Deuses eletrodomésticos

Em um dos seus muitos sentidos, a palavra “deus” significa “tudo”, e sob uma visão materialista, esse “tudo” é a soma absoluta do que há no universo, ou seja, corpos, planetas, estrelas, galáxias, bem como os espaços vazios, distâncias, forças, movimentos e, principalmente, as relações que regem tudo isso. É nesta última que deus melhor se oferece a nós no sentido de ser personalizado humanamente, tais são as nossas relações com as divindades. “Estou sozinho, portanto penso no ser que teria curado as minhas solidões”, disse Gaston Bachelard ao perguntar-se: “porque haveria meu devaneio de conhecer minha história?”

Por conseguinte, para corporificar substancialmente essa construção improvável, precisamos repetir, histórica e insistentemente, que “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança” para, sintomaticamente, ocultarmo-nos que fomos nós mesmos que o criamos à nossa própria imagem e semelhança. Talvez um tanto melhor, afinal, para Bachelard, toda “imagem nos fornece uma ilustração da nossa admiração”, nesse caso, admiração por nós mesmos. Entretanto, toda obra carrega demasiadamente o seu criador, e os nossos deuses não escaparam de ser preenchidos de necessidades, paixões e julgamentos humanos.

Rousseau afirmou que teria sido melhor a humanidade manter-se em um “meio-termo entre a indolência do estado primitivo e a petulante atividade de nosso amor próprio”; pois só assim não precisaríamos ter inventado nossos deuses, a exemplo dos demais animais. Mas já que “toda criação decorre de um nirvana psíquico”, como apontou Henry Benrath, “imaginamos mundos em que nossa vida teria todo o seu brilho, todo o seu calor, toda a sua expansão”, completa Bachelard. Desejando civilizadamente abandonar aquele primitivismo apontado por Rousseau e, não menos que isso, dissimular o nosso excesso de amor próprio, criamos deuses que nos antecedem em eternidade e nos excedem em qualidades.

A grande qualidade humana, a saber, a criatividade, inventou algo de mais primitivo e omnipotente que ela mesma, e chamou-a de “tudo”, de Deus. E “não é a obra”, questiona Bachelard, “um perdão para aquele que viveu mal?” E viver mal, por acaso, não é a conclusão a que se chega quando percebermos que não mais conseguimos resolver uma questão fundamental? Humanidade é nome que demos a essa contingência, e o negativo dessa angusta consciência é o desenho das nossas divindades, todas incontingentes, eternas e supremas: fiéis imagens do tamanho que desejamos a nós próprios.

A partir de então, os deuses são os que podem oferecer ao homem tudo aquilo que ele mesmo não pode se dar, mas ainda assim deseja a si próprio; e, principalmente, negar ao homem aquilo que ele deseja ao mesmo tempo em que sabe que tal desejo é melhor não se realizar. Precisamos de algo ou alguém além e acima de nós mesmos para nos dizer sim e não quando nós não podemos fazê-lo. Importunamos vergonhosamente as divindades com nossa humanidade vergonhosa visto que as tomamos como eletrodomésticos da nossa felicidade, não obstante tendo de amá-las e respeitá-las para sermos ouvidos e atendidos.

Talvez por conta do viés filosófico, no budismo toma-se apenas temporariamente a divindade-mor utilitariamente. Buda sustém-se como imagem dos ensinamentos supremos e desejados, conquanto apontando para a efemeridade de qualquer ensinamento e para a insustentabilidade dos próprios desejos. Entretanto, a maior sabedoria do budismo, e que o torna plenamente sustentável, está no seu último ensinamento às portas do nirvana, e este diz que, a partir dali, tudo o que foi aprendido e amado, inclusive o próprio Buda, deve ser deixado para trás. A felicidade suprema, portanto, dispensa os Deuses.

Mais adequada ainda era a relação para com as divindades ensinada pelo filósofo grego Epicuro no seu jardim de amigos. Para ele, os deuses existiam sim, eram perfeitos, plenamente felizes e imortais, e só tinham estas supremas qualidades porque não davam bola alguma aos homens. O filósofo dizia que chamar os deuses em nosso benefício era desrespeitá-los e diminuí-los, pois se porventura atentassem às nossas imperfeições, infelicidades e mortalidade, a esfera divina se contaminaria pela humana e se tornaria menos perfeita, menos feliz e menos imortal, servindo-nos, consequentemente menos ainda.

Portanto, para Epicuro, a melhor forma de lidarmos com nossos deuses é deixando-os em paz desde sempre, afastando sabiamente deles a nossa carente humanidade a fim de preservar-lhes suas bem-aventuranças eternas. Os diminuiremos, certamente, pedindo-lhes que se atenham à nossa mundanidade imperfeita. Além do que, eles estão completamente entretidos com as suas perfeições e com eles próprios, por isso, perfeitos. Segundo o filósofo, devemos viver como se fôssemos nossos próprios deuses, entretidos com o que temos de perfeito e de feliz, não dando bola para as nossas carências, pois são justamente estas as que nos tornam demasiado humanos.

Deus é uma obra, por certo, mas como escreveu Lévi-Strauss, “o homem só cria algo verdadeiramente grande no princípio”, a partir daí só há a decadência, a não ser que a deixemos em paz, intocada e alienada de nós mesmos. Carregando-a conosco, carregamo-la de nós mesmos. Se “deus” é de fato “tudo”, ele é a soma de todas as partes, e estas, somos nós. Só haverá um deus, portanto, se cada uma das partes agir como se fosse um ela mesma, e assumindo necessariamente que o supremo é somente a fantasia do ínfimo, pois, conclui Bachelard, “o devaneio é esse estado simples em que a obra tira de si mesma suas convicções, sem ser atormentada por censuras.”

 

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