O desejo absoluto

Não lembro quem escreveu que o único desejo comum a todo ser humano é o de ser amado – de preferência até a hora da morte, quiçá depois dela. Porém, colocado dessa forma, tal necessidade, além de bastante abstrata, é deveras comprometedora, pois revela sobretudo a dimensão irremediavelmente irresoluta de cada um.

Então, para lidar objetivamente com a sempiterna ânsia de ser amado, o homem a traduz estrategicamente na digna busca pela felicidade. Todavia, a procura pela felicidade ainda carece de objetividade, vide os muitos descaminhos que ela volta e meia aponta. Por fim, o imperioso desejo de ser amado resulta na ordinária busca por fortuna, beleza, inteligência, sucesso, fama etc. – separadamente, ou tudo junto e em grande quantidade.

Com efeito, muito se perde do grande livro da existência ao temporal filme da vida. O desejo de um amor incondicional, por conseguinte, dificilmente será saciado alcançando-se beleza, riqueza, inteligência ou sucesso. Ao contrário, ser amado por conta de contingências como estas é um risco iminente, pois qualquer um, a qualquer momento, dono de qualidades objetivas iguais ou maiores, facilmente levará esse amor consigo.

Entretanto, o anseio humano absoluto, mal traduzido, diz que é preciso agir objetivamente para se ser amado subjetivamente. Porém, o amor que atende tal ansiedade deve ser descompromissado em relação a qualquer transitoriedade, inclusive em respeito a própria vida. De que outra forma um amor amaria alguém inclusive depois da morte deste?

Por conseguinte, predicar a si próprio com fortuna, beleza, fama etc. em vista de um amor incondicional, nada mais é que vestir-se com trajes que, no entanto, deverão ser despidos na hora agá. Porém, figurinar-se com predicados amáveis, embora sempre inapropriados ao evento do amor verdadeiro, é menos angustiante do que estar nu diante da livre predicação de um pretenso amante.

Os valores abjetos nos quais a ideia de felicidade traduz o inerente desejo humano de ser amado – e de morrer assistido por esse amor – são, sobretudo, proteções não menos abjetas contra o risco real de não ser amado e de morrer só. Diante dessa ameaça, dinheiro, beleza, celebridade etc. compram, não o amor de uma vida, mas apenas insatisfatórios quinze minutos de fama.

O avesso de escolher através do que se será amado – que sobremaneira exclui os outros dessa decisão – é a covardia diante do perigo de não ser amado pelo que se é. Além do que, ocupar-se em ser amável evidência, paradoxalmente, o que se acredita faltar para o merecimento de um amor.

Por mais que qualidades amáveis pareçam sempre faltar, o que falta verdadeiramente é apenas o amor incondicional. De modo que buscas menores, relativas, não são solução para a grande questão da vida, mas a fuga covarde desta. Coragem, então, seria a assunção de que a morte solitária é o mais terrível fantasma, exorcizado apenas por um amor maior que a vida.

Cumprindo com essa tarefa se encara, sem máscara, a a face nua da existência humana – sem, contudo, garantia alguma de sucesso. Porém, ser amado até o último instante pede muito mais uma valentia desarmada diante dos riscos da vida que uma covardia munida de pistolas de plástico na frente do espelho.

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