Zoom humano

O homem é bicho curioso por natureza, e sua curiosidade excede o dado a ponto deste ser nunca ser suficiente. Parte daí a nossa inventividade característica através da qual dividimos aquilo que já é sabido em tantas partes quantas forem necessárias para não a reconhecermos mais. É sempre neste nível sistematicamente renovado de ignorância que reencontramos nossa essência desbravadora, porquanto a capacidade humana de conhecer é alimentada tão somente por aquilo que lhe é desconhecido – pelo que mais seria?

Outra forma eficiente e prazerosa que inventamos para se evitar o beco sem retorno que é a verdade foi a ficção. É na mentira institucionalizada das estórias que contamos a nós mesmos, e com as quais nos entretemos ao longo do tempo, que sofisticadamente ampliamos “ad infinitum” o inquietante espaço de incerteza que sempre nos moveu adiante. Em sabendo de tudo, o homem deixa de ser o bicho que é e se assemelha à onisciência que ele mesmo colocou sábia e inalcançavelmente acima das nuvens, isto é, à Deus.

Os antigos gregos, conquanto confortavelmente instalados na primorosa civilização que inventaram, acostumaram-se à eficiência de suas próprias ficções e as tomaram como verdades absolutas. Por conseguinte, o bicho curioso dentro deles inquietou-se e os jogou novamente verdade adentro até que tomassem uma distancia motivadora em relação a ela. Entediados com o conhecimento da Natureza que tinham, mergulharam em suas profundezas e dividiram-na até o limite máximo do desconhecido e só se deram por satisfeitos na abstração material máxima do átomo, isto é, o não mais divisível. Encontraram um limite intransponível para o seu saber acerca da Natureza.

Posteriormente, os helenos enfadados com a posse e com o manuseio dos objetos do mundo físico ao seu redor, emergiram nas relações desconhecidas destes com o cosmos. Nasce, então, a metafísica que, segundo Aristóteles, trata de questões “que vêm depois da física”. Sem deixarem as suas polis, os gregos descobriram, “in loco”, muito mais que um novo continente a ser desbravado, mas sim um universo inteiro de não-saber aberto às suas vorazes mentes humana-filosóficas: o que o átomo tem a ver com o corpo que ele forma?, e o que não tem?, porque?, como?, desde quando?, até quando?, “ad aeternum”.

Ao se perguntarem metodicamente o que “é” a relação de cada coisa com as outras, e a dela com o todo – e vice-versa -, na medida em que iam encontrando tais respostas, eles perceberam que nas suas próprias perguntas havia algo sempre presente diante da qual eles se encontravam novamente ignorantes. No simples “o que é?” havia a questão do que porventura seria esse “é”. Surge, portanto, a questão mais cara à filosofia, a saber, a do “ser” que, manteve entretidas todas as mentes filosóficas desde então. Isso sem falar na ficção atômica grega que nunca mais deixou de nos mover na direção daquilo ainda não sabemos.

Uma boa analogia pode ser feita entre a curiosidade humana e os atuais “displays touch screen” através dos quais sabemos do mundo. Afinal, assim como o escorregadio afastar dos dedos polegar e indicador sobre a tela digital amplia a imagem dada na direção dos seus detalhes escondidos – e até então desconhecidos -, o homem não se priva de aplicar o seu “zoom” curioso sobre todos os objetos do seu conhecimento no sentido do desconhecido. Porém, diferentes dos nossos “smartphones” que, em determinado momento, limitam a ampliação do é mostrado, a interatividade da intele(tela)ctualidade humana é infinita, porquanto enquanto houver homem deverá necessariamente haver o desconhecido.

Nos momentos em que o homem ignora a essencialidade da sua própria ignorância ele se aproxima não do Deus sobre-humano onisciente colocado ficcionalmente no éter celeste, mas sim das fronteiras da desumanidade. Vide as absurdas certezas nazistas acerca do melhor destino para a humanidade. O bicho homem, para ser fiel à sua própria natureza, precisa, portanto, retornar constantemente àquela ignorância animal que nunca deixou de ser o seu mais virtuoso motor.

Sobre cada verdade insistente que estaciona em nossos caminhos é melhor aplicar-lhe um “zoom” até que ela deixe de ser – até que o dado não nos seja mais dado. Só assim reencontramos a liberdade do universo infinito em cujos desconhecidos limites nos sentimos em casa. O nosso fundamental não-saber animal inventou nada além de curiosidade e ficção, e as verdades, por conseguinte, são apenas ficções diferenciadas que funcionam temporariamente como refúgios auto-obsolescentes às margens da senda humana no cosmos desconhecido.

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