Eram os gregos g0ys?

Que os antigos gregos eram fortemente homossexuais é bem sabido. No entanto, mais difícil é compreender a virtuosidade dessa orientação entre eles. Até que ponto o envolvimento sexual e afetivo entre os homens era estruturantes àquela sociedade? Para avançar assertivamente nessa questão é fundamental deixar de lado todas as ideias que as épocas posteriores àquela antiguidade atribuíram ao homossexualismo, inclusive as atuais que objetificam hedonisticamente as relações afetivas sexuais, tanto as homo quanto as heterossexuais.

Para os helenos, o amor se dizia em muitos sentidos. O maior deles, o amor às coisas boas, elevadas e divinas da vida, eles chamavam “Ágape”. O amor fraternal, aquele dedicado aos amigos e à família, era dito “Philia”. Já o amor erótico e carnal, o da apreciação da beleza, que excede aquele em relação à amizade e à família, esse era “Eros”, ou seja, o amor erótico. Era este o tipo de amor que os homens gregos sentiam livremente uns pelos outros, pois, como escreveu Platão n“O Banquete”, obra que fala sobre amor, “se diz ser mais belo amar claramente que às ocultas”.

A virtude do amor entre dois homens estava, contudo, em sua assimetria: de um lado o amado, o mais jovem, e de outro o amante, o mais velho. Aquele se deixava amar enquanto este o amava. De um jovem não se exigia que amasse, pois em sua recência não poderia saber ele do que se tratava tão nobre e complexo sentimento. Portanto, desejar ser amado por um jovem era submeter-se aos seus sentimentos confusos e inconstantes. O amado era simplesmente para ser amado por nada além de sua beleza e viço. “Estais vendo como Sócrates amorosamente se comporta com os belos jovens, está sempre ao redor deles, fica aturdido”, disse o enciumado Alcibiades.

Do outro lado da relação estava o velho amante, conhecedor dos diferentes tipos de amor e capaz de se envolver sem confundi-los. Foi justamente essa qualidade que o jovem Alcibiades viu em Sócrates: “um homem tal como jamais julgava poderia encontrar em sabedoria e fortaleza”. Obviamente, não era beleza e vigor físico que o jovem amado procurava no velho amante. Tampouco “sabedoria e fortaleza” o velho encontraria no jovem. Citando o funk carioca: “ado-ado-cada-um-no-seu-quadrado”.

É nesse sentido que a relação entre o amante e o amado era plenamente virtuosa, pois nenhum exigia o que o outro não tinha nem poderia oferecer. Ao contrário, era precisamente o que já tinham em si mesmos o motor virtuoso dessa relação. Bem diferente do amor entre cônjuges e entre amigos que, devido à simetria pressuposta nesse tipo de relação e à perenidade que dela se espera, há sempre algo faltando ou sobrando. Diferente de Eros, que se basta com o que vê, Philia envolve mais coisas e solicita em demasia as pessoas.

Platão colocou que o “amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente”, ou seja, belo e digno é o amor livre que não transforma quaisquer características do amado em faltas frente ao império dos desejos do amante, e vice-versa. Portanto, o amor erótico entre os homens gregos lembrava do amor àquilo que já é, aqui e agora; bem como da efemeridade dos objetos de desejo. Porquanto o jovem amado, cedo ou tarde possuirá a sabedoria e a fortaleza que procurou no velho amante, e deixará de amá-lo. “Ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo [do jovem amado], que era o que ele [o velho amante] amava, este alça o seu voo”, disse Pausânias no banquete platônico.

Inclusive ao pensamento grego de forma geral o amor descompromissado entre sábios velhos e jovens pupilos foi fundamental, visto que os famosos diálogos filosóficos nos quais eles entravam, e cujos frutos nos chegam até hoje, necessitavam tanto da superioridade intelectual de uns quanto da inferioridade de outros. Os sábios, portanto, precisavam da falta de sabedoria dos seus pupilos para, além disseminarem a importante sabedoria, re-conhecerem o terreno virgem que outrora, neles próprios, resistiu a essa mesma sabedoria.

Para os sábios gregos, saberem o que é o não-saber, e perceberem como um saber acontece em um intelecto de quem ainda não sabe, era sabedoria de suma importância. Nesse sentido, os pupilos deveriam ser francos e desavergonhados em relação às suas ignorâncias, caso contrário, o terreno virgem estaria contaminado pelas suas vaidades pessoais. Por conseguinte, os jovens amados precisavam estar totalmente satisfeitos com que já possuíam, ou seja, beleza e viço, nada mais que isso; e essa tarefa cabia aos velhos amantes que, através do erotismo, louvavam essas mesmas qualidades em seus amados.

Foram as relações sócio-eróticas entre os homens gregos gerou aquela sociedade extremamente machista ou foi o contrário? Talvez, consoante à pluralidade de sentidos da palavra amor para eles, essas construções tenham se dado em muitos sentidos. Se por um lado os meninos “se voltam ao que é másculo, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência”, como disse Pausânias, por outro lado, então, “poder-se-ia pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não só o fato de ser amante como também o serem os amados amigos dos amantes”, conclui o convidado do banquete de Platão.

 

 

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