O nó górdio do ser

A questão mais cara à filosofia, e também a mais antiga, ou seja, o que é o ser, é de uma complexidade górdia, isto é, só pode ser resolvida através de um erro. O domínio da Ásia Menor esteve, durante quinhentos anos, profeticamente condicionado a quem conseguisse desatar o mais famoso dos nós, de mesmo nome do seu inventor, Górdio. Em 334 a.C., Alexandre, o Grande, no insucesso em desfazê-lo corretamente, cortou-o com sua espada, tornando-se, assim, o senhor daquela região. Todavia, permaneceu a dúvida: o nó de Górdio poderia ter sido desfeito digna e corajosamente ou cortá-lo, covarde e apressadamente, como fez Alexandre, foi sua resolução ao modo de não resolvê-lo?

Digamos que a ancestral investigação filosófica acerca do ser pode ser comparada à empreitada que o nó mitológico coloca a quem tenta desvendá-lo, porquanto o ser só se apresenta, em sua totalidade, através de um engano temporário, quando momentaneamente colocamos uma confortável mentira em seu lugar. A grande intuição de Aristóteles foi entender o ser enquanto uma pluralidade de sentidos, e nas suas palavras, “o ser se diz em muitos sentidos”. Porém, o grande passo do filósofo não foi capaz de legar a chave mestra do ser à posteridade, visto que as mentes filosóficas seguiram nessa investigação.

Talvez Aristóteles tenha subestimado o ser por supô-lo em muitos sentidos e não em todos eles. Muitos sentidos podem ser encontrados, entretanto, não todos. Pode-se segurar muitos grãos de areia nas mãos, mas não todos eles! A psicanálise afirma que o real é aquilo que sempre nos escapa, e com o pouco que conseguimos pegar dele constituímos nossas realidades. Da mesma forma o ser, todo ele, sempre nos escapa, e nos damos por satisfeitos com o punhado dele que resta em nossas mãos. Entretanto, importante é saber que o ser é maior, na medida do inapreensível.

Quando me pergunto o que é este computador aonde escrevo, por exemplo, ou seja, qual é o seu ser, dizendo que ele é uma ferramenta que permite ao homem fazer muitas coisas, poderia, à maneira de Alexandre, dar por resolvida a questão. No entanto, qualquer segundo pensamento acerca do ser (deste computador) revela outros sentidos, outros modos dele ser; e tantos serão os sentidos do seu ser quantos forem os pensamentos sobre ele; ou seja, a questão permanece tão aberta quanto irresoluta. Optando por não cortar o nó em que o ser se prende, e atacando todos os seus sentidos, conseguiríamos desatá-lo?

Imaginemos que o ser desse computador contempla todas as suas funcionalidades; todos os produtos da sua interação comigo; a histórica modificação da Natureza para que eletricidade fosse inventada e gerada para que ele funcionasse; um sem número de pessoas envolvidas na sua criação e produção, bem como os deslocamentos dessas pessoas, a produção e consumo de alimentos, roupas, lazer, saúde, etc., de que precisaram para, finalmente, um sistema extremamente complexo contribuir parcialmente com o ser deste computador. Em outros sentidos temos a matéria de que ele é feito, do ordinário plástico ao fundamental silício, ambos extraídos da natureza, mas que primeiramente tiveram de ser naturalmente confeccionados nela, e por ela, ao longo de bilhões de anos.

O ser deste computador não dispensa estas últimas letras que agora digito nem o primordial Big Bang, sem o qual nada teria ser; bem como tudo o que está compreendido entre estes dois instantes singulares. O ser de qualquer mínima coisa é, portanto, gigante, do tamanho do universo, e contém uma infinidade de sentidos impossíveis de serem retomados. E esta é, provavelmente, sua dificuldade górdia, pois somente através de um resumo absolutamente genocida é que podemos dar por acabada a questão do ser, ou seja, somente errando na resposta é que conseguimos, de fato, afirmá-la. Do contrário, a questão projeta-se geometricamente ao infinito.

Se o ser de cada coisa se diz através de todos os seus sentidos, tanto nos naturais, desenrolados nos dezessete bilhões de anos do universo, quanto nos artificiais, desenvolvidos nos últimos setenta mil de ação humana, bem como nos incessantes sentidos de que esse ser se predica em cada uma de suas contemporaneidades, podemos deduzir, portanto, que os sentidos que um ser compartilha com os demais são enormemente mais numerosos – e mais condicionantes – que aqueles que os diferenciam. Logo, há muito mais coisas em comum entre este computador, as ideias que me ocorrem, ou qualquer coisa que possa ser dita, que diferenças. Entretanto, é através de suas diferenças que os seres se apresentam a nós, pois como Alexandre, descemos a espada na dificuldade górdia até restar um pedaço que caiba em nossas mãos, e é sobre este que reinamos.

Aproximar-se do ser para investigá-lo é saber menos dele na exata proporção em que mais e mais dos seus sentidos escapam do nosso campo de visão. Por conseguinte, é afastando-se dele que podemos apreendê-lo no grande quadro que contempla todos os seus sentidos. Para isso, precisaríamos tomar uma distância absurda a fim abarcarmos de uma só vez o universo inteiro, pois só nessa visão total o ser poderia se revelar plenamente. Entretanto, a partir desse ponto de vista, veríamos apenas um único ser, o do universo, que é, de fato, o sentido único; todos os demais consequentemente desapareceriam. Logo, é somente cortando ignobilmente esse nó górdio do ser absoluto que criamos seres parciais, menores, à medida do homem, do tamanho da capacidade de Alexandre, o Grande, de desfazer nós impossíveis.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s