Reciclando “O” problema

A ordem da nossa época é reciclar. Todavia, a reciclagem de que a atualidade tanto fala, e com a qual se empenha, não salvará o planeta enquanto uma outra, anterior e profundamente danosa, não for atacada. O uso do petróleo, que nada mais é que o reuso de um “lixo ancestral” da natureza, é a reciclagem vilã, contra a qual nenhum mocinho, por mais que recicle suas pistolas de plástico, terá chance de vitória.

Com efeito, a pior experiência de reciclagem empreendida pela humanidade, que sobremaneira determina a atual, começou há menos de duzentos anos, quando o homem trouxe de volta à superfície da terra – e ao ciclo do mundo – o petróleo soterrado pelas eras. Ora, não são os efeitos malquistos do uso sistemático desse “óleo das pedras”, como diziam os antigos gregos, os que mais requerem reciclo?

Paradoxalmente, a reciclagem com a qual o homem mais tem se preocupado nos últimos séculos é a do rentável “ouro negro”. Nenhuma gota escapa! Dele tiramos gás, gasolina, querosene, óleo diesel, plástico, tinta, asfalto etc., ou seja, praticamente todas as matérias com as quais foi construído o mundo desde a modernidade.

Entretanto, se a atual necessidade de reciclar os restos nocivos do petróleo decorre do reciclo deste, que é anterior e altamente problemático, é paliativo o investimento apenas na reciclagem de, por exemplo, sacolas de supermercado. Nada resolve se ocupar dos efeitos de uma causa que, por seu turno, permanece atuante.

Então, um futuro sustentável ao planeta está primeiramente no fim do reciclo do petróleo, e não no de seus muitos produtos subsequentes. Além do mais, somente no fim do primeiro é que o segundo começa ter algum sentido. Afinal, de que adianta reciclar os derivados do petróleo se este segue ditando os ciclos do nosso mundo?

Estratégica e sorrateiramente, o histórico e adverso reciclo de petróleo se esconde sob a atual, urgente e mundial ordem de reciclagem que, entretanto, se ocupa apenas das réprobas consequências daquele. Na verdade, a reciclagem madrasta, a do petróleo, que gera a necessidade de muitas outras reciclagens apenas para anular a impertinência dos seus filhos hostis, perpetua-se dissimulando sua própria insustentabilidade nas demais, individuais.

Na prática, enquanto permanecermos apenas reciclando garrafas PET e smartphones, estaremos fazendo um duplo desserviço. Por um lado, secando um gelo salobro que nunca para de derreter, e por outro, abstraindo-nos de que é o indiscriminado reciclo de petróleo a maior ameaça à natureza, à vida e, portanto, à humanidade. Sem este, a reciclagem que está ao alcance das nossas mãos começa ser a possibilidade de um futuro sustentável.

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