Linha 474: crônica carioca de uma tragédia anunciada

474

A linha de ônibus carioca 474-Jacaré, que liga a comunidade, ou em linguagem politicamente incorreta, a “favela” do Jacarezinho, a mais violenta da cidade, na pobre Zona Norte, ao coração rico da Zona Sul, o parque Jardim de Alah que  divide os aburguesados bairros do Leblon e Ipanema, é o símbolo ambulante da “Cidade Partida” que não se cansa de se esconder atrás da máscara  de “Cidade Maravilhosa”. Para o bem e para o mal, o “Rio 40°, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”, como canta Fernanda Abreu desde 1990, não tem como se alienar de si mesmo com o 474 recosturando diariamente as suas tão desiguais faces. Não sabemos quando a tensão entre as enormes riqueza e pobreza cariocas chegarão ao seu limite explosivo, mas pelo menos podemos ter certeza de uma coisa: essa bomba-relógio-social virá de ônibus; e qual, também não é mistério.

Não obstante a conversa-para-gringo-dormir de que a praia carioca é “o lugar mais democrático do mundo”, há um ano o governador do Estado do Rio de Janeiro, o Pezão, ordenou à Polícia Militar que parasse exclusivamente os ônibus da linha 474 às portas da Zona Sul nos finais de semana para que fossem “averiguados” todos os passageiros. Pretendia-se com isso controlar a crescente onda de “arrastões” nas praias nobres da cidade. A ordem era barrar quem estivesse sem identificação e, principalmente, sem dinheiro no bolso. Entretanto, como se viu, na quase totalidade somente garotos pretos e pobres eram abordados. A parte socialmente sensível e humana da opinião pública protestou fortemente contra essa ação preconceituosa e sobretudo anticonstitucional do Estado. Muito perguntou-se, crítica e retoricamente, quantos reais eram necessários para passar no “pedágio” que dava direito “a um lugar ao sol”.

Já a outra parte insensível e desumana da opinião pública carioca comprou fascistamente o método do governador. Não nos esqueçamos de que 2015 foi o ano em que o “Gigante” da direita brasileira acordou de mau-humor contra a sócio-democratização que vinha tendo curso no Brasil, pedindo “intervenção Militar Já!” e “Fora PT”, que em bom português queria dizer: fora esquerda; fora igualdade social; e por aí vai. A elite contrariada se recusou a admitir –mesmo que lhe sobrasse condições intelectuais para compreender-, que a crise social que lhe alcançava nos sábados domingos ensolarados de forma alguma é culpa de apenas parte da sociedade, muito menos da desprivilegiada. Mesmo assim essa direita elitista, sem papas na língua, humanidade na cara nem cidadania alguma nas ideias fez apologia ferrenha para que o 474 sequer chegasse à Zona Sul. Será que esquecia que essa linha de ônibus também traz muitos dos trabalhadores que lhes servem cotidianamente?

Não é demais lembrar que nos últimos seis anos, diante da expansão do metrô Zona Sul adentro as associações de moradores de Ipanema e do Leblon foram contrárias à abertura de estações nos seus ricos bairros. Objetivo: não acessibilizar ainda mais as suas mui gentrificadas fatias da cidade aos suburbanos. A presidenta da associação dos moradores do Leblon teve a coragem de declarar publicamente que “Nós, moradores do bairro, não precisamos de metrô. Afinal, todos temos carro, e quando não, usamos táxi”. Sob vil discurso, contudo, ecoava o descaso dela e dos seus representados às horas diárias de congestionamento que os seus serviçais tinham de enfrentar para chegarem até eles e serví-los.

Página crítica da história recente do Rio, a polêmica barreira social que foi instalada entre as zonas rica e pobre da cidade em 2015 para barrar os viajantes pretos, pobres e descapitalizados do 474, no entanto, foi rapidamente soterrada pelo catatau de novas páginas sempre críticas que dão corpo à “capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil” -segue cantando Fernanda Abreu. Entretanto, assim como a desigualdade não deixou de existir à margem da Baía de Guanabara, assim também o crísico 474 não deixou de fazer o traslado entre as partes tão desiguais de um mesmo Rio, como eu pude experienciar recentemente numa viagem até a grande feira tradicional nordestina do bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio.

Única opção de transporte coletivo indicada pelo “Rio Bus”, em um domingo à noite eu embarquei no 474 em Copacabana para ir a São Cristóvão. Em cada uma das seis paradas de ônibus antes de deixarmos a “Princesinha do Mar”, grupos de dez ou mais garotos, quase todos negros e aparentemente pobres, sem camisa e descalços -até aí tudo bem, pois via-se que voltavam do seu domingo de praia- entravam no coletivo. Todavia, não pela porta dianteira nem tampouco passando pela roleta, mas tumultuosamente pulado pelas janelas do ônibus. A minha “civilidadezinha” bem que tentou criticar a irreverência disruptiva daquela molecada, mas o “anjo comunista” que felizmente vive em mim soprou no meu ouvido que a sociedade que eu compartilho com eles já os explora tão profundamente que chegava a ser espécie de justiça eles a explorarem um tanto, ao menos nessa desobediência civil tão inofensiva que é não pagar uma passagem de ônibus.

Em meio à ocupação clandestina do 474 que me espantava -no sentido mais positivo dessa palavra aliás-, foi inevitável não lembrar do lema coletivo que abriu a fracassada “Primavera Brasileira” de junho de 2013 a respeito ao aumento das tarifas de ônibus: “É muito mais do que vinte centavos”. Diferente da população politizada e, pelo a que eu vi à época, privilegiada que foi às ruas em 2013, aqueles moleques suburbanos que pulavam janela adentro no coletivo tinham ao menos a coragem de já começarem a sua “manifestação” exigindo performaticamente no mínimo o valor integral da passagem. Foram os únicos que conseguiram implantar, goela-abaixo da sociedade, a “Tarifa Zero”. Os derrotados de 2013, que já perderam desde aqueles 20 centavos até e principalmente a democracia–vide o golpe em curso no Brasil- talvez tivessem de prestar mais atenção na “política bárbara” dos que dispõem de bem menos privilégios que eles para quiçá ter primaveras políticas menos invernais.

Quando, porém, o 474 no qual eu estava rumo à “feira dos paraíba”, já com uns 50 passageiros “ilegais”, deixou Copacabana e chegou ao bairro de Botafogo, o clima ficou mais tenso. Nos pontos de ônibus que se seguiram, alguns dos moleques desciam do veículo, roubavam bolsas e celulares das pessoas na rua, e voltavam com os objetos furtados para o 474, como se encontrassem ali o refúgio perfeito. E não é que era mesmo? Nem eu, nem os demais passageiros “legais”, nem tampouco o motorista do coletivo tínhamos coragem, ou sequer força para ir contra a molecada, que àquela altura, depois dos furtos, já podia ser chamada de “pivetada”. Um único olhar de repreensão para cima deles teve como resposta um marrento: “É isso mesmo! A gente rouba das ‘madame’ da Zona Sul sim. Tem que roubar de quem tem bastante. Porque a gente não tem nada por causa delas mesmo!” Afora a forma violenta com que enunciavam a sua impertinente redistribuição direta e forçada da riqueza social, eu não pude deixar de me comprazer com o fato de eles saberem muito bem, a ponto de dizerem em alto em bom tom, que a pobreza a que uns –eles-  são submetidos forçosamente vem justamente do excesso de riqueza de outros.

Meu comprazimento, contudo, durou pouco. Quando o ônibus deixou definitivamente a Zona Sul os pivetes começaram a circular por dentro do ônibus averiguando os demais passageiros e os seus pertences. Aí eu vi que eu seria a próxima “madama da Zona Sul” a ser roubada. Nisso, um senhor se aproximou de mim e de outros dois passageiros e disse: “Eu vou descer no próximo ponto. E, olha, se eu fosse vocês, desceria junto, porque a partir daqui eles vão “assaltar geral” no ônibus. Rapidamente eu escondi a minha carteira na cueca e desci com ele. Tive de interromper a minha viagem no meio. Depois de agradecer ao senhor, mas ainda bastante nervoso, perguntei retoricamente: “Por que o motorista permite que essa pivetada entre no ônibus e faça o que bem entende hein? O homem todavia respondeu: “Porque senão ele é morto assim que chega no Jacaré”. Insisti: “Mas então tinham de colocar pelo menos um policial dentro de cada ônibus desse para ao menos impedir que roubem os outros passageiros”. Ele cala a minha boca dizendo: “Seria morto igual”, pô!”

As duas mulheres que desembarcaram/fugiram conosco, apavoradas com o que tinha se passado, não pouparam críticas aos pivetes: “Tem que sumir com esses bandidinhos”; ou: “não dá para deixar que essa gente saia da favela mesmo”. A tensão na qual eu ainda me encontrava quase me levou a concordar com elas. Felizmente a minha razão falou mais alto. Ora, se “essa gente” das favelas chegou ao limite de tamanha e tão afrontosa violência contra “as gentes” dos bairros mais privilegiados é porque, antes de tudo, há muito tempo e muito drasticamente eles são marginalizados –e no âmbito da cidade deles, justamente pelas “gentes” da Zona Sul. Lembremos que um anos antes eles foram impedidos pelo governo de ir à praia para que as elites se banhassem longe da poluição da desigualdade que elas mesmas produzem. Se é porque já são marginalizados que eles se relacionam violentamente com quem os marginaliza, então, qualquer intenção de marginalizá-los ainda mais é apenas um maior e mais burro tiro no pé; e com calibre cada vez mais grosso.

Embora seja impossível resolver a tensão social que vive pujante do Rio de Janeiro -e que circula desmascaradamente pelo 474- na imediatez com a qual ela nos toca, há que se saber ao menos que a solução é bem mais complexa do que simplesmente criar mais barreiras físicas ou metafísicas, ou verticalizar as já existentes  entre as zonas ricas e pobres. A consciência dessa complexidade, e também a aceitação da minha impotência para destrinchá-la sozinho, no entanto, proporcionaram-me uma compreensão bastante simples; quase que uma saída de emergência segura e minimamente humana: não era eu, Rafael Silva, 43 anos, artesão e graduando em filosofia, a vítima objetiva da raiva daquela pivetada. O inimigo deles é tão abstrato como eles mesmos declararam: “as madama da Zona Sul”. Da minha parte, eu não queria condenar nenhum dos 50 moleques em específico, com o seu nome, idade e atividades. Se conhecesse mais intimamente cada um deles me solidarizaria com suas dificuldades e aspirações muito mais do que com qualquer “madama da Zona Sul”.

Na verdade, os nossos problemas objetivos, o meu e o deles, são, respectivamente: o reativo monstro periférico marginalizado, e a ativa besta burguesa marginalizante. O fulano de tal, sem camisa e descalço, que não pagou a passagem do ônibus e que quase me assaltou é o meu problema apenas abstratamente, por mais paradoxal que isso pareça. Da mesma forma, não sou eu, o cicrano Rafael, devidamente vestido, que pagou pela sua passagem e que ainda tinha na carteira o suficiente para ser assaltado o algoz concreto daqueles moleques. O problema real, que é o mesmo para mim e para eles, é o fato de os corpos sociais aos quais cada um de nós pertence distintamente serem demasiadamente antagônicos para formarem uma única sociedade sem que haja internamente tanta violência, ódio, medos e desejos de vingança. Só que a “Cidade Maravilhosa” parece não querer ter as suas partes rica e pobre costuradas. A não ser, claro, pelo alinhavo perigoso da linha 474.

E para piorar a situação, durante os jogos olímpicos prefeitura do Rio colocou dois moto-batedores da polícia, devidamente armados, escoltando cada ônibus 474 que circulava pela cidade. Tão triste quanto incompetente! Amenizar a desigualdade que produz a violência, não; circulá-la, todavia policiada, sim. Eis a “Cidade Partida” em sua sempiterna promenade caótica. O pior é que com uma medida dessas –em nada mais inteligente do que “limpar” preconceituosamente adolescentes suspeitos dos ônibus antes deles entrarem na Zona Sul-, longe de a criminalidade ser contida, o que temos é mais marginalização dos já marginalizados, só que agora pública e espetacularmente nos “bulevares” elitizados. Se já não faltava motivos para os pretos pobres da periferia se revoltarem cotidianamente com “as madama da Zona Sul”, o exclusivo policiamento da linha 474 durante a olimpíada, o momento mais cosmopolita da história do Rio, seja talvez a cereja que faltava no desigualíssimo bolo social carioca, não para adorná-lo, obviamente, mas para, ao modo da “gota que faltava”, levá-lo ao seu limite.

O barril de pólvora ambulante que é o ônibus 474 nos alerta para o perigo de tragédias como a do ônibus 174 ocorrida há exatos 16 anos, episódio já clássico da crônica policial carioca retratado no documentário “Ônibus 174”, de José Padilha, e na ficção “Última Parada 174”, de Bruno Barreto. O jovem Sandro Barbosa do Nascimento, jovem preto e pobre -que aos 8 presenciou o assassinato da mãe pela milícia, e que em seguida escapou de ser a nona criança moradora de rua friamente assassinada por policiais militares na famigerada “Chacina da Candelária” de 1993, no centro do Rio-, embarcou na linha 174, no aburguesado bairro do Jardim Botânico, com um revólver calibre 38 para comunicar, da forma que pôde, a sua revolta contra a sociedade desde sempre cruel com ele. Foi uma ópera social de cinco tensas horas nas quais Sandro fez dez passageiros reféns e, acidentalmente, por um erro da polícia diga-se de passagem, acabou matando uma refém com três tiros. Capturado, Sandro morreu de asfixia no porta-malas da viatura policial. Trágico acorde seco final. No entanto, seguido do mais paliativo Vaudeville.

Em vez de a sociedade carioca investir na solução da crise social que ela mesma é, em resposta à qual Sandro explodiu intempestivamente, apenas o nome da linha foi mudado. Enterrado com Sandro Nascimento e a sua vítima, o 174 passou a ser o novo 158. Apenas isso. E é precisamente essa paliatividade sistemática da sociedade carioca face ao seu maior problema que faz com que o atual 474-Jacaré seja o pré-174 da vez: o “locus móvel” e espetacular daquilo que a “Cidade Maravilhosa” tenta manter escondido em suas coxias urbanas. Intrigante é perceber que são nos ônibus que os espetáculos opacos da desigualdade carioca tendem a brilhar mais fortemente. Mas talvez isso seja o sintoma incontrolável das tentativas de se impedir que o lado pobre e indesejável da cidade circule pelo do lado rico.

No entanto, o fato de os pobres, com a sua violência reativa nos bolsos, passearem pelas praças ricas da Zona Sul ainda é um problema muito menor do que os ricos, com a sua violência ativa em todos os poros, fazerem de tudo para que aqueles não possam sequer ir à praias, e ainda por cima sustentando a pretensa democratização delas. Agora, o problema central, não nos esqueçamos, é a sistemática produção, em escala urbana aliás, de pobreza e desigualdade que, estas sim, pesam somente na conta dos ricos. Pelo andar da carroça carioca, quer dizer, pelo o ambiente gentrificatório & fascistóide que cresce e divide a cidade cada vez mais radicalmente, o 474 parece que seguirá conectando partes cada vez mais antagônicas de uma mesma cidade. Pelo menos até mais uma real tragédia explodir. Aí veremos se alguma coisa efetiva será feita ou se, como no caso do 174, apenas será mudado o nome do veículo do problema.

 

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