Sete bilhões de meteoros

Extinções em massa, até hoje, sempre tiveram causas naturais. A última delas, cujo memorável desaparecimento foi o dos dinossauros, há 65 milhões de anos, foi causada pela queda de um meteoro. Nesta semana foi “postada” na “timeline” mundial a nova extinção em massa a que a terra “estará sendo sujeitada”. Esta, artificial porque causada pela ação do homem, é chamada de “extinção do antropoceno”, ou seja, o desaparecimento das principais espécies que possibilitaram a existência da nossa.

As evidências dos cataclismos anteriores puderam ser posteriormente “visualizadas” nos vestígios fossilizados “salvos” na Natureza. Entretanto, esse que se inicia agora já vem sendo cientifica&tecnologicamente registrado na própria evolução industrial humana. Inclusive as espécies a serem extintas poderão, doravante, ser visualizadas no “YouTube”, visto que o mais fundamental ao homem não é realmente preservado, mas sim foto-vídeo-grafado. O futuro será realmente virtual?

A contemporânea função da natureza, contudo, é a de existir para a apreciação estética e para o lazer consumista do homem. O voo que nos leva às belezas do Pantanal, por exemplo, extingue mais carbono da Natureza do que a área coberta pelo nosso passeio turístico-ecológico – e pela nossa câmera digital – é capaz de renovar. Nossas contribuições cataclísmicas tornam-se belos álbuns fotográficos e documentários artísticos cultuados. De acordo com o coletivo “Critical Art Ensemble”, a humanidade adora “bloquear o orgânico com pilhas de excessos manufaturados”.

No futuro, se porventura existirmos nele, teremos mais “hiperlinks” virtuais com a Natureza que Natureza propriamente dita; porquanto somos especializados não em evitar a sua decadência absoluta, mas sim em transformá-la em espetáculo estético-hedonista. Afinal, a “National Geographic” já é o santuário virtual do natural! Extintas as gerações que sabem realmente o que é correr pela grama atrás de vaga-lumes, as próximas estarão, por conseguinte, satisfatoriamente guarnecidas com virtualidades convincentes acerca dessa Natureza ancestral.

O computador em que escrevo; o em que você lê; o ar-condicionado essencial à vida urbana; os industrializados que nos cercam; as toneladas de embalagens que os trouxeram até nós; bem como o sistema consumista cujos criadores-criaturas somos nós mesmos; tudo isso é, ainda que a contragosto, a extinção em massa que assistimos e daqui para frente “visualizaremos” nos novos “Gadgets” que adquiriremos, e que somente farão acelerar essa mesma extinção em massa. Tecnologicamente avançamos futuro adentro ao preço inalienável dele mesmo.

Ao ser humano “tudo o que é necessário é a capacidade de conviver com a incerteza, e a disposição de agir a despeito do potencial para consequências negativas”, adverte-nos o coletivo CAE. Viver não é mais uma aventura na Natureza, mas sim outra, uma irracional, contra ela mesma. Qual é a disposição e a capacidade do homem contemporâneo para colocar-se antes ou abaixo da Natureza, sabendo que isso significa precisamente deixar para trás toda a vida agrotóxica&industrial que o mimou? Bilhões de respostas dissimuladas e envergonhadas escapam da bolha de monóxido de carbono atual: quase nenhuma.

Seria essa a natureza do homem, a de se importar preferencialmente consigo mesmo, inclusive acima da Natureza sua mãe? Entrementes, a destruição sistemática da Natureza externa ao homem deve, sintomaticamente, ser o reflexo de um movimento de destruição, primeiro, só que de natureza interna, e não menos destrutivo. Exilados na selva urbana, nos vingamos da selva natural como que expulsos dela, e a sua exaustão é o preço da nossa nesse traslado que, não obstante, é muito menos solicitação dela que nossa.

Outrora, um único meteoro eliminou milhares de dinossauros. Agora, somos sete bilhões de meteoros humanos a extinguir o que restou. Afinal, é muito mais fácil matar a Natureza que a nossa própria; ainda mais quando é tecnologicamente viável virtualizarmos aquilo que na realidade é perdido. Contudo, “aquilo que serve para tornar a vida mais fácil em geral é supérfluo”, afirmam os anarquistas do “Critical Art Ensemble”. Portanto, se o nosso insustentável estilo de vida existe por que nós não existimos sem facilidades insustentáveis, talvez a última extinção de que venhamos a ter notícia, ou seja, a nossa, jaza universalmente a própria superfluidade humana.

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