sentido deste texto está sendo preterido, para que ele não se assenhore cedo demais destas livres letras, palavras e frases, que, no entanto, de certa forma já são escravas suas, mas que ainda brincam alienadas disso. Afinal, somente enquanto o sentido desse texto não se instala definitivamente é que esta frase experimenta a liberdade de poder dizer mais do que eu pretendo que ela diga.

No entanto, só consigo obscurecer o sentido desse texto – para deixar as palavras e as frases em paz – fazendo do próprio sentido o assunto principal, abstraindo-o intencionalmente. Porém, nesta antepenúltima frase um sentido já é inevitável. Diante do derradeiro, a única estratégia destas palavras contra o irremediável assenhoramento do sentido é o “nonsense”, mas, com efeito, receio que seja tarde demais.

Boticário humano

O homem, dentre todos os animais, é o único que pode enganar a si próprio e permanecer deliberadamente nesse estado. As armadilhas para esse tipo de engodo são as suas ideias, mas não todas elas, apenas aquelas que de forma alguma correspondem à realidade. Logo, farejar bem o mundo ideal é importante para evitar ser escravizado por ele.

As sublimes obras de arte nascem de ideias e fazem do homem o senhor absoluto do mundo. Em contrapartida, a ideia de um Deus criador do universo é menos generosa, pois nela a humanidade inteira apenas aplaude a criação. Entre estes dois extremos, uma miríade de ideias e confusões inofensivas, como por exemplo, pensar que chuva tem cheiro de terra.

Não, a chuva não tem cheiro de terra. Antes, é a terra que cheira à chuva, pois de onde esta vem não há aquela para perfumá-la. Ademais, é porque a terra já viu muita chuva que tem esse odor. O engano, portanto, está em não perceber que quando chove sobre a terra é o cheiro de chuva que é realçado. Entretanto, perfuma-se a chuva com uma essência que não a sua.

Com a mesma inadvertência o cheiro de Deus parece exalar de todas as coisas. Porém, isso é obra de um nariz confuso que fareja perfumes divinos em ideias mundanas. Ora, até hoje não foi provada a existência de um Deus criador, mas não é mistério algum que onde quer que vão homens eles criam deuses para si.

A despeito de qualquer evidência de um Ser supremo, essa refinada ilusão angaria para si não uma simples realidade paralela, mas, realidade absoluta. Porém, como no caso da chuva e da terra, o homem atribui à Deus o perfume de suas próprias ideias. Engana-se, contudo, de que na verdade Deus fede à humanidade.

O objetivo de toda ilusão é fingir uma realidade. Entrementes, as fantasias de um indivíduo, desde que confundam apenas ele, fazem o favor de abrir uma dialética entre real e irreal cuja síntese é um sujeito. Agora, devaneios que envolvem multidões trazem ao mundo outra coisa que sujeitos: ou ovelhas dogmáticas, isto é, fiéis, ou ovelhas desgarradas, ou seja, artistas.

A capacidade humana para transcender a realidade imediata convida o irreal a se emparelhar com o real. Doravante, a contrapartida de mentiras é necessária para que a verdade faça sentido para o homem. Entretanto, as mesmas ilusões que mentem uma liberdade em relação à realidade também roubam sua concretude.

A dimensão fantástica, encarnada em um Deus, chega a prometer o despautério de uma vida eterna, exigindo, contudo, subjugação irrestrita a Ele. Porém, mesmo quando as ilusões mantêm suas vestes terrenas elas repetem o seu vício essencial e não se privam de prometer coisas que a realidade, de imediato, não pode corresponder.

Todavia, conquanto o homem não se encontre escravizado por um Senhor supremo ele é livre não só para se iludir como bem entender, mas, inclusive, para transpor criativamente o hiato entre realidade e fantasia aberto por ele mesmo. Nessa empresa mundana a Arte é o caminho para se superar distância entre real e ideal.

Acreditando em deuses absolutos ou apenas em si mesmo, o homem não escapa de se auto-iludir e de habitar suas próprias ilusões. Inadvertidamente, todos pensam que é a chuva que tem cheiro de terra, e não o contrário. Entretanto, esse erro é tão laico quanto inofensivo, e acaba por ser poético.

Por isso é na Arte que reside o equilíbrio entre real e irreal, e não nalgum Deus absoluto que, para ser verdadeiro implica a mentira de que os homens, sozinhos, são incapazes de superar as distâncias que eles mesmo inventam em relação à realidade. Portanto, se Deus e a chuva exalam cheiros que não os seus, esses perfumes são fabricados no boticário humano.

O desejo absoluto

Não lembro quem escreveu que o único desejo comum a todo ser humano é o de ser amado – de preferência até a hora da morte, quiçá depois dela. Porém, colocado dessa forma, tal necessidade, além de bastante abstrata, é deveras comprometedora, pois revela sobretudo a dimensão irremediavelmente irresoluta de cada um.

Então, para lidar objetivamente com a sempiterna ânsia de ser amado, o homem a traduz estrategicamente na digna busca pela felicidade. Todavia, a procura pela felicidade ainda carece de objetividade, vide os muitos descaminhos que ela volta e meia aponta. Por fim, o imperioso desejo de ser amado resulta na ordinária busca por fortuna, beleza, inteligência, sucesso, fama etc. – separadamente, ou tudo junto e em grande quantidade.

Com efeito, muito se perde do grande livro da existência ao temporal filme da vida. O desejo de um amor incondicional, por conseguinte, dificilmente será saciado alcançando-se beleza, riqueza, inteligência ou sucesso. Ao contrário, ser amado por conta de contingências como estas é um risco iminente, pois qualquer um, a qualquer momento, dono de qualidades objetivas iguais ou maiores, facilmente levará esse amor consigo.

Entretanto, o anseio humano absoluto, mal traduzido, diz que é preciso agir objetivamente para se ser amado subjetivamente. Porém, o amor que atende tal ansiedade deve ser descompromissado em relação a qualquer transitoriedade, inclusive em respeito a própria vida. De que outra forma um amor amaria alguém inclusive depois da morte deste?

Por conseguinte, predicar a si próprio com fortuna, beleza, fama etc. em vista de um amor incondicional, nada mais é que vestir-se com trajes que, no entanto, deverão ser despidos na hora agá. Porém, figurinar-se com predicados amáveis, embora sempre inapropriados ao evento do amor verdadeiro, é menos angustiante do que estar nu diante da livre predicação de um pretenso amante.

Os valores abjetos nos quais a ideia de felicidade traduz o inerente desejo humano de ser amado – e de morrer assistido por esse amor – são, sobretudo, proteções não menos abjetas contra o risco real de não ser amado e de morrer só. Diante dessa ameaça, dinheiro, beleza, celebridade etc. compram, não o amor de uma vida, mas apenas insatisfatórios quinze minutos de fama.

O avesso de escolher através do que se será amado – que sobremaneira exclui os outros dessa decisão – é a covardia diante do perigo de não ser amado pelo que se é. Além do que, ocupar-se em ser amável evidência, paradoxalmente, o que se acredita faltar para o merecimento de um amor.

Por mais que qualidades amáveis pareçam sempre faltar, o que falta verdadeiramente é apenas o amor incondicional. De modo que buscas menores, relativas, não são solução para a grande questão da vida, mas a fuga covarde desta. Coragem, então, seria a assunção de que a morte solitária é o mais terrível fantasma, exorcizado apenas por um amor maior que a vida.

Cumprindo com essa tarefa se encara, sem máscara, a a face nua da existência humana – sem, contudo, garantia alguma de sucesso. Porém, ser amado até o último instante pede muito mais uma valentia desarmada diante dos riscos da vida que uma covardia munida de pistolas de plástico na frente do espelho.

Bom gosto no Rio a partir de R$25.000,00 mensais

Nasci em uma capital, Porto Alegre, chamada por muitos, não sem razão, de provinciana. Entretanto, mesmo lá já era fácil perceber a capitalização de recursos que uma cidade com esse título angaria para si. Mais tarde, escolhi o Rio de Janeiro para viver, outra capital, cuja característica que salta aos olhos – em oposição à dos pampas – é o cosmopolitismo. Pois bem, como o conceito filosófico de cosmopolitismo é o “desprezo pelas fronteiras geográficas”, a capitalização da Capital fluminense tende a ser mais radical que a gaúcha.

Sob o pretexto de ser um centro a partir do qual as demais cidades se organizam, e do qual tiram proveito, uma capital, na era do capital, pelo contrário, é uma centralidade que organiza a si mesma consumindo recursos e se aproveitando de sua própria periferia. Afinal, se uma cosmópolis, em vez de visar as cercanias que materializam e justificam tal cosmopolitismo, adota, contudo, cosmo-políticas que ignoram e ultrapassam os interesses concretos dos seus imediatos, tal cidade é capital para quem?

Com certeza não era esse tipo de desprezo às fronteiras de que falavam os antigos gregos ao conceituarem o cosmopolitismo. Antes, a abstração das fronteiras, para eles, significava muito mais o compartilhamento dos recursos do que a capitalização geográfica destes. Entretanto, no sistema capitalista tal conceito, a exemplo dos demais, não escapou de ser pervertido. Hoje em dia, o desdém do capital global pelas fronteiras representa, sobretudo, o fim dos limites físicos que, anteriormente, continham ímpetos exploratórios forasteiros.

Ora, para onde, no sistema econômico atual, o capital fluiria senão às capitais? Apesar de tácita, essa resposta é muito irônica. Em contrapartida, de onde esse capital é arrancado? Seria tentador afirmar que do além-fronteiras olvidado pelo cosmopolitismo capitalista. Porém, a voracidade do capital age indiscriminadamente inclusive cis-fronteiras. Por isso não só os cidadãos das cidades periféricas são explorados por suas próprias capitais, mas também, e principalmente, os cidadãos capitais. Com efeito, a perversão capitalista acabou por exigir mais destes que daqueles.

O Rio de Janeiro é o meu exemplo concreto disso. Em vez de os cariocas, e os que moram junto deles, usufruírem das riquezas da capital maravilhosa – afinal, a cidade é para quem senão para os seus cidadãos -, consumir as maravilhas do Rio significa ser queimado como combustível da capitalização dessa cidade. Ora, o aluguel mais caro do mundo porventura beneficia àqueles que tem que pagar por ele? E o ineficiente transporte público, que sob o pretexto de circular os cidadãos conduz, na verdade, fortunas à uma máfia abjeta, faz o quê da vida dos habitantes da capital fluminense senão descapitalizá-la sistematicamente?

O vórtice capitalista, dentro dos limites das capitais, em vez de socializar com os habitantes desses epicentros a abundância de recursos que eles coadunam – doce utopia -, ao contrário, suga com mais força a partir desse centro. A capital, na era do capital, é um tornado que arrasa com mais ímpeto os que estão imediatamente à sua volta. Já os antagonistas, isto é, aqueles que vivem nas pequenas cidades e nos lugarejos distantes, estes assistem pela televisão a tempestade que assola os cosmopolitas.

Entretanto, no centro absoluto de todo furacão há uma coluna neutra, ou seja, um lugar em cujo interior nenhuma força violenta age. Nessa área V.I.P. reina não somente a paz como também o espírito das capitais. Contudo, o que seria esse último? A vida no Rio me recoloca essa pergunta constantemente, e as muitas respostas que venho colecionando acabam por aumentar a dúvida na mesma proporção. Porém, recentemente, lendo O capital do século XXI, de Thomas Piketty, encontrei uma medida que tornou concreto ao menos o limite capitalista das capitais.

Pois bem, o que Piketty afirma categoricamente é o seguinte: é de “profundo mau gosto”, sem dizer burrice, viver numa capital ganhando menos do que vinte e cinco vezes o valor da renda média do respectivo Estado. Vóilá! Um dado econômico que estabelece uma fronteira às capitais capitalistas – que desprezam estrategicamente as fronteiras – é de grande ajuda. Ora, se a renda média do fluminense, de acordo com o IBGE, é pouco menos que mil reais, então, para viver no Rio, e ser um cosmopolita de bom gosto e inteligente, há que se ganhar, por mês, R$ 25.000,00 ou mais; coisa que somente nos quarteirões do Leblon e de Ipanema é regra facilmente ultrapassada.

Como meu rendimento mensal na cidade maravilhosa não é esse, e concordando com a visão de Piketty, tenho três opções, quais sejam: 1) dar um jeito de ganhar vinte e cinco mil por mês; 2) permanecer um “cariúcho” burro e de mau gosto em Copacabana; ou, 3) abrir mão de viver numa capital. O problema de ser interiorano é que a renda diminui ao passo em que se afasta dos centros capitais, como o próprio IBGE aponta. Se com efeito é burrice viver na capital com menos de vinte e cinco vezes a renda média, qual seria, então, a fronteira econômica da inteligência e do bom gosto de uma província? Piketty, no entanto, não diz isso.

Todavia, o balanço que o economista francês estabelece entre renda pessoal e vida cosmopolita apontou a fronteira que separa as capitais das demais cidades no mundo capitalista. Não me pergunto mais sobre a vida na Guanabara, apenas reitero que não posso – e talvez não queira – pagar o capital cobrado nessa capital por uma vida inteligente e de bom gosto. Se em vez da capital carioca fosse a Roma antiga, a Capital Eterna, em seu limite “crísico”, eu, que não seria um patrício, tampouco um bárbaro, deveria fazer como o cidadão romano comum que, diante do preço babilônico da cosmópolis absoluta, escolheu os arrabaldes do mundo para viver sua Idade Média – com sua renda média. Para quem viveu até hoje em capitais, cada vez mais, para mim, capital é viver longe delas.

Espaço e tempo, Newton e Kant

Se nos perguntassem o que são espaço e tempo, provavelmente responderíamos como Newton, dizendo que são dimensões do universo, às quais tudo está submetido, e que, mais importante, subsistem a despeito de quaisquer coisas – inclusive de nós. Assim nos parece, pois, durante nossas vidas habitamos num ponto minúsculo do espaço e usufruímos apenas de uma fatia ínfima do tempo, e isso basta para nos convencer de que ambas as dimensões nos contêm; que existiam antes de nós e que seguirão existindo, mesmo na nossa ausência. Entretanto, Kant inverteu completamente essa hierarquia. Depois dele, espaço e tempo nada são sem nós. Ou melhor, só são por nossa obra e natureza.

Para Kant, tempo e espaço não são coisas, tampouco existem por si mesmos. São, com efeito, apenas intuições subjetivas, isto é, formas puras da nossa sensibilidade, contudo, independentes das nossas experiências, sem as quais não poderíamos conhecer nem a matéria nem a nós mesmos. “Long story short”: nossos sentidos, através de um espaço intuído, percebem a realidade material. Nosso entendimento, então, cria representações a partir dessas percepções sensíveis. Muitas dessas representações precisam, por conseguinte, de um consciência que as reúna. Entretanto, para que não se misturem, a consciência intui o tempo no qual organiza todas as representações – do contrário, o trabalho dos sentidos restaria misturado e indefinido.

O que Kant disse é que intuímos o espaço para determinarmos uma realidade exterior a nós. Essa determinação espacial é condição para que os nossos cinco sentidos possam perceber a realidade material e dela nos convencer. A visão, por exemplo, coloca os objetos no espaço, estabelece o espaço entre nós e eles, o espaço dos objetos entre si, o espaço que nós ocupamos, e também as figuras com que apreendemos tais objetos. Ora, a cor amarela, as estrelas, ou, digamos, o horizonte, porventura existiriam para nós sem um sentido que os tivesse percebido, porém, em um espaço inaugurado pela nossa própria subjetividade, apropriado para que o amarelo, a estrelas e o horizonte se oferecessem à percepção?

O tempo, em contrapartida, é o modo de intuição de uma realidade interior, isto é, de uma consciência. De acordo com Kant, para se diferenciar da realidade material a consciência pressupõe o tempo; todavia, na medida em que ela permanece a mesma enquanto as representações – as obras das sensações num espaço intuído – se sobrepõem umas às outras, incessantemente. A torrente de representações só pode existir numa consciência conquanto seja intuído um tempo em cuja série todas as representações possam se justapor. Ora, se uma representação desaparecesse no toque da seguinte, sem a necessidade de uma se relacionar com a outra, tempo algum precisaria estar pressuposto. Porém, uma vez que é na consciência que todas as representações habitam, só pressupondo o tempo essa coabitação é possível.

Então, por um lado, temos o espaço, que é levado à experiência, para que, com a participação dos sentidos, a realidade material seja representada, e por fim, conhecida pela consciência. Por outro, o tempo, que é a forma com que a consciência subsiste mediante o fluxo das representações diversas que recebe, e assim conhece a si mesma. Grosso modo – a sofisticação de Kant que me perdoe -, as sensações, espacializadas, resultam na matéria; já a série de representações, temporalizadas, resultam na consciência. Juntando tudo isso temos um sujeito, isto é, um “eu”, que, no entanto, só pôde se constituir levando à arena de sua própria experiência existencial as intuições, não menos suas, de tempo e de espaço.

Nos três anos em que Kant e Newton compartilharam o espaço e o tempo newtonianos, ou, em respeito à Kant, no triênio em que os espaços e os tempos kantianos dos dois revolucionários foram contemporâneos, o físico já não podia mais ler e o filósofo sequer tinha aprendido a escrever. Por isso Newton não pôde apreciar a revolução que Kant empreendeu, anos mais tarde, nos seus espaço e tempo absolutos. Coloquemos um diante do outro, então.

Para Newton, tempo e espaço existiam absolutamente, e o faziam independente inclusive dos sujeitos: eram dimensões universais. Ao lado delas, havia apenas átomos e gravidade. Kant, por sua vez, disse que nem espaço nem tempo existiam de fato; eram, ao contrário, nada mais que intuições subjetivas. Aqui as duas teorias são diametralmente antagônicas. Entretanto, ao confrontar o universo newtoniano, composto de espaço, tempo, átomos (matéria) e gravidade, com o sujeito kantiano, parido mediante espaço, tempo, matéria e consciência, duas coisas chamam atenção, quais sejam: a primeira, o físico falava do universo, enquanto o filósofo, do sujeito; e a segunda, o que naquele era a gravidade, neste é a consciência.

Espaço e tempo, de Newton à Kant, significam, por um lado, uma aventura que parte do universo e finda no sujeito, e por outro, a transformação da gravidade material em consciência transcendental. Ora, ambos os movimentos são correlatos, senão coetâneos, do movimento burguês, cujo produto excelente foi o mais refinado individualismo de que a humanidade já teve notícia, no qual o “eu” não podia ser nada menos que o universo inteiro + a força gravitacional que atrai para si toda a realidade. Sendo assim, o tempo e o espaço que Newton espalhou pelos quatro cantos do universo, Kant os recuperou, transformou-os em intuições, e os colocou nos recônditos do sujeito do seu tempo.

Reciclando “O” problema

A ordem da nossa época é reciclar. Todavia, a reciclagem de que a atualidade tanto fala, e com a qual se empenha, não salvará o planeta enquanto uma outra, anterior e profundamente danosa, não for atacada. O uso do petróleo, que nada mais é que o reuso de um “lixo ancestral” da natureza, é a reciclagem vilã, contra a qual nenhum mocinho, por mais que recicle suas pistolas de plástico, terá chance de vitória.

Com efeito, a pior experiência de reciclagem empreendida pela humanidade, que sobremaneira determina a atual, começou há menos de duzentos anos, quando o homem trouxe de volta à superfície da terra – e ao ciclo do mundo – o petróleo soterrado pelas eras. Ora, não são os efeitos malquistos do uso sistemático desse “óleo das pedras”, como diziam os antigos gregos, os que mais requerem reciclo?

Paradoxalmente, a reciclagem com a qual o homem mais tem se preocupado nos últimos séculos é a do rentável “ouro negro”. Nenhuma gota escapa! Dele tiramos gás, gasolina, querosene, óleo diesel, plástico, tinta, asfalto etc., ou seja, praticamente todas as matérias com as quais foi construído o mundo desde a modernidade.

Entretanto, se a atual necessidade de reciclar os restos nocivos do petróleo decorre do reciclo deste, que é anterior e altamente problemático, é paliativo o investimento apenas na reciclagem de, por exemplo, sacolas de supermercado. Nada resolve se ocupar dos efeitos de uma causa que, por seu turno, permanece atuante.

Então, um futuro sustentável ao planeta está primeiramente no fim do reciclo do petróleo, e não no de seus muitos produtos subsequentes. Além do mais, somente no fim do primeiro é que o segundo começa ter algum sentido. Afinal, de que adianta reciclar os derivados do petróleo se este segue ditando os ciclos do nosso mundo?

Estratégica e sorrateiramente, o histórico e adverso reciclo de petróleo se esconde sob a atual, urgente e mundial ordem de reciclagem que, entretanto, se ocupa apenas das réprobas consequências daquele. Na verdade, a reciclagem madrasta, a do petróleo, que gera a necessidade de muitas outras reciclagens apenas para anular a impertinência dos seus filhos hostis, perpetua-se dissimulando sua própria insustentabilidade nas demais, individuais.

Na prática, enquanto permanecermos apenas reciclando garrafas PET e smartphones, estaremos fazendo um duplo desserviço. Por um lado, secando um gelo salobro que nunca para de derreter, e por outro, abstraindo-nos de que é o indiscriminado reciclo de petróleo a maior ameaça à natureza, à vida e, portanto, à humanidade. Sem este, a reciclagem que está ao alcance das nossas mãos começa ser a possibilidade de um futuro sustentável.

Guerras X capital

Há uma ideia bastante difundida de que a guerra é essencial ao capitalismo. Ao ver, por exemplo, os Estados Unidos se envolverem estrategicamente em tantas delas, sobretudo produzindo e vendendo mercadorias bélicas, é fácil dar crédito à crença de que o capital precisa guerrear para estar em paz consigo mesmo. Entretanto, Thomas Piketty, no seu “Capital do Século XXI”, demonstra justamente o contrário. Ele afirma categoricamente que nada reduziu a importância do capital e de suas rendas ao longo da história como as guerras.

O economista chegou a essa conclusão contrapondo o homogêneo comportamento do capital ao longo da história ao abalo inédito que ele sofreu entre a Primeira Guerra Mundial e o período que se seguiu logo após a segunda. Até 1910, nada indicava uma queda do capital. Muito pelo contrário, a Belle Époque enriquecia como nunca. Porém, em função do primeiro grande conflito a concentração de capital foi obrigada, nas palavras de Piketty, a suicidar-se. O primeiro golpe foi o investimento bélico inicial de cada país, patrocinado pelas grandes fortunas – claro, sob a especulação, imediatamente frustrada, de retornos fortemente capitalizados. Uma virtude pouco apreciada da guerra, portanto, é o uso do capital acumulado por poucos indivíduos em prol – em defesa – da sociedade toda.

Porém, o segundo e maior golpe contra o capital se deu no pós-guerra. Na sequência do conflito a atividade econômica caiu, a inflação aumentou e o poder de compra diminuiu. Só que nesse ínterim os salários mais baixos tiveram de ser valorizados e protegidos da inflação, muito mais do que os mais elevados. Para que a sociedade não colapsasse foi fundamental evitar a queda do poder de compra das massas. Para tanto, os ricos – que não estavam mais tão ricos assim, afinal, gastaram suas fortunas patrocinando a guerra – tiveram de esperar pelo restabelecimento da sociedade para só então recomeçarem recompor seus patrimônios dilapidados. Outra virtude decorrente da guerra, por conseguinte, é a sobrelevação dos interesses sociais em detrimento dos privados.

Com a Segunda Grande Guerra a receita foi a mesma. Depois dela, novamente o capital de cada país teve de arcar não só com os custos da reconstrução de sua nação, mas também com a manutenção dos salários e do poder de compra de sua respectiva população. Numa época em que o capital ainda não brincava de transferir-se virtualmente pelo mundo em busca de segurança máxima, a bancarrota de um país pressupunha o mesmo destino ao seu capital. Então, cativos da geografia, os capitalistas não escaparam de pagar as contas das grandes guerras, sendo obrigados a dividir o que restou de suas fortunas com a sociedade. Piketty prova que “imediatamente após à segunda guerra os Estados Unidos passaram pela fase mais igualitária de sua história”. Tratando-se da América, isso é revolucionário.

Entretanto, a partir de 1950, depois da segunda batalha global, a paz permitiu ao capital ocupar-se novamente de si próprio. Em cada “boom” econômico subsequente os altos salários e rendimentos do capital cresceram e se distanciaram do valor pago aos trabalhadores. Estes, por sua vez, deixaram de ser prioridade numa sociedade de capitalistas em paz consigo mesma. Por isso Piketty afirma que “as guerras mundiais desempenharam um papel central no processo de redução da desigualdade no século XX”, pois interromperam a desigualdade histórica que viveu pujante até a Belle Époque, sendo, entretanto, restituída paulatinamente depois dos conflitos. “No século XX, foram as guerras que fizeram do passado tábula rasa, e não a suave racionalidade democrática e econômica”, insiste o economista.

Por conta das guerras o capital se reduziu a quase nada em comparação com o passado. Diante disso o trabalho individual passou a significar uma possibilida de futuro tão promissora quanto possuir uma herança, por exemplo. Com as fortunas reduzidas a níveis até então nunca vistos a população pode acumular um mínimo de riqueza e, “pela primeira vez, possuir coletivamente uma parte considerável do capital nacional”, completa Piketty. Mas isso só foi possível pelo consumo do capital historicamente acumulado em poucas mãos, tanto em função da guerra quanto do saneamento dos seus efeitos. Foi a força dos choques globais que roubou, temporariamente, o protagonismo do capital dentro da sociedade.

Ora, até o início do século XX o capital teve um sentido muito claro: os interesses das sempre poucas, porém enormes fortunas. Embora o capitalismo tenha sido desvirtuado de seu sentido histórico entre 1910 e 1950 por conta das duas guerras mundiais, depois disso as coisas voltaram a ser como antes. O capitalismo do século XXI repete, portanto, o capitalismo do passado. Agora, uma coisa que o capital aprendeu foi dosar as guerras nas quais se envolve. Hoje em dia elas são cirúrgicas, pontuais; por um lado, mais econômicas que políticas, e por outro, em caso de ação militar propriamente dita, resumem-se em ataques desferidos por “drones” não tripulados à meia dúzia de prédios inimigos. Entretanto, veiculados televisivamente a todo o planeta. Investimento mínimo com retorno máximo. “Eita” Capitalismo!

Obviamente ninguém deseja uma Terceira Guerra Mundial para que a humanidade possa experimentar uma queda da desigualdade como a do entreguerras, evidenciada por Piketty. No entanto, diante da afirmação do economista de que até hoje só as guerras conseguiram quebrar o capital e convertê-lo em benefício da sociedade, como proceder? A teoria pikettiana aponta dois caminhos que devem ser trilhados paralelamente: estabelecer impostos progressivos sobre o rendimento e a acumulação de capital, para evitar assim a desigualdade absurda, como a da Belle Époque, e investir maciçamente em educação, ou seja, na formação da população, dos trabalhadores. Esta última, em termos econômicos, significa converter capital financeiro em capital humano – o melhor investimento de todos, sem dúvida!

Entretanto, não podemos esperar que essa deliberação parta das esferas do capital. É a população, capacitada democraticamente, que deve designar a mudança de paradigma, pois, antes de ser uma questão econômica, essa luta é essencialmente política. Entretanto, ao sustentar que a queda pacífica da desigualdade será um produto da democracia, Piketty nos deixa com um paradoxo a ser resolvido, pois ele prova também que foram as guerras, e não a participação política democrática, que trouxeram, pela primeira vez na história, um horizonte de igualdade à humanidade. Como então trazer ao mundo, pacificamente, a igualdade que somente a guerra pariu? Thomas Piketty, esperançoso diante dessa contradição, diz que a solução ideal ainda está para ser inventada.

Moedas apátridas

Até o início do século XX as moedas tinham lastro, isto é, um equivalente em ouro ou prata que garantiam o valor delas. A quantidade desses materiais condicionava, portanto, a quantidade de dinheiro disponível. Porém, depois da Primeira Guerra Mundial essa equivalência foi abolida. Doravante, a garantia do valor do dinheiro teria de ser encontrada no futuro.

Com a morte do lastro a possibilidade de se criar dinheiro tornou-se infinita. Todavia, ilimitadas também se mostraram as crises econômicas a partir dessa mudança. A de 1930, que deprimiu o mundo, foi o primeiro grande sintoma da alforria material da moeda.

Para conter essa nova, ilimitada, porém perigosa potencialidade de se criar dinheiro de modo indiscriminado cada país precisou de um banco forte e único – à prova de tentação – com a função de regular seu sistema financeiro e, principalmente, a eufórica alquimia bancária do entreguerras.

Um Estado, sobretudo no mundo democrático capitalista, é uma fronteira político-econômica determinada, cuja gerência cabe a um banco central. Os limites dos países liberais democratas, portanto, são desenhados e mantidos pelos seus respectivos bancos centrais.

Hoje, contudo, vemos bancos centrais que não pertencem a um único país, por exemplo, o neonato Banco dos BRICS, mas principalmente o adolescente – e já problemático – Banco Central Europeu, cuja política econômica cobre dezenove países e cuja moeda única é o Euro. Sob certo ponto de vista isso significa uma renuncia à tradicional soberania monetária.

Pela primeira vez na história vemos moedas sem Estado! Isso lembra o ancestral uso de ouro como moeda de troca: dinheiro sem nacionalidade, porém válido em todos os lugares. Primeiro o dinheiro se libertou do seu pressuposto lastro metálico; agora, das fronteiras nacionais.

Não é o caso, claro, de Estados sem moeda – isso é impossível no atual sistema econômico global -, mas de Estados cujas moedas já não são somente deles. Resultado: nações subjugadas a bancos centrais que não obstante desenham fronteiras político-econômicas muito diferentes das suas.

Isso lembra a dominação da Grécia por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. Embora o macedônio tenha deixado os gregos brincarem de democracia e de sobrevivência na bela península mediterrânea, os interesses prioritários, no entanto, eram os dele. A ventura da Magna Grécia, por conseguinte, capitulou diante de um “Rei central”.

Atualmente a Grécia – mas não só ela – tem diante de si um novo Alexandre: o grande Banco Central Europeu. O Estado grego, todavia, na expectativa de crescimento econômico concordou com a substituição do seu Dracma – a mais antiga moeda em circulação do mundo – pelo frescor do Euro, aceitando se submeter aos desígnios de um banco que não o seu.

Entretanto, se foram as moedas e as políticas econômicas que as regulam que fizeram os Estados-nação na era do capital, uma moeda e um banco central que englobem simultaneamente muitos dessas nações não tem como mantê-los intactos se o paradigma econômico não muda.

Uma nova união monetária consequentemente leva a uma nova situação político-econômica. No entanto, a política e a economia de cada país envolvido não desparecem mediante essa união. Ao contrário, no dia-a-dia concreto ambas se tornam conflitantes.

Antes da criação do euro era possível um país europeu, em caso de crise financeira, planejar uma desvalorização da própria moeda e assim revigorar sua economia. A inflação, apesar de seus muitos defeitos, em doses homeopáticas tem essa estranha virtude. Agora, se a moeda e o banco central que a regula não pertencem a esse país, ele não pode fazer isso.

Os bancos surgiram para lidar com dinheiro e cumprem essa tarefa conquanto haja tal “matéria-prima”. Porém, tratando-se de dívidas, só sabem aumentá-las e se relacionar austeramente com os devedores. Uma moeda única, cujo propósito é circular riquezas entre países, em caso de pobreza faz justamente o contrário: estagna aqueles que devem.

As novas moedas apátridas repetem o mal de qualquer moeda: a impossibilidade de circular o avesso da riqueza. Unificação monetária deveria significar também a unificação das dívidas dos países envolvidos. Do contrário, a moeda única fala como o treinador de futebol oportunista que, dependendo do resultado alcançado pelo seu time diz: “eu ganhei”; “nós empatamos”; ou “eles perderam”.

Dividir a pobreza parece uma utopia? Entretanto, moedas sem pátria, bancos sem Estado, e pedaços de papel que valem mais do que ouro também não foram quimeras até que se materializaram?