#primeiroassedio

Primeiramente, parabéns às mulheres que aderiram ativamente à hashtag da hora, compartilhando publicamente os assédios-abusos que sofreram. Abusos, sobretudo os sexuais, devem ser denunciados mesmo, principalmente para que os abusadores não permaneçam protegidos justamente pelos traumas que causam. Em segundo lugar, em respeito à justa solicitação de algumas das mulheres engajadas na #primeiroassedio para que os homens confessem, outrossim publicamente, ao menos uma vez em que assediaram uma mulher, peço permissão para, antes, compartilhar um assedio que eu sofri, e, ademais, de uma mulher.

Talvez pelo fato de eu ser homem, devo confessar, – mesmo que isso me custe muita repreensão e pouca compreensão – que o meu #primeiroassedio fez de mim uma pessoa um tanto melhor, muito embora, na ocasião, eu tenha me sentido bastante desconfortável. Talvez também por eu ser homem, até aqui nunca tinha visto necessidade de falar do meu #primeiroassedio publicamente, mas só na intimidade de uma boa amizade ou nalguma sessão psicanalítica privada. Porém, a revolucionária iniciativa de muitas das mulheres me incitou a fazer o mesmo. Quanto mais não seja, porque percebo que homens e mulheres podem ser tanto vítimas de abuso quanto abusadores sexuais.

Pois bem, eu tinha então seis anos de idade e estava de férias na casa de praia do meu tio-avô Teobaldo, em Cidreira, Rio Grande do Sul. Uma neta desse meu tio-avô, uns dez anos mais velha que eu, e prima distante que eu acabara de conhecer, convidou-me para subir na cama mais alta de um beliche triplo de um quarto de hóspedes ajambrado num dos cantos da imensa cozinha da casa. O quarto sequer era isolado; apenas separado da cozinha por uma divisória de madeira que não chegava ao teto. Sentados na cama mais alta do beliche podíamos ver os adultos sentados à mesa, conversando.

Nesse leito semiprivado, a minha quase-prima puxou a sua bermudinha para o lado e me mostrou a sua “perereca”. Eu, que até ali só havia visto a da minha mãe, achei interessante a diferença entre as duas “pererecas”, sobretudo a ausência de pelos desta que a mim se exibia. Para mim, a “brincadeira” bem poderia ter ficado por aí. Entretanto, a menina pegou a minha mão e a colocou sobre a sua “perereca”, pedindo para que eu “fizesse carinho” nela. Para a criança que eu era, ou quem sabe para todo garotinho, a vagina remete demasiadamente à figura da própria mãe. Portanto, tocar na “perereca” da minha semiprima foi como tocar na da minha mãe, coisa que me deixou extremamente desconfortável.

Percebendo o meu desconforto, e excitada justamente por ele, a garota sussurrou que se eu tirasse a minha mão “dali” ela gritaria para os adultos logo a baixo de nós, do outro lado da divisória. Como eu já sentia que fazíamos algo, digamos, errado ou proibido – difícil saber exatamente -, cedi à sua ameaça. Eu estava sendo obrigado a acariciar a sua vagina. Então, ela disse para eu mostrar o meu “tico”. Olhei fundo nos olhos dela, atônito, e enquanto olhava fundo nos meus, ela baixou o meu calção e pegou no meu “tico”, que já estava “duro”, menos por excitação sexual do que por desconforto, porquanto, para um garotinho – e até mesmo para um adolescente – a ereção vem inclusive quando sentimos vergonha, timidez, ou qualquer sensação de inadequação.

Ela começou a me masturbar, coisa que eu nem sabia que existia. Também me obrigou a masturbá-la, forçando a minha mão sobre a sua “perereca”. O desconforto que eu experimentava, sobretudo em relação à vergonha que eu sentiria caso fosse descoberto pelos adultos fazendo “aquilo”, foi se misturando a um prazer estranho, inédito, até que eu, digamos, gozei. Esse proto-orgasmo foi suficiente para me convencer de que eu não precisava mais deixar o meu “tico” na mão dela nem a sua “perereca” na minha. Desci as escadas do beliche correndo, duplamente aliviado e fui me refugiar à mesa, com os adultos.

A garota, veio atrás de mim, sentou-se ao meu lado, e, sob a toalha da mesa, recolocou a sua mão dentro da minha bermuda. Se isso já havia me deixado desconfortável lá no beliche, agora, ao lado dos adultos, o desconforto era ainda maior. Maior e mais ameaçador também era o olhar da garota. Novamente, saltei da mesa e corri para a rua, para fugir dela. Para o meu desespero, ela me seguiu. E assim foi durante os cinco dias em que estive na casa de praia do tio Teobaldo: eu, fugindo do assédio sexual da minha quase-prima, e ela, insistindo em tocar no meu “tico” e para que eu tocasse na sua “perereca”. Na manhã do meu último dia lá, acordei com ela em pé, ao lado da minha cama, acariciando o meu pau.

Eu não queria aquilo, achava que era errado ela fazê-lo, mas, não sei por que, sentia que deveria manter segredo a respeito. Vergonha? De quê? De ter sido abusado ou de não ter tido coragem de denunciar imediatamente a minha abusadora? Para mim, pior era esse último. Agora, com todo respeito às mulheres, que, não é difícil observar, por serem mulheres nessa nossa sociedade assaz machista são bem mais expostas ao desrespeito sexual do que os homens, pergunto: nessas ocasiões, o que é pior, o abuso em si ou o fato de não poder externar a indignação em relação a um abuso no momento em que ele ocorre, da forma avassaladora com que ele se apresenta para quem é abusado?

Claro, pode ser dito, justamente, que pior é os dois juntos! O fato de que, para mim, pior foi a incapacidade ou a impossibilidade de ter denunciado o abuso assim que ele ocorreu, e não tanto o de ter sido abusado, decorre provavelmente de eu ser homem, e, como disse antes, até ter “gozado” no meio do abuso que (penso que) sofri. No entanto, por mais que o assédio da menina em questão tivesse me causado grande desconforto, o mundo ao meu redor, no qual vivo até hoje, não me obrigou a classificar o ocorrido como um trauma, mas apenas como o – não tão confortável – primeiro episódio da minha vida sexual.

Não que eu tenha, depois disso, passado a abusar sexualmente das mulheres – nem dos homens. Auto lá! O que ficou simbolizado para mim, entretanto, é que as abordagens sexuais, seja uma desrespeitosa mão-boba aqui, seja um cortês convite para ópera seguido de um jantar romântico acolá, são sempre pretextos para se tocar na “perereca” ou no “tico” de determinada pessoa; de ter as nossas “pererecas” ou os nosso “ticos” tocados por alguém, ou tudo isso junto ao mesmo tempo.

A diferença, é claro, está em que um convite cortês pode ser recusado, e uma mão-boba, ou o que é pior, um estupro, não. Não obstante, a pretensa pertinência do meu relato, e a inquestionável pertinência da #primeiroassedio, é evidenciar que sofrer assédio sexual são coisas bem diferentes para um homem e para uma mulher. Aquele, sem muita dificuldade, converte uma experiência sexual abusiva em combustível para o motor falocentrista que ainda – e infelizmente! – move a nossa sociedade. Já a mulher, ao contrário, de certo modo é obrigada a conviver angustiosamente com uma irrecuperável rachadura na sua autoestima. A injustiça-mor a ser desfeita, todavia, é que as rachaduras traumáticas de muitas mulheres são, ao mesmo tempo, o combustível estimulante de muitos homens abusadores.

Se em vez de confessar um assedio que eu porventura tenha cometido contra uma mulher eu preferi, aqui, compartilhar o meu #primeiroassedio – cometido justamente por uma mulher, ainda que bem jovem – não foi para me eximir de me solidarizar com a justa causa delas. Muito pelo contrário, foi para mostrar que ninguém está livre de sofrer abuso, seja homem ou mulher, seja por um homem ou por uma mulher. Todavia, a minha maior solidariedade está em confessar que, pelo fato de ser homem, o abuso que eu sofri não machucou tanto quanto se eu fosse uma menina, uma mulher. Pergunto, então: qual o tamanho da injustiça que resiste nesse estranho privilégio que os homens ainda desfrutam em se tratando de abuso sexual?

Se, até aqui, como pediram algumas mulheres, eu não confessei uma situação na qual tenha assediado uma mulher, abusado de uma, é porque, realmente e felizmente, eu não tenho o que confessar nesse sentido. Para o bem, o meu #primeiroassedio me colocou, desde o princípio, em confronto com o desconforto que é ser assediado por alguém – no caso, do sexo oposto – sem poder denunciar tal assédio, impedi-lo. O fruto virtuoso do meu #primeiroassedio, que desde então acompanha as minhas investidas sexuais, é o sempiterno desejo de que as pessoas que eu quero que toquem no meu “tico”, ou as quais eu quero tocar, seja nos seus “ticos”, seja nas suas pererecas”, o façam exclusivamente porque assim o desejam, e não por que se sentem obrigadas, constrangidas, assediadas.

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