Tato atento

Em geral, os showrooms são feitos para que as pessoas vejam mercadorias, para que consumam ou não aquilo que veem. Em tais lugares-eventos, portanto, olha-se muito. Todavia, vê-se pouco. Na verdade, compra-se mais do que se vê. De um ponto de vista estritamente comercial, isso de forma alguma é um problema. Aliás, se as pessoas passassem a ver muito bem, poderiam enxergar que sequer precisam da maioria das coisas que compram. O consumismo, estrategicamente, requer um tanto de cegueira!

Eu montei um showroom para lançar a minha grife de roupas voltadas para o mundo da dança contemporânea, em um badalado seminário dedicado a essa arte, para que as pessoas pudessem apreciar as minhas criações, quiçá comprá-las. Entrementes, como não podia deixar de ser e, a “dinâmica showroom” se repetiu. As pessoas em geral olhavam mais do que viam. Passavam rapidamente de um cabide a outro, apressadas, como se estivessem deslizando as contas de um ábaco, apenas olhando, sem se deterem por muito tempo em cada uma das peças, até que alguma das roupas lhes chamavam atenção. Só então elas diziam: eu gostei dessa, vou comprar!

Em relação a isso, a minha “empresa” nada tinha a reclamar, ainda que, particularmente, eu achasse que meus consumidores deveriam ver melhor o que olhavam. Mas não era o que acontecia. Elas pareciam propositalmente afoitas em relação àquilo que olhavam, como se, antes, quisessem ser vistas por tais coisas, encaradas por elas, para só então as verem, própria e generosamente. Quando esse curto-circuito visual se fechava, voilá!, elas compravam.

Entretanto, no final do dia, um pouco antes de eu fechar o showroom, uma interação diferente com as minhas mercadorias aconteceu. Uma garota cega se aproximou da arara de roupas perguntando o que havia ali. Eu lhe expliquei do que se tratava. Ela pediu , literalmente, para “ver as roupas”. Eu disse que as peças estavam a dois passos dela. Tateando o ar, ela encontrou as roupas penduradas nos cabides.

Então, ela passou a examinar, com seus dedos, cada uma das peças, seus formatos, os tecidos de que eram feitas, as costuras, os aviamentos, demorando-se em cada uma delas o tempo necessário para que todos os detalhes fossem, digamos, “vistos” – ainda que a visão fosse a única sensibilidade de que ela era privada. Quando alguma peça lhe chamava atenção, ela voltava às que já tinha examinado anteriormente, como se quisesse entender a relação que as diferentes roupas tinham entre si; se formavam um conjunto harmônico; se os tecidos – não as cores, obviamente, mas as texturas – conversavam, e como.

Para a minha surpresa e delícia, a garota cega foi a única pessoa que circulou pelo meu showroom que realmente pareceu ver as minhas roupas como eu desejava. Mais ainda, tive certeza de que ela fez mais do que ver, e decerto muito mais do que simplesmente olhar para as minhas criações. Ela, na verdade, fruiu o meu trabalho como eu sempre achei que ele merecia. Fiquei certo de que nenhum detalhe passou despercebido para ela, com larga vantagem inclusive.

Entretanto, o revolucionário para mim da fruição do meu trabalho pela garota em questão foi que eu, pela primeira vez, vi as minhas roupas serem apreciadas sem serem propriamente vistas. Não que as pessoas videntes também não fruam as roupas por meio do tato. Entretanto, para quem vê, todas as demais sensibilidades estão acompanhadas de, no mínimo, uma imagem visual subsidiária. Pior ainda, substitutiva. A garota cega, em troca, dispensava tal subsídio. Seu tato atento era o substituto excelente do seu olhar, porque liberto deste.

Observar a sua fina análise tátil dos pormenores do meu trabalho evidenciou, para mim, o universo sensível que existe nos muitos detalhes que eu, pelo fato de ver, acabo deixando de enxergar. A minha sensibilização foi tamanha que, enquanto ela estava no meu showroom, eu não conseguia dar atenção a mais ninguém. Com efeito, eu estava hipnotizado pelos dedos dela, por onde eles estavam, pelo que e como faziam. Na verdade, eu tentava sentir o que ela poderia estar sentindo. Não obstante, a realidade tátil que eu tentava experienciar não provinha dos meus próprios dedos, mas do tatear dela. Mesmo ali eu repetia o pecado de todo vidente, isto é: achar que as demais sensibilidades podem ser reduzidas à visão.

Entretanto, diferente das demais pessoas, que somente ao “serem vistas” pelas coisas para as quais olham é que as veem de verdade, para só então quererem comprá-las, a garota cega, ao contrário, iniciando o seu “olhar”, todavia tátil, já na forma de uma espécie de “visão” profunda, e ademais demorando-se sem pressa nessa observação, ao terminar de “ver”, nada comprou. Simplesmente balbuciou um elogio às roupas como que querendo saber onde eu estava. Eu, que não me afastei dela um minuto sequer, reapresentei-me sonoramente. Dessa vez o seu elogio foi claro e direto.

A pessoa que melhor realizou o objetivo do meu showroom, que mais “viu” o que estava sendo mostrado, foi justamente uma que que nada comprou. Entretanto, foi a que mais me fez lucrar, pois, depois dela, eu terminei enriquecido de tudo aquilo que, pelo dom da visão, eu havia deixado de ver naquilo que eu mesmo faço. Precisamente, tudo o que há para ser fruído nas coisas, mas que, subjugado pelo império da visão, passa a não ser mais visto.

O fato de as pessoas em geral olharem afoitamente para as coisas, para somente depois vê-las de fato, é o intervalo no qual o mais abjeto consumismo penetra subversivamente. E disso são feitos os showrooms. Agora, aqueles que como a garota cega já começam “vendo” profundamente as coisas, tem nessa “visão” mesma o objeto final do seu consumo. Diante dessa relação, digamos, mais autêntica com as coisas a serem vistas, o consumismo comercial tem menos lugar. Aquela garota me mostrou que quando vemos bem as coisas para as quais olhamos, com efeito, não precisamos comprá-las, pois essa visão mesma já é o consumo, decerto, mais que suficiente.

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Um comentário sobre “Tato atento

  1. Bem, não sou deficiente visual, mas sou calorenta 😀 Sendo assim quando gosto de uma blusa ou um vestido eu passo o avesso do pano no meu braço, se penicar não compro.

    E olho atento e já direcionado ao que possa me servi. É que sou um tanto prática!

    Agora, linda essa experiência sua a com a pessoa em questão!

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