Boticário humano

O homem, dentre todos os animais, é o único que pode enganar a si próprio e permanecer deliberadamente nesse estado. As armadilhas para esse tipo de engodo são as suas ideias, mas não todas elas, apenas aquelas que de forma alguma correspondem à realidade. Logo, farejar bem o mundo ideal é importante para evitar ser escravizado por ele.

As sublimes obras de arte nascem de ideias e fazem do homem o senhor absoluto do mundo. Em contrapartida, a ideia de um Deus criador do universo é menos generosa, pois nela a humanidade inteira apenas aplaude a criação. Entre estes dois extremos, uma miríade de ideias e confusões inofensivas, como por exemplo, pensar que chuva tem cheiro de terra.

Não, a chuva não tem cheiro de terra. Antes, é a terra que cheira à chuva, pois de onde esta vem não há aquela para perfumá-la. Ademais, é porque a terra já viu muita chuva que tem esse odor. O engano, portanto, está em não perceber que quando chove sobre a terra é o cheiro de chuva que é realçado. Entretanto, perfuma-se a chuva com uma essência que não a sua.

Com a mesma inadvertência o cheiro de Deus parece exalar de todas as coisas. Porém, isso é obra de um nariz confuso que fareja perfumes divinos em ideias mundanas. Ora, até hoje não foi provada a existência de um Deus criador, mas não é mistério algum que onde quer que vão homens eles criam deuses para si.

A despeito de qualquer evidência de um Ser supremo, essa refinada ilusão angaria para si não uma simples realidade paralela, mas, realidade absoluta. Porém, como no caso da chuva e da terra, o homem atribui à Deus o perfume de suas próprias ideias. Engana-se, contudo, de que na verdade Deus fede à humanidade.

O objetivo de toda ilusão é fingir uma realidade. Entrementes, as fantasias de um indivíduo, desde que confundam apenas ele, fazem o favor de abrir uma dialética entre real e irreal cuja síntese é um sujeito. Agora, devaneios que envolvem multidões trazem ao mundo outra coisa que sujeitos: ou ovelhas dogmáticas, isto é, fiéis, ou ovelhas desgarradas, ou seja, artistas.

A capacidade humana para transcender a realidade imediata convida o irreal a se emparelhar com o real. Doravante, a contrapartida de mentiras é necessária para que a verdade faça sentido para o homem. Entretanto, as mesmas ilusões que mentem uma liberdade em relação à realidade também roubam sua concretude.

A dimensão fantástica, encarnada em um Deus, chega a prometer o despautério de uma vida eterna, exigindo, contudo, subjugação irrestrita a Ele. Porém, mesmo quando as ilusões mantêm suas vestes terrenas elas repetem o seu vício essencial e não se privam de prometer coisas que a realidade, de imediato, não pode corresponder.

Todavia, conquanto o homem não se encontre escravizado por um Senhor supremo ele é livre não só para se iludir como bem entender, mas, inclusive, para transpor criativamente o hiato entre realidade e fantasia aberto por ele mesmo. Nessa empresa mundana a Arte é o caminho para se superar distância entre real e ideal.

Acreditando em deuses absolutos ou apenas em si mesmo, o homem não escapa de se auto-iludir e de habitar suas próprias ilusões. Inadvertidamente, todos pensam que é a chuva que tem cheiro de terra, e não o contrário. Entretanto, esse erro é tão laico quanto inofensivo, e acaba por ser poético.

Por isso é na Arte que reside o equilíbrio entre real e irreal, e não nalgum Deus absoluto que, para ser verdadeiro implica a mentira de que os homens, sozinhos, são incapazes de superar as distâncias que eles mesmo inventam em relação à realidade. Portanto, se Deus e a chuva exalam cheiros que não os seus, esses perfumes são fabricados no boticário humano.

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