A TIRANIA DA DITADURA

Dezessete pessoas foram preventiva&temporariamente presas, e centenas agredidas pela polícia do Rio de Janeiro para que a final da copa do mundo se desse conforme os padrões FIFA. Passamos na sabatina de Blatter, porém, ao modo de repetirmos os velhos conteúdos da analfabeta (dis)funcionalidade brasileira. Toda indignação e repúdio a mais essa ação descabida do Estado é fundamental, porquanto resposta sustentável à tentativa de aniquilação dos direitos individuais e da liberdade de manifestação dos cidadãos.

Platão há muito nos disse que podemos curar certas desordens simplesmente dando expressão a elas, e os psicanalistas seguem corroborando com essa afirmação. No entanto, o sufocamento dessa liberdade pelas nuvens lacrimogêneas evidencia a preferência do Estado pelo vírus que ele próprio é em relação à cura de que necessitamos. A liberdade que pensamos ter, na verdade, não é liberdade, mas sim um produto artificial e inócuo oferecido pelo Estado. Nossa liberdade é apenas nominalmente livre.

Entretanto, em que medida tratar a violação de direitos ocorrida no Rio enquanto algo eventual – como as postagens e manchetes nos fazem pensar – contribui para a resolução do problema? Não seria mais produtivo e realista, apesar de extremamente angusto, assumirmos que nada de novo aconteceu, que a prisão inconsequente de uns e a opressão do resto é a mesma que há muito nos cerca? Afinal, é o tempo, todo ele, e não um de seus episódios, o feitor da realidade.

Encarar esse último golpe do Estado como somente mais dos seus atos, e não enquanto “O” ato que o Estado em si é, é, por conseguinte, distrair-se da raiz do problema e se ocupar com suas efêmeras flores podres. Anular as pessoas que o ameaçam, afinal, é a vida do Estado. Estamos historicamente cercados! Entretanto, intramuros, ainda há – e deve haver – algum espaço onde podemos ser nossos próprios mestres; pois, como nos perguntou Platão, “O que é suficiente quando a maioria permanece carente?”

Comumente colocamos o barbarismo antecedendo à civilização, mas, paradoxalmente, ele é a sua degradação, não seu início. Logo, as barbaridades a que todos assistimos online, e que alguns sofreram em loco nos arredores do Maracanã, são muito mais o desenvolvimento ou a conclusão de uma realidade que o início de outra. Platão e Aristóteles, há mais de dois mil anos, disseram que as muitas formas de civilização foram descobertas e esquecidas inúmeras vezes ao longo do tempo. Portanto, a prisão preventiva dos nossos dezessete, antes de ser surpreendente e eventual, deve ser encarada como a rememoração do movimento incessante do Estado.

Gritamos e chamamos pela democracia frente à opressão; contudo, para Platão, a democracia é o estado de individualismo e dissolução, onde o excesso de liberdade passa paradoxalmente pelo excesso de escravidão. E se é difícil enxergarmo-nos nesse quadro é por que os paradoxos de uma época são opacos a ela mesma, afirmou o filósofo, para quem a tirania é o fim natural da democracia. E não podemos aqui fazer um paralelo entre tirania e ditadura? A tirania nada mais é que a negação do governo e da lei. Por conseguinte, a violação da lei sofrida pelos dezessete, e o ataque desgovernado sobre os que se manifestaram em favor daqueles, é algo que atende pelos piores nomes de que um estado pode se predicar.

Os tipos de Estado que os homens até aqui foram capazes de oferecerem a si próprios são: a anarquia, ou seja, a ausência de governo; a monarquia, o governo de um só; a oligarquia, o governo de poucos; a aristocracia, o governo de muitos; a democracia, o governo da maioria; e por fim se coloca a tirania, interrompendo traumaticamente o círculo virtuoso que retornaria à anarquia, isto é, à experiência sustentável – temporária&preventiva – da ausência de governo e de poder.

Entretanto, os modos de Estado acima descritos não são de modo algum formas alienígenas que subjugam externamente os homens. Antes disso, são naturezas humanas fundamentais que se coadunam historicamente e, posteriormente, viram a realidade de que os homens, ainda que inconscientemente, verdadeiramente necessitam. As formas que nos governam correspondem às disposições dinâmicas das nossas necessidades individuais-coletivas ao longo do tempo. “Tal homem, tal Estado”, mantém Platão.

Embora seja difícil de responder à questão quando colocada psicanaliticamente – e por que não dizer platonicamente -, qual seria o desejo que nos trouxe ao limite espantoso no qual somos avassalados justamente por aqueles que elegemos sob a promessa de nos salvaguardar? Enquanto agentes do destino que sofremos, e donos daquilo que Estado algum pode controlar, ou seja, os nossos desejos, por que chegamos aqui, com dezessete terminantemente impedidos de se manifestarem em forma de um aviso tirânico a todos os demais?

Arrisco em dizer que é precisamente nessa tensão insuportável entre indivíduo e Estado – tensão que estamos sendo impedidos de manifestar – que reside a possibilidade de ampliação da democracia que doravante não mais nos atende. Nossa luta é a luta viva da democracia contra a decadência viva dessa mesma democracia, isto é, contra a tirania. Somente em um momento como este é que podemos restabelecer a virtude do ciclo que distribui o poder ainda mais às pessoas, o além-democracia. No entanto, o inimigo deste movimento é e sempre foi a tirania que insiste em manter o poder no circuito do vício.

Precisamos encontrar liberdade para ao menos podermos dizer ao Estado dos nossos direitos e desejos. E essa liberdade, não obstante, tem de ser buscada contra o mesmo Estado que se militariza contra nós. Por conseguinte, para encontrarmos tal liberdade, primeiramente precisamos desejá-la para além da pulsão momentânea latente às eventualidades presentes nas manchetes destes dias, mas sim como o objeto fundamental que estende o governo da maioria em direção do governo de todos, ou seja, da ausência de governo. Só assim retornaremos ao processo natural que nos levará a desejar algum governo novamente.

De acordo com Platão, só há unidade virtuosa em um Estado no momento em que um cidadão é tocado e todos os outros são imediatamente sensitivos a esse mesmo toque. Nesse sentido a presença massiva das nossas pulsões indignadas nas “timelines” que a todos reúne é positiva. Mas até que ponto nós sentimos de fato a sensibilidade do outro, e em que medida permanecemos “voyeurs” alienados? O filósofo grego disse que “uma política ideal só virá a ser quando um filho de um rei tornar-se um filósofo”, ou seja, um amante da sabedoria, não das suas próprias opiniões. E opiniões são apenas sombras da verdade; entretanto, são estas que guiam o tirano que, para Platão, é a sombra de uma sombra apenas.

Já os cidadãos são os corpos verdadeiros a partir dos quais as sombras das suas próprias opiniões revelam a superfície funcional do Estado. Nós somos a topografia acidentada da paisagem, e precisamos de liberdade para nos elevar à altura dos nossos próprios desejos e necessidades. A forçosa terraplanagem de um Estado em incontestável decadência sobre nós é a sua tentativa derradeira de levar-nos ao chão junto com ele. Sem a resistência dos nossos corpos ele cairá bem mais rápido. No entanto, fazendo peso sobre ele, cairá por terra mais rápido ainda.

 

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