Guerras X capital

Há uma ideia bastante difundida de que a guerra é essencial ao capitalismo. Ao ver, por exemplo, os Estados Unidos se envolverem estrategicamente em tantas delas, sobretudo produzindo e vendendo mercadorias bélicas, é fácil dar crédito à crença de que o capital precisa guerrear para estar em paz consigo mesmo. Entretanto, Thomas Piketty, no seu “Capital do Século XXI”, demonstra justamente o contrário. Ele afirma categoricamente que nada reduziu a importância do capital e de suas rendas ao longo da história como as guerras.

O economista chegou a essa conclusão contrapondo o homogêneo comportamento do capital ao longo da história ao abalo inédito que ele sofreu entre a Primeira Guerra Mundial e o período que se seguiu logo após a segunda. Até 1910, nada indicava uma queda do capital. Muito pelo contrário, a Belle Époque enriquecia como nunca. Porém, em função do primeiro grande conflito a concentração de capital foi obrigada, nas palavras de Piketty, a suicidar-se. O primeiro golpe foi o investimento bélico inicial de cada país, patrocinado pelas grandes fortunas – claro, sob a especulação, imediatamente frustrada, de retornos fortemente capitalizados. Uma virtude pouco apreciada da guerra, portanto, é o uso do capital acumulado por poucos indivíduos em prol – em defesa – da sociedade toda.

Porém, o segundo e maior golpe contra o capital se deu no pós-guerra. Na sequência do conflito a atividade econômica caiu, a inflação aumentou e o poder de compra diminuiu. Só que nesse ínterim os salários mais baixos tiveram de ser valorizados e protegidos da inflação, muito mais do que os mais elevados. Para que a sociedade não colapsasse foi fundamental evitar a queda do poder de compra das massas. Para tanto, os ricos – que não estavam mais tão ricos assim, afinal, gastaram suas fortunas patrocinando a guerra – tiveram de esperar pelo restabelecimento da sociedade para só então recomeçarem recompor seus patrimônios dilapidados. Outra virtude decorrente da guerra, por conseguinte, é a sobrelevação dos interesses sociais em detrimento dos privados.

Com a Segunda Grande Guerra a receita foi a mesma. Depois dela, novamente o capital de cada país teve de arcar não só com os custos da reconstrução de sua nação, mas também com a manutenção dos salários e do poder de compra de sua respectiva população. Numa época em que o capital ainda não brincava de transferir-se virtualmente pelo mundo em busca de segurança máxima, a bancarrota de um país pressupunha o mesmo destino ao seu capital. Então, cativos da geografia, os capitalistas não escaparam de pagar as contas das grandes guerras, sendo obrigados a dividir o que restou de suas fortunas com a sociedade. Piketty prova que “imediatamente após à segunda guerra os Estados Unidos passaram pela fase mais igualitária de sua história”. Tratando-se da América, isso é revolucionário.

Entretanto, a partir de 1950, depois da segunda batalha global, a paz permitiu ao capital ocupar-se novamente de si próprio. Em cada “boom” econômico subsequente os altos salários e rendimentos do capital cresceram e se distanciaram do valor pago aos trabalhadores. Estes, por sua vez, deixaram de ser prioridade numa sociedade de capitalistas em paz consigo mesma. Por isso Piketty afirma que “as guerras mundiais desempenharam um papel central no processo de redução da desigualdade no século XX”, pois interromperam a desigualdade histórica que viveu pujante até a Belle Époque, sendo, entretanto, restituída paulatinamente depois dos conflitos. “No século XX, foram as guerras que fizeram do passado tábula rasa, e não a suave racionalidade democrática e econômica”, insiste o economista.

Por conta das guerras o capital se reduziu a quase nada em comparação com o passado. Diante disso o trabalho individual passou a significar uma possibilida de futuro tão promissora quanto possuir uma herança, por exemplo. Com as fortunas reduzidas a níveis até então nunca vistos a população pode acumular um mínimo de riqueza e, “pela primeira vez, possuir coletivamente uma parte considerável do capital nacional”, completa Piketty. Mas isso só foi possível pelo consumo do capital historicamente acumulado em poucas mãos, tanto em função da guerra quanto do saneamento dos seus efeitos. Foi a força dos choques globais que roubou, temporariamente, o protagonismo do capital dentro da sociedade.

Ora, até o início do século XX o capital teve um sentido muito claro: os interesses das sempre poucas, porém enormes fortunas. Embora o capitalismo tenha sido desvirtuado de seu sentido histórico entre 1910 e 1950 por conta das duas guerras mundiais, depois disso as coisas voltaram a ser como antes. O capitalismo do século XXI repete, portanto, o capitalismo do passado. Agora, uma coisa que o capital aprendeu foi dosar as guerras nas quais se envolve. Hoje em dia elas são cirúrgicas, pontuais; por um lado, mais econômicas que políticas, e por outro, em caso de ação militar propriamente dita, resumem-se em ataques desferidos por “drones” não tripulados à meia dúzia de prédios inimigos. Entretanto, veiculados televisivamente a todo o planeta. Investimento mínimo com retorno máximo. “Eita” Capitalismo!

Obviamente ninguém deseja uma Terceira Guerra Mundial para que a humanidade possa experimentar uma queda da desigualdade como a do entreguerras, evidenciada por Piketty. No entanto, diante da afirmação do economista de que até hoje só as guerras conseguiram quebrar o capital e convertê-lo em benefício da sociedade, como proceder? A teoria pikettiana aponta dois caminhos que devem ser trilhados paralelamente: estabelecer impostos progressivos sobre o rendimento e a acumulação de capital, para evitar assim a desigualdade absurda, como a da Belle Époque, e investir maciçamente em educação, ou seja, na formação da população, dos trabalhadores. Esta última, em termos econômicos, significa converter capital financeiro em capital humano – o melhor investimento de todos, sem dúvida!

Entretanto, não podemos esperar que essa deliberação parta das esferas do capital. É a população, capacitada democraticamente, que deve designar a mudança de paradigma, pois, antes de ser uma questão econômica, essa luta é essencialmente política. Entretanto, ao sustentar que a queda pacífica da desigualdade será um produto da democracia, Piketty nos deixa com um paradoxo a ser resolvido, pois ele prova também que foram as guerras, e não a participação política democrática, que trouxeram, pela primeira vez na história, um horizonte de igualdade à humanidade. Como então trazer ao mundo, pacificamente, a igualdade que somente a guerra pariu? Thomas Piketty, esperançoso diante dessa contradição, diz que a solução ideal ainda está para ser inventada.

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