Politicar é preciso, viver não é preciso.

Parafraseando Pessoa e o general romano Pompeu, que segundo Plutarco foi o autor da famosa sentença, deve-se atentar para o sentido essencial da palavra “preciso” nesse contexto. O ‘preciso’, que na mesma frase qualifica o ‘navegar’ em detrimento do ‘viver’, refere-se muito mais à precisão, à assertividade da ação, que à necessidade de ambas, pois mais importante que navegar, é navegar precisamente, ou do contrário é melhor nem zarpar. Já o viver, este sim, a despeito de nossas tentativas, insiste em ser errante, e de forma alguma é preciso, sem com isso deixar de ser necessário.

Precisão e necessidade podem coincidir circunstancialmente, contudo, não estão necessariamente condicionadas. Portanto, ao dizer que ‘politicar é preciso’, a ideia é a de que a exatidão dessa ação é mais fundamental, que simplesmente fazê-la de qualquer forma simplesmente por ser-nos solicitada. As mazelas sociais e econômicas do nosso país, de certa forma, atestam a inversão improdutiva do sentido da palavra ‘preciso’ que tão bem fez à navegação histórica, mas que erra nos nossos mares políticos atuais. Justamente por que viver não é preciso, não obstante extremamente necessário, é que precisamos de alguma precisão assertiva nas nossas atuações políticas.

Diante da crise de representatividade deflagrada desde o junho de 2013, e dos desestimulantes candidatos desse momento pré-eleitoral de 2014, é muito preocupante a massiva intenção de votos em branco nas próximas eleições. O que é necessário fazer? É o que é correto? O que é, pergunta-nos Platão, o bem? Até que ponto não votar em candidato algum é assertivo? Claro, seria bem mais confortável um dilema no qual a indecisão se desse pela oferta de muitas boas opções, ou se estivéssemos utopicamente apaixonados por uma delas. Entretanto, no momento, isso é tão impossível quanto platônico.

Hoje, contudo, fazer política assertivamente na escolha dos próximos governantes é escolher o menos pior dentre eles, infelizmente. Mas essa é a escolha da hora! Votar em branco é fugir do palco político, em cena aberta, e na hora exata do ‘bife’ cidadão. A situação de quem opta por não usar positivamente o seu voto parece ser a de quem está com os pés atolados na caótica realidade, porém, com as expectativas flanando no éter ideal. As ideias são necessárias, não resta dúvida, entretanto, a realidade é cruelmente precisa, ela não nos erra, envolvendo-nos inalienavelmente e cobrando o preço de nossas ações; e anular uma ação ainda assim é agir, só que ao modo de não fazê-lo.

Se viver fosse realmente preciso, ou seja, livre de erros, poderíamos dispensar a assertividade política. No entanto, a vida é justamente o oposto, isto é, o lugar dos erros, onde tudo é preciso no sentido de ser necessário, e aonde sofremos a nossa falta de precisão. Somente politicando corretamente podemos reduzir a margem de erro da imprecisa vida. Todavia, resta a dúvida sobre em que se acerta, através de um voto em branco, através dessa escolha que não escolhe uma das opções determinadas. Por ventura uma revolução positiva não se dá melhor metendo as mãos na massa ingrata, e sujando-as corajosamente, do que cruzando os braços?

Em certo sentido, dispensar o voto é agir como a criança mimada que recusa o substancial feijão pelo tempero picante da cebola. Abocanhar uma cebola é difícil, sem dúvida, e inclusive indigesto; entretanto, quando harmonizada com prato principal, funciona sublimemente. Da mesma forma, os candidatos às eleições atuais podem, individualmente, não agradar ao nosso paladar, porém, recusando terminantemente as cebolas que eles são, que gosto insosso terá essa feijoada? Perverter o voto, e votar em ninguém, é, portanto, deixar de politicar na hora em que isso é mais necessário, no momento da dificuldade extrema, logo, quando precisamos ser precisos; quando precisão e necessidade circunstancialmente coincidem. Votar é preciso! Acertar, ainda que no menos perfeito, extremamente necessário.

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