Errar pelo mundo

A cotidianidade rotineira da vida “in loco” promete muitas, contudo, ao preço de tantas outras muito mais importantes. Acordar sempre em um mesmo lugar e repetir a frequência em tantos outros, todos os dias, converte a errância assertiva de outrora na assertividade errante de agora. Enquanto os nômades errantes conhecem menos a um só lugar e, por conseguinte, mais a muitos outros, nós, os sedentários, fazemos o contrário.

 Ao repetirmos diariamente o cenário, o roteiro e os atores coadjuvantes na encenação de nossas vidas, tornamos habitual o que deveria ser espetacular, ou seja, a novidade em potencial escondida em cada instante. Mergulhados na monotonia da permanência geográfica, “a alternativa em que se encontram as paixões é esta: satisfazer-se artificialmente, obliquamente”, afirma Deleuze. E haja eletrodomésticos para nos fixarem em um só lugar!

 O nosso desinvestimento na errância e, por conseguinte, na riqueza que ela traz a cada passo novo que damos, é sintomaticamente convertido no investimento contemporâneo no turismo. Passear homeopaticamente pelo mundo é a forma que, hoje, nos resta para resgatarmos um modo de ser primitivo e inconscientemente constitutivo do ser humano.  Entretanto, a liberdade de vagar por aí sem roteiro pré-definido deve ser devidamente roteirizada e agendada no roteiro agendadíssimo das nossas rotinas.

 Porém, uma vez na estrada, já podemos sentir algo novo correndo nas veias, uma espécie de vida que não cabe nos comentários nem nas fotos de viagem que porventura postamos nas redes sociais. Viajando por aí experimentamos a ancestral desabituação em relação ao já conhecido; e dentre as coisas que são extremamente conhecidas a maior delas é nós mesmos.

 Logo, a maior instituição do sedentarismo não são as cidades nas quais vivemos, mas sim um tipo especial de sujeito: aquele sujeito à repetição monótona das atividades regulares, a ficção realista que é o cidadão. Como afirmou Hume, “o hábito, com efeito, pode criar para si um equivalente de experiência, invocar repetições fictícias que o tornam independente do real”. Essa independência do real contingente ao habitual é o equivalente à experiência artificial que nos aliena das experiências genuínas, isto é, daquelas com as quais não estamos habituados.

 O real é aquilo que nos escapa, colocou Lacan; e, paradoxalmente, escapamos desse escapamento do real nas trincheiras fixas e fictícias das nossas rotinas individuais. Desenraizados somos como os andarilhos que despretensiosamente começam um novo mundo a cada novo deslocamento. E se o real é mesmo aquilo que sempre nos escapa, o que nos resta a partir dele é sempre um nada, ou seja, somente um tímido e insano começo. “Tudo o que começa em nós na timidez de um começo é uma loucura da vida”, disse Gaston Bachelard; e porquanto a loucura da vida é real, real é escapar da sanidade ficcional que os mesmos lugares nos prometem.

 Para Deleuze o sujeito não é uma qualidade específica, mas uma coleção delas. Consoante à afirmação do filósofo, podemos pensar o sujeito real não enquanto uma localidade determinada, mas sim a coleção das localidades em que esteve. Embora todos os lugares devessem fazer parte da vida, vida é a coleção daquilo que nos acontece e que passa a fazer parte de nós mesmos em cada um dos lugares pelos quais passamos. Errar por todos eles, portanto, é a loucura real de viver plenamente.

 Acordar em outra cidade, fazer um desjejum inédito, caminhar por ruas desconhecidas, jantar não se sabe onde, etc., é escapar para o mundo; é centrifugar-se para longe do ponto em torno do qual obsessivamente orbitamos. As pessoas amam viajar porque amam a si mesmas enquanto viajam, porque reconhecem a realidade da vida quando se afastam daquela que repetem sistemática e ficticiamente no curto circuito entre fábrica-loja-casa, e novamente a fábrica.

 “Você não tem, apesar de todas as aberrações da sua vida, o privilégio de uma existência particular”, avisa-nos Bachelard; nem o privilégio de uma localidade particular, conclui-se aqui. Por conseguinte, é uma aberração à vida ela ser mantida refém da repetição dos mesmos movimentos, visto que quem repete o mesmo movimento, de certa forma, não se move mais; está, em um sentido, morto e sepultado em uma rotina. Escapar desse cemitério é fazer turismo, pois só então nos sentimos novamente “do mundo”, coisa que sempre fomos até sermos fronteirizados pelas promessas da vida sedentária.

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