Riso, o remédio do real

Rir é um tipo de orgasmo, só que intelectual, tão impetuoso quanto o sexual, que nos assalta por ser absolutamente desejado. Inclusive o riso impróprio, aquele que nos escapa em situações aonde ele não tem lugar, é uma expressão genuína e ainda mais regozijante que o riso apropriado, tal como o gozo do sexo proibido. Bergson afirma que o riso serve para “despertar os amores-próprios distraídos para a plena consciência de si mesmos”. Portanto, rir é ser atravessado pelo real, ainda que contra a nossa vontade, e para fora dela.

Basta pensar por alguns instantes sobre o riso para perceber que, diferente do seu sentido corriqueiro, ele não se vincula somente à alegria. Aliás, quanto mais mergulharmos no fenômeno que ele é, menos condicionado à alegria o riso se apresenta. De acordo com Bergson, o riso vem para corrigir nossa distração e para nos tirar de nosso sonho. Logo, o que há de menos alegre que um movimento dessa natureza? Para o filósofo, “o riso é incompatível com a emoção”; ele não é ético, mas estético; consequentemente, algo só tem a capacidade de “fazer-nos rir se tudo for arranjado para que não nos comova”.

Rir é encerrar um envolvimento e iniciar outro, consigo mesmo. “As personagens da vida real não nos fariam rir se não fôssemos capazes de assistir a suas atitudes como a um espetáculo que vemos do alto de nosso camarote”, coloca Bergson. Portanto, o riso exige que sejamos primeiramente espectadores, ou seja, uma consciência outra, separada. E ser espectador é uma envergadura própria do homem, pois só ele pode converter a maior tragédia em comédia – “não há comicidade fora do homem”, disse o filósofo.

Amelia Valcárcel acredita que “o riso tem por companhia a insensibilidade, e por inimiga a emoção”, porque, em consonância com Bergson, “o que nos faz rir seria o absurdo realizado de forma concreta, um absurdo visível”. Podemos inferir, então, que é um excesso circunstancial, ou seja, a intromissão insuportável do duro real nas confortáveis realidades estabelecidas entre as pessoas que as faz rir; anestesiando-as, assim, da ruptura imprevista e indesejada quando nenhuma seriedade é capaz de fazê-lo. “O riso tem justamente a função de corrigir a rigidez: transformando-a em flexibilidade, readaptar cada um a todos”, afirma Bergson.

Diante do real temos duas opções, sofrê-lo ou desacreditá-lo. E reais são os nossos próprios defeitos! Por conseguinte, rir é a melhor maneira de nos alienarmos deles. Entretanto, como a alienação nos disponibiliza a sermos novamente surpreendidos por aquilo para o que damos as costas, alguma coisa do “indesejável” deve ser totemizado para indicar, ao menos, o tamanho do perigo com o fim de diminuí-lo. Portanto, adverte-nos Bergson, “talvez não seja por ser pequeno que um defeito nos faz rir, mas, como por nos fazer rir o achamos [o tornamos] pequeno”, pois “há no riso sobretudo um movimento de relaxamento”.

São os defeitos que nos fazem rir, e o palhaço é o grande mestre dessa arte. O que é se sentir palhaço senão dar-se conta das próprias falhas tornadas públicas? Já a obsessão humana pela adequação segue no sentido oposto ao do “clown”, pois no lugar de conduzir a seriedade insustentável à rena do ridículo, ela esconde o risível em nós sob o manto transparente da vaidade. E, sintomaticamente, “o remédio específico para a vaidade é o riso”, diz Bergson, para quem “o defeito essencialmente risível é a vaidade”. Logo, a risada burila as arestas insuportáveis da vida até a suavidade esférica da naturalidade ser restabelecida.

Rir é relativizar, é conseguir transpor a contradição de um absurdo sem levar em conta sua gravidade, mas sim sua graça e leveza. No entanto, quando o absurdo não oferece saída positiva, e somente desperta medo, tristeza ou piedade, pronto, dele não se consegue mais rir. “Nem a loucura em geral nem a ideia fixa nos farão rir, pois são doenças”, aponta Bergson. E, se ainda assim rimos, esse “riso, portanto, nada teria de benevolente. Ao contrário, pagaria o mal com o mal”, conclui o filósofo: esse seria o riso nervoso, sádico, que finge achar, ou acha graça daquilo que não tem graça nenhuma.

Sexualmente, gozamos quando o prazer atinge seu ápice, e o gozo é a maneira excelente de nos esquecermos do fim do prazer no seu momento derradeiro. Da mesma forma, rimos quando a realidade não mais se comporta de acordo com o esperado, quando ela rui devido à força do real. Portanto, rir é um remédio para a fragilidade patética das nossas crenças e expectativas; é a fuga dos nossos defeitos, bem como dos defeitos dos outros, nos precisos instantes em que eles aparecem. A um só tempo o riso é a percepção do real alienado através das rachaduras na nossa realidade e o que nos mantém dentro dessa realidade plena de rachaduras reais.

 

 

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