Espaço e tempo, Newton e Kant

Se nos perguntassem o que são espaço e tempo, provavelmente responderíamos como Newton, dizendo que são dimensões do universo, às quais tudo está submetido, e que, mais importante, subsistem a despeito de quaisquer coisas – inclusive de nós. Assim nos parece, pois, durante nossas vidas habitamos num ponto minúsculo do espaço e usufruímos apenas de uma fatia ínfima do tempo, e isso basta para nos convencer de que ambas as dimensões nos contêm; que existiam antes de nós e que seguirão existindo, mesmo na nossa ausência. Entretanto, Kant inverteu completamente essa hierarquia. Depois dele, espaço e tempo nada são sem nós. Ou melhor, só são por nossa obra e natureza.

Para Kant, tempo e espaço não são coisas, tampouco existem por si mesmos. São, com efeito, apenas intuições subjetivas, isto é, formas puras da nossa sensibilidade, contudo, independentes das nossas experiências, sem as quais não poderíamos conhecer nem a matéria nem a nós mesmos. “Long story short”: nossos sentidos, através de um espaço intuído, percebem a realidade material. Nosso entendimento, então, cria representações a partir dessas percepções sensíveis. Muitas dessas representações precisam, por conseguinte, de um consciência que as reúna. Entretanto, para que não se misturem, a consciência intui o tempo no qual organiza todas as representações – do contrário, o trabalho dos sentidos restaria misturado e indefinido.

O que Kant disse é que intuímos o espaço para determinarmos uma realidade exterior a nós. Essa determinação espacial é condição para que os nossos cinco sentidos possam perceber a realidade material e dela nos convencer. A visão, por exemplo, coloca os objetos no espaço, estabelece o espaço entre nós e eles, o espaço dos objetos entre si, o espaço que nós ocupamos, e também as figuras com que apreendemos tais objetos. Ora, a cor amarela, as estrelas, ou, digamos, o horizonte, porventura existiriam para nós sem um sentido que os tivesse percebido, porém, em um espaço inaugurado pela nossa própria subjetividade, apropriado para que o amarelo, a estrelas e o horizonte se oferecessem à percepção?

O tempo, em contrapartida, é o modo de intuição de uma realidade interior, isto é, de uma consciência. De acordo com Kant, para se diferenciar da realidade material a consciência pressupõe o tempo; todavia, na medida em que ela permanece a mesma enquanto as representações – as obras das sensações num espaço intuído – se sobrepõem umas às outras, incessantemente. A torrente de representações só pode existir numa consciência conquanto seja intuído um tempo em cuja série todas as representações possam se justapor. Ora, se uma representação desaparecesse no toque da seguinte, sem a necessidade de uma se relacionar com a outra, tempo algum precisaria estar pressuposto. Porém, uma vez que é na consciência que todas as representações habitam, só pressupondo o tempo essa coabitação é possível.

Então, por um lado, temos o espaço, que é levado à experiência, para que, com a participação dos sentidos, a realidade material seja representada, e por fim, conhecida pela consciência. Por outro, o tempo, que é a forma com que a consciência subsiste mediante o fluxo das representações diversas que recebe, e assim conhece a si mesma. Grosso modo – a sofisticação de Kant que me perdoe -, as sensações, espacializadas, resultam na matéria; já a série de representações, temporalizadas, resultam na consciência. Juntando tudo isso temos um sujeito, isto é, um “eu”, que, no entanto, só pôde se constituir levando à arena de sua própria experiência existencial as intuições, não menos suas, de tempo e de espaço.

Nos três anos em que Kant e Newton compartilharam o espaço e o tempo newtonianos, ou, em respeito à Kant, no triênio em que os espaços e os tempos kantianos dos dois revolucionários foram contemporâneos, o físico já não podia mais ler e o filósofo sequer tinha aprendido a escrever. Por isso Newton não pôde apreciar a revolução que Kant empreendeu, anos mais tarde, nos seus espaço e tempo absolutos. Coloquemos um diante do outro, então.

Para Newton, tempo e espaço existiam absolutamente, e o faziam independente inclusive dos sujeitos: eram dimensões universais. Ao lado delas, havia apenas átomos e gravidade. Kant, por sua vez, disse que nem espaço nem tempo existiam de fato; eram, ao contrário, nada mais que intuições subjetivas. Aqui as duas teorias são diametralmente antagônicas. Entretanto, ao confrontar o universo newtoniano, composto de espaço, tempo, átomos (matéria) e gravidade, com o sujeito kantiano, parido mediante espaço, tempo, matéria e consciência, duas coisas chamam atenção, quais sejam: a primeira, o físico falava do universo, enquanto o filósofo, do sujeito; e a segunda, o que naquele era a gravidade, neste é a consciência.

Espaço e tempo, de Newton à Kant, significam, por um lado, uma aventura que parte do universo e finda no sujeito, e por outro, a transformação da gravidade material em consciência transcendental. Ora, ambos os movimentos são correlatos, senão coetâneos, do movimento burguês, cujo produto excelente foi o mais refinado individualismo de que a humanidade já teve notícia, no qual o “eu” não podia ser nada menos que o universo inteiro + a força gravitacional que atrai para si toda a realidade. Sendo assim, o tempo e o espaço que Newton espalhou pelos quatro cantos do universo, Kant os recuperou, transformou-os em intuições, e os colocou nos recônditos do sujeito do seu tempo.

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