Ética de chocolate – uma dietética

Os chocólatras me perdoem, mas não é exatamente de chocolate que falaremos, mas daquilo que parece ser o mais importante, e sobretudo necessário para o nosso mundo: ética, o conjunto de hábitos e ações que visam o bem comum de uma sociedade. Para os gregos antigos, “ethos”, que originou a palavra “ética”, significava a morada do homem, ou seja, a natureza com o homem dentro dela, vivendo, evoluindo, ao modo de ser um homem melhor, senão para que a natureza e a humanidade juntas sejam ainda melhores. Porém, a situação crítica na qual a humanidade está colocando a natureza, e a si mesmo por tabela, mostra que ética é o que mais anda faltando. Como restaurá-la?

A destruição da natureza e a contemporânea dependência humana por aparelhos eletrônicos, só para citar dois males generalizados, por não trazerem o bem comum, pelo contrário, resultarem em males particulares generalizados, outra coisa não são senão formas de sermos antiéticos sem nos darmos conta disso, uma vez que nos desvirtuam de nossa inalienável morada e de nossa humanidade, as destroem até. E, se o homem, como se diz, colhe o que planta, é importante prestarmos atenção ao que hoje semeamos, principalmente nas nossas crianças, pois disso depende a lavoura ética futura.

Os filmes de bangue-bangue, que levavam multidões aos cinemas no século passado, deixaram para as crianças não só o gosto pelo cinema, mas também por armas de fogo. Qual menino já não desejou “brincar de revolver”? Todavia, depois que passou a ser politicamente incorreto dar revolveres de brinquedo às crianças, seguiu se desenrolando subterraneamente dentro delas o gosto por matar, ainda que se trate apenas de brincadeira. E não só as crianças! Atualmente, os EUA, e inclusive o Brasil não conseguem se livrar dessa dependência em relação às armas de fogo, como se as vidas das pessoas dependessem de uma arma, como se a “morada do homem” se tornasse inabitável sem um revolver por perto. E por acaso os justiceiros-linchadores que vemos nas nossas cidades atualmente não são adultos que brincam de “justiça” ao modo “Faroeste”, como provavelmente faziam quando eram crianças?

Há pelo menos três décadas, fumar cigarros era considerado chique, virtuoso, sendo uma atividade tão aceita, socializadora, quanto hoje ainda é consumir bebidas alcoólicas nas interações sociais cotidianas. Entretanto, essa mania tabagista não ficava restrita aos adultos. Muitos pais compravam para as suas crianças os famigerados cigarrinhos de chocolate, cujas embalagens imitavam tal qual os cigarros de verdade, com filtro amarelo inclusive, para que elas também pudessem brincar de “ser pessoa chique, virtuosa”.O preço dessa brincadeira, contudo, foi o inadvertido plantio, nessas crianças, de uma semente cujo fruto posterior foi senão uma forte afetividade e dependência em relação ao fumo, da qual essa geração, que cresceu inocentemente brincando com cigarros – e vendo os adultos brincarem -, dificilmente consegue se livrar.

Outro exemplo parecido foram os insuportáveis, e por que não dizer desnecessários “Tamagotchi”, que, na metade dos anos 1990, fizeram com que uma geração inteira de crianças desenvolvesse uma inédita e intensa afetividade por aparelhos eletrônicos. Hoje em dia, vendo a centralidade dos “smartphones” e “tablets” nas vidas das pessoas, a angústia que elas sofrem quando os seus iPhones são roubados, caem no chão, ou ficam alguns minutos se conexão com a internet, podemos ter certeza de que, há duas décadas, os adultos por trás dos “Tamagotchi” plantaram a semente certa para que hoje fôssemos demasiados apaixonados por quinquilharias à base de silício e código binário, e consequentemente, assaz obesos e sedentários.

Então, se, de fato, aquilo que os adultos dão para as suas crianças brincarem, além de um inocente passatempo, são germes que crescem e que amadurecem alienados de qualquer controle permanecendo com elas vida afora, mantendo-as, pulsional e inconscientemente, dentro da mesma brincadeira, não seria interessante tornarmos brinquedo justamente coisas de que a humanidade desde sempre precisou, e que portanto nunca deixará de precisar, isto é, de uma forma virtuosa de habitar a sua morada inalienável, qual seja, a natureza? Se sim, estamos no caminho certo em manter proibidos os cigarros de chocolate e as armas de brinquedo. Entretanto, em respeito aos eletrônicos não há proibição, muito pelo contrário, cada vez mais ensinamos às crianças que eles são “a luz, o caminho e a salvação”. E diante dessa inadvertida docência digital padece a natureza, e também nós dentro dela.

Porém, para que a morada do homem seja habitável, não basta proibir a semeadura de coisas que não queremos ver germinadas futuramente. Somente isso é paliativo. Em troca, é necessário o plantio daquilo de que a humanidade mais precisa colher futuramente. Novamente: um conjunto de hábitos e ações que visem o bem comum da sociedade humana. Isto é: ética! Portanto, em vez de armas de brinquedo, de cigarros de chocolate, ou de Tamagotchi-iPhones, deveríamos dar ética para as nossas crianças brincarem. Se, com efeito, elas não deixam as suas brincadeiras para trás, mas, em troca, as levam consigo vida afora, que brinquedo sublimado seria melhor que um que tornasse a única morada do homem um lugar mais apropriado para se morar?

Não obstante, o desafio é encontrar uma forma de fazer com que a mui necessária ética não seja coisa de adulto apenas. A ética, para ser carregada pelas crianças ao longo de suas vidas, deve poder ser brincável, passível de ser dada a qualquer um, de qualquer idade, sem contraindicação. Melhor ainda se conseguíssemos fazê-la de chocolate, como os cigarrinhos de brinquedo. Uma dietética! Com uma “ética de chocolate”, ao mesmo tempo instruiríamos e entreteríamos as nossas crianças; faríamos com que elas consumissem ética desde cedo, se nutrissem dela.

Claro, pode ser dito que chocolate engorda, que “hipertensiona” a morada imediata do homem, isto é, o seu corpo, que então seria melhor uma ética de chocolate diet – uma ‘diet-ética’? Mas isso é tão absurdo quanto a absurdidade da qual devemos nos livrar. Todavia, em resposta, o conceito grego de “pharmakon”: veneno é remédio são a mesma coisa, o que importa é a dose.Portanto, uma ética de chocolate, ou qualquer outra que fosse irresistível às crianças, seria o melhor brinquedo que poderíamos dar a elas. Passariam o tempo e gastariam a inesgotável energia que têm justamente com aquilo que faria da morada delas, hoje em dia poluída, violenta e individualista, uma morada futura um tanto melhor.

Ora, não dá para seguir “plantando antiética” nos quatro cantos do mundo e esperar que desse chão lixiviado e desrespeitado nasça uma verdejante hera milagrosa, de onde a indústria farmacêutica extrairá uma essência ética puríssima, concentrada e para ser vendida em forma de comprimidos -obviamente a preços nada acessíveis. Como, então, fazer com que a ética seja objeto para as crianças, para que, brincando desde cedo com ela, elas tenham uma melhor morada futura, com a humanidade e a natureza existindo harmoniosamente e, consequentemente, resultando em uma morada melhor para todos? Bom mesmo é se conseguíssemos fazer com que a ética tivesse gosto de chocolate, aí ninguém resistiria a ela!

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