No vernissage com Nietzsche

O que é a Arte? Pergunta difícil de responder. No entanto, um questionamento mais simples é possível: o que é “essa” arte? Esta dúvida me assaltou ao ver a obra de Tracey Emin, “My bed” – uma cama desfeita, com lençóis embolados e sujos, roupas íntimas, guimbas de cigarro, garrafas vazias, comprimidos e camisinhas usadas – brilhar ao ser vendida por mais de 10 milhões de Reais. “É preciso ser filósofo, ser profundo até, para sair desse excesso de luz”, disse Nietzsche, porque “não há superfícies bonitas sem profundezas assombrosas”.

 Na nossa época “selfie”, não é de se espantar que o sentido que mais legitimou valor à milionária cama bagunçada tenha sido o de ser um autorretrato da artista. Sem dúvida, nem beleza nem virtuosidade colocaram “My bed” na berlinda artística&econômica mundial, visto que essa é uma arte ao modo de não ser propriamente Arte; coisa que qualquer um de nós já faz ao não limpar e arrumar nossas camas. Todo adolescente já é esse artista – crianças “arteiras”. A grande diferença está em que, hoje, artista é aquele que ganha 10 milhões por isso. Logo, Arte é fazer dinheiro!

 A sobrevaloração “dessa” arte, obra prima daqueles que orbitam em torno dela, dá-se, talvez, porque as pessoas em geral não fazem mais nada em suas vidas além de ganhar e gastar dinheiro. Por conseguinte, o retorno à arte não encontra outra via que não a do dinheiro mesmo, passando ao largo em relação ao estágio do sublime. A arte contemporânea, infelizmente, não mais se debruça sobre virtuosidade e beleza, mas sim sobre o valor abstrato do capital e sobre o valor relativo das relações pessoais. Vide a insipidez humana e a pujança econômica desses vernissages: as fogueiras das vaidades de Tom Wolfe!

 Impossível não enxergar no anacronismo crítico de Ferreira Goulart em relação à arte contemporânea algo de avant-garde; ainda mais nas palavras de Schopenhauer: “o indivíduo sempre faz bem em ficar atrás de sua própria época quando vê que ela está retrocedendo”. A arte clássica era muito maior do que as pessoas, de uma beleza e virtuosidade sobre-humanas. Na modernidade, científica e tecnologicamente a arte desceu ao nível do homem. Já a arte contemporânea, na esteira da decadência, insiste em ser menor do que as próprias pessoas; entretanto, sintomaticamente valendo muito, muito mais do que elas.

 Nietzsche, no babilônico vernissage contemporâneo, percebe novamente que “o excitado tem medo do sublime, o cansado se aborrece com o belo. De resto, o sublime, quando é separado do belo, torna-se idêntico ao feio”, tão feio quanto a cama fedorenta de $10 milhões. Afinal, por que “My bed” vale tanto? Quem comprou a peça certamente enxerga numa cama desarrumada algo de além-mundo, de sublime. Provavelmente, esse indivíduo nunca arrumou sua própria cama, sempre refeita quando a ela retorna. Precisa, portanto, gastar uma fortuna para, enfim, ter uma cama eternamente escangalhada. Oxalá suas serviçais não a refaçam inadvertidamente…

 O que é “essa” arte? Temos, nós, que não a fazemos nem a compramos, de responder a essa pergunta, porquanto “um instrumento não pode criticar sua própria utilidade”, afirma Nietzsche. Segundo o filósofo, “para ver as coisas por completo, o homem precisa ter dois olhos, um do amor e outro do ódio”; logo, os que se seduzem completamente por “essa” arte não podem saber o que ela é. Apenas através de uma complementar relação de ódio, de distância proposital, pode-se saber o que é “essa” arte; e para isso, Nietzsche nos avisa que “não se deve partir de estados estéticos e outros semelhantes; estes são resultados tardios, assim como os artistas”.

 No vernissage atual Nietzsche diz o mesmo que nos do século XIX: “os artistas não são homens de grande paixão: falta-lhes a vergonha perante si próprios e a vergonha perante a grande paixão”. Essa falta encontra espaço na frase de Goethe: “o gênio está em relação com seu tempo por meio de uma fraqueza”. Por conseguinte, qual a fraqueza dos nossos gênios artísticos atuais? A grande paixão a si próprios refletida nos cifrões que recebem? A que distância estão eles da angusta pergunta: o que é a Arte? Contudo, “é necessário que se compreenda a arte; é preciso conseguir ver além dela; se ficarmos dentro dela, não a entenderemos”, conclui Nietzsche ao abandonar a exposição.

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