2015 e o seu sentido

O que é 2015? Tudo o que acontece nos 365 dias consecutivos entre 2014 e 2016? Concretamente, sim. O problema é que assim fica impossível falar o que é 2015, pois foram muitíssimos os acontecimentos, as interações, etc. Temos, então, de sair dessa densa cronologia e fazer como a História, buscar um sentido geral para os acontecimentos, e não a coleção indiscriminada deles. Fazer a história de um ano, entretanto, não fica muito distante da cronologia. Procuremos, na sequência dos principais acontecimentos de 2015, algum sentido histórico.

Pois bem, em 1º de janeiro de 2105, Dilma Rousseff tomou posse para o seu segundo mandato. Nem a presidenta, nem nós, imaginávamos o que ela enfrentaria ao longo deste ano. Devido à crise econômica que o ano anterior já anunciava, e ao quase empate com Aécio Neves nas eleições de 2014, o ano já começava exigindo atenção extrema. Porém, em 7 de janeiro, todos nos distraímos e voltamos nossas atenções ao atentado terrorista ao jornal Charlie Hebdo.

No final do mesmo mês, em 25 de janeiro, começa o maior folhetim político-econômico mundial do ano: a extrema-esquerda vence eleições na Grécia e, cinco dias depois, em 30 de junho, a Grécia já é o primeiro país desenvolvido a não pagar dívida com o FMI. Os próprios gregos, na sequência, em 5 de julho, decidiram, em plebiscito nacional, que não iriam pagar os seus credores internacionais. Duas semanas depois disso, em 13 de julho, ao contrário do que era de se esperar, os países do Euro chegaram a um acordo e não excluíram a Grécia do bloco e, o mais interessante, liberaram outro pacote de ajuda econômica ao país inadimplente.

Outros países do mundo também vão mal das pernas. E alguns, inclusive, mal das ideias… Em 24 de março, o avião da alemã Germanwings foi jogado contra os Alpes franceses pelo copiloto da aeronave. Andreas Lubitz, de quem foi dito ter problemas psicológicos. Cinco minutos depois de anunciado o acidente-atentado, a polícia já estava na casa do copiloto em busca de provas para chegar à patética resolução de que ele não era normal. De perto, alguém é? Todavia, provaram que não é a humanidade que é insana, mas somente Lubitz e malucos como ele.

Tanta coisa acontecendo no ano, e os brasileiros que estavam descontentes coma vitória de Dilma, encontraram somente em 15 de março, um domingo ensolarado, espaço na agenda anual para fazerem os seus protestos pedindo reformas, a volta da ditadura militar, o fim da corrupção e do Governo Dilma.

Sobremaneira, a tecnologia e a futilidade humanas supera qualquer crise ou tragédia humanas. Em 3 de maio, foi propagandeado o primeiro café expresso feito e consumido no espaço. A astronauta Samantha, enquanto sorvia a cafeína intergaláctica, escreveu no seu twitter: “Espresso fresquinho na gravidade zero!” Beijinho no ombro para a realidade mundana. Enquanto isso, no Brasil e no mundo, gravidade extrema!

E para ficar pior para a Terra, em 23 de julho foi descoberto o exoplaneta Kepler-452b, a uma distância de 1400 anos luz de nós, com condições de suportar a vida. No final do mês, em 31 de julho, as atenções se voltaram ainda mais para o espaço com o fenômeno da Lua Azul. Ah, e no final do ano tivemos a Lua de Sangue, lembram? Com a cabeça no espaço!

No oligárquico chão brasileiro, enquanto isso, em 6 de agosto, o país parou para vaias, gritos e para o argumento político mais idiota já inventado até hoje: o “panelaço”. Durante um programa eleitoral do PT em rede nacional de rádio e televisão, a burguesia pegou nas panelas e argumentou ruidosamente com a mesma consistência de sempre. Pobres burgueses…

Mas eles tentam! A histeria, por exemplo, sintoma burguês clássico, quase chegou ao seu fim com o Viagra feminino. Mas a ilusão durou pouco. Em 16 de agosto finalizaram-se os testes, para, em 20 do mesmo mês, o medicamento já estar nas drogarias. Porém, pesquisas independentes apontaram falha do medicamento, e em 17 de outubro, foi anunciado o abandono do Viagra feminino. A burguesia, pobrezinha, não se livrou totalmente de si mesma. Ainda…

Dos proletários, em troca, ela se livra facilmente. Tal é a onda migratória que em 2015 inteiro levará mais de um milhão de migrantes e refugiados à Europa. Alan, o menino curdo encontrado morto na praia turca em 2 de setembro de 2015, é o grande ícone dessa movimentação populacional épica que fazia séculos o mundo não via.

Problemas terráqueos, como a Rússia bombardeando o Estado Islâmico em 28 de setembro, exigem distrações celestes! Então, no mesmo dia, a Nasa anuncia a descoberta de água líquida no planeta Marte, e alguns dias depois, em 8 de outubro, que foi encontrada água congelada e céu azul em Plutão. Ah, Universo: doce alienação dos terráqueos!

Alguém lembra do meme facebbokiano do vestido ‘azul e preto’ ou ‘verde e dourado’, ou o que deixou de pensar porque estava pensando nele? Ou no que pensou para não mais pensar que, em 10 de outubro, ocorreu o mais mortífero atentado terrorista da Turquia; que, no dia 23 de outubro, o Furação Patrícia, o mais forte história, destruiu costa mexicana; ou ainda que, em 5 de novembro, aconteceu o maior desastre ambiental da história brasileira, o rompimento de barragens de mineração em Mariana, Minas Gerais?

A terra aterroriza. Aterroriza-se consigo mesma. E em 13 de novembro, mais terror: os atentados em Paris, em retaliação a ataques franceses na Síria, realizados pelo Estado Islâmico em locais simbólicos da cultura e da sociedade parisiense. A França declara guerra ao terror. Como se não bastasse, em 24 de novembro, nas manobras da guerra civil síria, a Turquia derruba um avião russo. Às portas da Terceira Guerra Mundial?

No Brasil, muito! Em 2 de dezembro, foi finalmente recebido, por Eduardo Cunha, contra quem pesam inúmeros ilícitos já aclarados, o projeto peemedebista e peessedebista do impeachment de Dilma, contra quem, é preciso ressaltar, nenhum crime foi comprovado. A razão entrou em guerra mundial? Ficou sem palavras! Sim!, Tanto, que em 21 de dezembro o próprio Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, incendiou.

E como se não fosse restar amanhã, 2015 já fez o museu para ele. Em 17 de dezembro, foi inaugurado o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, senão para que a Rede Globo, “a” parceira da prefeitura carioca no projeto, possa hospedar com exclusividade o amanhã, já que está sendo cada vez mais difícil de contar com ele hoje.

De qualquer forma, o melhor acontecimento do ano, foi a Rede Globo tendo de noticiar, ao vivo e em cadeia nacional, e na finaleira do ano, dia 30 de dezembro, que Aécio Neves foi citado em delação premiada por ter recebido 300 mil Reais em propina. William Bonner, obviamente, não deu essa notícia. Férias? Ora, se fosse para apresentar uma denúncia ou uma condenação de Lula ou de Dilma, Bonner viria da Ilha de Caras onde estivesse com o seu sorriso oligárquico-menor-amarelo.

Qual, então, o sentido da cronologia de 2015? Seguramente e proximamente: 2016, 2017, o futuro. Porém, essa é a resposta mais abstrata que poderia ser dada. Em direção à concretude, o sentido de 2015 foi a complexificação da já hipercomplexa sociedade globalizada contemporânea.

Agora, sendo bastante concreto, em termos materiais-econômicos mesmo, o que aconteceu foi que alguns poucos países, bancos e pessoas enriqueceram, enquanto a maioria dos países, e das pessoas – não os bancos, obviamente – empobreceram. Essa dinâmica econômica, no entanto, não é exclusividade de 2105. Não cabe, portanto, buscar saber o que é 2015 em coisas que os outros anos também são ou têm.

Se, concretamente, 2105 é “tudo” o que houve entre 2014 e 2016, e não o que houve em 2014, 2016, nem em qualquer outro ano da história, para sabermos o que 2015 é, o que tem de exclusivo que o definirá adequadamente, é preciso aguardar não somente que 2016 seja, mas que um punhado de décadas ou séculos também sejam, pois aí teremos o distanciamento histórico fundamental para a concepção de um sentido para a populosa cronologia de 2015.

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