Obra de arte paradoxal

O computador que eu usei por sete anos estragou. Sei que é muito tempo de fidelidade a um aparelho tecnológico em plena era da tecnologia, mas a recíproca era verdadeira. Afinal, sete anos de serventia num mundo de obsolescência programada é de tirar o chapéu! Poucas relações pessoais duram tudo isso nos dias de hoje. Mesmo ouvindo de alguns amigos que eu deveria comprar um novo, o fato do velho Vaio seguir funcionando perfeitamente me dizia o contrário.

Na verdade eu adorava estar tirando leite de pedra daquele amontoado de silício. Ora, não foi para me servir que eu o comprei? Portanto, teria sido um mal investimento tê-lo trocado enquanto ele cumpria com sua tarefa. Claro, durante todos estes anos não foi fácil resistir à tentação de substituí-lo, mas o fato de a velha máquina trabalhar tão bem me alienava dessa necessidade. Não precisar comprar um aparelho novo reforçava, por sua vez, o acerto da compra do velho.

Porém, chegou o derradeiro. E como hoje em dia mais vale comprar novo que mandar consertar, substituí a máquina companheira. Antes disso, numa cerimônia de despedida privada, comecei a desmontar o velho Vaio, mas não para repará-lo, afinal, eu só entendo de computador quando ele está funcionando perfeitamente. Na verdade o desmonte foi uma homenagem em forma de autópsia, contudo invertida, na qual eu investigava não a “causa mortis”, mas a longa relação daquela miríade de partes inanimadas com a minha vida.

Ora, durante anos aquelas peças, juntas e funcionais, sustentaram-me: quantos cenários desenhados no Autocad, quantas artes graficadas no Corel Draw e no Photoshop, quantas negociações pelo Gmail! Por outro lado, quando eu não queria trabalhar, a máquina também oferecia muitas opções: filmes no VLC, músicas no Winamp, encontros no Skype, curtidas, comentários e postagens no Facebook – sem falar nas pornografias online… No tempo que aquele computador esteve comigo não houve tempo suficiente para tudo o que era possível fazer nele.

No entanto, de todas as partes do velho Vaio a que mais me prendeu a atenção foi o fino display digital, que livre da moldura plástica parecia mais superficial ainda. Tanta coisa passou luminosamente através daquele vidro! Todavia, a tela de cristal me olhava com uma amnésia completa. Também pudera, nem a minha memória subjetiva, nem a outra, a objetiva de quinhentos Gigabytes estavam ali.

No entanto, o delgado e cego display ainda refletia o meu rosto. Nesse esmaecido jogo de espelho eu podia ver o écran refletido nos meu olhos. Ao menos em imagens reflexivas ainda nos relacionávamos. Porém, um espelho enegrecido era tudo o que ele poderia ser a partir de então. De qualquer forma decidi mantê-lo, não na esperança de que ele brilhe novamente, mas para fazer dessa impossibilidade uma espécie de obra de arte paradoxal: uma tela que não mais mostra o mundo de imagens que outrora mostrou.

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