A matemática dos anos

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É culpa da matemática que se possa fazer da vida um somatório de anos. Alienados do comprometedor sinal de “+”, os anos vividos seriam nada além da vida ela mesma, una, indivisa, indizível e impossível de ser contada numericamente. Entretanto, uma vez no tempo calendário uma vida é partida em anos. Doravante, só colocada nos escaninhos dos anos aniversariados é que ela parece poder ser parabenizada.

Porém, o que trazemos na memória a título de passado, que aniversaria anualmente, é algo sempre vivo e presente: a totalidade dos acontecimentos de uma vida que nunca deixam de ser. Do contrário, o presente não seria. Embora anacronizado, o passado só é porque insistentemente contemporâneo, porque permanece e ignora o passar do tempo, porque se recusa a ficar para trás.

O passado só é um corpo presente porque nunca sabemos muito bem o que fazer com o presente até que ele seja minimamente passado, porém, no presente. O que nos acontece só consegue nos pertencer na medida em que perde o verniz do agora. Para tal, desatualizamos o atual para que ele possa se acomodar ordenadamente em uma sequência causal que chamamos de as nossas vidas. E a cada ano as nossas vidas comemoram um passado um tanto mais gordo.

Os anos aniversariados são nada mais que a organização temporal daquilo que se amontoa no sempiterno presente, mas que tomado sob uma unidade indivisa é incompreensível, principalmente para o aniversariando. Diante da miríade de fatos que constituem uma vida, muitos deles paradoxais, somente distribuindo-os em muitos e afastados anos é que alguém pode ser parabenizado por ser o que é, uma vez ao ano.

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