Jeitinho Alphavela

O canarinho brasileiro virou um urubu anacrônico diante da tecnológica águia alemã. Até o último minuto do malogrado 1X7 que sofremos, acreditamos que o arraigado “jeitinho” nacional resolveria nosso problema. Não rolou. O poder dessa mandinga tática há muito instituída intrafronteiras é tão frágil quanto ineficaz. Vide a velocidade com que entendemos e aceitamos o fato de que não foi nenhum anjo da guarda germânico que garantiu êxito àquele time em campo, mas algo bem diverso disso.

Se recapitularmos honestamente a sensação geral que a nossa seleção deixou depois das partidas contra o Chile e Colômbia lembraremos dos comentários que ouvimos e fizemos, tais como: “se o Brasil pegar uma Alemanha ou uma Holanda, já era”. E não foi? No entanto, no pré-7X1 derradeiro a fé de que poderíamos vencer retornou pujante. Isso se deu, confessemos, pela irracionalidade de que tanto o “jeitinho” quanto o Deus, que tomamos por brasileiros, novamente realizariam mais uma das nossas necessidades.

No entanto, na evidência vergonhosa de que perdemos o “jeitinho”, bem como a salvaguarda daquele Deus nacionalizado, ficou claro, mais uma vez, que a nossa ancestral e pouco séria técnica de salvação é uma quimera inócua. Diante do trabalho sério, consistente e pragmático com o qual o futebol alemão venceu o Brasil e a Copa, caímos do velho jumento manco do “jeitinho brasileiro”. Imediatamente passamos a crer que é o modo laico e assertivo daqueles que talentosamente nos desclassificaram o caminho que, a partir de agora, nosso futebol deve trilhar.

O nosso “jeitinho” morreu? Claramente não: transmutou-se. Nós, os torcedores frustrados, reciclamo-lo agora contra a CBF e passamos a gritar em uníssono: mudem aí! Façam alguma coisa! Permanecemos tão alienados do envolvimento coletivo necessário à revolução do esporte nacional quanto somos em relação ao canteiro de obras político e social em que, há muito, se encontra nosso país. Oxalá desejássemos e nos envolvêssemos com a eficiência dos germânicos para além dos gramados.

Contudo, descobrir que existe alhures uma fórmula para o sucesso, e vociferar monocordicamente para que alguém outro a aplique sobre as nossas questões fundamentais, de forma alguma significa alcançar esse sucesso. É preciso o envolvimento extenuante com o cálculo e com seu desenvolvimento para que haja uma verdadeira apropriação da solução final. E esta, não obstante, assim como na matemática, não é independente do sujeito que a encontra. A solução é precisamente o próprio sujeito, porquanto este é o resultado genuíno do exercício de resolver os seus próprios problemas.

Ganhar a taça 2018, hoje, parece exigir a substituição do nosso “jeitinho” pelo sistemático modo alemão no futebol. Agora, ganharmos o Brasil de 2014 em diante, na coletiva disputa que travamos contra ninguém além de nós mesmos, tampouco dispensa a mudança desse maldito “jeitinho” que nos permeia, de estádios a aeroportos, de hospitais a escolas, de Alphavilles a “Alphavelas”. A Alemanha tem bons exemplos a oferecer, e não só no campo de futebol. No entanto, exemplos são para serem seguidos, e na busca de soluções outras que não as exemplificadas. E se o nosso “jeitinho” é tão teimoso, ele bem poderia teimar em seguir bons exemplos e deixar de se repetir improdutivamente.

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