O Estado de Platão X os nossos estados

Platão, na sua obra “A República”, fez o exercício de planejar um Estado ideal, todavia em resposta à decadência em que se encontrava a democracia ateniense desde a morte de seu mestre, Sócrates. Umas das grandes contribuição do diálogo platônico no que tange a ideia de Estado foi a de condicionar a qualidade do Estado à dos seus cidadãos: “as qualidades do Estado significam as qualidades dos indivíduos que o compõem”, assegura o pai da filosofia. A dialética de Platão n’A República visava eliminar a distância entre o Estado e os muitos estados dos seus cidadãos, senão porque o Estado é e deve ser a composição dos estados individuais de cada cidadão.

O Estado ideal platônico era assaz comunista, pois, nele, as desigualdades sociais se resolviam no conceito de propriedade comum, e, pasmem, inclusive em relação à cônjuges e filhos. A propriedade individual, segundo Platão, era o germe do mal que contaminava paulatinamente os cidadãos, melhor dizendo, suas virtudes fundamentais, sem as quais era impossível a um Estado garantir o bem estar geral. O filósofo afirmava inclusive que tão logo um homem começasse a ficar mais rico que outros deveria  exercitar suas virtudes, através das quais perceberia que sua riqueza não o faria um homem melhor. Ademais, as virtudes do Estado e as suas próprias seriam as primeiras a serem sepultadas sob sua riqueza nascente.

Entretanto, Sócrates –a voz de Platão no diálogo- encontrou resistência dos seus interlocutores, pois estes temiam que outros Estados, estruturados na riqueza e na propriedade, tivessem larga vantagem sobre o Estado platônico quando na circunstância de guerra. Sócrates, por conseguinte, faz umas das grandes colocações do diálogo ao perguntar aos incrédulos concidadãos se eles poderiam, de fato, afirmar que um Estado onde a propriedade individual e as diferenças sociais existem e são claras a todos poderia ser chamado de Estado. Para o pensador, nestas condições não há “um” Estado, mas sim muitos estados dentro de um: o estado dos ricos, o dos pobres; o dos aristocratas; o dos escravos, o dos homens, o das mulheres, e assim por diante, todos escondidos e já em guerra entre si. Tal guerra, não obstante, permaneceria dissimulada justamente sob o nome Estado.

Platão trouxe à luz o fato de que só existe um Estado quando todos compartilham do mesmo estado, das mesmas circunstâncias, da mesma qualidade de vida, etc. Porquanto havendo desigualdade, haverá tantos estados quantas forem as desigualdades sociais. Para o filósofo, o Estado verdadeiro e único era o que ele construía no seu diálogo, pois somente neste todos os cidadãos estariam sob um mesmo estado de satisfação. Já os Estados que eles conheciam, e inclusive o decadente grego, eram nada além de coleções contraditórias de estados individuais desarmônicos que ruiriam sob o peso dos seus próprios desequilíbrios internos. Alguma semelhança com ideia de Marx acerca da ruína do capitalismo diante de suas próprias contradições? Portanto, o Estado ideal platônico, priorizando o bem estar geral e a propriedade comum, nunca seria solapado por outro, visto que outro Estado, em verdade, nunca havia existido.

A virtude do Estado platônico está na proposta de um Estado dentro de cujas fronteiras não digladiam-se dissimetrias sociais, que outra coisa não fazem senão beneficiar poucos em detrimento de muitos. Podemos, hoje, imaginar um Estado ideal nos moldes d’A República? Para responder a essa questão, antes devemos nos perguntar quão longe colocamos aquilo que podemos chamar de um Estado ideal dos nossos presentes “Estados” reais. E é essa distância, aliás, que torna real a desigualdade entre os estados individuais dos cidadãos: os estados de riqueza, satisfação e liberdade plenas de uns poucos contra os estados de pobreza, carência e servidão inalienáveis da maioria.

“Tal homem, tal Estado”, reforça Platão. Logo, um rico poderoso é, a um só tempo, um homem e um estado; ao passo que um pobre desassistido é outro e outro. Entretanto, nos alienamos do abismo entre esses diferentes estados sob a ficção de uma unidade insustentável, ou seja, a dos nossos Estados modernos, como se neles fosse única a situação de todos os súditos do Leviatã.

Hoje em dia, infelizmente, aquilo pelo de que a maioria dos cidadãos busca é tão somente um estado melhor a si próprios, e não para todos os seus concidadãos. Nessa senda individualista, não se constrói nem “um” Estado, nem se é cidadão, mas sim estados e seres individualistas-egoístas, opostos uns aos outros. Portanto, se o Estado em que vivemos é cindido entre uma minoria rica e privilegiada e uma maioria pobre e desinvestida, é porque essa é a cisão que subsiste em cada um dos seus cidadãos. Novamente: a qualidade de um Estado é a qualidade dos seus cidadãos!

A resistência dos amigos de diálogo de Sócrates em aceitar o Estado ideal platônico, pelo jeito, é a mesma que a nossa no sentido de abandonarmos os muitos e antagônicos estados reais que conflitam dentro do que chamamos de Estado no sentido de construírmos uma cidadania plenamente virtuosa e, consequentemente, um Estado propriamente dito, ou, como sustenta Platão: ideal. A dificuldade está em que -se fosse possível Platão parafrasear Wittgenstein- ‘os limites do Estado são os limites dos seus cidadãos’.

Não podemos negar que, na realidade, nossos Estados modernos são colchas de retalhos discrepantes e insustentáveis, formados por muitos estados individuais malsoantes que, entretanto, se escondem atrás da ideia hobbesiana de um Estado soberano. Entretanto, quanto mais de perto olhamos o Leviatã, mais percebemos anomalias que só se explicam pela ideia de muitos estados desiguais. Logo, enquanto houver estados dentro de um Estado, haverá indivíduos uns acima dos outros, uns usufruindo de mais do que precisam enquanto muitos são privados do básico; e sobre todos, simbolizando a desigualdade excelentemente, o próprio Leviatã, o soberano absoluto e inarredável. Ainda que o perfeito e comunista Estado platônico seja impossível para muitos, sejam gregos antigos, sejam contemporâneos nossos, um Estado bom para todos ainda é utopia para a maioria. E essa utopia segue promissora enquanto conseguirmos perguntar a nós mesmos: quão cativos estamos do real para não nos aventurarmos na realização do ideal?

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