Das roupas dos mundos à Roupa do Mundo

Cada “mundo” tinha as suas roupas, ou, o que é o mesmo, cada roupa tinha o “seu mundo”. Entretanto, depois que os diversos “mundos” foram globalizados em um, as roupas tiveram de se despir de suas particularidades para então vestirem homogeneamente os homens do único mundo – digamos, “pasteurizado” – que restou.

Doravante, a calça jeans e a camiseta branca, o terno ou o tailleur Armani pretos, são uniformes universais que nos autorizam circular em qualquer “mundo” sem corrermos o risco cometer uma gafe. Aliás, quanto mais “neutra” a vestimenta, mais do mundo se é. Em troca, uma saia de penas ou um Niqab, por exemplo, apenas deslocam os seus usuários do “mundão” diretamente para o “mundinho” de onde tal hábito veio. Melhor para o mundo globalizado é que um morador de Nova Iorque e um de Mumbai usem as mesmas roupas.

Entre seus significados, “hábito”, mas também “costume”, significam “roupa”. Hábitos e costumes enquanto roupas outras coisas não são senão as expressões dos hábitos e dos costumes de determinadas gentes, lugares e épocas. As Chola e os Bombín andinos, os Kaftan africanos, os Quimonos japoneses, são a habituação, a “costumização” mais verdadeira da vida dos Andes, da África e do Japão, respectivamente.

Mesmo as rudimentares capas feitas com pele de animal usadas pelos homens das cavernas; as togas de puro linho dos antigos gregos; as alfaiatadas calças ¾ com meias de seda dos cortesões europeus; todas elas são as verdades vestidas e vestíveis de suas gentes, lugares e tempos.

Entretanto, em um mundo habitado por um único tipo de homem – moderna e estrategicamente construído -, onde todos os lugares são e devem ser um só – o mundo global -, e no qual o tempo a ser considerado é apenas o do capital, verdades peculiares, ou seja, étnicas, locais e extemporâneas, não devem mais ser vestidas, sob a pena de se ser destacado desse mesmo mundo.

Esquece-se, contudo, de que a verdade de uma roupa também é tecnológica. A túnica árabe, por exemplo, é a melhor veste para se despir do calor desértico. Quem não se espanta ao ler que a corte portuguesa não abriu mão de suas perucas e casacas invernais mesmo no calor tropical do Rio de Janeiro? Não estaríamos nós repetindo o fiasco lusitano ao vestirmos as mesmas roupas nos quatro cantos do mundo?

Por que o tênis deve seguir substituindo a sandália nos lugares quentes e ventilados? Ou os ternos cinzas dos executivos mexicanos os coloridos trajes típicos desse país? Certamente não é para vestir “o lugar” no qual se está ou do qual se é que são usadas as roupas feitas para serem usadas em qualquer lugar. O preço disso, contudo, é a inadequação, digamos, a mesma da corte portuguesa no Brasil.

A pressuposta adequação das nossas roupas genéricas é uma fantasia: esconde que elas, no mais das vezes, são inadequadas enquanto roupas. Talvez a única pertinência delas mesmo seja o engajamento ao projeto de mundo global que todos compartilhamos, queiramos ou não.

Absolutamente adequado, em troca, seria, no calor infernal nos vestirmos como os beduínos; no frio extremo, como os esquimós; sob a cancerígena radiação solar, em vez de camadas de “Sundown”, algumas camadas de linho, como os árabes sempre fizeram; e para um simples banho de mar, no lugar de roupas de banho de grife, a sempiterna nudez indígena.

Embora o homem seja o único animal da natureza a vestir, com roupas, a sua nudez natural, não devemos chegar ao extremo de impor a ele um único tipo de roupa. Esse é apenas o vil projeto moderno-contemporâneo. Ademais, é bom não nos esquecermos de que essa coisa chamada “o homem” é uma abstração; que, concretamente, existem apenas homens, mulheres e crianças particulares, cujas particularidades advêm senão deles mesmos, de seus lugares e tempos, e que também devem ser vestidas, vestíveis.

A verdade do “costume” de um povo não cabe, tampouco deve caber na pretensão comercial&universal de uma adidas ou de uma C&A, por exemplo. Os muitos e diferentes hábitos com que os homens se vestiram até aqui têm uma verdade que deve ser recuperada, reciclada. Pois, do contrário, findaremos uniformizados, não de animais vestidos, mas de homens universais de lugar nenhum.

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