Indígenas Suicidas

O homem foi o inventor do suicídio, visto que até hoje a ciência não encontrou nenhuma outra forma de vida na Natureza disposta à encurtar voluntariamente a sua própria – e já curta – existência. O economista e jornalista Eduardo Manso trouxe a surpreendente informação de que no Brasil são os índios os líderes no “ranking” de suicídios. O que estaria, por conseguinte, levando estas pessoas, justamente as que ainda se encontram mais próximas e ligadas à Natureza se comparadas aos demais brasileiros urbanizados, a essa infeliz liderança?

Talvez seja a exclusiva e constante consciência humana em relação à própria morte a força motriz dessa invenção. Diferente dos demais animais – os irracionais -, o homem – o racional – sabe que morrerá; e essa certeza subjacente o guia tanto para longe da morte quanto para o seu cerne. Podemos dizer, portanto, que é a razão a faculdade propriamente humana que insere a presença fantasmática da morte em todos os instantes da vida. O lado positivo dessa presença não obstante são as invenções subsequentes a ela, tais como a medicina, a tecnologia, a psicologia, a filosofia e, provavelmente, todas as outras.

Entretanto, a vantagem de sabermos que em determinado momento vamos morrer é anulada por uma questão talvez ainda mais angustiante que nos sobrevém a partir dessa consciência: quando morreremos? Afinal, saber que vamos morrer em algum momento é saber que podemos morrer a qualquer momento. Aí está a companhia indesejada que a morte faz às vidas humanas. Várias espécies animais se “retiram” quando estão para morrer, pois parecem ter a consciência desse exato “quando” que nós ignoramos. Nós sabemos “que” vamos morrer, porém, não “quando”; ao passo que os demais animais parecem não saber “que” vão morrer, mas sim “quando”.

Donos da certeza da morte, mas não da de quando ela virá, vinte milhões de pessoas tentam precisar esse derradeiro instante todos os anos, com um milhão delas alcançando esse infeliz êxito de acordo com José Bertolote, autor de “Suicide and psychiatric diagnosis”. A pesquisa ainda aponta para o fato de que não são apenas os que tentam suicídio os que pensam em abreviarem suas vidas, mas que esta é uma pulsão presente em praticamente todas as pessoas. Por conseguinte, apesar de ser o suicídio o resultado de alguma doença mental, não considerá-lo em determinados momentos da vida revela, por outro lado, desequilíbrios não menos sérios. Pensar compulsivamente na morte sem, no entanto, deixar de vive é uma contraditória forma de saúde fundamental aos homens.

Segundo Bertolote, as duas das formas mais usuais de suicídio em todo o mundo são por envenenamento e por enforcamento, coincidentemente as mesmas que as dos índios brasileiros suicidas. Acabar com a própria vida é ato de quem não encontra mais vias de realização para os próprios desejos, seja por estes estarem bloqueados em virtude de fatores objetivos externos seja pela profusão subjetiva deles, o que os torna impraticáveis na contingência da realidade. De qualquer forma, é por acreditar não mais poder realizar o que deseja que uma pessoa deseja não realizar mais nada. Logo, os nossos índios devem estar padecendo dessa espécie sufocante de privação.

No sentido de entender a auto-aniquilação indígena, podemos considerar a urbe sócioeconômica brasileira como a primeira força a bloquear inexoravelmente os desejos e as necessidades desses cidadãos. Afinal, a ventura histórica do Brasil vem sendo a desventura sistemática dos seus verdadeiros nativos. Se entre os hiper civilizados que dispõem de uma cultura sintética&tecnológica para lidarem com seus problemas a taxa de suicídio é alta, não é difícil imaginar a angusta dificuldade daqueles que se encontram na contramão dessa mesma cultura. Tudo aquilo que não é indígena é, de certa forma, responsável pelo suicídio indígena.

Na antiguidade romana, bem como na nipônica, guerreiros derrotados em batalhas eram obrigados a cometerem suicídio, o que mostra um germe cultural ancestral associando suicídio à derrota, de ocidente a oriente. Os guerreiros nativos brasileiros, diante da incessante vitória “olho-grande” ocidental sobre os seus rasgados olhos orientais, não enxergam, por conseguinte, outro destino que não o de repetirem o antigo rito trágico, e “desaparecem-se” na “desaparecência” da viabilidade dos seus desejos. Queimar a mata para extrair minério ou plantar soja é o desejo branco em marcha constante que convida desumanamente os amarelos à força.

Se tivessem cedido ao trabalho escravo português desde o início desse país, como os negros africanos foram obrigados a fazer, bem como o lumpemproletariado europeu desembarcado aqui o fez por necessidade, talvez os índios desfrutassem hoje de um lugar na cadeia exploratória do sistema capitalista. Entretanto, esses nativos latino-americanos resistiram por quinhentos e poucos anos à desumanidade ocidental, e se suicidarem parece ser a última forma – kamikaze – que encontram na continuidade da batalha que Brasil adentro nunca deixou de ser travada contra eles. No entanto, se a invenção do suicídio, em um sentido, é o que faz o humano, o suicídio dos índios os coloca a o nosso lado na batalha dos desejos humanos em busca de não serem eternamente frustrados.

 

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