Arte Retórica Contemporânea

Antes de visitar a Bienal do MERCOSUL de Porto Alegre no final do ano passado, assisti na TV Educativa local uma matéria com os artistas da exposição falando sobre as suas obras. Apesar da minha incredulidade prévia em relação à arte contemporânea no que diz respeito à sua eficácia em atingir sublimemente todos os de fora desses “happy hours” curatoriais, os discursos dos artistas na TV a respeito dos seus próprios trabalhos me seduziram profunda e imediatamente. Quanta genialidade em suas ideias! Parti rumo a essa arte.

Entretanto, as mesmas “obras”, que nas palavras dos seus autores pareciam “primas”, falando por si mesmas em suas materialidades solitárias diziam muito menos – ou quase nada – do que quando na boca dos seus criadores. Foi inevitável perceber a decadência a que essa arte se expõe ao passar do mundo das ideias para o mundo material. Eu havia ficado muito mais satisfeito ouvindo sobre aquelas obras do que frente-a-frente com elas. Lembrei-me de Aristóteles, sobre os sofistas: “o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé”.

Realmente, os discursos daqueles criadores eram sim dignos de fé; no entanto, não as suas obras reais. Diante das “instalações”, e em busca do sublime que desejo na arte, convenci-me de que as verdadeiras obras primas eram as palavras dos artistas, muito mais que os amontoados de matéria – pouco expressivos – depositado nos pavilhões da Bienal. Mais ainda, a arte excelente daquelas pessoas, antes de ser a “visual”, era a da retórica; e esta, conforme afirmou Aristóteles na obra de mesmo nome, é “a capacidade de descobrir o que é adequado dizer a cada caso com o fim de persuadir”.

O filósofo grego dizia que em retórica “são três os aspectos a observar: volume, harmonia e ritmo. Aqueles que empregam estes três aspectos arrebatam todos os prêmios”. Bingo! O que outrora fazia parte física “das” obras de arte, hoje migrou para o discurso “acerca” delas, e em benefício exclusivo desses artistas. Entretanto, a arte na forma de discurso retórico padece da mesma limitação apontada por Aristóteles, visto que a retórica “não apresenta relações da parte para o todo, nem do todo para a parte, nem do todo com o todo, mas apenas da parte para a parte”; e nesse caso: do artista para o próprio artista.

“Porque todos são amantes de si mesmos, todos têm necessariamente por agradáveis as coisas que lhes pertencem, por exemplo, as suas obras e as suas palavras”, escreveu Aristóteles. No entanto, é somente através das palavras, ou seja, retoricamente, que o artista pode escapar da contingência da sua ideia realizada em obra, e ultrapassá-la em direção ao “agradável” absoluto; pois, como disseram os sofistas através das palavras do pensador heleno, “amamos os que elogiam as boas qualidades que possuímos, especialmente aquelas que temos receio de não possuir”.

Uma das táticas de sucesso da retórica é investir no rococó discursivo, como exemplificou Aristóteles: “não empregar ‘círculo’, mas ‘superfície equidistante do centro”; ou, contemporaneamente, “experiência de percurso aberto” para esconder do público o fato de que não há liame algum unindo as obras que ele vê. O que agrada aos ouvintes de um mestre retórico “é ouvir falar em termos gerais daquilo que eles tinham pensado entender antes em termos particulares”, colocou o autor grego. Entretanto, mesmo o discurso atingindo facilmente o universal, a obra de arte, diante do espectador, é absolutamente particular e dada; e é aí que o discurso cai por terra.

De volta à Bienal do MERCOSUL, as obras que lá estavam expostas infelizmente depunham contra a maravilha que eram enquanto nas palavras dos seus autores. Caso ficassem apenas no sublime discurso retórico dos seus criadores elas teriam muito mais poder, pois “as emoções são as causas que fazem alterar os seres humanos e introduzem mudanças nos seus juízos”, disse Aristóteles; não a espera por emoções que o silêncio presencial daquelas obras de arte impunham, cada uma delas, ao longo da insípida promenade contemporânea.

O fato de os artistas visuais ainda terem de produzir instalações que representem suas ideias e, principalmente, eles próprios – afinal a celebridade é a obra prima do nosso tempo – parece ser um ranço ancestral provindo de épocas cujos artistas produziam obras de arte frutos de algo hoje esmaecido, a saber, a virtuosidade. Michelangelo não ganharia o mundo apenas falando da sua Pietà; porquanto “se uma coisa é feita sem arte e sem preparação, mais possível ainda o será com arte e com preparação”, colocou Aristóteles, para quem “as coisas que são conforme a verdade são preferíveis às que são conforme à opinião”.

Já a arte contemporânea, obra da superfluidez imaterial do mundo hiper informacional, seria melhor que se desvencilhasse de vez dessa rançosa materialidade redutora que insiste em acompanhá-la. “Todos os seres humanos sofrem ante o espetáculo de suas próprias fraquezas”, aponta-nos Aristóteles; por conseguinte, a fraqueza do artista contemporâneo parece estar nessa impossibilidade de materializar, à altura, suas sublimes ideias. A maior força deles, atualmente, parece estar na capacidade de fugir, através do discurso, da distância entre criatividade e virtuosidade presente – estruturante? – na arte contemporânea.

 

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