Bom gosto no Rio a partir de R$25.000,00 mensais

Nasci em uma capital, Porto Alegre, chamada por muitos, não sem razão, de provinciana. Entretanto, mesmo lá já era fácil perceber a capitalização de recursos que uma cidade com esse título angaria para si. Mais tarde, escolhi o Rio de Janeiro para viver, outra capital, cuja característica que salta aos olhos – em oposição à dos pampas – é o cosmopolitismo. Pois bem, como o conceito filosófico de cosmopolitismo é o “desprezo pelas fronteiras geográficas”, a capitalização da Capital fluminense tende a ser mais radical que a gaúcha.

Sob o pretexto de ser um centro a partir do qual as demais cidades se organizam, e do qual tiram proveito, uma capital, na era do capital, pelo contrário, é uma centralidade que organiza a si mesma consumindo recursos e se aproveitando de sua própria periferia. Afinal, se uma cosmópolis, em vez de visar as cercanias que materializam e justificam tal cosmopolitismo, adota, contudo, cosmo-políticas que ignoram e ultrapassam os interesses concretos dos seus imediatos, tal cidade é capital para quem?

Com certeza não era esse tipo de desprezo às fronteiras de que falavam os antigos gregos ao conceituarem o cosmopolitismo. Antes, a abstração das fronteiras, para eles, significava muito mais o compartilhamento dos recursos do que a capitalização geográfica destes. Entretanto, no sistema capitalista tal conceito, a exemplo dos demais, não escapou de ser pervertido. Hoje em dia, o desdém do capital global pelas fronteiras representa, sobretudo, o fim dos limites físicos que, anteriormente, continham ímpetos exploratórios forasteiros.

Ora, para onde, no sistema econômico atual, o capital fluiria senão às capitais? Apesar de tácita, essa resposta é muito irônica. Em contrapartida, de onde esse capital é arrancado? Seria tentador afirmar que do além-fronteiras olvidado pelo cosmopolitismo capitalista. Porém, a voracidade do capital age indiscriminadamente inclusive cis-fronteiras. Por isso não só os cidadãos das cidades periféricas são explorados por suas próprias capitais, mas também, e principalmente, os cidadãos capitais. Com efeito, a perversão capitalista acabou por exigir mais destes que daqueles.

O Rio de Janeiro é o meu exemplo concreto disso. Em vez de os cariocas, e os que moram junto deles, usufruírem das riquezas da capital maravilhosa – afinal, a cidade é para quem senão para os seus cidadãos -, consumir as maravilhas do Rio significa ser queimado como combustível da capitalização dessa cidade. Ora, o aluguel mais caro do mundo porventura beneficia àqueles que tem que pagar por ele? E o ineficiente transporte público, que sob o pretexto de circular os cidadãos conduz, na verdade, fortunas à uma máfia abjeta, faz o quê da vida dos habitantes da capital fluminense senão descapitalizá-la sistematicamente?

O vórtice capitalista, dentro dos limites das capitais, em vez de socializar com os habitantes desses epicentros a abundância de recursos que eles coadunam – doce utopia -, ao contrário, suga com mais força a partir desse centro. A capital, na era do capital, é um tornado que arrasa com mais ímpeto os que estão imediatamente à sua volta. Já os antagonistas, isto é, aqueles que vivem nas pequenas cidades e nos lugarejos distantes, estes assistem pela televisão a tempestade que assola os cosmopolitas.

Entretanto, no centro absoluto de todo furacão há uma coluna neutra, ou seja, um lugar em cujo interior nenhuma força violenta age. Nessa área V.I.P. reina não somente a paz como também o espírito das capitais. Contudo, o que seria esse último? A vida no Rio me recoloca essa pergunta constantemente, e as muitas respostas que venho colecionando acabam por aumentar a dúvida na mesma proporção. Porém, recentemente, lendo O capital do século XXI, de Thomas Piketty, encontrei uma medida que tornou concreto ao menos o limite capitalista das capitais.

Pois bem, o que Piketty afirma categoricamente é o seguinte: é de “profundo mau gosto”, sem dizer burrice, viver numa capital ganhando menos do que vinte e cinco vezes o valor da renda média do respectivo Estado. Vóilá! Um dado econômico que estabelece uma fronteira às capitais capitalistas – que desprezam estrategicamente as fronteiras – é de grande ajuda. Ora, se a renda média do fluminense, de acordo com o IBGE, é pouco menos que mil reais, então, para viver no Rio, e ser um cosmopolita de bom gosto e inteligente, há que se ganhar, por mês, R$ 25.000,00 ou mais; coisa que somente nos quarteirões do Leblon e de Ipanema é regra facilmente ultrapassada.

Como meu rendimento mensal na cidade maravilhosa não é esse, e concordando com a visão de Piketty, tenho três opções, quais sejam: 1) dar um jeito de ganhar vinte e cinco mil por mês; 2) permanecer um “cariúcho” burro e de mau gosto em Copacabana; ou, 3) abrir mão de viver numa capital. O problema de ser interiorano é que a renda diminui ao passo em que se afasta dos centros capitais, como o próprio IBGE aponta. Se com efeito é burrice viver na capital com menos de vinte e cinco vezes a renda média, qual seria, então, a fronteira econômica da inteligência e do bom gosto de uma província? Piketty, no entanto, não diz isso.

Todavia, o balanço que o economista francês estabelece entre renda pessoal e vida cosmopolita apontou a fronteira que separa as capitais das demais cidades no mundo capitalista. Não me pergunto mais sobre a vida na Guanabara, apenas reitero que não posso – e talvez não queira – pagar o capital cobrado nessa capital por uma vida inteligente e de bom gosto. Se em vez da capital carioca fosse a Roma antiga, a Capital Eterna, em seu limite “crísico”, eu, que não seria um patrício, tampouco um bárbaro, deveria fazer como o cidadão romano comum que, diante do preço babilônico da cosmópolis absoluta, escolheu os arrabaldes do mundo para viver sua Idade Média – com sua renda média. Para quem viveu até hoje em capitais, cada vez mais, para mim, capital é viver longe delas.

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