Como temos Estado?

Depois da “season” padrão FIFA, na qual terminamos sem a taça, caímos noutra, só que em direção às urnas. Esta, no entanto, é uma temporada padrão BRASIL, e que depende diretamente de algo tão abstrato quanto concreto, isto é, do brasileiro. Diante da apatia em relação aos nossos partidos e candidatos, bem como da massiva intenção de votos em brancos e nulos nas próximas eleições, é de se perguntar se o brasileiro enquanto eleitor tem o padrão necessário para recuperar o troféu que nunca deixou de ser seu, a saber, o seu Estado.

Na obra “A República”, escrita no século IV a.C., Platão relaciona inextricavelmente cidadãos e nação afirmando que “As virtudes do Estado e as dos indivíduos são as mesmas”. Para os mais pessimistas a paráfrase adequada é: os defeitos do Estado e os dos seus indivíduos também se igualam. Isso para visualizarmos que a ficcional distância que estabelecemos entre cada um de nós e o país no qual vivemos serve, oportunamente, para fugirmos de uma responsabilidade que é somente nossa, ou seja, a de sermos o Brasil que só é através de nós; porquanto, segundo o filósofo grego, “As qualidades do Estado significam as qualidades dos indivíduos que a compõem”.

Todavia, a segregação maniqueísta do Brasil entre vítimas e corruptores, o que em termos de “vem-pra-rua-vem” significa cidadãos não representados e governantes não representantes, esconde o verdadeiro e angusto fato de que #somostodos, todos nós, não representados e não representantes a um só tempo. Nós e os nossos políticos somos feitos da mesma matéria e viemos do mesmíssimo lugar: eles são nós e nós somos eles. “Não há Estado que não o nosso próprio”, disse Platão; e de acordo com a definição kantiana, “o Estado é a ‘coisa pública”; por conseguinte, no Estado brasileiro, essas ‘coisas públicas’ somos todos nós!

São as disposições e capacidades individuais de cada brasileiro, ou seja, o estado pessoal de cada um, que, junto ao de todos os outros, resultam no nosso Estado. Oxalá fossemos vítimas de algo que não de nós mesmos! Contudo, “O homem é tão ruim quanto seus estados”, afirmou Platão; portanto, um Estado é tão ruim quanto os estados dos seus homens. Para o Black Block em estado de vandalismo, vândalo é o Estado; já para a célebre Elite Branca em estado de indignação, o Estado é indigno

O Estado brasileiro é, sintomaticamente, a predicação do estado em que se encontra cada cidadão no exato momento dessa predicação. Logo, para o Brasil ser um Estado melhor, melhor deve ser o estado que cada brasileiro propõem a si mesmo. Um Estado ideal, por conseguinte, exige cidadãos ideais. A que distância nós estamos disso? ”Pode a realidade atingir o ideal?”, pergunta-nos Platão; “A natureza não permite às palavras serem totalmente realizadas; mas possibilitam mudanças na presente constituição dos Estados”, indica-nos Sócrates.

No Estado ideal, segundo Platão, “Cada parte da alma individual, isto é, razão e paixão, serão harmonizadas sob influência de música e ginástica”. Se ele soubesse que o Brasil é o país do samba e do futebol diria que já temos tudo para ganharmos o jogo. No entanto, depois do inexpressivo “vaudeville” da abertura da Copa brasileira e dos vexames que sofremos em campo, resta-nos buscar a harmonia platônica e o Estado ideal nos nossos estados políticos individuais. Impossível? “O ideal deve sempre ser paradoxal quando comparado com as condições comuns da vida humana”, consola-nos Platão.

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