Moedas apátridas

Até o início do século XX as moedas tinham lastro, isto é, um equivalente em ouro ou prata que garantiam o valor delas. A quantidade desses materiais condicionava, portanto, a quantidade de dinheiro disponível. Porém, depois da Primeira Guerra Mundial essa equivalência foi abolida. Doravante, a garantia do valor do dinheiro teria de ser encontrada no futuro.

Com a morte do lastro a possibilidade de se criar dinheiro tornou-se infinita. Todavia, ilimitadas também se mostraram as crises econômicas a partir dessa mudança. A de 1930, que deprimiu o mundo, foi o primeiro grande sintoma da alforria material da moeda.

Para conter essa nova, ilimitada, porém perigosa potencialidade de se criar dinheiro de modo indiscriminado cada país precisou de um banco forte e único – à prova de tentação – com a função de regular seu sistema financeiro e, principalmente, a eufórica alquimia bancária do entreguerras.

Um Estado, sobretudo no mundo democrático capitalista, é uma fronteira político-econômica determinada, cuja gerência cabe a um banco central. Os limites dos países liberais democratas, portanto, são desenhados e mantidos pelos seus respectivos bancos centrais.

Hoje, contudo, vemos bancos centrais que não pertencem a um único país, por exemplo, o neonato Banco dos BRICS, mas principalmente o adolescente – e já problemático – Banco Central Europeu, cuja política econômica cobre dezenove países e cuja moeda única é o Euro. Sob certo ponto de vista isso significa uma renuncia à tradicional soberania monetária.

Pela primeira vez na história vemos moedas sem Estado! Isso lembra o ancestral uso de ouro como moeda de troca: dinheiro sem nacionalidade, porém válido em todos os lugares. Primeiro o dinheiro se libertou do seu pressuposto lastro metálico; agora, das fronteiras nacionais.

Não é o caso, claro, de Estados sem moeda – isso é impossível no atual sistema econômico global -, mas de Estados cujas moedas já não são somente deles. Resultado: nações subjugadas a bancos centrais que não obstante desenham fronteiras político-econômicas muito diferentes das suas.

Isso lembra a dominação da Grécia por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. Embora o macedônio tenha deixado os gregos brincarem de democracia e de sobrevivência na bela península mediterrânea, os interesses prioritários, no entanto, eram os dele. A ventura da Magna Grécia, por conseguinte, capitulou diante de um “Rei central”.

Atualmente a Grécia – mas não só ela – tem diante de si um novo Alexandre: o grande Banco Central Europeu. O Estado grego, todavia, na expectativa de crescimento econômico concordou com a substituição do seu Dracma – a mais antiga moeda em circulação do mundo – pelo frescor do Euro, aceitando se submeter aos desígnios de um banco que não o seu.

Entretanto, se foram as moedas e as políticas econômicas que as regulam que fizeram os Estados-nação na era do capital, uma moeda e um banco central que englobem simultaneamente muitos dessas nações não tem como mantê-los intactos se o paradigma econômico não muda.

Uma nova união monetária consequentemente leva a uma nova situação político-econômica. No entanto, a política e a economia de cada país envolvido não desparecem mediante essa união. Ao contrário, no dia-a-dia concreto ambas se tornam conflitantes.

Antes da criação do euro era possível um país europeu, em caso de crise financeira, planejar uma desvalorização da própria moeda e assim revigorar sua economia. A inflação, apesar de seus muitos defeitos, em doses homeopáticas tem essa estranha virtude. Agora, se a moeda e o banco central que a regula não pertencem a esse país, ele não pode fazer isso.

Os bancos surgiram para lidar com dinheiro e cumprem essa tarefa conquanto haja tal “matéria-prima”. Porém, tratando-se de dívidas, só sabem aumentá-las e se relacionar austeramente com os devedores. Uma moeda única, cujo propósito é circular riquezas entre países, em caso de pobreza faz justamente o contrário: estagna aqueles que devem.

As novas moedas apátridas repetem o mal de qualquer moeda: a impossibilidade de circular o avesso da riqueza. Unificação monetária deveria significar também a unificação das dívidas dos países envolvidos. Do contrário, a moeda única fala como o treinador de futebol oportunista que, dependendo do resultado alcançado pelo seu time diz: “eu ganhei”; “nós empatamos”; ou “eles perderam”.

Dividir a pobreza parece uma utopia? Entretanto, moedas sem pátria, bancos sem Estado, e pedaços de papel que valem mais do que ouro também não foram quimeras até que se materializaram?

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